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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Integração dos imigrantes na Europa:
Um problema muçulmano
Sarrazin provoca uma tempestade na opinião pública alemã
António Justo
As turbulências em torno da pessoa de Thilo Sarrazin e do seu livro“Deutschland schafft sich ab” (A Alemanha abole-se a si mesma) não parecem querer amainar. Sarrazin, ex-ministro das Finanças do Estado Federado Berlim, trata, no seu livro o tema da integração dos muçulmanos nas sociedades para onde emigram, de maneira demasiado clara e indiplomática. Um assunto mantido tabu pela classe política, pela opinião publicada e pelos intelectuais vem manifestar a divisão dos alemães.As Teses de Sarrazin
Os problemas da integração “situam-se exclusivamente nos migrantes muçulmanos… e isto deve-se ao fundo cultural islâmico”; situa-se “ evidentemente na cultura do Islão”.
É de opinião que a sociedade alemã se estupidifica mais, nas próximas gerações, pelo facto da classe alemã alheia à cultura e dos muçulmanos migrantes gerarem mais filhos, diminuindo assim o potencial intelectual da sociedade anteriormente liderado pela classe média.
Segundo o autor “os turcos na Alemanha geram o dobro das crianças do que corresponderia à sua percentagem na população”. “Os Turcos invadem a Alemanha tal como os ‘kossovares’ invadiram o Kossovo: através duma quota de natalidade superior”.
Vê na procriação muçulmana fecunda “uma ameaça ao equilíbrio cultural da Europa…e representa um risco para o modelo cultural europeu”. Segundo o relatório 2010 da Conferência dos ministros da educação dos estados federados da Alemanha, nas grandes metrópoles Frankfurt, Munique, Colónia e Estugarda, mais de metade de todas as crianças até aos três anos tem base migrante.
Sarrazin lamenta a baixa quota de turcos dispostos a aprender bem a língua alemã prejudicando assim a própria carreira escolar que se reflecte no facto de 54% dos turcos entre os 25 e os 36 anos não terem concluído a formação profissional. Os resultados das escolas alemãs nos estudos comparativos de PISA baixam devido ao insucesso escolar dos turcos na Alemanha. Sarrazin receia assim a diminuição do quociente médio de inteligência da sociedade alemã baseada na vontade procriadora da classe mais baixa. Parece desconhecer porém os factores ambientais. Os turcos certamente não serão mais estúpidos que os outros imigrantes. Estudos provam um nível intelectual inferior das crianças turcas mas não que sejam mais estúpidas.
Com montes de estatísticas apresenta a tese de que os turcos, com muita emigração para a assistência social alemã, “certamente não contribuíram para o nosso bem-estar”. Atesta que “em todos os países da Europa, os migrantes muçulmanos custam mais do que a mais valia económica que trazem”. (Redução da pessoa ao valor económico!)
O autor best-seller atesta e testemunha com números o que o povo pensa.
Contrapõe o direito do Estado “a decidir ele mesma quem quer receber no seu país ou na sua sociedade” ao abandono deste direito aos partidos.
O tema da integração muçulmana (sua resistência à integração) passou a dominar a floresta das folhas dos jornais. Uma Alemanha, que integrou milhões de polacos nos finais do século XIX e 12 milhões de desterrados depois da segunda guerra mundial, sente-se impotente perante 4 milhões de muçulmanos no país. Atrapalha a Alemanha o facto destes parecerem, na sua grande maioria, contentar-se com a aliança da religião e o vínculo familiar, levando uma vida em contraposição e à margem do país acolhedor. O facto dos problemas da França com os seus 5,5 milhões de muçulmanos é visto pelos alemães como um problema consequente da colonização francesa. Cala-se que a economia moderna explora de maneira agressiva os autóctones da classe média e baixa e os migrantes.
O pluviómetro da excitação atingiu alta densidade e não parece haver lugar para uma aberta. Uma opinião pública pautada pela norma da boa educação correcta e pelo tabu social, em que “sobre estrangeiros ou se fala bem ou não se fala”, acorda estremunhada e revela não ter resultado contra o medo sub-reptício da balcanização da sociedade.
Reacção da classe política ao livro de Sarrazin
As elites reagiram com nervosismo e irreflexão: exigiram a sua expulsão da direcção do Banco Alemão e a sua expulsão do partido SPD. A liberdade de opinião é um bem a cultivar enquanto se não se pertence à classe privilegiada!... A direcção do partido quer expulsá-lo mas a base compreende-o e mais de 2.000 cartas foram recebidas na central do partido. 90% eram a favor de Sarrazin.
Os políticos temem o escândalo duma realidade que se quer silenciada. Não admitem que um dos seus questione o pensar correcto que é o dogma hodierno das classes dirigentes. Daí a necessidade destas em desacreditá-lo e em declará-lo como apóstata. Conseguiram afastá-lo da direcção do Banco Alemão mediante a sua indemnização duma pensão vitalícia farta, evitando assim perder um processo em tribunal.
O Povo apoia-o e as chefias dos partidos atacam-no. Com a sua crítica, ele atinge o sistema partidário que em vez de o discutir o ataca a nível pessoal. Na sua repulsa primária, a política distanciou-se ainda mais do povo já em dissidência da política (por este andar, o partido dos não votantes atingirá os 40%). Na Europa, cada vez mais se assiste a reacções histéricas entre políticos e povo. Numa sociedade em que as elites se desintegram cada vez mais do povo, estas não querem reconhecer Sarrazin nas suas fileiras nem um povo que exige vontade de integração aos muçulmanos.
A má consciência política relativamente ao problema da imigração faz-se sentir numa campanha concertada contra Sarrazin, uma crítica virada apenas contra o seu estilo e ignorando a realidade do conteúdo. Mais uma vez se misturam alhos com bugalhos.
Na espiral dum silêncio político envenenado surgem fendas que se tornarão munição para campanhas eleitorais. Segundo prognósticos estatísticos, se Sarrazin fundasse um partido receberia 20% de apoiantes.
As teses provocantes através das quais Sarrazin escreve no álbum dos partidos o fruto da sua negligência no que toca à imigração turca, que sob o manto da reunião familiar passou de 750 mil turcos para três milhões, deixarão rasto profundo na sociedade. 3 milhões de turcos, em grande parte, vivendo em guetos e em torno das suas mesquitas, com os piores resultados escolares em termos comparativos com outros migrantes e com manifesta falta de vontade de integração metem medo a muito alemão que se sente atraiçoado pela política e vive com a impressão que a classe política não protege o próprio país nem a própria cultura e se coloca ao serviço de egoísmos e oportunismos individualistas ou de classe.
O medo e o oportunismo têm muito poder numa sociedade habituada a varrer para baixo do tapete o lixo que produz e os problemas não resolvidos desde os anos 60. Assim o CDU/CSU e Liberais fecharam sempre os olhos aos problemas, no que tocava aos estrangeiros, vendo-os apenas como mão-de-obra barata que vinha solucionar os problemas duma economia em expansão. Os Verdes cresceram sob a bandeira dos estrangeiros e o SPD apenas se preocupou em integrá-los no partido, atendendo ao potencial que significam em termos de votos para o futuro.
Sarrazin, embora político, não gosta do jogo preferido dos políticos: o Pingue-pongue; gosta mais de futebol! Quer ver a bola na baliza ao exigir medidas vinculativas para a integração dos muçulmanos no país.
Do facit da discussão fica a impressão que os alemães preferem continuar a falar alemão macarrónico com os estrangeiros, não tolerando que Sarrazin, o povo, fale alemão claro. Este descreve um estado de facto mas num tom exaltado e metendo, por vezes o pé na poça. E os seus críticos abusam do moralismo ‘multiculti’ para encobrir os próprios erros e para disciplinar ideias da direita. O problema em aberto é que os políticos passam e os problemas ficam.
Depois da campanha contra Sarrazin os partidos parecem voltar à normalidade começando agora a pronunciar-se por uma discussão aberta e falando da necessidade de integração.
Europa em efervescência
Thilo Sarrazin provoca na Alemanha uma discussão que já se vai fazendo sentir noutros países europeus. A Holanda que nos anos 80 era modelo nas medidas de acolhimento e apoio aos imigrantes manifesta agora com reacções xenófobas que o seu latim chegou ao fim.
Por toda a Europa se sente um fervilhar inquieto no povo. Este vê a pobreza a imigrar para a Europa e sente-se mais depauperado pelos próprios Estados onde as leis e os impostos asfixiam cada vez mais o cidadão. Uma insatisfação cada vez mais explícita contra o agir da classe política estabelecida terá como consequência a formação de novas forças políticas. A crise económica e financeira leva os perdedores da sociedade a revoltarem-se contra as elites que cada vez mostram mais desprezo pelos de baixo.
As camadas média e baixa da sociedade sentem-se inseguras num momento em que a União Europeia, as famílias partidárias e a sua burocracia se tornam mais fortes.
Os problemas económicos cada vez mais reais, a esterilidade das mulheres europeias e a resistência muçulmana à integração e correspondente vontade procriadora levam muita gente a sentir o Islão como uma ameaça à própria cultura.
Muitos constatam que os explorados de ontem reagem agora – via imigração e procriação – explorando as leis existentes, a liberdade de religião e a providência social, levando uma vida em gueto em torno das suas mesquitas e afirmando-se contra a sociedade acolhedora. Emigram para fugirem à desumanidade social dos países de origem mas temem os valores da nova sociedade.
Entretanto o estrato social inferior autóctone descobre-se como parte da classe social multi-étnica precária entregue a uma concorrência selvagem. Por outro lado uma classe secular vê na atitude muçulmana contra a emancipação, contra o indivíduo e contra o iluminismo uma ameaça às conquistas republicanas. Vê-se confrontado com uma religião eminentemente política sem política que a confronte. A força ideal reage e aproveita os fracos do poder económica.
A raiva do povo nunca foi boa conselheira mas a incúria política não pode continuar a ser a resposta a problemas a resolver agora, em termos bilaterais.
Os “populistas” terão sucesso porque os nossos políticos revelam menos inteligência do que o Povo em geral.
“Deutschland schafft sich ab” é um livro incómodo para alemães e muçulmanos. O livro reflecte a opinião do povo, a opinião dos que mais sentem os ventos fortes e frios do turbo-capitalismo. Em relação aos outros estrangeiros e seus descendentes concorre para uma discussão mais adequada, uma vez que a imprensa alemã estava habituada a tratar os problemas especificamente turcos sob o manto de “problemas dos emigrantes e seus descendentes”.
Ressentimento por um lado e arrogância pelo outro não resolvem o problema. A integração do mundo turco e árabe na Europa é demasiado complexa para se poder solucionar com simples posições de pró e contra.
Nem a xenofobia nem a arrogância das elites resolverão os problemas de pessoas oprimidas económica e/ou culturalmente. Em tempos de crise todos tendem a sobre-reagir! Na casa em que não há pão todos ralham mas ninguém tem razão!
Na nossa sociedade em ebulição é de preferir um inimigo verídico do que um amigo falso.
Imigração ilegal
Vasco Graça Moura, DN
A livre circulação de pessoas no espaço da União Europeia e, muito em especial, no espaço Schengen, tem sem dúvida trazido inegáveis vantagens no que respeita à grande maioria dos cidadãos; mas tem também graves inconvenientes, no que toca à circulação do crime, uma vez que as autoridades policiais dos países envolvidos não conseguem prevenir com eficácia todas as situações que justificariam essa prevenção. E, se acaso conseguem, surgem logo activistas de uma esquerda-qualquer-coisa a falar em direitos humanos para cima e direitos humanos para baixo e a empastelar ou mesmo a inviabilizar actuações perfeitamente legítimas.
A livre circulação de pessoas no espaço da União Europeia e, muito em especial, no espaço Schengen, tem sem dúvida trazido inegáveis vantagens no que respeita à grande maioria dos cidadãos; mas tem também graves inconvenientes, no que toca à circulação do crime, uma vez que as autoridades policiais dos países envolvidos não conseguem prevenir com eficácia todas as situações que justificariam essa prevenção. E, se acaso conseguem, surgem logo activistas de uma esquerda-qualquer-coisa a falar em direitos humanos para cima e direitos humanos para baixo e a empastelar ou mesmo a inviabilizar actuações perfeitamente legítimas. Há também gente que esquece o regime especial de condicionalismos e restrições adoptado para a entrada da Roménia e da Bulgária na União Europeia e que finge não perceber que o território desta não pode ser um espaço de importação de miséria e conflitualidade social, por via de entradas clandestinas ou ilegais. Viu-se o que tem acontecido com os africanos nessa situação. Agora, pelos vistos, os ciganos romenos (ou povo roma para usar o mesmo politicamente correcto que faz com que os esquimós tenham passado a chamar-se inuits) em Portugal até seriam indesejados pela própria etnia a que pertencem, como se pode deduzir das declarações de Carlos Miguel Soares, presidente da Câmara de Torres Vedras e cigano, ao Expresso de 18 de Setembro: "os ciganos portugueses vêem com apreensão a chegada dos 'novos ciganos'. Sentem que os seus comportamentos desviantes ou bizarros podem pôr em causa a integração, fragilizar as conquistas já alcançadas".
A propósito do caso francês, imagino que no Parlamento Europeu tenha havido um daqueles alvoroços dos dias grandes, em que a esquerda se esganiça nos mais desvairados decibéis enquanto a direita se encolhe toda, a dizer tremulamente que não, que não é bem assim, e a tentar negociar soluções de compromisso...
Mas também alguma direita mete a sua colherada: mesmo na Comissão Europeia, a senhora Reding, que não tem ofuscado os areópagos internacionais, nem pela argúcia política nem por qualquer outro atributo, no exercício dos cargos de comissária europeia que vem desempenhando ao longo da última década, teve de engolir lestamente o seu comentário precipitado quanto ao que se passa em França e de pedir desculpa por ele.
Houve gente da Igreja que disse identicamente umas parvoíces lamentáveis e falou no Holocausto, esquecendo-se de que o Holocausto conferia um passaporte para as câmaras de gás, enquanto a repatriação dá a cada repatriado umas centenas de euros para voltar ao seu país, nem sequer havendo garantias de que muitas das pessoas nessa situação não regressem a território francês na primeira oportunidade. (Isto também quer dizer que se está numa Europa tão pouco convencida de si mesma que a própria ilegalidade dá lugar a um rendimento oficialmente atribuído).
Talvez as autoridades francesas devam marcar melhor que a questão não tem nada a ver com questões étnicas mas com imigração ilegal. Mas percebe-se que seja premente a necessidade de devolução à procedência dos imigrantes ilegais que vão entrando no seu território. Trata-se de assegurar melhor algumas das obrigações próprias do Estado democrático: zelar pelo cumprimento das leis, pela segurança de pessoas e bens e pela manutenção da ordem pública. Se isto for conseguido - e oxalá o seja! - é provável que a tranquilidade volte às banlieues onde tem sido tão perturbada. Alguém duvida de que a maioria dos franceses vai aplaudir essas medidas?
Desde que se trate dos Estados Unidos ou dos países ocidentais que suspeitem de pró-americanos, a esquerda está aí para as curvas. Agora, o anunciado envio para o olho da rua de 500 mil funcionários públicos cubanos não suscitou nenhuma reacção dos mesmos sectores que soíam embevecer-se com as excelências do castrismo. Nas últimas décadas tem sido sempre assim: quando lhes convém, há criaturas que são acometidas de uma súbita mudez. O que, evidentemente, não as impede de gritar aqui-d'el-rei, num clamor indignado, pelo facto de as autoridades francesas estarem a recambiar imigrantes ilegais para os seus países.
domingo, 10 de outubro de 2010
As mordomias automobilísticas da classe política
"As pessoas precisam de entender que estão a ser burladas.
O País não pode continuar a ser dirigido por trafulhas..."
Medina Carreira
O País não pode continuar a ser dirigido por trafulhas..."
Medina Carreira
domingo, 26 de setembro de 2010
A Europa dos tansos
(Certas frases estão traduzidas à letra mas percebe-se.)
O vídeo que apresentamos mostra um famoso e escandaloso caso passado em França. O indivíduo acabou por ser expulso de França em 2004, mas enquanto durou a estadia, não foi nada mau... Entretanto, de um modo mais discreto, milhares de outros casos, em maior ou menor grau de parasitismo, continuam.
[Clique na imagem para visualizar o diaporama]
sábado, 25 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Jornalismo de "serviço"
Manuel António Pina
A entrevista "non stop" que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer "serviço público". Desta vez, o "serviço" foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.
Tudo embrulhado no jornalismo de regime, inculto e superficial, de Fátima C. Ferreira, agora em versão tu-cá-tu-lá ("Queres fazer-lhe [a uma das vítimas] alguma pergunta, Carlos?"). O "Prós & Contras" só não ficará na História Universal da Infâmia do jornalismo português porque é improvável que alguém, a não ser os responsáveis da RTP, possa chamar jornalismo àquilo..
sábado, 18 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
O governante
João Duque, Económico, 9 de Setembro de 2010
Li este Verão o livro de Joaquim de Almeida A Governanta, uma biografia de D. Maria “a companheira de Salazar”.O livro é uma excelente obra para os amantes da história de Portugal contemporâneo e deveria ser livro de leitura obrigatória para os governantes e gestores públicos.
O livro é de facto uma preciosidade informativa sobre uma vida, sobre uma época, centrado numa personagem periférica e próxima de Salazar, mas no meu ponto de vista, um livro sobre o regime e sobre uma forma de ver a governação do país dessa época.
O livro dá-nos muita informação de como Salazar tratava o bem público e o discernia do privado e neste aspecto, não tenho dúvidas que deveria ser lido e reflectido por todos os que nos governam ou que tenham poderes de gestão sobre bens públicos.
Também já anteriormente tinha lido o livro de Fernando Dacosta "Máscaras de Salazar" e já nessa altura tinha ficado com a mesma impressão: se Salazar fosse vivo seria hoje abundantemente convidado a palestrar em cursos de organização e gestão pública e até mesmo em programas de ética... Senão vejamos.
Quem é que hoje imagina poder dividir as contas (contadores de electricidade e de telefone diferentes) entre o piso de rés-do-chão e 1º andar da moradia de residência oficial do primeiro-ministro, para que as contas do rés-do-chão (área de trabalho) fossem pagas pelo Estado e as contas do 1º andar (área pessoal) fossem pagas pelo ordenado do próprio? E o mesmo fazendo com as contas da água e até do combustível?
Quem é que hoje imagina que o primeiro-ministro possa mandar comprar, pagando do seu próprio bolso, um serviço de loiça e um faqueiro para se servir no seu dia-a-dia privado na residência oficial, e outros conjuntos paralelos, pagos pelo erário público, exclusivamente dedicados ao uso em refeições oficiais?
Quem é que hoje imagina que se possa retirar um talhão ao jardim do palácio de São Bento para aí se criar uma pequena horta que alimentaria a cozinha da Presidência, reduzindo os encargos com o seu sustento?
Quem é que hoje imagina que se possa retirar um talhão ao jardim ao mesmo palácio para aí se construir um galinheiro que não só alimentava com patos, coelhos e galinhas (e ovos) a cozinha da Presidência, como permitia ainda a venda destes produtos, se excedentários, ao Hotel Aviz, e assim reduzir o custo de manutenção da Presidência?
Quem é que imagina que o frigorífico da residência oficial possa ser pago com o dinheiro do próprio governante porque o considera ao seu uso pessoal?
A gestão pública não exige apenas o cumprimento de regras que se querem apertadas de controlo, transparência, rigor e competência. Exige uma primeira relação escrupulosa e distante com o que não é nosso, desde a viatura de serviço, às viagens e aos fins a que se destinam, ao telefone ou a qualquer outro tipo de equipamento sendo de usar em serviço quando se está, de facto, de serviço.
Sei que hoje é dificilmente imaginável qualquer daquelas situações, mas dão que pensar...
A candidatura da Ibéria de Saramago
João Marcelino, Diário de Notícias, 5.9.2010
Quando a FPF pediu o apoio do Governo para a candidatura, conjunta com a Espanha, ao Mundial de 2018, eu escrevi aqui que era uma boa ideia. O futebol é um poderosíssimo veículo turístico e, além do mais, estas organizações são sempre lucrativas desde que não se tenha de fazer tudo de novo.
Hoje, sou frontalmente contra esta realização, precisamente porque ela abandonou a filosofia com que nos foi vendida inicialmente e abdicou dos princípios.
Primeiro: não é uma parceria. Portugal entra com duas cidades (Lisboa e Porto) e três estádios, Espanha apresenta 16 cidades e 18 estádios - ou seja, pela primeira vez numa organização de futebol, dois países coligam-se em posições diferenciadas. Não fora assim, antes, no Coreia do Sul- -Japão, no Áustria-Suíça, nem no Holanda-Bélgica.
Segundo: pela calada, caiu também o jogo de abertura, que nos devia caber, porque Espanha decidiu que sendo a final em Madrid, e por equilíbrios políticos internos, a abertura deveria ser feita em Barcelona. Para Portugal sobraram umas migalhas que deveriam envergonhar: o sorteio será realizado em Santa Maria da Feira e teremos um "privilégio" inovador ao albergarmos um segundo jogo de abertura, a realizar umas horas depois do primeiro...
Este é o prémio a que teremos direito por servirmos como íman aos votos da lusofonia, de Brasil a Angola. De resto é bom de ver que esta candidatura não precisaria de nós. A contribuição de Portugal é equivalente à de uma qualquer província espanhola, mas há, para português ver, um argumento que os tempos acolhem: bom investimento, poucos custos.
Ainda para mais o estádio do jogo inaugural teria de ter 80 mil lugares e o nosso maior, o da Luz, só alberga 65 mil pessoas.
Não vou perder tempo com a desmontagem destes argumentos tontos de quem quer entrar numa festa a todo o custo. Digo apenas que quem não tem dinheiro não deve ter vícios e acrescento o seguinte: esta triste candidatura não deveria ser reduzida a uma questão de dinheiro e de lucros. É uma questão de política, de estratégia e de princípios. Se não estranho que os homens do futebol pouco se interessem com estes pormenores, desde que venha a massa, desgosta-me que o Governo, os partidos e o próprio Presidente da República não se interessem pelo assunto e não reflictam sobre ele à luz da História e das relações entre os dois Estados.
Esta organização não tem a ver com dinheiro. Ela encerra um conceito perigoso para a nossa política e para a nossa economia. Através do futebol estamos a comunicar que somos uma província da Ibéria. A ideia de Saramago começa a fazer o seu caminho. Eu sou contra!
.
Quando a FPF pediu o apoio do Governo para a candidatura, conjunta com a Espanha, ao Mundial de 2018, eu escrevi aqui que era uma boa ideia. O futebol é um poderosíssimo veículo turístico e, além do mais, estas organizações são sempre lucrativas desde que não se tenha de fazer tudo de novo. Hoje, sou frontalmente contra esta realização, precisamente porque ela abandonou a filosofia com que nos foi vendida inicialmente e abdicou dos princípios.
Primeiro: não é uma parceria. Portugal entra com duas cidades (Lisboa e Porto) e três estádios, Espanha apresenta 16 cidades e 18 estádios - ou seja, pela primeira vez numa organização de futebol, dois países coligam-se em posições diferenciadas. Não fora assim, antes, no Coreia do Sul- -Japão, no Áustria-Suíça, nem no Holanda-Bélgica.
Segundo: pela calada, caiu também o jogo de abertura, que nos devia caber, porque Espanha decidiu que sendo a final em Madrid, e por equilíbrios políticos internos, a abertura deveria ser feita em Barcelona. Para Portugal sobraram umas migalhas que deveriam envergonhar: o sorteio será realizado em Santa Maria da Feira e teremos um "privilégio" inovador ao albergarmos um segundo jogo de abertura, a realizar umas horas depois do primeiro...
Este é o prémio a que teremos direito por servirmos como íman aos votos da lusofonia, de Brasil a Angola. De resto é bom de ver que esta candidatura não precisaria de nós. A contribuição de Portugal é equivalente à de uma qualquer província espanhola, mas há, para português ver, um argumento que os tempos acolhem: bom investimento, poucos custos.
Ainda para mais o estádio do jogo inaugural teria de ter 80 mil lugares e o nosso maior, o da Luz, só alberga 65 mil pessoas.
Não vou perder tempo com a desmontagem destes argumentos tontos de quem quer entrar numa festa a todo o custo. Digo apenas que quem não tem dinheiro não deve ter vícios e acrescento o seguinte: esta triste candidatura não deveria ser reduzida a uma questão de dinheiro e de lucros. É uma questão de política, de estratégia e de princípios. Se não estranho que os homens do futebol pouco se interessem com estes pormenores, desde que venha a massa, desgosta-me que o Governo, os partidos e o próprio Presidente da República não se interessem pelo assunto e não reflictam sobre ele à luz da História e das relações entre os dois Estados.
Esta organização não tem a ver com dinheiro. Ela encerra um conceito perigoso para a nossa política e para a nossa economia. Através do futebol estamos a comunicar que somos uma província da Ibéria. A ideia de Saramago começa a fazer o seu caminho. Eu sou contra!
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Lançamento do livro The Walker and the City
CONVITE
Lançamento do livro The Walker and the City
Coordenação de Manuel João Ramos e Mário J. Alves
16 de Setembro, 17h30, CES Lisboa
(Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro, n.º 65, 1º andar, Lisboa – Estação de metro: Picoas)
Assinalando a Semana Europeia da Mobilidade (16 a 22 de Setembro de 2010), a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M) e o Centro de Estudos Sociais (CES Lisboa) convida para o lançamento da mais recente publicação da ACA-M - The Walker and the City(actas do Colóquio Internacional O Peão e a Cidade – The Walker and the City, 12 de Novembro de 2008).
Este livro propõe uma reflexão colectiva sobre a importância crescente dos direitos dos peões e a necessidade de atender às suas necessidades qualitativas no interior dos sistemas urbanos europeus. Conta com a colaboração de importantes especialistas internacionais na área dos estudos da pedonalidade, e constitui um contributo português para a Acção 358 do Conselho de Ciência e Tecnologia da Fundação Europeia de Ciência e para as actividades do Walk21.
Este livro propõe uma reflexão colectiva sobre a importância crescente dos direitos dos peões e a necessidade de atender às suas necessidades qualitativas no interior dos sistemas urbanos europeus. Conta com a colaboração de importantes especialistas internacionais na área dos estudos da pedonalidade, e constitui um contributo português para a Acção 358 do Conselho de Ciência e Tecnologia da Fundação Europeia de Ciência e para as actividades do Walk21.
The Walker and the City é o 3º volume da colecção de Estudos Pedonais da ACA-M.
Com a presença de Reinhard Naumann (FES Portugal), Mário Alves e Manuel João Ramos (ACA-M) e Isabel Seabra (IMTT).
Publicado com o apoio da Fundação Friedrich Ebbert e do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres.
domingo, 12 de setembro de 2010
Cristóvão Colombo português
Eis as três próximas actividades da Associação Cristóvão Colon.
Dia 09 de Outubro - Palestra em Portimão: Provas da mentira do «Colombo italiano»
Dia 11 de Outubro - Palestra em Lisboa: A Esposa de Colombo – Comendadora de Santiago
Dia 30 de Outubro - Inauguração do Centro Cristóvão Colon, em Cuba, Baixo-Alentejo, sua terra natal
[ Para ler, clicar nas imagens ]
11 de Outubro de 2010, 17:30
Conferência do Sr. Manuel da Silva Rosa, promovida pela Secção de História da Sociedade de Geografia de Lisboa e subordinada ao tema:
“A Esposa de Colombo – Comendadora de Santiago”
Introdução a cargo do Dr. Rui Pinto, Presidente da Secção de História.
Esta Sessão realiza-se no Anfiteatro da Sociedade de Geografia de Lisboa).
Dia 09 de Outubro - Palestra em Portimão: Provas da mentira do «Colombo italiano»
Dia 11 de Outubro - Palestra em Lisboa: A Esposa de Colombo – Comendadora de Santiago
Dia 30 de Outubro - Inauguração do Centro Cristóvão Colon, em Cuba, Baixo-Alentejo, sua terra natal
11 de Outubro de 2010, 17:30
Conferência do Sr. Manuel da Silva Rosa, promovida pela Secção de História da Sociedade de Geografia de Lisboa e subordinada ao tema:
“A Esposa de Colombo – Comendadora de Santiago”
Introdução a cargo do Dr. Rui Pinto, Presidente da Secção de História.
Esta Sessão realiza-se no Anfiteatro da Sociedade de Geografia de Lisboa).
Fogo amigo
António Marques Bessa
Quando os pirómanos vão a tribunal não lhes acontece nada, porque são doentes. A nossa cultura integra uma forte indulgência para com o mal, o que acarreta a impunidade de autênticos malvados. A desculpabilização tornou-se a principal cantata da partitura.
O nosso país todos os Verões assiste, extasiado, à queima de hectares de floresta. A mancha verde é comprimida pelo betão e pelo fogo. Toda a gente sabe que é uma espécie de inevitabilidade neste balançar do fogo e da corrida dos bombeiros, com muita gente humilde a defender o pouco que é seu. E para lá das palavras de repúdio, assiste-se à mesma indiferença dos poderes instalados porque nada é feito para deter este verdadeiro flagelo.
O País já é pobre, mas depois de lhe arderem quilómetros quadrados de floresta qualificada, fica ainda mais pobre. As pessoas dessas zonas que podiam vender madeira e explorar a seiva do pinheiro ficam sem nada e às vezes, dramaticamente, perdem-se vidas, numa inutilidade sem paralelo.
A Federação Russa, a Grécia, às vezes a Itália, debatem-se com o mesmo problema. A Rússia certamente deve ter aprendido a sua lição dura, embora fique com muita floresta ainda. Uma observação mais detalhada das grandes manchas verdes deve seguir-se, bem como inquéritos rigorosos às causas do Inferno que levou milhares de toneladas de madeira. E a Rússia é dos países que sabe lidar rapidamente com as causas.
E que causas
Com a frequência dos fogos em Portugal não há já margem para dúvidas. O calor de 40 graus não provoca uma combustão automática. Têm-se apanhado ocasionalmente alguns "pirómanos" a deitar fogo aos pinhais. Há pessoas que gostam de ver as reportagens na TV e darem-se conta dos efeitos do trabalho que fizeram. Quando os pirómanos vão a tribunal não lhes acontece nada, porque são doentes. A nossa cultura integra uma forte indulgência para com o mal, o que acarreta a impunidade de autênticos malvados. A desculpabilização tornou-se a principal cantata da partitura. São decisões colectivas, planos colectivos, acções de grupo, não há responsável visível. Veja-se ao contrário o que acontece nos Estados Unidos da América: identificou-se a BP e a companhia, um colectivo, teve pagar pelos estragos; os suíços da UBS, uma vez identificados pelo fisco americano, têm que pagar uma soma astronómica ao Tesouro pelas contas de americanos riquíssimos que escondeu. Não há desculpabilização e não há indulgência. Como Max Weber já explicou há muito tempo, existe uma fronteira de mentalidades entre os protestantes e os católicos. Enquanto os primeiros se ocupam a trabalhar conscienciosamente, os segundos reivindicam o direito à preguiça. Enquanto os seus países se vão equilibrando e progredindo, os católicos não os conseguem apanhar. Na verdade, uns têm uma ética do trabalho e da responsabilidade e outros ou têm a tal ética republicana, que não é a da República Romana donde copiaram o nome, ou limitam-se a existir à custa de golpes.
É triste
É triste saber que os fogos que destroem o País têm origem criminosa ou são provocados pelo desleixo do povo. Mas o povo nunca foi ensinado, como em França, a fazer uma gestão científica da mata, porque nem o Estado faz essa gestão da sua mata.
De seguida, há a considerar a fragmentação brutal da propriedade da mata. Com propriedades tão pequeninas, que pode fazer o dono do pinhal? Essa mata serve-lhe enquanto lavrador para colher madeira para emendas na casa, fazer barracões, ir buscar mato para a cama dos bichos que tem, ir colher pinhas e agulhas para acender a lareira e ter um Inverno mais seguro.
Este retrato não é imaginário. Eu próprio verifiquei esta conexão à mata, que é a predominante. Os grandes proprietários têm vendido porque ou vivem em Paris ou em outro lado e não estão para perder milhares de hectares por causa de um pirómano ou uma desatenção de um domingueiro assador de sardinhas.
É triste que as coisas sejam assim. Mas o que salta à vista é a necessidade de uma reforma profunda na propriedade da mata, com emparcelamentos forçados, para o bem de todos. Educação para a exploração dos recursos florestais. Leis mais incisivas e duras para os praticantes do desporto do fogo. Evitar que se suceda nas montanhas mais uma geração de analfabetos funcionais e de pessoas que vivem na margem do autoconsumo. Educação rural, povoamento interno, reforma da estrutura fundiária. Se se fez isso nos campos do Mondego para o arroz e o milho, porque é que se tem evitado fazer uma coisa inadiável que a França pode ensinar? Creio que a resposta está dada: criam-se muitos inimigos ao mexer na terra. É melhor deixar arder tudo.
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sábado, 11 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Comunicado do Conselho Superior da Magistratura sobre o processo Casa Pia
[Clique nas imagens para obter versões mais legíveis]
Para aceder à versão original do documento clique aqui
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Os cinco e o penacho
João Cândido da Silva, Jornal de Negócios

Como diria José Berardo, também conhecido por Joe, há coisas que são "silly" em todas as "seasons".
Por exemplo: o choro e ranger de dentes que estourou em redor do negócio de venda da Vivo, com o objectivo de definir a quem devem ser entregues os louros.
Uma operação com a envergadura estonteante de 7,5 mil milhões de euros, acompanhada da aquisição de uma nova posição accionista no capital de um concorrente e feita em tempo recorde é o pretexto apetitoso para a refrega. E mostra-se de tal forma irresistível para quem, de perto ou de longe, acompanhou os progressos do negócio, que até conseguiu extinguir a mais leve noção do ridículo em protagonistas que costumam cultivar uma pose sisuda, decorada com botões de punho.
José Sócrates, praticante indefectível do auto-elogio, deu o arranque. Numa das suas já lendárias piruetas, passou uma esponja sobre o primeiro-ministro que alegou ser a Vivo uma participação de interesse estratégico nacional. E passou a aprovar a operação e o encaixe de investidores que, ao tempo da utilização da "golden share", eram acusados de apenas conviver bem com os ganhos de curto prazo. Se não fosse ele, nada se teria feito. Um coro amestrado concordou.
Seguiu-se o presidente brasileiro. Não quis ficar para trás e não ficou. Em poucos dias, surgiram nos media as notícias e comentários que davam a intervenção de Lula da Silva como um elemento determinante de todo o processo. Sem ele, nada se teria feito. Já eram dois para ocupar o lugar cimeiro do pódio mas nada impediu que um coro amestrado concordasse, nem sequer que a história terminasse por aqui.
Para a assembleia geral de accionistas em que a "operação Vivo" foi aprovada, estavam reservadas mais reivindicações de glória. Henrique Granadeiro disse que o órgão encontrou soluções onde outros criaram problemas. Se quisesse justificar os apreciáveis salários e prémios que se pagam a este nível, não teria encontrado melhor formulação. Feitas as contas, por esta altura o pódio já tinha três pretendentes, todos disponíveis para ficar na mó mais de cima, porque sem Granadeiro nada se teria feito. O coro acenou em concordância.
Zeinal Bava, com o toque cosmopolita que só se adquire depois de frequentar Wall Street, escolheu uma revista brasileira de grande circulação e influência para se juntar ao grupo. Fez as declarações suficientes para se perceber que se vê, e quer ser visto, como o verdadeiro herói. Uma parte do coro assentiu, outra não gostou. Como não há quatro sem cinco, José Maria Ricciardi, presidente do banco de investimento que seguiu toda a operação, não quis ficar apenas com a comissão, generosa, e dispensar a coroa de louros, vistosa. Sem o banqueiro, garantiram fontes anónimas mas oportunas, nada se teria feito.
Nos grandes negócios, nada disto é inédito. Há uns dias, numa entrevista publicada no "Expresso", António Mexia declarou ter trazido a Autoeuropa para Portugal, afirmação que deve ter mexido com os nervos de Fernando Faria de Oliveira e Luís Mira Amaral. O que devia surpreender é que estas lutas para ver quem fica com o penacho são travadas por quem não se cansa de falar em colaboração, parcerias e trabalho de equipa. Se o objectivo fosse o de traçar uma caricatura, não seriam capazes de melhor.
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EDP paga para Manuel Pinho dar aulas em Columbia!
Helena Garrido, Jornal de Negócios
A cadeira que Manuel Pinho vai dar na Universidade de Columbia está integrada num projecto a quatro anos financiado pela EDP.
A eléctrica portuguesa fez uma doação à School of International and Public Affairs (SIPA), num montante que pediu à Universidade nova-iorquina para não divulgar e que tem como uma das iniciativas o seminário sobre energia renováveis que vai ser leccionado pelo ex-ministro da Economia.
"Manuel Pinho será professor visitante School of International and Public Affairs (SIPA) da Universidade Columbia. A sua posição faz parte de uma série de novas iniciativas que estão a ser apoiadas pela EDP", disse ao Negócios fonte oficial da Universidade e Columbia.
Nota – Pagar para ensinar! E guardar segredo! Sobretudo, guardar segredo, que para ter de ouvir tal luminária o preço deve ser alto!
N.R. – O homem vai ser professor de tauromaquia!
O ministério antiprofessor
Henrique Raposo, Expresso
O ministério da educação já não existe na realidade. Os pedagogos da 5 de Outubro só existem no mundo do humor. E, no meio deste humor involuntário, lá vão destruindo a figura do "professor".
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Política a Sério
José António Saraiva
A conclusão do caso Freeport, conhecida na semana passada, foi a terceira tentativa para dar cabo do processo. E parece que resultou.A primeira investida data de 2004. Procurou-se então matar o caso ‘no ovo’ – fazendo passar a ideia de que se tratava apenas de uma manobra política (orquestrada por Santana Lopes) para atingir José Sócrates. Confesso que aceitei esta versão.Sócrates, como ministro do Ambiente, projectava a imagem de governante determinado, que cortava a direito, não cedia a pressões nem fazia favores – sendo natural que o tentassem denegrir.
Assim, quando em 2008 a jornalista Felícia Cabrita me voltou a falar do tema, torci o nariz.
Mas agora havia mais matéria: havia uma carta da Polícia inglesa, havia uma reunião do Eurojust em Haia onde o processo tinha sido tratado.
Mesmo assim exigi documentos, provas.
E elas começaram a pingar.
Publicámos a primeira notícia, que o PGR se apressou a desmentir – mas o processo lá começou a fazer o seu caminho, provocando inúmeros incómodos.
Quando o Freeport já assumira grande importância e era um caso nacional, soube-se que Lopes da Mota, o representante de Portugal no Eurojust, tinha feito pressões junto dos magistrados portugueses, invocando os nomes do ministro da Justiça e do primeiro-ministro, para o processo ser arquivado.
Era a segunda tentativa para abafar o caso.
E aqui eu percebi que havia qualquer coisa escondida.
Se o tema era inócuo, como se justificavam tantos cuidados?
Se tudo tinha sido legal, porque havia tanto medo?
Mas o freeport lá continuou a avançar – e na semana passada a Procuradoria anunciou a conclusão do processo, acusando dois indivíduos e ilibando José Sócrates.
O primeiro-ministro veio a público cantar vitória – e os seus apoiantes embandeiraram em arco: provava-se que Sócrates estava totalmente inocente!
Só que, no dia seguinte, o Público revelava que o caso tinha sido encerrado às três pancadas – e que todas as dúvidas que envolviam Sócrates se mantinham intactas.
Mais: os magistrados faziam questão de incluir no processo as 27 perguntas que não tinham tido ocasião de colocar ao primeiro-ministro – e que, no fundo, ficavam a pairar como outras tantas suspeitas.
Durante o tempo que durou este processo fiz várias vezes a mim próprio a seguinte pergunta: como se explica que, tendo o nome de Sócrates sido tantas vezes referido, os investigadores não o tenham ouvido?
Como se percebe que, sendo ele o principal responsável do Ministério que esteve no centro de toda a polémica, não tenha sido chamado a dar explicações?
Como se entende que, sendo o superior hierárquico de vários arguidos no processo, não tenham precisado de lhe perguntar coisa nenhuma?
Não era compreensível.
Agora entendi: os investigadores queriam acumular o máximo de dados antes de ouvirem Sócrates.
Sendo ele agora primeiro-ministro, preferiram juntar todas as dúvidas para o ouvirem de uma assentada.
Só que, quando o iam fazer, o PGR mandou encerrar o processo.
Como um árbitro que apita para o fim do jogo quando vai ser marcado um penálti.
A decisão do PGR custa muito a entender.
Ninguém percebe por que razão o caso Freeport teve de ser fechado à pressa – quando, na mesma semana, a sentença do caso Casa Pia, anunciada com grande aparato, foi adiada por um mês.
No Freeport o PGR funcionou uma vez mais como um pára-choques do primeiro-ministro.
O que não espanta: em caso de dúvida, ele tem decidido invariavelmente a favor de José Sócrates.
Pinto Monteiro iniciou o seu mandato cheio de boas intenções.
As suas primeiras declarações eram frontais e revelavam independência.
Só que, com o acumular de casos envolvendo o chefe do Governo, o PGR foi--se sentindo encurralado pela comunicação social – e foi-se deixando encostar ao primeiro-ministro (num processo semelhante, aliás, ao que ocorreu com Marinho Pinto).
Ao ponto de podermos dizer que José Sócrates e Pinto Monteiro combatem hoje ombro a ombro na mesma trincheira: as críticas a um são vistas como críticas ao outro.
Para isso também contribuirá a amizade antiga de Pinto Monteiro com Proença de Carvalho – que por sua vez é advogado de Sócrates.
Uma última nota para o próprio Sócrates.
O primeiro-ministro decerto soube as condições em que o processo Freeport foi encerrado – e as perguntas que os magistrados queriam fazer-lhe e não puderam.
Ora como é que, sabendo isso, se prestou a fazer a declaração que fez, congratulando-se por ter sido completamente ilibado?
Como foi possível? Ao menos tinha ficado calado – e não vinha a público fazer aquele número de teatro. Para o primeiro-ministro já tudo é farsa, representação?
O certo é que, neste estranho caso, Sócrates acaba mais suspeito do que começou – porque as dúvidas sobre alguns dos seus actos ficaram registadas no processo para a posteridade.
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Sua Alteza, Monteiro I
Alberto Gonçalves
O Procurador-Geral da República queixou-se, em entrevista ao DN, de possuir os poderes da Rainha de Inglaterra. Com todo o respeito, não é exactamente verdade. Desde logo, porque a Rainha de Inglaterra não pode dar entrevistas a queixar-se de ter os poderes do dr. Pinto Monteiro. Depois, porque ou eu estou enganado ou à Rainha de Inglaterra não cabe "dirigir, coordenar e fiscalizar a actividade do Ministério Público e emitir as directivas, ordens e instruções a que deve obedecer a actuação dos respectivos magistrados". A Isabel II nem sequer é permitido emitir palpites acerca das instituições judiciárias inglesas. Já o nosso procurador-geral não só manda nas suas equivalentes de cá como misteriosamente intervém nas de lá, pelo menos a julgar pela rapidez com que assegurou a inocência do eng. Sócrates logo no início da versão britânica da novela Freeport.
O procurador-geral tem o direito de achar que tamanha autoridade não lhe chega? Claro que sim, na medida em que cumpra o dever de agir em conformidade. É duvidoso que um magistrado com a experiência do dr. Pinto Monteiro não conhecesse previamente os reais poderes do cargo para que o nomearam. Se conhecia, o bom senso aconselhava a que recusasse a nomeação. Se não conhecia, o bom senso recomendava que se demitisse com urgência. Se não se demitiu ou demite, o pudor sugere que não venha exigir competências através da imprensa.
Isto, naturalmente, se as afirmações do dr. Pinto Monteiro, sempre desastradas na forma, tivessem alguma razoabilidade no conteúdo. Mas, se por exemplo a gentil arbitrariedade aplicada às "escutas" ao primeiro-ministro não bastasse, o apoio dedicado ao procurador-geral por figuras do gabarito do bastonário dos advogados e da dra. Morgado dos super-processos-que-nunca-vão-longe prova concluden- temente que não há razoabilidade nenhuma.
Há a história pessimamente contada do famoso outlet, há uma investigação curiosamente enxovalhada pelo topo hierárquico e há uma justiça que finge querer influenciar a política para disfarçar a influência que a política exerce de facto sobre a justiça. Há, em suma, pouca vergonha. E não poucos poderes.
Sua Santidade Sócrates ascende aos altares
João Miguel Tavares, Correio da Manhã
Quando SSS (Sua Santidade Sócrates) apareceu terça-feira na sua residência oficial a congratular-se com o fim da investigação ao caso Freeport, afirmou – e cito – que assim se demonstrava não haver "razão para acusar quem quer que fosse de financiamento ilegal a partidos, corrupção ou tráfico de influência". Depois virou as costas e foi-se embora, porque não há nada como uma boa proclamação de inocência sem direito a perguntas – actividade que o primeiro-ministro muito aprecia, seja em declarações à imprensa, seja em entrevistas à RTP.
Infelizmente, SSS mais uma vez confunde – outra das suas actividades favoritas – o não haver "razão para" com o não haver "provas de". Isto já para não falar da diferença entre responsabilidade política e responsabilidade criminal, uma subtileza demasiado subtil para a sua cabecinha. O caso Freeport fede, fedeu e continuará a feder por todos os lados, e lá por a polícia e o Ministério Público não terem sido capazes de descobrir os responsáveis pelo mau cheiro, não significa que ele não exista. Aparentemente há provas de que Manuel Pedro e Charles Smith pediram muito dinheiro ao Freeport e que o Freeport lhes entregou esse dinheiro – e o elo quebra-se aí. Mas tenho cá para mim que os dois senhores não hão-de ter agarrado nas notas para fazer barquinhos e lançar ao Tejo. Desconfio de que as entregaram a alguém – até porque o Freeport acabou miraculosamente aprovado nas vésperas de o PS sair do governo.
Ora, a esta pergunta José Sócrates nunca respondeu: porque é que o empreendimento foi aprovado nas vésperas de o PS sair do governo? O nosso SSS fez declarações, deu um par de entrevistas, mas esta singelíssima questão continua envolta no mais profundo mistério. E – aposto – assim continuará, até porque a linha que separa a verdade da mentira há muito se eclipsou da sua confusa memória.
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