domingo, 29 de maio de 2011

A presença portuguesa em África



C O N V I T E

A Comissão Executiva do XVIII Encontro Nacional de Combatentes, a Revista Militar e a Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional têm a honra de convidar V.ª Ex.ª para a Conferência “A Presença Portuguesa em África”, que se realiza no dia 9 de Junho de 2011, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

AACDN

10H00 -Sessão de abertura

Professor Doutor Adriano Moreira; General Espírito Santo; Drª. Isabel Meirelles;TenGen. Vizela Cardoso

 
10H45 -1º Painel

A estratégia de ocupação e o encontro civilizacional”;

Moderador -Almirante Vieira Matias

Prof. Dr. Rui Ramos

“Linhas de força da ocupação de posições em África pelos portugueses, na perspectiva estratégica e do desenvolvimento económico e humano, desde o século XVI ao fim da década de cinquenta do século XX. Conceito de espaço de interesse, face ao ambiente físico, social e político e às capacidades reais”.

Prof. Dr. José Carlos Oliveira

“Elementos históricos sobre as migrações africanas nos territórios do Ultramar Português”.

Prof. Dr. Pereira Neto

“Exemplos de interacção cultural. Relações dos portugueses com outros povos em África.

Encontros civilizacionais”.


 
14H30 -2º Painel

“A evolução da situação desde as vésperas do século XX”, Moderador -TenGen. Jesus Bispo

TenCor. José Brandão Ferreira

“Alterações nas condições de segurança no Ultramar Português na sequência do Congresso de Berlim de 1884/5; influência das forças europeias em presença. Papel das forças indígenas e de outros agentes do Estado ou de particulares na defesa da soberania nacional”.

Prof. Dr. Jaime Nogueira Pinto

“Evolução da posição da comunidade internacional quanto às idéiasde colonização e de descolonização. Efeitos práticos no terreno. Posição do regime português”.

Prof. Dr. AntonioJosé Telo,

“Processo de decisão política nacional para o início das operações militares em África no ano de 1961”.


17H00
 
Debate Final e Conclusões
 
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Introdução à conferência do TenCor. José Brandão Ferreira
A Comissão Executiva do XVIII Encontro Nacional dos Combatentes deci¬diu prestar homenagem a todos os portugueses, civis e militares, que em Á¬fri¬ca se sacrificaram pela sustentação do Império, promovendo uma confe¬rên¬cia, em con¬junto com a Direcção da Revista Militar e a Associação de An¬tigos Auditores dos Cursos de Defesa Nacional, no dia 9 de Junho de 2011, no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Para o efeito procedeu a convite a académicos eméritos para o tratamento dos temas que pareceram mais adequados aos fins em vista, e que irão pro¬por¬cionar a reflexão sobre os méritos do legado civilizacional deixado em Á¬fri¬ca pelos portugueses. Por razões evidentes da exiguidade do tempo foi da¬da¬ prioridade a Angola, Moçambique e Guiné, onde decorreram as últimas operações militares do Império, não esquecendo igualmente o preito de ho¬me¬nagem aos que defenderam a soberania naci¬onal noutros territórios ultra¬ma¬rinos.

A Conferência terá duas partes, sendo a primeira dedicada à ocupação dos ter¬ri¬tó-rios na senda das Descobertas, que custaram muitas vidas de cidadãos nacionais, especialmente provocadas por doenças, assim como ao alarga¬men¬to progressivo do espaço em conformidade com as capacidades nacio¬nais, sem prejuízo da manutenção das posições costeiras ameaçadas por for¬ças estrangeiras, em particular europeias. A presença portuguesa neste espaço fez vingar os direitos históricos reivindicados por Portugal quando os apeti¬tes das outras potências, muito mais poderosas, se tornaram ostensivos, prin¬ci¬pal¬mente a partir do Congresso de Berlim de 1884/5. A reacção nacional ao Ultimato inglês veio provar que a tarefa ciclópica de construção de um Im¬pério que aquela ocupação constituiu, de facto, um desígnio nacional.

Este andamento dos portugueses, funcionários, empresários, comerciantes, mi¬li¬ta-res e missionários, foi algumas vezes contemporâneo, noutras antece¬deu, as migrações dos povos africanos. O processo da conquista deu origem a cho¬ques, submissões, reconhecimento de direitos, típicos de processos se¬mel¬han¬tes ocorridos ao longo da História em todas as partes do Mundo.

Importa-nos uma descrição objectiva das situações então ocorridas de acordo com os valores do tempo histórico, desmascarando enfoques que não visam a verdade, mas que se verificam, muitas vezes para denegrir a importância da presença portuguesa, num jogo de poder invisível.

Interessa reflectir sobre os encontros ocorridos entre os portugueses e os a¬fri¬ca¬nos, traduzidos em negociações amigáveis, que constituíram verdadei¬ros encontros civilizacionais. O legado mais importante deixado por Portu¬gal foi o início da constituição de Nações nos territórios definidos à custa de vidas humanas e do reconhecimento internacional dos direitos históricos so¬bre esses territórios. E é o resultado daqueles encontros e deste legado que tor¬narão indestrutíveis os laços que actualmente unem Portugal a todos os paí¬ses onde se fala a língua portuguesa.

A segunda parte da Conferência trata do esforço militar realizado por portu¬gue¬ses e africanos, civis e militares, indígenas e forças expedicionárias, nas lutas pela definição dos limites territoriais e pela consolidação da soberania, a partir dos finais do século XIX e durante a primeira década do século XX, assim como os novos problemas políticos que conduziram à Guerra do Ultramar.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Banqueiros:
Cronologia interessante

FERNANDO ULRICH (BPI)
Em 29 Outubro - "Entrada do FMI em Portugal representa perda de credibilidade."
Em 26 Janeiro - "Portugal não precisa do FMI."
Em 31 Março - "Por que é que Portugal não recorreu há mais tempo ao FMI?"


SANTOS FERREIRA (M-BCP)
Em 12 Janeiro - "Portugal deve evitar o FMI."
Em 2 Fevereiro - "Portugal deve fazer tudo para evitar recorrer ao FMI."
Em 4 Abril - "Ajuda externa é urgente e deve pedir-se já."
 
RICARDO SALGADO (BES)
Em 25 Janeiro - "Não recomendo o FMI para Portugal."
Em 29 Março - "Portugal pode evitar o FMI."

Em 5 Abril - "É urgente pedir apoio... já."

sábado, 14 de maio de 2011

A política agrícola comum e a Defesa Nacional

João José Brandão Ferreira


                 “ A principal indústria de um país é a agricultura”

                                                  António Augusto Ferreira

 
Em artigo anterior, defendemos que as três instituições fundamentais que existem em Portugal, a Universidade, a Igreja e as Forças Armadas, estão a ficar de tal modo enfraquecidas que podem pôr em risco a sobrevivência nacional.

Em complemento, vamos hoje discorrer sobre a gravíssima crise em que mergulhou a agricultura portuguesa.

Como se sabe, as actividades agrícolas estão na origem da sedentarização dos povos e na posterior estruturação e desenvolvimento das comunidades.

A existência de alimentos é uma condição básica de sobrevivência para qualquer indivíduo/sociedade e tal consegue-se, sobretudo através dos produtos da terra, complementados com a criação pecuária e a pesca. A existência de excedentes fomenta as trocas aumentando o comércio e os bens ao dispor. Cresce, deste modo, a riqueza, o que permite investimentos noutras áreas, e, assim sucessivamente.

Aumentando a população (por via de uma boa alimentação), os misteres diferenciam-se, porque já nem todos precisam de trabalhar o campo e porque as necessidades materiais, culturais e espirituais aumentam, permitindo e exigindo uma maior especialização…

Bom, tudo isto é sabido, como é sabido também, que desde principalmente, o século XVI, Portugal não consegue ser auto-suficiente em matéria alimentar, nomeadamente nos cereais. Sem embargo, por melhores ou piores que fossem as políticas seguidas sempre houve a intenção e a preocupação de produzir mais e melhor. Agora o que é inédito e inaudito é que se fomente (pagando) a não produção, o abandono das terras e se atire cerca de 20% da população para a voragem canibal das multinacionais alimentares e respectivos intermediários, sem outra defesa que não seja o subsídio – outra despesa. Pois é efectivamente isto que está a acontecer em Portugal, indo já ter efeitos em 1993, em termos de desemprego, falta de escoamento de produtos, baixas de produção, aumento do custo dos factores de produção, confusão e corrupção na distribuição de créditos e subsídios, agitação social, etc.

Reparem, o raciocínio é simples: Imaginem vários peixes de diferentes tamanhos que viviam em aquários separados mas cujas paredes se tocavam. O que defendia os peixes pequenos dos grandes eram as paredes dos aquários (fronteiras). A certa altura começaram a partir as paredes dos aquários, sem que dessem tempo aos peixes mais pequenos que crescessem.

Agora adivinhem o que é que os peixes grandes vão fazer aos pequenos!? É isso, comem-nos, e nós estamos exactamente nessa posição (dos peixes pequenos).

A PAC é uma aberração. É antieconómica e é antinatural. E (aparentemente) estúpida. Protege, sobretudo, os circuitos comerciais internacionais (e vamos ver que guerra é que isto vai dar com os EUA e Canadá, dentro e fora do GATT).

Haverá, assim, tendência para que passe a existir uma multinacional “alemã” da beterraba açucareira, uma “inglesa” para a ovelha; uma “francesa” para o vinho; uma “espanhola” para o azeite, e assim por diante. Em última análise toda a parte produtiva e comercial do que fazemos sairá das nossas mãos e passará para entidades supra ou transnacionais, cinzentas, estranhas e às vezes difíceis de identificar, cujas únicas baias são as regras emitidas pelos tecnocratas de Bruxelas, após luta feroz entre interesses e “lobbies”. Quando as coisas correrem mal quem será o responsável? A quem se poderá pedir contas?

Por outro lado, e por via dos acordos comunitários estamos impedidos de procurar fornecedores ou mercados onde mais nos interesse, caducando naturalmente qualquer acordo bilateral que pudéssemos ter.

Enfim, a situação, a prazo, será tão ou mais grave do que a monarquia dual imposta por Filipe I, em Tomar, no ano da graça de 1581.

Parece-nos ainda inadmissível que num mundo em que morrem milhares de pessoas de fome todos os dias, em que cerca de um bilião de seres humanos vivem no limiar da sobrevivência, se destruam alimentos e não se aumente a produção de quem o pode fazer. Mesmo em Portugal, é chocante ver estragar comida, não apanhar a fruta das árvores, entornar o vinho nas ruas, etc., com tanta gente a passar mal e os preços sempre a subirem nos mercados.

Que diabo, ofereçam ao menos às Misericórdias ou, se forem menos amigos do género humano, dêem ao Jardim Zoológico … Mas, o mais grave de tudo, parece-nos, situa-se a nível do psicológico.

Os agricultores são o âmago da Pátria, a força telúrica da Nação, que emana da terra, uma reserva moral (e material) do País. O homem da terra está intimamente ligado à natureza e às suas leis, mantendo com ela uma relação de equilíbrio estável e intuitivo, que transporta para a família e para a sociedade. Ora pedir a um operário que não produza tantas rodas dentadas não é o mesmo que pedir a um agricultor que deixe morrer as suas árvores de fruto. O operário tem alternativas, ou vai de férias. Quiçá ficará grato. Mas, o agricultor? Vai para o café da aldeia carpir mágoas? E, oh almas, não vêem que quando as árvores morrerem é também um pouco do agricultor que morre também? Não percebem que a actividade agrícola está ligada à alma do agricultor e que o equilíbrio atrás mencionado pode ser roto?

Infelizmente a impressão que temos é que a maioria de quem anda a negociar e a decidir sobre estes assuntos não percebe, não quer perceber e terá até raiva de quem perceba destas coisas. São uns rapazes armados em tecnocratas do “jet set”, de computador debaixo do braço, sempre ávidos a transformar ecus em escudos e vice-versa. Mas, Deus do Céu, que outras qualificações terão para negociar estas questões, que perceberão das motivações das pessoas a quem deveriam defender os interesses e das implicações que das decisões advirão para os interesses nacionais?

A questão dos subsídios, já falada, está completamente inquinada. Por várias razões. A primeira sendo a de não se saber o que é que se quer fazer em termos agrícolas. É preciso ter um plano agrícola, silvícola, pecuário, etc., com objectivos a atingir e depois fazer os investimentos em conformidade. As ideias neste campo são as mais diversas e andam sempre a mudar. Ora despejar dinheiro num cesto destes é ter a garantia, à partida, de que a maioria dele se evaporará sem benefícios visíveis. Em segundo lugar, é preciso ter uma política de subsídios. Tem que se saber que tipo de subsídios existem e quais as condições em que podem ser concedidos. Numa palavra é necessário que as regras do jogo sejam claras.

Além disso, é vital dá-las a conhecer. Tão mais vital, em virtude da maioria dos agricultores portugueses ser idosa e possuir um grau de cultura muito baixa. Não será fácil proceder a este esclarecimento (como fazer face às restantes coisas), quando a maior parte dos funcionários do Ministério da Agricultura está em Lisboa …

Em terceiro lugar, é importante que a concessão de subsídios seja fiscalizada sob pena de nos atolarmos num pantanal de corrupção e injustiça. Isto é: nos subsídios malparados!

Creio bem, que é já neste estádio que nos encontramos. Desenvolveu-se, entretanto, uma “fina flor de chicos espertos” que passaram de “agricultores” para aquilo a que poderemos chamar de “gestores de subsídios”. Acontece de tudo: luvas entre quem empresta e quem recebe; favores; empresas fantasmas; financiamento de produtos que nada têm a ver com as campanhas de momento, falências fraudulentas, etc., etc.

Enfim, muito subsídio para o Mercedes e pouco para a vaca!

No meio de tudo isto, uns poucos enriquecem e a maioria dos agricultores está no limiar da sobrevivência, atolados em dívidas. E sem saber o que fazer.

Uma palavra mais sobre os subsídios. Não se deve, quanto a nós, criar o reflexo condicionado da pedinchice. Isto é: se chove muito, pede-se subsídio; se não chove, pede-se subsídio; se os preços caem, pede-se subsídio; se não se escoam os produtos, pede-se subsídio; e tudo, de preferência, a fundo perdido. E perguntamos nós, quando a colheita é boa, alguém devolve algo? E os seguros de colheita servem para quê? E que tal ensinar os “empresários” agrícolas a fazerem uma boa gestão dos seus meios?

Uma coisa é certa, faça sol, chuva ou vento, produza-se muito ou pouco, no dia seguinte as coisas estão mais caras no mercado!

É evidente que tem que haver subsídios, mas haja peso e medida. E mão forte para quem burlar.

Em síntese, o subsídio deve servir para corrigir políticas, formar técnicos, fazer face a calamidades extraordinárias, reconverter culturas, apoiar experiências inovadoras, apoiar a estabilização de preços, etc.

As contas, porém, devem ser tornadas públicas, no fim do ano. Neste particular seria bastante útil que se soubesse a distribuição a que foram sujeitos os cerca de 1.300 milhões de contos que entraram no País desde a sua entrada na CEE.

Do que já foi dito extraem-se muitas consequências negativas em termos de defesa nacional. Uma primeira constatação, contudo, merece ser dita desde já: é que nos parece que nada do que se tem gizado em termos de política agrícola (como de resto nas outras), teve em conta qualquer preocupação em termos dessa mesma defesa.

Muitos aspectos merecem a nossa atenção: a cidade está cada vez mais afastada do campo, o litoral do interior. Há zonas perigosamente despovoadas e desertificadas: por via da crise agrícola pode aumentar a tensão social, a agitação e diminuir a solidariedade nacional. Estes aspectos necessitam de rápido tratamento sob pena do País ficar algo mutilado e crescerem tendências regionalistas e centrífugas e de ligação a regiões adjacentes espanholas.

Em termos de defesa nacional (e em termos macroeconómicos também), é perigoso que o País não produza sequer 50 por cento do que come. Agrava esta situação o facto da produção das restantes parcelas da economia nacional não chegarem para cobrir este défice.

Ficamos, assim, dependentes do exterior. E do que Bruxelas nos quiser vender e comprar (o que acontecerá quando houver quebras de produção?); torna-se muito mais difícil constituir reservas estratégicas para qualquer emergência, crise ou guerra. Uma má política agrícola e silvícola, degrada o solo, a gestão da água disponível desertifica. Suponham, por absurdo, que só somos autorizados a plantar eucaliptos?!

Mas o mais grave em termos de defesa nacional, relativamente à PAC é que nos toma, por um lado completamente dependentes de outros países e sobretudo de Bruxelas e por outro, vai-nos reduzir a agricultura a franjas de pequenas produções ou obrigam-nos a produzir coisas que mais ninguém quer produzir. Só conseguiremos evitar isto, ser produzirmos mais barato, e melhor que os outros. Gostaria de desafiar as autoridades competentes a explicarem como é que isto estará ao nosso alcance. Sem embargo, tudo o que nós tivermos de bom, terá tendência a ser comprado por quem tem posses saindo das nossas mãos, não só os bens como a mais-valia que os mesmos podiam prover. Numa palavra, ficaremos como estava D. João II quando subiu ao trono: seu pai tinha-lhe feito senhor dos caminhos e estradas do reino e pouco mais …

A concluir o quadro, é preciso ter em conta, que tudo se faz para manter a população desinformada sobre estes assuntos.

Parece-nos, assim, importante, que se estude e debata as implicações das opções políticas que são tomadas a esmo, sempre com grande optimismo, sempre na mira dos milhões fáceis (que hão-de, fatalmente, ser pagos com juros), na mira de sinecuras, mas sem cuidar bem dos verdadeiros interesses nacionais. Atitude esta, que a continuar levará à conclusão – legítima – que os citados interesses estão bem longe das preocupações daqueles que, por dever, os deviam ter em preocupação primeira.

Estes assuntos têm que ter um tratamento de Estado. Não podem ser conduzidos por mercenários da política, desconhecedores do país real e dos seus interesses permanentes e profundos; que renegam (quando conhecem) a História Pátria e têm do funcionamento do mundo uma ideia, no mínimo, nebulosa.

Todavia, manejam muito bem a máquina de calcular e são peritos em servir os interesses de momento que lhes permitam manter o exercício do poder … pelo poder.

Caros compatriotas, cuidado se um dia estes senhores chegarem à conclusão que é muito caro manter Portugal como país independente, naturalmente, vendem-no.

Um país que mal conheço

Maria José Nogueira Pinto

Entre os muitos sentimentos que me assaltaram estes últimos tempos, para além da vergonha, está a redescoberta amarga de um outro Portugal, confuso, asténico, dividido, feito de um composto de gerações, todas à rasca, sem rumo ou sentido. A última sondagem é disso exemplo, pois indica que para um número considerável de portugueses eleitores ser governado por José Sócrates é algo justo, racional e salutar. Um Tartufo que em seis anos levou o País à bancarrota e a níveis insustentáveis de dependência, que comprometeu as novas gerações e alienou o nosso futuro comum é visto não como uma possibilidade mas como uma probabilidade desejável. Porquê? Não sei.

Estes 78 mil milhões de euros que negociámos by the book e segundo a troika são a factura da vaidade de um único homem, Sócrates, e basta lembrar a burlesca contradança a que ele se dedicou nas últimas semanas para se perceber o ponto a que chegou a usura sobre este pobre e cansado País. A apresentação de um ridículo e inútil programa de Governo, atropelando as negociações, para ficar com a primeira palavra, sabendo nós que qualquer programa de Governo terá como matriz o pacote de FMI e que o verdadeiro programa de Governo de Sócrates foi o PEC IV de triste memória; a pressa com que saltou, qual boneco de uma caixa de cartão, para nos vir dizer o que o pacote não tinha (?); uma esponja passada à pressa sobre o que dissera acerca do FMI, esse monstro disposto a comer criancinhas ao pequeno-almoço, sendo ele, Sócrates, a nossa única defesa contra quem nos vinha roubar salários, subsídios de férias, desmantelar a função pública, deitar no caixotebdo lixo as leis laborais; a indisfarçável alegria com que veio logo apresentar o pacote como se fosse ele, e mais ninguém, o seu negociador, ele que irresponsavelmente o protelou, acarretando com isso mais e mais prejuízos para todos nós.

Vejo como muito difícil que estas eleições, só por si, possam criar um quadro renovado e clarificador onde assente, com proveito, o esforço de vencer a crise. Duvido mesmo que a maioria dos portugueses, metralhados por um constante caudal de notícias, se tenha apercebido do que se joga, para todos nós, daqui para a frente, mas sei que a permanência de Sócrates, central neste cenário, é o suficiente para inviabilizar qualquer tentativa. E também sei que as sondagens reflectem estes mesmos receios, a ideia que é preciso juntar forças políticas suficientes para criar a base de sustentação necessária, só que isso não é possível juntando tudo e todos, polícias e ladrões.

Tão mais verdade quanto nos confrontamos com todos os sinais de pré-ruptura de regime, tudo muito além do económico e do financeiro. A necessidade de travar o grande desgaste desta Terceira República que em pouco mais de três décadas assistiu, a par de três visitas do FMI e do descontrolo das contas públicas, à degradação das instituições democráticas, à degradação da política e dos seus agentes numa democracia incapaz de se vigiar a ela própria, ao enfraquecimento do poder de representação e de convocatória das forças políticas, ao alheamento e reduzida participação de uma sociedade desmobilizada. A crise visível vai certamente ser ultrapassada, pois o FMI não impôs apenas as condições do empréstimo como vai ficar por cá a monitorizar a sua execução, passando-nos um outro e mais pesado atestado de menoridade cívica e política como compete a um país que se habituou a viver em estado de incumprimento. Eles nos obrigarão a fazer o que não fizemos a tempo e horas - já agora, como é possível apresentar uma Justiça neste estado a uma entidade estrangeira e não ter muita vergonha? Mas as crises invisíveis ficarão por nossa conta: crise de valores, crise cultural e de identidade, crise de coesão nacional, crise de vontade e de autodeterminação. E temos de as resolver a todas. Só uma não basta.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Olivença
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Além Guadiana apresentad​o em Lisboa

No dia 12 de Maio, pelas 11:00 horas, a associação cultural oliventina "Além Guadiana" apresentar-se-á pela primeira vez em Lisboa.
"Além Guadiana, três anos a promover a cultura portuguesa em Olivença" é a síntese de um movimento cultural nascido na primavera de 2008 com o compromisso de contribuir a recuperar, preservar e valorizar a herança linguística, monumental e etnográfica de raiz portuguesa em Olivença, bem como fomentar a aproximação cultural da Lusofonia. O acto, aberto a todos os interessados, celebrar-se-á na Casa do Alentejo (Portas de Santo Antão, 58) de Lisboa.

domingo, 8 de maio de 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

In memorium
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General Bettencourt Rodrigues

João José Brandão Ferreira

“A Guiné é defensável e deve ser defendida?
se sim, vamos escolher o melhor general
disponível para a governar, vamos conti-
nuar a fazer o esforço de lá manter os ho-
mens necessários e de procurar dotá-los
do material possível. Se não, prepararemos
a retirada progressiva das tropas, para não
prolongar um sacrifício inútil, designando
um oficial – general, possivelmente um
brigadeiro, para liquidar a nossa presença.”
             Marcello Caetano, a Costa Gomes
                               Depoimento, p. 180



Os três grandes generais das guerras liberais foram Saldanha, Terceira e Sá da Bandeira. Os três exerceram também funções governativas. Dos três, e no conjunto das características humanas, Bernardo de Sá Nogueira era, incontestavelmente, o mais completo, o melhor. Chegou a Marquês, enquanto os outros dois subiram a Duque. Nem Sebastião José chegou a tanto. A História tem destas coisas…

No passado dia 28 de Abril, deixou o número dos vivos o General José Manuel Bettencourt da Conceição Rodrigues. Foi o melhor general de todo o século XX português. A afirmação só me compromete a mim e não pretende ser desmerecedora para qualquer outra figura.

Bettencourt Rodrigues nasceu no Funchal, em 1918 – era também conhecido pelo “Zé da Ilha”, uma daquelas designações que enchem o mundo da camaradagem militar – ia completar 93 anos, em 5 de Junho. BR gostava de viver e teve uma vida cheia, mas não se lhe conhecem vilanias.

A sua carreira militar foi brilhante e culminou com a nomeação, em Setembro de 73, para Governador e Comandante-Chefe da então Província da Guiné, onde o 25 de Abril de 74, o foi encontrar. Declarando não desejar aderir ao golpe de estado em curso, foi preso e transferido para Cabo Verde, com outros oficiais.

Já na Metrópole e nada havendo de que o acusar foi, apesar disso, saneado pela mão do próprio General Spínola. Passou à reserva em 14 de Maio desse ano. Enfim, comportamentos que contam para o passivo da “revolução”.

Desde então Bettencourt Rodrigues remeteu-se ao anonimato, não intervindo em nada, não se queixando de nada e recusando qualquer eventual cargo público. Apenas aceitou ser Presidente da Direcção da sua muito querida Revista Militar, cargo que ocupou durante 10 anos e do qual saiu por vontade própria, pois entendia que as pessoas não deviam ficar demasiado tempo à frente das instituições. Uma das muitas atitudes de lucidez e humildade que lhe conheci.

Bettencourt Rodrigues entrou para a então Escola do Exército, em 1936. Cursou Infantaria – a “Rainha das Batalhas” – sendo o 1.º classificado do seu curso; entrou para o então Corpo de Estado-Maior, em 1951, com a classificação de “distinto”; frequentou o”Command and General Staff College”, Fort Leavenworth, EUA, em 1953; foi adido de Defesa em Londres; comandou o Regimento de Artilharia 1; foi Chefe de Estado-Maior do QG, em Angola, no início da guerra subversiva – onde esteve na origem da formação das primeiras tropas “Comando” – mais tarde comandou a frente leste, em Angola (70-73), onde as tropas sob a sua liderança esmagaram as forças inimigas e praticamente acabaram com a guerrilha, ao mesmo tempo que se promovia uma notável acção psico-social. E ainda teve tempo para, no intervalo da sua intensa actividade militar, ter feito parte do último governo do Prof. Salazar, como Ministro do Exército, transitando para o primeiro governo do Prof. M. Caetano, entre 1968-1970, na sequência do curso de Altos Comandos, onde obteve a classificação de “muito apto”.

Finalmente – não cabe neste escrito fazer a radiografia de toda a sua folha de serviços – quando a situação se tornou delicada no teatro de operações da Guiné, o governo foi procurar o melhor general disponível para tão ingente tarefa e escolheu-o, a ele. Não escolheu um “oficial general de baixa patente” para liquidar a situação…

A situação era, de facto, delicada mas menos por acção do inimigo. É certo que a última grande ofensiva do PAIGC, congeminada em Conakri por instrutores cubanos e soviéticos, e iniciada dois meses depois do assassinato de Amílcar Cabral (20-1-1973), sem dúvida levado a cabo por elementos da ala mais dura e marxista do movimento que aquele liderava, tinha deixado marcas nas FAs portuguesas. Mas foram estas que ganharam a batalha, não o PAIGC…

Mais grave teria sido o ambiente de desmoralização e até de revolta que tocou alguns oficiais do QG, em Bissau, originadas nas desavenças entre o Comandante-Chefe, Spínola e o Chefe do Governo, Caetano.

Foi esta a situação (muito resumida) que o novo governador, Bettencourt Rodrigues encontrou quando chegou a Bissau. Não se pode ter certezas quanto ao evoluir de acontecimentos históricos que são subitamente interrompidos, mas estamos em crer que BR iria sair vitorioso dos desafios com que se confrontava.

E tal convicção radica-se na afirmação supra de o considerar o melhor general português do século XX. Porque o afirmamos?

Bettencourt Rodrigues obteve sucesso em todas as missões de que foi incumbido e reunia em si, um conjunto de características raríssimas de se juntarem na mesma pessoa.

Ao chegar ao topo da carreira, Bettencourt Rodrigues possuía, em simultâneo, a competência operacional e de comando de tropas, tanto em tempo de paz como em campanha, e uma elevada aptidão para trabalhos de planeamento e estado-maior. Bettencourt Rodrigues conhecia o género humano, sabia escolher os homens e não era afectado pela lisonja. E para um homem que tinha ocupado os maiores cargos, não se lhe vislumbrava uma ponta de afectação ou de vaidade.

Tinha uma enorme capacidade de trabalho e a sua integridade e carácter eram à prova de bala. Era um português inteiro e, num país de tricas e azedumes constantes, gozava do raro privilégio ao respeito geral. De facto nunca ouvi “dizer mal” do general em qualquer ambiente. Bettencourt Rodrigues nunca prejudicou o seu país, ilustrou-o, e nunca manchou a Honra da Instituição Militar.

Ora tudo isto configura uma personagem notável que, infelizmente, as novas gerações de oficiais e sargentos já não conhecem.

A sua memória está apenas registada numa das salas de aulas do actual Instituto de Ensino Superior Militar, em Pedrouços, onde foi ilustre professor.

À semelhança de Sá da Bandeira que não foi a Duque, Bettencourt Rodrigues, não foi a Marechal. A História tem destas coisas…

Morreu um grande general português – que o seria também nos exércitos mais afamados – a Infantaria perdeu um dos mais dilectos descendentes do seu Patrono, o grande Nuno; o Exército viu desaparecer um dos seus comandantes mais ilustres e a Nação ficou pobre de um dos seus melhores filhos.

Eu perdi um exemplo e um amigo.

Guardarei, porém, um orgulho: o de poder dizer que o conheci.

Foi das melhores coisas que me aconteceram na vida.

Vai fazer-me muita falta.



domingo, 1 de maio de 2011

Portugal e a Finlândia

João J. Brandão Ferreira










“Se Portugal assume hoje lugar de destaque
no calendário diplomático das nações, não
o deve só à sua posição geográfica e mariti-
ma, pois ela sempre existiu através dos vá-
rios acontecimentos internacionais, mas
sem resultados plausíveis. A razão é outra,
não menos digna de ser citada: o exemplo
honesto do viver português; a clareza da
sua administração; a seriedade dos seus
princípios de franca e leal colaboração e
cooperação pela paz e pelo progresso da
civilização”.

                                Winston Churchill – 1948

Tem suscitado algum mal-estar a atitude do “partido dos verdadeiros finlandeses” em não quererem aceitar a ajuda de resgate da UE a Portugal, no âmbito da actual crise financeira que é, antes de mais, um problema político e um problema moral. E podem emprestar-nos um trilião de euros que o problema financeiro não desaparecerá, enquanto estes dois últimos aspectos não forem debelados.

Este mal-estar fez surgir um texto muito bem escrito, da autoria do embaixador Seixas da Costa e de outro do correspondente da TSF, Hélder Fernandes (embora com um lamentável erro e equivoco, neste último).

Os textos criticam, de uma forma elegante, mas dura, a atitude finlandesa, que é neste momento apenas de uma parte dos seus cidadãos mas que, por arranjos partidários, pode vir a assumir-se como uma posição governamental.

Não se pode dizer que os textos não sejam pertinentes e não apelem ao sentimento de justiça e da decência nas Relações Internacionais, chamando ainda a atenção para a solidariedade entre os povos e os altos e baixos que todas as nações têm ao longo da sua História.

Contudo, na situação presente, não cremos que este seja o mote em que se deva pôr o acento tónico. A tónica deve ser colocada em emendar a mão dos nossos erros e apurarmos responsabilidades, não na reacção alheia. Sem isto não ganharemos o respeito de ninguém.

Que diabo, nós não estamos credores de solidariedade por causa de uma catástrofe natural; uma agressão militar injusta ou uma epidemia de cólera! Nós estamos de mão estendida para que outros venham cá tapar o buraco financeiro que nós abrimos por termos gasto o que não tínhamos e aplicado mal o que gerimos…E, ainda por cima, não se trata de nenhuma ajuda desinteressada, já que nos vão cobrar juros exorbitantes e obrigar-nos a uma ditadura de tutela! À atenção dos democratas…

Nós temos de saber organizar-nos e produzir e não ficar à espera dos excedentes que outros criam; nós devemos querer estar numa posição de poder emprestar e que outros nos queiram emprestar, porque sabem que as nossas finanças são saudáveis, a moeda forte e honramos os nossos compromissos a horas e até ao último cêntimo - como acontecia num passado ainda recente.

Nós devemos querer estar numa posição de decidir o que fazemos, independentemente das pressões, como é exemplo a venda de volfrâmio durante a Segunda Guerra Mundial; e até saber colocar-nos numa situação de poder ceder apoio e solidariedade sem ter que cobrar por isso, como foi o caso da utilização da base das Lajes pela USAF, até à renegociação de 1971 (salvo erro), pois a soberania não se aluga e a divida era, assim, moral e não podia ser quantificada.

Finalmente, nós deveríamos tentar estar num plano, de tal modo superior, que até pudéssemos restituir ajudas que não tinham que ser ressarcidas, para enviar bofetadas de luva branca a quem nos ofende, como foi o caso da devolução da ajuda no âmbito do Plano Marshall, aos EUA, em 1962.

Mas só se pode conseguir tudo isto tendo estadistas à frente dos destinos do País e a Nação estiver imbuída de altos ideais e bons exemplos e hoje não temos nem uns nem outros.

Os povos podem não ter o governo que merecem, mas não estão isentos de responsabilidades e sofrem-lhes as agruras ou as bonomias. E não é uma qualquer autarquia, um clube de bairro ou um vendedor de jornais que representa o país: São o PR e o Governo.

A má governação contumaz e a demagogia política (doença infantil da Democracia), colocaram-nos numa situação em que atraímos a comiseração e o desprezo de muitos mas, também, os exploradores da desgraça alheia e os abutres que aguardam o cadáver adiado. O desentendimento crónico entre a classe político – partidária e as birras pessoais dão de nós todos uma imagem confrangedora.

Bom será, portanto, pôr ordem em casa em vez de nos indignarmos com críticas que nos assentam como uma luva. Ficam bem estes arrobos de dignidade e até de bravata, que as duas cartas revelam, mas não resolvem a nossa divida nem iludem a nossa vergonha.

Ter Dignidade é, sobretudo, não a perder.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os príncipes

Filipe Anacoreta Correia

A enorme onda da realidade vai destruir
grande parte das seguranças ilusórias
em que nos apoiámos

Na Florença renascentista, Maquiavel afirmava que "nas acções dos Príncipes, em que não existe tribunal a que recorrer, o que importa é o sucesso das mesmas". "Procure, pois, um Príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados, e no mundo não existe senão o vulgo; os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar".

Vem isto a propósito do calendário político que se vive em Portugal e de como o mesmo tem sido sublimemente conduzido pelos actuais responsáveis partidários. Um dos aspectos que mais impressionam na trágica situação nacional que atravessamos é que, paradoxalmente, ela resulta da enorme competência e engenho político dos seus protagonistas.

José Sócrates tem gerido a crise como um político extraordinário. O seu golpe de precipitar a queda do Governo foi, na perspectiva socialista e naquela que lhe interessa salvaguardar, uma jogada de génio. Deste modo, endossou à oposição e ao país a responsabilidade pela situação de debilidade extrema em que nos encontramos. E continua ao ataque, sempre veloz, sem nunca dar o ângulo a qualquer recuo ou ponderação que não a da sua própria conquista ou manutenção do poder.

E, por seu lado, também os seus opositores têm feito aquilo que está ao seu alcance para afirmarem o seu poder e conquistarem aquele que ainda não têm.

As jogadas do tabuleiro, cada uma à sua medida, têm revelado que temos em Portugal excelentes políticos, altamente profissionais e com grande faro. De uma forma geral e à parte pequenos deslizes, os nossos políticos têm demonstrado que dominam a indústria em que se movem e são muitíssimo competentes.

Prova disso é a afirmação dos diferentes líderes no seio dos respectivos partidos e o unanimismo crescente que granjeiam. Tal unanimismo, em contraste com a ameaça de desintegração social a que assistimos no nosso tempo, é no mínimo ridícula, mas demonstra empenho e uma atitude implacável por parte dos seus protagonistas.

A conquista ou manutenção do poder, sem ponderação do interesse geral sobre o corporativo ou qualquer referência à virtude (no sentido clássico ou aristotélico), é a escola do actual espectro partidário. A política é isso. Dizem que é a conquista e a manutenção do poder. E, nesse esforço, todos estão a fazê-lo bem ou mesmo muito bem.

Fazem-no, é certo, à custa de Portugal, mas isso não interessa. Ninguém parece reparar. Na política, o que importa são as aparências. E a gestão destas sempre deixou pouco lugar aos que apontaram e apontam para outro horizonte. Como dizia Maquiavel, "os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar".

Sucede que se aproxima vertiginosamente uma enorme onda da realidade, que vai destruir grande parte das seguranças ilusórias em que nos apoiámos. Os nossos Príncipes tentam surfar essa onda. Porém, cada vez mais se pode adiar menos o momento do seu impacto.

Temo que, sem outro alcance de responsabilidade, a nossa desfragmentação enquanto Povo seja, mais do que uma possibilidade, uma probabilidade. Ainda que sob o olhar de Príncipes de luva branca.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

25 de Abril, um PR, três ex-PR's...

João José Brandão Ferreira

Palácio de Belém, dia 25 de Abril de 2011, palco maior das comemorações.

Crise nacional, Assembleia da República dissolvida, governo de gestão, troika de futuros mandantes, com o pé na jugular da República, portugueses de tanga, cerviz dobrada.

Ideia maior: juntar os quatro maiores do regime saído da alvorada florida a cravos, apelo à união e ao combate. Parecia boa ideia.

Pareceu apenas por pouco tempo. O tempo de os ouvir falar.

Confesso que decidi ouvi-los sem qualquer expectativa e algum incómodo.

Quatro personagens assaz diferentes, discursos iguais. Iguais? Não, idênticos, as diferenças são de pormenor e, fundamentalmente, de índole ideológico - partidária, por isso sem importância de maior. Idênticos porque disseram praticamente o mesmo, a saber:

Em primeiro lugar genuflectiram, no intróito, à figura do Presidente da Associação supostamente representativa dos herdeiros da revolta, curiosamente alcandorada a uma posição inexistente no Protocolo de Estado; seguidamente e com alguma diferença na ordem discursiva, pode-se dizer que tocaram basicamente em três pontos, sendo eles a glorificação da revolta militar e da condenação do regime anterior, o que se fez a seguir ao dito golpe, que virou revolução e, finalmente, à crise actual. Findaram os quatro com um apelo de esperança como mandam as regras da comunicação de ideias e os cânones das tribunas da política.

Bateram nos derrotados do 24 de Abril porque eles estão quase todos mortos (e não se podem defender) e não deixaram muitos descendentes. Os que ficaram, transvestiram-se, na sua maioria, e deram excelentes zeladores da nova ordem; os que se mantiveram coerentes e corajosos foram, pura e simplesmente, impedidos de existir. Democraticamente, como é óbvio. A escrituração da História pelos vencedores fez o resto.

Obviamente faz parte da liturgia e não podia ser de outra maneira: se não fosse o golpe, os quatro oradores jamais poderiam ter aspirado a ocupar o lugar que ocuparam. Disse os quatro? julgo estar a ser injusto, o actual PR talvez pudesse vir a ser caso a evolução que o Prof. M. Caetano quis fazer, tivesse feito vencimento. Aliás, o seu mais dilecto afilhado andou na mesma onda, no dia anterior, na semanal prédica da TVI.

Em seguida lamentaram todos, cada um à sua maneira, que os ideais de Abril não foram todos cumpridos, esquecendo-se que começou por não ter sido cumprido o próprio manifesto do movimento e que depois disso os “ideais” de Abril se pulverizaram em variadíssimos ideais. Apesar de tudo valeu a pena!...

O Otelo é que anda baralhado. Pelos vistos andou sempre e nunca atinou com nada. Ele, aliás, coitado, confessou que quando fez o golpe não percebia, sic, “patavina de política”. Deus tarda mas não falta.

No fundo, muitas coisas melhoraram e ficámos todos a ganhar, obviamente com o conveniente esquecimento de que tal se deveu às reservas financeiras deixadas pelos execrados “ditadores”, pela intervenção do FMI em duas vezes (esta terceira deve ser para ver se levantam a nota!) e por via da avalanche inusitada de fundos comunitários. Ou seja, em nada existe mérito desta III República, que já só as clientelas partidárias reconhecem como pessoa de bem.

Nos 40 anos anteriores tudo foi feito com meios e esforço próprio e sem pedir nada a ninguém. Deve ter sido por estarmos “orgulhosamente sós”!!...

Quanto ao momento presente, reconhece-se (finalmente!) que é de crise e de crise grave e ficámos a saber que a culpa é de todos embora, condescendem os ditos cujos, que a maior responsabilidade é dos políticos – presume-se à excepção deles próprios, pois chegaram agora vindos de Marte!

Eu peço, até, que me explicitem qual é a minha culpa, para ver ser, patrioticamente e com a máxima humildade, me emendo! Que diabo, não quero ficar de fora do esforço colectivo e entendo perfeitamente que os apaniguados de quem tem bloqueado o Estado na ditadura partidocrata em que transformaram a nossa vida política continuem a ser ressarcidos às dezenas de milhares de euros por mês pelos sacrifícios que fazem a mais do que o comum do cidadão. Ámen.

Quanto a soluções que os senhores preconizam para o futuro, não consegui vislumbrar nenhuma a não ser um conjunto de vacuidades e de princípios sem consequência, que qualquer seguidor do saudoso Padre Américo poderia fazer, sem dúvida com mais assertividade e boa intenção.

Resta uma solução, o apelo ao entendimento dos partidos (pelos vistos não todos…). Ora isto representa a maior idiotice possível pela simples razão que os partidos são parte do problema (eles são o problema), não a solução. Os partidos existem para se combaterem, não para se unirem; os partidos são o regime da guerra civil permanente, a balbúrdia permanente. Ninguém consegue governar assim. O único partido que não é partido é o PC, por ser um misto de doutrina religiosa misturada com uma organização militar. E só é democrático até tomar o poder, aí acaba com os outros todos. Parece que até o próprio Otelo percebeu isto quando foi preso. O Dr. Mário Soares, porém, na sua magnanimidade emanada do alto das tartarugas e elefantes em que se passeou, amnistiou-o. O Dr. Sampaio esqueceu-se de condecorar as vítimas das FP-25 com a Ordem da Liberdade. Um ingrato é o que é.

Em síntese, o que se pode concluir das frases compostas por sujeito, predicado e complemento directo (ao menos isso!), emanadas da figura política mais proeminente do Estado – antigamente apelidada de “veneranda” ou “majestade” e dos principais senadores do regime? Me parece que erros factuais históricos, muitos; interpretações sociais e políticas sem sentido, várias; e quanto a soluções, aos costumes disseram nada. Em bom calão militar”soft” pode dizer-se que estivemos perante um chorrilho de “generalidades e culatras”.

Se assim pensam as cabeças mais coroadas da República, descolaram do resto da população. Ficção e realidade sempre foram coisas diferentes. Mesmo quando a realidade supera a ficção.

No fim de tudo, manteve-se a expectativa – que era nula; aumentou o incómodo.
 


terça-feira, 19 de abril de 2011

Nobre Boaventura!

Blasfémias

                                           « A excelente escolha de Passos Coelho

                                                          Fantástico»

Acabei de ouvir, na TSF, o Professor Boaventura Sousa Santos – que, para além da reconhecida carreira internacional de investigador junta, também ao seu curriculum e entre outras coisas, o facto de ser consultor de Chàvez e de Evo Morales – criticar FERNANDO NOBRE pelo facto de este ter aceitado ser cabeça de lista, em Lisboa, pelo PSD. E, sobretudo, por NOBRE poder vir a ser (caso o PSD vença as eleições) o próximo Presidente da Assembleia da República.

Boaventura acha que NOBRE “sucumbiu à vertigem do poder” e, em toda crítica Boaventuriana, nota-se, subjacentemente, uma elevada censura ética e moral. Não se percebe bem se essa censura resulta de NOBRE poder vir a ser o próximo Presidente da Assembleia da República ou se deriva, implicitamente, do facto de se ter associado, como independente, ao PSD….

É, no mínimo, curiosa, a acusação de “vertigem do poder”, vinda de quem é próximo (e apoia) os “desprendidos” (do poder) Chávez e Morales….

No entanto, o que parece, sobremaneira, injusto e mesmo contraditório é o tom de censura moral com que tenta estigmatizar NOBRE. Vertigem do poder? Por poder ocupar o cargo de Presidente da Assembleia da República? Então NOBRE que, em termos de resultados, surpreendeu nas últimas Presidenciais, não pode, agora, ser candidato nas legislativas? Deixa de ter moral, por se apresentar pelo PSD?

Afinal, se há um partido que se abriu a independentes (independentes até mesmo com um discurso “anti-partidos”) poderá, pelo menos, dar-se o crédito de que algo de novo em relação ao que tradicionalmente se critica nos “aparelhos”, estará a suceder… O mérito - com muita pena de Boaventura, imagino eu - é que os partidos portugueses mais “Chavistas” e “Moralesistas” não tenham tido a coragem de fazer o mesmo!

Dois pesos e duas medidas (e um enorme preconceito), também para a tal “moral” política de Boaventura, consoante, na sua cabeça, os actos vêm da “sua” esquerda ou não?




Foi pedido o resgate

Henrique Medina Carreira, Wordpress

Bom, dado o que está em causa é tão só o futuro dos nossos filhos e a própria sobrevivência da democracia em Portugal, não me parece exagerado perder algum tempo a desmontar a máquina de propaganda dos bandidos que se apoderaram do nosso país. Já sei que alguns de vós estão fartos de ouvir falar disto e não querem saber, que sou deprimente, etc, mas é importante perceberem que o que nos vai acontecer é, sobretudo, nossa responsabilidade porque não quisemos saber durante demasiado tempo e agora estamos com um pé dentro do abismo e já não há possibilidade de escapar.

Estou convencido de que aquilo a que assistimos nos últimos dias é uma verdadeira operação militar e um crime contra a Pátria (mais um). Como sabem há muito que ando nos mercados (quantos dos analistas que dizem disparates nas TVs alguma vez estiveram nos ditos mercados?) e acompanho com especial preocupação (o meu Pai diria obsessão) a situação portuguesa há vários anos. Algumas verdades inconvenientes não batem certo com a "narrativa" socialista há muito preparada e agora posta em marcha pela comunicação social como uma verdadeira operação de PsyOps, montada pelo círculo íntimo do bandido e executada pelos jornalistas e comentadores "amigos" e dependentes das prebendas do poder (quase todos infelizmente, dado o estado do "jornalismo" que temos).

Ora acredito que o plano de operações desta gente não deve andar muito longe disto:

Narrativa: Se Portugal aprovasse o PEC IV não haveria nenhum resgate.

Verdade: Portugal já está ligado à máquina há mais de 1 ano (O BCE todos os dias salva a banca nacional de ter que fechar as portas dando-lhe liquidez e compra obrigações Portuguesas que mais ninguém quer – senão já teríamos taxas de juro nos 20% ou mais). Ora esta situação não se podia continuar a arrastar, como é óbvio. Portugal tem que fazer o rollover de muitos milhares de milhões em dívida já daqui a umas semanas só para poder pagar salários! Sócrates sabe perfeitamente que isso é impossível e que estávamos no fim da corda. O resto é calculismo político e teatro. Como sempre fez.

Narrativa: Sócrates estava a defender Portugal e com ele não entrava cá o FMI.

Verdade: Portugal é que tem de se defender deste criminoso louco que levou o país para a ruína (há muito antecipada como todos sabem). A diabolização do FMI é mais uma táctica dos spin doctors de Sócrates. O FMI fará sempre parte de qualquer resgate, seja o do mecanismo do EFSF (que é o que está em vigor e foi usado pela Irlanda e pela Grécia), seja o do ESM (que está ainda em discussão entre os 27 e não se sabe quando, nem se, nem como irá ser aprovado).

Narrativa: Estava tudo a correr tão bem e Portugal estava fora de perigo mas vieram estes "irresponsáveis" estragar tudo.

Verdade: Perguntem aos contabilistas do BCE e da Comissão que cá estiveram a ver as contas quanto é que é o real buraco nas contas do Estado e vão cair para o lado (a seu tempo isto tudo se saberá). Alguém sinceramente fica surpreendido por descobrir que as finanças públicas estão todas marteladas e que os papéis que os socráticos enviam para Bruxelas para mostrar que são bons alunos não têm credibilidade nenhuma? E acham que lá em Bruxelas são todos parvos e não começam a desconfiar de tanto óasis em Portugal? Recordo que uma das razões pela qual a Grécia não contou com muita solidariedade alemã foi por ter martelado as contas sistematicamente, minando toda a confiança. Acham que a Goldman Sachs só fez swaps contabilísticos com Atenas? E todos sabemos que o eng.º relativo é um tipo rigoroso, estudioso e duma ética e honestidade à prova de bala, certo?

Narrativa: Os mercados castigaram Portugal devido à crise política desencadeada pela oposição. Agora, com muita pena do incansável patriota Sócrates, vem aí o resgate que seria desnecessário.

Verdade: É óbvio que os mercados não gostaram de ver o PEC chumbado (e que não tinha que ser votado, muito menos agora, mas isso leva-nos a outro ponto), mas o que eles querem saber é se a oposição vai ou não cumprir as metas acordadas à socapa por Sócrates em Bruxelas (deliberadamente feito como se fosse uma operação secreta porque esse aspecto era peça essencial da sua encenação). E já todos cá dentro e lá fora sabem que o PSD e CDS vão viabilizar as medidas de austeridade e muito mais. É impressionante como a máquina do governo conseguiu passar a mensagem lá para fora que a oposição não aceitava mais austeridade. Essa desinformação deliberada é que prejudica o país lá fora porque cria inquietação artificial sobre as metas da austeridade. Mesmo assim os mercados não tiveram nenhuma reacção intempestiva porque o que os preocupa é apenas as metas. Mais nada. O resto é folclore para consumo interno. E, tal como a queda do governo e o resgate iminente não foram surpresa para mim, também não o foram para os mercados, que já contavam com isto há muito (basta ver um gráfico dos CDS sobre Portugal nos últimos 2 anos, e especialmente nos últimos meses). Porque é que os media não dizem que a bolsa lisboeta subiu mais de 1% no dia a seguir à queda? Simples, porque não convém para a narrativa que querem vender ao nosso povo facilmente manipulável (julgam eles depois de 6 anos a fazê-lo impunemente).

Bom, há sempre mais pontos da narrativa para desmascarar mas não sei se isto é útil para alguém ou se é já óbvio para todos. E como é 5.ª feira e estou a ficar irritado só a escrever sobre este assunto termino por aqui. Se quiserem que eu vá escrevendo mais digam, porque isto dá muito trabalho.