sábado, 23 de maio de 2015


Um «transportador de desassossegos»


Maria de Fátima Bonifácio, Público, 22 de Maio de 2015

Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo.

Na realidade, este artigo sobre António Nóvoa também se poderia chamar «O sonho comanda a vida». A noite de 29 de Abril, em que lançou a sua candidatura à Presidência da República, não foi inteira nem limpa. Fragmentos de versos de Sophia, de Zeca Afonso e de Sérgio Godinho foram usados para adornar e ocultar a absoluta vacuidade do discurso do candidato, ex-magnífico reitor da Universidade de Lisboa, descendente de uma «família da nobreza». Esta informação relevantíssima, prestada há dias no decurso de uma reportagem-vídeo do JN, tranquilizou-me imenso. Portugal está farto de presidentes plebeus.

O discurso não tem princípio, meio e fim. Não passa de uma lista arbitrária de evocações, exortações, visões, desejos, intenções, desabafos, promessas, divagações. Os poetas estão lá para introduzir a tonalidade lírica e onírica que convoca os ouvintes para sonhar. Sonhar com «um caminho de mudança e de esperança» que não sabem qual é, onde está e para onde leva. Sonhar com «fazer a diferença» que não sabem em que consiste nem no que resulta. Sonhar com «uma outra visão, uma outra ideia do que pode ser Portugal», não lhes sendo dito quais sejam nem com que se parecem. E por aí fora, uma longa, longa série de lugares-comuns e puras abstracções servidas numa pseudo-poesia barata e possidónia. Nóvoa revolta-se contra «uma austeridade» que fragilizou e empobreceu Portugal e indigna-se com uma «política» incapaz de apresentar «uma única ideia de futuro». Lê-se e pasma-se: ele próprio não apresenta nem a sombra de metade duma. Um voto em Nóvoa é um cheque em branco.

É-o por razões mais graves, que ocorrem percorrendo a entrevista ao PÚBLICO de 30 de Abril. De novo, lê-se e pasma-se. A sua ideia de campanha eleitoral é todo um programa para a Presidência. Informal, basista, feita de «redes animadas pelas pessoas»; sem a «organicidade» que mata a imaginação e coarcta a iniciativa espontânea das «pessoas». Nóvoa espera delas quase tudo, incluindo as ideias que ele não tem. Resultará? Há «risco», mas o «transportador de desassossegos» (assim lhe chama Barata Moura) «preferirá sempre morrer ingénuo do que amargurado». Não lhe ocorre que a ingenuidade na fase adulta da vida ou indica estupidez e imperdoável inexperiência, ou significa que se passou pela vida sem dar por ela, em estado de permanente distracção. Mas grave é apenas a hipocrisia, porque a universidade é um meio humano como qualquer outro: com invejas, raivas, disputas, competições e por aí fora, como na política. E, tal como na política, não se chega a reitor sem muito jogo de cintura. Nóvoa não é puro e virginal.

Porém, mais grave do que a hipocrisia, é a incógnita política que Nóvoa representa. Sabemos que execra a austeridade, mas deixa-nos no absoluto desconhecimento da alternativa que teria a oferecer — pelo motivo de que nem ele sabe. É facto que jura renegociar a dívida «até ao limite do possível», mas ignora por onde passam o limite e o possível. Reconhece que somos prisioneiros dos compromissos assumidos com a Europa e que «honradamente temos de os cumprir». Mas já nada nos obriga a cumpri-los «de forma ordeira». Iremos todos em voos fretados berrar para Bruxelas? A Europa, paradoxalmente e infelizmente, «transformou-nos a todos em eurocépticos». Há lá muito que mudar, «e seriamente». E Nóvoa é o homem providencial para abraçar esse combate e demonstrar ao mundo «que as políticas de austeridade não são uma inevitabilidade». Como a Grécia tem constatado, os credores europeus são fáceis de converter e comover.

Sabemos também que se «irrita» com «a inevitabilidade do centro» em Portugal; que acha o «famoso arco da governação (…) uma coisa verdadeiramente insuportável». As contas são fáceis de fazer: com esse «arco» malfadado, 20% dos portugueses ficam «excluídos» «logo à partida». O remédio, como se adivinha, está em puxar o arco para a esquerda até incluir o Bloco e o PC. Mas, nesta hipótese humana e generosa, ficam excluídos 80% dos portugueses. Temos então um problema ainda maior? Não, ou pelo menos assim o diz Nóvoa. Porquê? Porque com o seu génio negocial e a sua vocação para os consensos, de que constantemente se gaba, fará milagrosos entendimentos. «A partir do respeito pela diversidade, temos de ter a capacidade de fazer entendimentos que resultem da vontade popular.» Mas que talismã lhe dirá qual é a vontade popular, pois que ela só se revela validamente através do voto partidário? Ao cabo de tantos e tantos anos, e de tantos esforços, Nóvoa ainda não assimilou um dado elementar da vida política portuguesa, a saber, que a extrema-esquerda recusa liminarmente todo o «entendimento» com qualquer partido integrante do «insuportável» arco da governação. Ainda ontem o Bloco apresentou um programa eleitoral que tomava por pressuposto assumido a saída de Portugal do euro, e da Europa, aliás, já há muito defendida pelo PCP. Como pensa Nóvoa «entender-se» com eles?

Não pensa nada. Inquirido, há dias, se se sentia mais próximo do Partido Socialista ou do Partido Comunista, o candidato à Presidência da República respondeu: «Não sei.» Está tudo dito. Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo. De resto, salvo um convívio informal com a LUAR nos seus tempos de juventude, que lhe proporcionou o conhecimento de Zeca Afonso e «os momentos mais importantes da sua vida», nunca se conspurcou no antro dos partidos. A sua candidatura, que ainda não recebeu o apoio declarado de nenhuma dessas agremiações, é «pessoal». Esta circunstância confere-lhe uma «independência» «na qual sectores militares se revêem com alguma simpatia». Eis o que nos deve tranquilizar a todos. Tanto mais que «sempre foi muito desalinhado». «Nunca me filiei.»

Não tenhamos dúvidas de que este «transportador», caso António Costa cometa o erro colossal de o impor ao PS, vai derramar sobre as nossas cabeças (e sobre a dele) uma chuva de «desassossegos».





terça-feira, 19 de maio de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015


«Apocalise abruto»

Acordo ortográfico


Octávio dos Santos, Público, 13 de Março de 2015

A imposição — ilegítima, ilegal, imoral, inútil, prejudicial, ridícula, totalitária — do dito «Acordo Ortográfico de 1990» como que já «normalizou», aparente e infelizmente, aberrações como «atividade», «ator» e «atriz», «direto», «espetáculo», e outras (de)mais. Porém, bastantes «anomalias» adicionais têm vindo a ocorrer induzidas pela ideia — errada mas compreensível — de que, com o AO 90, qualquer consoante de pronunciação minimamente «duvidosa» provavelmente não deve estar antes de outra.

Este perigo de proliferação, de multiplicação, de erros, de deturpações foi previsto e alertado atempada e acertadamente por muitos opositores do dito cujo, que então não receberam toda a atenção que mereciam mas que agora vêem os seus receios confirmados. Com exemplos como:


«abruto»,

«acupuntura»,

«adatação»,

«adeto»,

«adómen»,

«ajunto»,

«amidalite»,

«aministração»,

«aministrador»,

«anistia»,

«apocalise»,

«artefato»,

«autótenes»,

«avertência»,

«batéria»,

«batericida»,

«carateres»,

«cetro»,

«compatar»,

«conetar»,

«conosco»,

«contratura»,

«convição»,

«cootar»,

«correu»

«corrução»,

«corrutor»,

«critografia»,

«dianóstico»,

«disseção»,

«dítico»,

«dútil»,

«eletroténico»,

«elipsou(-se)»,

«elise»,

«elítico»,

«enográfico»,

«erução»,

«esfínter»,

«espetativa»,

«espetável»,

«espetro»,

«estupefato»,

«etópica»,

«eucalito»,

«expetoração»,

«ezema»,

«fição»,

«fratais»,

«frição»,

«ginodesportivo»,

«helicótero»,

«histeretomia»,

«ilariante»,

«impato»,

«indenização»,

«infeciologia»,

«intato»,

«inteleto»,

«interrução»,

«interrutor»,

«invita»,

«iterícia»,

«latente» (não o que ainda não se manifestou exteriormente),

«manífico»,

«mastetomia»,

«mição»,

«nétar»,

«Netuno»,

«oção»,

«ocional»,

«onívoros»,

«ostáculo»,

«ostipação»,

«otanagem»,

«otativo»,

«otogenário»,

«otógono»,

«pato» (não a ave),

«perfecionista»,

«piroténico»,

«pitórico»,

«plânton»,

«politénico»,

«protologia»,

«proveta» (não a dos bebés e dos laboratórios),

«putrefato»,

«refratário»,

«réteis»,

«reto» (não a parte da anatomia),

«seticemia»,

«setor»,

«sução»,

«sujacente»,

«suntuoso»,

«ténica»,

«tenologia»,

«tenológico»,

«tetónico»,

«trato» (não a forma de lidar com outros),

«trítico»,

«tumefação»,

«tumefato»,

«umidade» e

«vasetomia».


Quais são as letras que faltam nas «palavras» acima referidas? Já não são só os «c’s» e os «p’s» que cortam... os «b’s», os «g’s», os «h’s», os «m’s», os «n’s» e os «t’s» também podem desaparecer!

Localizadas e compiladas por João Pedro Graça, principal impulsionador da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, e que assim alargou e levou até às últimas — e assustadoras — consequências um trabalho meritório de denúncia em que também têm participado, entre outros, João Roque Dias, Francisco Miguel Valada, Fernando Venâncio e António Fernando Nabais, as asneiras acima citadas não foram detectadas em meros, modestos, blogs ou páginas de Facebook de jovens ortograficamente inexperientes, iliteratos e ignorantes. Estavam e estão em sítios oficiais de importantes instituições e empresas, públicas e privadas, incluindo estabelecimentos de ensino superior e órgãos de comunicação social. Como:


A Bola,

Autoridade Tributária e Aduaneira,

Banco Santander,

Boehringer Ingelheim,

Câmara Municipal de Alfândega da Fé,

Câmara Municipal de Guimarães,

Câmara Municipal de Viseu,

CMTV,

Correio da Manhã,

Correio do Minho,

Destak,

Diário da República,

Diário de Notícias,

Diário do Alentejo,

Direcção-Geral do Património Cultural,

Escola Superior de Educação de Bragança,

Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu,

Expresso,

Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto,

Fenprof,

FNAC,

Fundação Calouste Gulbenkian,

Instituto Polité(c)nico de Coimbra,

Instituto Politécnico de Lisboa,

Instituto Politécnico de Viseu,

Jornal de Notícias,

Lusitânia Seguros,

MaisFutebol,

Ministério da Educação e Ciência,

OLX,

Portugalio,

Presidência do Conselho de Ministros,

Procter & Gamble,

Revista Portuguesa de Cardiologia,

Sapo,

SIC,

Tribunal da Relação do Porto,

TVI,

Universidade de Aveiro,

Universidade Católica Portuguesa,

Universidade do Porto,

Universidade Lusófona e

Visão.


Para saber quem «escreveu» o quê deve-se ir ao sítio da ILCAO (http://ilcaocedilha.net) e consultar o inacreditável «inventário» em constante actualização. Que constitui uma prova irrefutável e definitiva deste «apocalise abruto», deste «cAOs» ortográfico — e, consequentemente, também comunicacional, cultural e educativo — que está a alastrar em Portugal.

Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido?


De Belém e de S. Bento espera-se uma resposta. Urgentemente.





domingo, 17 de maio de 2015

A degradação das Forças Armadas

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sexta-feira, 15 de maio de 2015


Crime contra a Língua Pátria


Em próximas eleições, votar apenas em partidos que defendam a revogação da lei do aborto ortográfico engendrado por Santana Lopes quando Secretário de Estado de Cavaco, e depois confirmado pelos sucessivos politiqueiros.






quinta-feira, 14 de maio de 2015


O que queria Nemtsov revelar

para ser assassinado?


José Milhazes, Observador, 13 de Maio de 2015

Os parentes de 150 dos soldados russos mortos na Ucrânia receberam uma indemnização de cerca de 34 mil euros para assinarem um documento onde garantiam guardar segredo sobre a causa da sua morte.

No dia 27 de Fevereiro, Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição russa, foi abatido a tiro «nas barbas» do presidente Putin, ou seja, muito perto do lugar mais bem guardado da Rússia: o Kremlin. A polícia fez rapidamente detenções, mas, até agora, os detidos negam o seu envolvimento no crime e a investigação poderá terminar como as anteriores: os verdadeiros organizadores de assassinatos de políticos e jornais opositores continuam em liberdade.

Segundo os aliados políticos de Nemtsov, uma das causas do seu assassinato poderia ter sido o facto de ele estar a preparar um livro sobre a ingerência militar russa nos assuntos da vizinha Ucrânia e os custos económicos disso. Por isso, eles decidiram terminar a investigação iniciada por Nemtsov e publicá-la num relatório: «Putin. Guerra».

Os dirigentes da oposição russa consideram que a política externa agressiva do Kremlin em relação à Ucrânia foi planeada com vista a fazer subir a popularidade do presidente Putin depois das eleições de 2012, quando se viu perante uma forte contestação nas ruas. Tudo foi planeado com antecipação: desde o suborno de altas patentes militares e dos serviços secretos ucranianos até a concessão de empréstimos, em condições vantajosas, pelos bancos russos a homens de negócios da Crimeia que defendiam posições pró-russas.

Para Nemtsov, o derrube do presidente ucraniano Victor Ianukovitch foi apenas o pretexto para dar início à intervenção militar aberta da Rússia no país vizinho.

No relatório apresentam-se as declarações contraditórias de Putin para explicar a forma de anexação da Crimeia. Em Março de 2014, ele dizia  à agência Bloomberg: «São forças de autodefesa locais», acrescentando que o facto de esses «homens verdes» trajarem fardas russas se devia ao seguinte:  «Olhe para o espaço post-soviético. Está cheio de uniformes semelhantes… no nosso país, vai a uma loja e compra qualquer uniforme».

Porém, um ano depois, o mesmo Putin revelava numa das suas «conversas com o povo»: «Não escondi que a nossa tarefa consistia em criar condições para a expressão livre da vontade por parte dos habitantes da Crimeia… Por isso, claro que, por detrás das forças de autodefesa da Crimeia, estavam os nossos militares».

Nemtsov, baseando-se em fontes de informação abertas, noutras confidenciais e em conversas com familiares de militares, escreve que, no mínimo, 150 soldados russos morreram na batalha de Ilovaysk, em Agosto de 2014, e cerca de 70 em Devaltsevo, no início de 2015.

Para que a Rússia não fosse acusada de ingerência directa, os militares eram obrigados a pedir férias antes de serem enviados para a frente dos combates. Os parentes dos 150 soldados mortos receberam uma indemnização de 2 milhões de rublos (cerca de 34 mil euros) depois de assinarem um documento onde garantiam guardar segredo sobre a causa da morte dos soldados. Os dos restantes 70 nada receberam até agora.

Quanto aos custos da guerra para a Rússia, Serguei Aleksachenko,  antigo vice-presidente do Banco Central da Rússia e um dos peritos que terminou o trabalho iniciado por Nemtsov, calculou que o país gastou 53 mil milhões de rublos (pouco menos de mil milhões de euros) no apoio aos separatistas pró-russos do Leste da Ucrânia  em apenas dez meses; 80 mil milhões de rublos (mais de mil milhões de euros) com os refugiados ucranianos desde Julho de 2014 e 2 750 mil milhões de rublos (cerca de 40 mil milhões de euros) na ajuda à Crimeia depois da anexação.

Escusado será dizer que as autoridades russas negam a veracidade dos factos citados, mas não conseguiram ainda explicar porque é que Boris Nemtsov foi abatido a tiro no centro de Moscovo.

Alexey Navalny, outro líder da oposição, que publicou este relatório na sua página na internet, considera que se trata de «um relatório bom, sério, que identifica todas as citações, materiais utilizados e fontes dos dados».





domingo, 3 de maio de 2015


Crónicas da cambada num país a saque

A história escondida por detrás da greve
dos pilotos da TAP


Diana Palma Duarte, Sandra Felgueiras, Rui Cardoso e Vanessa Brízido,
1 de Maio, de 2015.


A história está a provocar uma guerra nunca antes vista entre comandantes. O foco deste braço de ferro é o assessor financeiro do sindicato, acusado de ser o grande estratega da paralisação.

Lino da Silva é comandante no activo mas não é sindicalizado. Nos tempos livres é consultor financeiro e assina como Paulo Rodrigues.

Nos últimos anos, esteve por detrás de todas as grandes negociações do sindicato dos pilotos e cobrou mais de um milhão de euros, pelos serviços prestados.

A preparação desta greve já lhe rendeu 170 mil euros do sindicato.






Acordo Ortográfico







sexta-feira, 1 de maio de 2015


O dilema de uma mãe socialista


Inês Teotónio Pereira


Eu, tal como o PS, compro tudo aos meus filhos sem vergonha nenhuma e prometo-lhes o céu e a terra só para poder ver o telejornal descansada.


Estava eu a ler o programa eleitoral socialista e pela primeira vez em toda a minha vida – que já vai mais longa que o regime democrático – identifiquei-me pessoalmente com o PS. Até à data eu tinha a convicção profunda de que em minha casa só os meus filhos eram socialistas e apenas os pais continuavam a ser as mesmas duas pessoas lúcidas que sempre foram. Estava enganada, o programa do PS levou-me a concluir que afinal eu também sou uma mãe socialista. Cheguei a esta curiosa conclusão porque percebi que o PS lida com os portugueses da mesma forma que eu lido com os meus filhos.

O PS, segundo o seu programa eleitoral, promete o que tem e o que não tem e com estas promessas tem esperança de vir a ter mais votos. As contas não batem certo, as previsões são baseadas na esperança e até faz tábua rasa de tudo o que tem dito até aqui. Ora eu sou igualzinha com os meus filhos: também lhes prometo tudo na esperança que eles me obedeçam e cumpram as suas obrigações. Digo uma coisa num dia e outra coisa noutro dia só para fazer chegar a água ao meu moinho e nem me preocupo com a coerência das minhas promessas porque as batalhas diárias não dão espaço para preocupações dessa ordem.

Nós, eu e o PS, fazemos tudo para atingir os nossos resultados: o PS votos e eu que os miúdos vão para a cama. Até hoje eu achava que esta não era a melhor forma de educar crianças, que não devia prometer tanto e muitas vezes não conseguir cumprir. Achava ingenuamente que os estava a comprar e que isso era mau. Mas graças ao PS percebi que não, que não é mau. É que segundo o economista do PS João Galamba comprar votos é um mero exercício de democracia.

Obrigada, João Galamba, já somos dois democratas.

Eu, tal como o PS, compro tudo aos meus filhos sem vergonha nenhuma e prometo-lhes o céu e a terra só para poder ver o telejornal descansada. Prometo-lhes chupas se eles tirarem boas notas, rebuçados se se calarem, cinema se se portarem bem, a chucha ao bebé se ele comer a sopa, etc. E a verdade é que muitas vezes não cumpro essas promessas. Não é por mal, é que muitas vezes não tenho tempo para os levar ao cinema, raramente tenho chupas em casa e na maioria dos casos nem me lembro do que prometi. Enfim, vivo a subornar os meus filhos e a fazer-lhes promessas falsas. Não por votos, como o PS, mas por causas muito menos nobres, como seja o sucesso escolar deles, o meu sossego, eles comerem legumes, etc. A minha veia democrata e socialista é de tal forma latejante que até lhes prometo que se estudarem podem vir a ser economistas do PS, assinar manifestos e até chegar a ministros.


Ora aquilo que eu achava que era uma fragilidade maternal, um erro pedagógico, uma forma de compensar a minha falta de autoridade e de verdade, afinal não é. Este é um dos casos em que os fins justificam os meios, ensinou-me o PS. Eu compro os meus filhos para eles fazerem o que eu quero, o PS faz o mesmo com os portugueses para ganhar eleições.

São ambos bons fins e ao que parece até são democráticos.

Mas eu ainda tenho muito a aprender com o PS e gostava sinceramente que outro programa eleitoral ou outra qualquer declaração do economista João Galamba me ensinassem. O meu grande problema, que aproveito para partilhar com o PS, é que os meus filhos já me toparam e eu sinto-me mal. Eu sei que o PS não tem esta preocupação e já ultrapassou estes dilemas morais, mas ainda sou verde nestas coisas do socialismo e por isso tenho uma dúvida: o PS nunca tem vergonha?





domingo, 26 de abril de 2015


Henrique Neto e o «Acordo Ortográfico»


Heduíno Gomes

Henrique Neto apresenta-se como anti-sistema mas afinal, no concreto, sobre esta questão tão importante do chamado «Acordo Ortográfico», diz nim, baralha e volta a dar. «Vamos melhorar a porcaria» – eis, em síntese, a sua posição conciliadora.

Ele já tinha tido má nota com a sua vontade do novo aeroporto, contra todas as opiniões técnicas, incluindo as de segurança, ser construído na Ota, isto é, mais perto da terra dele. E agora isto...





sábado, 25 de abril de 2015


Petição entrega de Olivença a Portugal



http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=Olivenca

Para: Só permitido a cidadãos Portugueses

PETIÇÃO

Petição usando a internet.

O nome e o número do Bilhete de identidade ou Cartão de cidadão são obrigatórios.

Só podem assinar esta petição cidadãos Portugueses.

São necessários 4 000 assinaturas válidas.

Petição ao Governo da Republica Portuguesa.

Em particular, «ao Senhor Primeiro-Ministro e ao Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros».

Objecto da petição: entrega de Olivença a Portugal.

Esta petição tem como base o artigo 5 da Constituição da República Portuguesa no seu n.º 3, – preceitua – «O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da rectificação de fronteiras.»

Esta petição respeita o que está disposto na Lei n.º 43/90 de 10 de Agosto – Exercício do Direito de Petição, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 6/93, de 1 de Março e Lei n.º 15/2003, de 4 de Junho e Lei n.º 45/2007, de 24 de Agosto.

A Vila de Olivença foi conquistada pelos portugueses aos mouros, pela primeira vez em 1166. A sua posse definitiva foi reconhecida em 1297, no Tratado de Alcanices, quando foram fixadas as fronteiras entre Portugal e Castela. Durante mais de 600 anos a sua população bateu-se contra as investidas de Castela e depois da Espanha (a partir de 1492) para preservar a sua identidade nacional.

No dia 20 de Maio de 1801, o exército espanhol, tomou o Concelho de Olivença, usurpando 750 km2 do território de Portugal, incluindo uma das suas vilas mais importantes.

Esta usurpação ocorreu num momento particularmente dramático para Portugal, dado que vivia sob a ameaça de uma invasão pelo exército francês. A Espanha aproveitou-se desta fragilidade de Portugal, e declarou-lhe guerra pela força das armas, ocupando, em violação do direito internacional, um território que não lhe pertencia, subjugando uma população indefesa.

Em 1815, após inúmeras manobras negociais, a Espanha compromete-se a devolver aquilo que havia roubado a Portugal, mas acabou por nunca o fazer. Pelo contrário, iniciaram uma sistemática política de genocídio cultural de uma parte do povo português e de ocultação das marcas de um crime.

Em 1817 a Espanha reconheceu a soberania portuguesa subscrevendo o Congresso de Viena de 1815, comprometendo-se à retrocessão do território o mais prontamente possível. Porém, até aos dias de hoje, tal ainda não aconteceu.

Para tentar provar que Olivença não é Portuguesa, recentemente a Igreja de Santa Maria Madalena, Manuelina, foi eleita por Espanha Monumento Espanhol. Mas o seu estilo, a sua arquitectura, as armas que ostenta, são indubitavelmente Portuguesas.

Exigimos a entrega imediata de Olivença a Portugal pela potência invasora.

Apoie esta Petição. Assine e divulgue. O seu apoio é muito importante.

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=Olivenca





quinta-feira, 23 de abril de 2015


Escrevo como aprendi,

porque aprendi com quem sabia


Nuno Fradique Vieira, Público, 27 de Março de 2015

Para a dra. Maria Alice não existia «um erro sem importância» — um erro era um erro e a dra. Maria Alice não tolerava erros.

1. A dra. Maria Alice era o terror do meu colégio. Quando a dra. Maria Alice assomava ao fundo do corredor, que o vagar do seu passo fazia interminável, a algazarra tornava-se murmúrio, o rebuliço serenidade fingida e ia-se a esperança de que aquele fosse enfim o dia da sua primeira «falta».

Na ponta oposta do corredor ficava a sala 1. A dra. Maria Alice dava aulas na sala 1 – mais ninguém dava aulas na sala 1 e ela não dava aulas em nenhuma outra. A sala 1 era «a sala da dra. Maria Alice» e a dra. Maria Alice era «a professora de Português».

A dra. Maria Alice era severa e carrancuda. As únicas paixões que lhe conheci foram o ensino, o rigor e a Língua Portuguesa. Para a dra. Maria Alice não existia «um erro sem importância» – um erro era um erro e a dra. Maria Alice não tolerava erros. Quando algum se apresentava, a punição imediata fazia com que não tornasse. Mas os bons resultados eram premiados com presentinhos – livros, claro – pagos pelo bolso próprio. Ainda guardo um.

Nos «pontos», a dra. Maria Alice usava uma escala de classificações peculiar que incluía «Óptimo», «Péssimo» e «Recuso-me a ler isto». Nas aulas, a dra. Maria Alice não se limitava a dizer «é assim» – a Dra. Maria Alice explicava porque é que era assim, ensinando-nos a génese de cada palavra a partir da sua raiz latina ou grega; e mais tarde isso facilitou sobremaneira a nossa aprendizagem de outras línguas. Ensinou-nos, também, que «parvo» vem do Latim, «ParvusParvaParvum», e significa – quem o diria! – pequeno. «Pequeno de espírito», costumava ela repetir pensando certamente em alguém, «pequeno de espírito».

A dra. Maria Alice não tinha idade; acho que foi sempre velha. Era velha quando me tornei seu aluno, assim ficou enquanto minha professora e velha permaneceu até morrer. A dra. Maria Alice nunca se casou e, como Brás Cubas, não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. O que a dra. Maria Alice alcançou foi ensinar Português correcto a incontáveis gerações. Essa foi a sua herança.

2. Em prol da memória da dra. Maria Alice, agradeço ao PÚBLICO por não enveredar pelo caminho do «menor esforço» que está a conduzir à destruição da Língua Portuguesa e ao aumento da iliteracia – criando situações deploráveis onde escritores consagrados por um Nobel celebram «patos» com o diabo e sinais de trânsito proíbem a passagem «exeto» para (ironia das ironias) acesso à Faculdade de Letras e à Faculdade de Ciências.


Escusando-se a adoptar o «Acordo Ortográfico» de 1990, que não é «Acordo» (porque um acordo pressupõe a concordância de todas as partes) e não é «Ortográfico» (porque a palavra grega «orthós», como a dra. Maria Alice nos ensinou, significa «direito» – e este pseudo-acordo é uma ode à tortuosidade, à incoerência e à pequenez de espírito), o PÚBLICO está a preservar o legado de todos os professores e professoras que foram como a minha hoje querida dra. Maria Alice.

Bem hajam!


Nota – Junte-se a nós no Facebook; adira a «Cidadãos contra o 'Acordo Ortográfico' de 1990»






PS: o problema do socialismo

não é a gaveta, é o caixão


Ana Sá Lopes, Jornal i, 22 de Abril de 2015

O programa ontem apresentado pelo PS facilita os despedimentos, abraça a outrora criticada TSU e dá um tiro de canhão na sustentabilidade da Segurança Social

Já sabíamos que a social-democracia europeia era uma corrente política em coma profundo – ou que já morreu e ninguém nos avisou. Através do chamado «consenso europeu» tem acumulado derrotas sobre derrotas político-ideológicas. Ontem, foi a vez do PS português nos mostrar a sua versão particular desta derrota: inventou uma liberalização de despedimentos, recuperou a Taxa Social Única e decidiu dar um pontapé na sustentabilidade da Segurança Social para as gerações futuras.

O nosso mundo torna-se absolutamente estranho quando uma deputada do CDS, Cecília Meireles, consegue ser mais «à esquerda» que um grupo de economistas que António Costa convidou para fazer o pré-programa de governo. Disse Cecília Meireles, lembrando que o CDS sempre defendeu um regime opcional sobre os descontos para a Segurança Social: «O PS vem agora propor um sistema obrigatório, a partir de determinado montante não são pagas contribuições e as pensões sofrem o respectivo corte». Para o CDS, isto é um «ataque à sustentabilidade da Segurança Social». Para o PS, partido que se arvora em defensor do Estado social, pelos vistos não.

António Costa e os seus economistas embrulham a ideia com a cenoura de, ao aumentar o rendimento disponível do trabalhador, aumentar a procura interna e, logo, o emprego, gerando mais contribuições para a Segurança Social. Mas a decisão de reduzir a TSU para empresários e trabalhadores constitui uma vitória da doutrina Passos no pré-programa de governo do PS e, no fundo, a vitória da doutrina da desvalorização interna comungada pela Europa e pelo actual governo. Se isto não é uma vitória do pensamento do actual governo inscrita no cenário futuro de governação PS, não sabemos o que é uma vitória do pensamento de direita.

Passemos ao lado do optimismo macroeconómico que sobrevoa o texto (para conseguir 7,4% de desemprego em 2019 era preciso uma revolução na Europa) e analisemos agora a outra medida emblemática que tem um nome docinho: o «novo regime conciliatório». No «novo regime conciliatório», «as empresas podem iniciar um procedimento conciliatório, em condições equiparadas às do despedimento colectivo, englobando todos os motivos de razão económica (de mercado, estruturais e tecnológicas) que tenham posto em causa a sobrevivência do emprego». Ou seja, o despedimento colectivo generaliza-se e o PS, em troca, promete penalizar as empresas que utilizam contractos a prazo. Isto chama-se liberalizar o mercado de trabalho e se fosse uma coisa tão boa assim, o PS não deixava aqueles que foram contratados durante o regime anterior, o da malfadada troika e de Passos Coelho, de ficarem livres do novo «regime conciliatório». Ainda bem que Costa disse que o papel que ontem apresentou não é uma Bíblia – talvez esteja a tempo de mudar qualquer coisa e apresentar um programa de governo que se distinga substancialmente da direita. Se for possível.