terça-feira, 16 de junho de 2015


Redacção – Declaração de Amor

à Língua Portuguesa


Teolinda Gersão, Junho, 2012

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia «ele está em casa», «em casa» era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. «O Quim está na retrete»: «na retrete» é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos «ela é bonita». Bonita é uma característica dela, mas «na retrete» é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um «complemento oblíquo». Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo «complemento oblíquo», já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, «algumas» é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos «O Zé não foi ao Porto», era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

No ano passado, se disséssemos «A rapariga entrou em casa. Abriu a janela», o sujeito de «abriu a janela» era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em «ampa», isso mesmo, claro).

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).





segunda-feira, 15 de junho de 2015


O infantilismo, doença degenerativa

do socialismo


Helena Matos, Observador, 13 de Junho de 2015

Os partidos socialistas vão ficando cada vez mais fracos, os seus eleitorados mais irrealistas e disponíveis para os mais destravados populismos e as lideranças mais reféns dos índices de popularidade

Portugal tem um problema: o PS não quer governar. Quer simplesmente voltar atrás. Quer voltar a ser criança, coisa que à esquerda se traduz por radicalizar e proferir as maiores inanidades com o ar sorridente, feliz, de quem sabe que nunca lhe serão pedidas responsabilidades.

Quando o dinheiro acabou o socialismo (redistributivo por natureza) desistiu do pensamento, de construir propostas e foi substituído pelo infantilismo. Só a natureza intelectual e emocionalmente regressiva desse processso explica que, de repente, os socialistas não se distingam dos bloquistas e demais movimentos clonados. Basta atentar em títulos como: «PS diz que irá reverter o processo de privatização da TAP se for Governo» ou «Costa recusa cortes e promete repor pensões» para percebermos que o PS ou não pensa governar ou pelo menos não pensa governar em moldes democraticamente aceitáveis. Já as declarações dos socialistas sobre a TAP ter sido vendida por meio Jorge Jesus estão ao nível do patetismo, coisa que nem me apetece comentar! Fiquemo-nos portanto pela infantilização.

Os socialistas portugueses não estão sós neste seu processo de infantilização que pateticamente confundem com ideologia. Como é hábito, em Espanha tudo é mais acentuado e neste momento os socialistas espanhóis (numa atitude que revela um assinalável desconhecimento da sua própria História) fogem das alianças ao centro e optam por aliar-se à extrema-esquerda. Assim, entre acordos vários, por toda a Espanha, o PSOE deu o seu aval e os seus votos para que radicais de esquerda fiquem à frente das localidades ganhas sem maioria absoluta pelo PP. Estas frentes populares acabarão como de costume: os socialistas ficam destruídos e os radicais insuflados.

Símbolo de tudo isto: graças aos votos do PSOE, Madrid vai ter como responsável autárquica Manuela Carmena, uma senhora que enquanto juíza se caracterizou frequentemente por ter uma visão do Direito em que, como afirmam alguns dos seus colegas, se via simultaneamente como parte, legislador e juiz. Visão essa que às vezes levava a situações anedóticas, como aconteceu no chamado caso das calças. (Um processo movido contra vários empresários acusados de venda ilegal de calças de ganga que acabou com o Estado espanhol a ter de indemnizar os ditos empresários pois a juíza Carmena achou por bem distribuir por várias associações as calças apreendidas muito antes de se saber o desfecho do processo. Carmena não ponderara que se os homens fossem considerados inocentes – o que veio a suceder – teriam direito a reaver a mercadoria apreendida).

Num plano politicamente mais complicado também tivemos a juíza Carmena a aplicar as suas teses sobre a sem razão das prisões ao colocar em liberdade, por aquilo que considerou ponderosos problemas de saúde, Manuel Azkárate Ramos, um terrorista da ETA. Misteriosamente a doença que tanto impressionara a juíza Carmena não impedira, no passado, Azkárate Ramos de ser terrorista e muito menos o impediu de continuar a sê-lo assim que a juíza Carmena lhe deu a liberdade condicional.

Por agora Manuela Carmena pretende que a habitação é um direito humano e portanto quer acabar com os despejos; também quer municipalizar os serviços de recolha do lixo e promover activíssimas políticas de género. Este último item, apesar de não se perceber o que tem a ver com os trabalhos inerentes a um município, talvez seja o que levará a cabo com maior sucesso porque gera muito alarido e pouca despesa.

Ao verem-se as improváveis criaturas que o PSOE tem apadrinhado simplesmente para que o PP não exerça o poder, ao constatar-se como os socialistas fecham os olhos ao comportamento dos seus novos parceiros (nomeadamente as arruaças feitas pelo Podemos durante a tomada de posse de Manuela Carmena), cabe perguntar: o que querem os socialistas? E a resposta é só uma e não passa por governar mas sim por declarar: dizerem-se de esquerda. Mesmo que isso implique escaqueirar qualquer possibilidade de efectuar as reformas indispensáveis e que, tanto em Espanha como em Portugal, só podem ser feitas pelo centro.

Dir-se-á que faz parte dos livros que na oposição os socialistas radicalizam o discurso mas que, uma vez chegados ao governo, logo cai sobre eles o mais profundo sentido de Estado. Sendo isto frequentemente verdade, não quer dizer que seja isento de consequências a médio prazo: suponha-se que na oposição o PSD e o CDS ou em Espanha o PP não só confraternizavam como se aliavam e reconheciam a superioridade moral de uns grupos de extrema-direita? Pois esse exercício, que felizmente é mortal à direita, é praticado alegremente à esquerda com a não irrelevante consequência de legitimar, apadrinhar e incentivar uma gente que não tem qualquer programa exequível para governar e que continua intolerante e radical como sempre foi.

Por outro lado, este exercício vai ficando cada vez mais perigoso porque os partidos socialistas vão ficando cada vez mais fracos, os seus eleitorados mais irrealistas e disponíveis para apoiar os mais destravados populismos e as suas lideranças mais reféns dos índices de popularidade. (Qualquer semelhança com a actual situação do PS não é coincidência).

Quanto à direita, ou a não-esquerda como prefere ser chamada, pode perder as eleições, mas essa radicalização ideológica dos socialistas até lhes convém (mas só convém de facto à direita e só convém num primeiro momento) pois fugindo a direita ao debate ideológico, o espectáculo mais ou menos folclórico das frentes de esquerda no poder é o melhor presente que pode ter.

Querem melhor exemplo que o Syriza? O Syriza tem feito mais pela credibilidade de Maria Luís Albuquerque que quaisquer resultados conseguidos pelo seu ministério. O Syriza e as declarações de António Costa sobre a vitória do Syriza são o melhor presente que Passos teve este ano.

Afinal não podemos esquecer que o infantilismo da esquerda tem o seu reverso à direita no evidentismo: a direita não tem ideias e quando as tem, tem vergonha delas. Ou melhor dizendo, acha-as em geral menos nobres que o socialismo. A este último reserva a direita o estatuto de sociedade perfeita mas utópica. Não fosse a realidade desfazer sistematicamente a utopia e também a direita seria socialista. Daí decorre o evidentismo: mostrar à evidência os evidentes erros dos governos de esquerda não é uma estratégia eleitoral da direita. É a sua ideologia oficial. A sua justificação moral para não ser de esquerda.

E assim Portugal está entre o evidentismo e o infantilismo. Há contudo dilemas piores. Mas espero não ter de escrever sobre eles.





domingo, 14 de junho de 2015


Onde estava no 12 de Junho?



Rui Ramos, Observador 12 de Junho de 2015

É um dos paradoxos da democracia portuguesa: das duas maiores decisões do regime, a descolonização e a integração europeia, nenhuma foi matéria de referendo, mas tão-só de fatalismo histórico.

A pergunta é, numa rábula conhecida, ritualmente feita acerca do 25 de Abril. Mas a menos que o inquirido estivesse entre os oficiais do MFA, a resposta até pode lisonjear a sua vaidade cívica, mas é irrelevante para a história. O 25 de Abril foi uma revolução, em que só os revolucionários contaram. O mesmo, porém, não deveria ser verdade para 12 de Junho de 1985, data da assinatura do tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE). Há trinta anos, vivíamos em democracia. Devíamos ter contado todos. Mas não contámos, pelo menos directamente. O 12 de Junho não foi um referendo. Apenas uma «assinatura».

Não porque o regime tivesse menorizado o momento. Pelo contrário: em toda a história democrática, poucos eventos mereceram uma encenação tão pomposa, com a nova oligarquia democrática a ocupar o mosteiro dos Jerónimos, como os navegantes de uns novos Descobrimentos. O caminho da Europa substituía o caminho da Índia. Porque é que o país só teve o direito de assistir pela televisão  a uma cerimónia diplomática para «altas individualidades»? Numa democracia, não deveriam ter sido convocados os cidadãos para sufragar a decisão, antes das canetas riscarem o papel?

É verdade: a maioria dos eleitores votara sempre nos partidos que tinham promovido a causa da adesão: 76% nas eleições de 1983. Mas em nenhuma eleição a adesão à CEE fora a questão principal. A oligarquia decidiu, desde cedo, tratar a adesão como uma fatalidade. Portugal não tinha escolha, se queria sobreviver e prosperar. A democracia perfilhou assim uma maneira velha de lidar com as grandes opções nacionais. A ditadura salazarista fizera o mesmo com o «ultramar». Sem Angola, não havia vida para Portugal. Agora, a CEE substituía Angola. O raciocínio era o mesmo. A «Europa» era a terra prometida de um povo a quem as fronteiras de uma velha independência não bastavam para a salvação. Depois da Índia, do Brasil e da África, era a vez da Europa.

E também é verdade: havia uma dose de fatalidade nesta história. A adesão à CEE vinha de longe – mais longe do que a mitologia democrática quis reconhecer, ao fazer começar a história apenas com o pedido formal de 1977. Podia-se recuar a 1960, até à adesão de Portugal à Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), ou mesmo a 1948, aquando da filiação portuguesa na Organização para a Cooperação Económica na Europa (OEEC). A ditadura salazarista tentara sempre combinar as suas opções coloniais e anti-democráticas com o acompanhamento da integração económica europeia. Na década de 1960, a inserção na Europa – através do comércio livre, mas também da emigração e do turismo – transformou profundamente o país. Em 1975, os oficiais do MFA que sonhavam com uma Cuba europeia tiveram de se resignar: Portugal estava demasiado enraizado no Ocidente para permitir novas aventuras luso-tropicalistas, agora em versão guevarista. Parecia demasiado tarde para haver escolha.

Onde esteve então o problema? Nisto: não apenas Portugal, mas também a «Europa» ia mudar. Em 12 de Junho de 1985, a República Portuguesa aderiu à CEE. Oito anos depois, a CEE já não existia, substituída pela União Europeia do Tratado de Maastricht. Mais: a Europa de 1985 também já não existia. O colapso do comunismo europeu e a «globalização» transformaram os mapas e abriram as fronteiras. Portugal, que esperava deslocalizações industriais a seu favor, foi subitamente confrontado com concorrentes inesperados, da China à República Checa. A classe dirigente da democracia portuguesa decidiu então mergulhar o país na parte mais funda da piscina. Era preciso, a todo o custo, manter Portugal no «pelotão da frente» da integração. Mercado único, moeda única — tudo foi tratado como matéria de urgência e de consenso.

Houve sempre velhos do Restelo. Mas nunca em número suficiente para sujeitar o «processo europeu» ao teste da vontade popular. É um dos paradoxos da democracia: das duas maiores decisões do regime, a descolonização e a europeização, nenhuma foi referendada. No caso da integração europeia, além do fatalismo histórico, havia outro pormenor a desaconselhar a consulta: as opiniões sobre o «projecto europeu» pareceram sempre demasiado circunstanciais. Quando havia subsídios, os portugueses gostavam da «Europa». Quando havia cortes, não gostavam. Nunca pareceu possível discutir a integração em termos do que o país queria ser, mas apenas em termos do que tinha a ganhar. Foi menos uma questão ontológica do que contabilística.

A Europa mudou. Portugal também. Em 1985, os portugueses eram ainda uma população jovem numa economia agro-industrial. Trinta anos depois, formam uma população envelhecida numa economia de serviços. A integração europeia enquadrou esta metamorfose. É costume agora lamentar as oportunidades perdidas, e os erros de trajectória. Mas uma coisa que foi feita com um espírito de fatalidade terá provavelmente de ser prosseguida com o mesmo espírito. Até certo ponto. Porque um dia, a história mudará outra vez. Também é fatal.





sábado, 13 de junho de 2015


Parabéns à Turquia


António Justo

Os resultados das votações na Turquia depois de terem sido contados quase todos os votos revelam a perda da maioria absoluta do presidente islamita Erdogan (AKP) que esperava atingir 330 deputados e conseguiu apenas 41%/259 deputados, (para atingir a maioria absoluta seriam necessárias 276 assentos) revelam. Em segundo lugar ficou a esquerda CHP com 25,2%/131 deputados; a ultra-direita MHP atingiu 16,9%/84 deputados; a HDP pró-curda alcançou cerca de 13% (79 deputados).

O sistema eleitoral turco não permite grande variedade de partidos no ciclo parlamentar, pois para um partido ter assento no Parlamento tem de superar os 10% dos votantes. A oposição conseguiu 291 deputados.

Erdogan queria mudar a Constituição para consolidar os seus poderes presidenciais à maneira de «sultão». Para tal precisaria de 330 deputados. 56,6 milhões de turcos estavam chamados a votar. A participação nas eleições foi de 85,4%. Na Alemanha houve 480 000 turcos que votaram.

Tudo isto revela que o povo turco é distinto e mais democrata do que queriam fazer dele. Felizmente a Turquia está mais moderna que a maioria dos seus chefes.





segunda-feira, 8 de junho de 2015


A Grécia não quer a vaca
mas quer ficar com o leite

O Governo grego enerva a Europa governante
e especula em segredo sobre eleições


António Justo

A Grécia parece não ter curral para a vaca da UE mas quer continuar a receber o seu leite sem se preocupar com os problemas que a vaca custa a manter. O governo de Tsipras não tem futuro porque quer governar e ao mesmo tempo ocupar o lugar de uma oposição que geralmente vive de exigências e de reclamações. Governar implica compromisso e assumir responsabilidade, implica reconhecer que pertencer ao sistema euro, e à moda globalista em voga, tem como consequência o respeito pelas regras do grupo ou então a tentativa de mudá-las sem fugir a elas.

O governo de Tsipras continua em curso de confrontação numa táctica dupla de falar no próprio parlamento contra os credores e contra a Comissão Europeia e cá fora adiar propostas de solução, expondo-se com palavras bonitas para insuflar as asas da ideologia e colher o aplauso de uma claque internacional propensa a ideologias. «Com papas e bolos se enganam os tolos», reconhece a sabedoria popular que apesar disso se deixa enganar. Até o seu amigo Juncker já perde a paciência ao constatar o contínuo adiar da problemática. Tsipras e o seu partido Syriza esperam um corte de dívidas, à custa dos outros países e de instituições bancárias (seus credores; Portugal já perdoou 600 milhões de euros à Grécia (1).

Com o adiamento da proposta de soluções, Atenas ganha tempo para surpresas que depois acontecerão de uma só vez. O governo não está interessado em compromisso (por isso não permite visão nos seus dados e estatísticas), porque o jogo é ideológico e compromisso (aquilo com que se faz política) cheira a traição. Tsypras está interessado nos votos e nos votantes e como tal quer um povo a viver do Estado ou de vacas leiteiras que se nega a manter.

Com o adiamento, agora conseguido, do pagamento do troço de 300 milhões de euros às instituições credoras o Governo grego impediu o colapso financeiro no pagamento de salários e vencimentos dos empregados de Estado. O adiamento dos compromissos assumidos para 30 de Junho, alcança um valor conjunto de 1,6 mil milhões de euros a terem então de ser pagos. O Pacote de resgate da Troika que se daria a 30 de Junho no valor de 7,2 mil milhões está dependente de reformas a propor pelo Governo grego jogando com o interesse que a zona euro tem em manter a Grécia como membro.

Á táctica de adiamento dos problemas pelo Governo grego tem certamente a ver com a incompetência de um governo de visão ideológico-partidária que especula certamente sobre novas eleições e a saída do euro. Com elas poderá lavar as mãos perante o povo como partido e desresponsabilizar-se perante os fiadores e a UE. Um governo que só sabe dizer não é impróprio para a governação e prejudica os interesses do seu país e do seu povo.

Na política e em governação, tal como na vida de um povo é de ter presente a história da cigarra e da formiga. A cigarra quer viver da cantoria e da conversa pública mas à custa da alimentação da formiga. Para uma sociedade futura, sem pretender que se acabe com a rica diversidade política e social de formigas e cigarras, precisar-se-ia de criar mais um ser cívico que integre em si os genes da cigarra e da formiga e de uma nova raça política transparente desinteresseira comprometida com o povo e o país.

Atenas perdeu a oportunidade e a credibilidade de se tornar num elemento corrector da política da UE. O governo de esquerda nacionalista teima em não processar os grandes capitalistas gregos que transferiram centenas de milhares de milhões para fora do país (Suíça, etc.) fugidos ao fisco grego mas, por outro lado, combate o capitalismo da Troika. Até é lógico que queiram defender os grandes oligarcas gregos mas nas suas exigências em relação ao estrangeiro perdem toda a razão institucional pretendendo apenas continuar a ser, com as suas piruetas, a azia estomacal da UE dos fortes sem entender nada do Euro-Esperanto.

De momento, só a saída do euro seria uma medida lógica e coerente com a ideologia que Tsipras defende; o seu jogo das escondidas torna-se vergonhoso para ele e uma desilusão para a esquerda europeia que projectava nele muitas esperanças e desejos escondidos. Tem sido triste a figura que têm feito pedinchando com uma mão e dizendo que não com a outra. Este é o dilema de uma esquerda ainda retrógrada e velha que além de oportunista se tornou corrupta ao assumir a governação tem calcando os ideais de justiça da hombridade e da transparência. Já não nos encontramos no tempo dos heróis e dos exemplos. Cada um serve-se como pode.

Não se vai longe enquanto a UE só se preocupar com poder e dinheiro e a Grécia se interessar pela mistura de dinheiro e ideologia.

O facto de descrever ou tentar prever o que vai acontecer em relação à Grécia não quer dizer que seja por um sistema ou por outro.

O facto de o Governo grego, tal como Portugal, Irlanda e outros países terem razão nas reclamações no que respeita a imposições de poupanças e privatizações em benefício da avalanche agressiva do turbo-capitalismo liberalista das grandes potências, um comportamento de adolescentes só serve para enganar o povo e não alcança nada contra a injustiça institucionalizada. O que a Grécia e Portugal devem contestar e renegociar é a vantagem que a Alemanha e os países fortes da zona euro têm em relação ao mercado mundial, vantagem adquirida, em grande parte, à custa da destruição das economias dos países da periferia da zona euro que viram o seu poder de concorrência na Europa destruído pela abertura ao mercado chinês. Aqui é necessária a negociação de contratos de compensações estruturais económicas e não a luta ideológica.


(1) Não aceita o curso político de poupança ao contrário do que fez Portugal, que abnegado e respeitado consegue, por força própria, sair da dependência da Troika (Portugal vai agora fazer mais um reembolso antecipado, de cerca de 2 mil milhões de euros ao Fundo).





segunda-feira, 1 de junho de 2015


O homem que caminha ao lado das pessoas


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 31 de Maio de 2015

Ramalho Eanes apurou que Sampaio da Nóvoa é uma «inteligência superior». Sem acesso aos estudos científicos que decerto fundamentaram a opinião do general, analisei com cuidado os princípios da candidatura presidencial do citado génio, apresentados há dias no Porto. Terminei fascinado.

O prof. da Nóvoa promete abraçar o «legado» dos ex-presidentes que o apoiam, na medida em que um chefe de Estado «não deve agir nem contra nem a favor dos governos ou oposições». É bem visto: Jorge Sampaio usou Santana para sossegar o PS e patrocinar a ascensão do lendário Sócrates. Soares passou o segundo mandato em campanha contra Cavaco. Eanes cozinhou um partido privativo.

O prof. da Nóvoa exigirá que a Europa abandone as «políticas de austeridade». Embora pareça impossível, há mesmo indivíduos convencidos de que a abundância se estabelece por decreto.

O prof. da Nóvoa não aceitará sem referendo «mais medidas que retirem soberania a Portugal». A ideia subjacente é a de que temos escolha, ou uma escolha que não conduz à bancarrota num ápice.

O prof. da Nóvoa deseja que os portugueses travem «um amplo debate» sobre a Europa. É igual a discutir a FIFA na assembleia geral do Olhanense: não se espera que a Europa trema.

O prof. da Nóvoa prestará «atenção especial ao combate à corrupção e à promiscuidade entre a política e os negócios». Presumivelmente, ainda não acredita que será o candidato do PS.

O prof. da Nóvoa propõe um «compromisso claro na luta contra a pobreza e contra o aumento das desigualdades». É o modelo grego ou, na versão tropical, «bolivariano», que em geral acaba com a classe média de rastos e a igualdade obtida na partilha da miséria.

O prof. da Nóvoa defende que «um presidente pode ser muito mais do que tem sido, (...) pode ser alguém que junta, que une, que abre o futuro quando caminha ao lado das pessoas». Curioso: se alinharmos umas palavras a seguir às outras forma-se qualquer coisa semelhante a uma frase.

O prof. da Nóvoa assume que «ser poeta também é essa inabilidade para o mundo do lucro». Tradução: de lirismo em lirismo até ao prejuízo final.

O prof. da Nóvoa acha que «não podemos continuar a forçar a emigração dos nossos jovens mais qualificados». Evidentemente, muitos dos idosos sem qualificação perceptível ficaram por cá.

O prof. da Nóvoa admite ser um candidato que «incomoda muita gente». O termo adequado é embaraça. Embaraça.

A conclusão a que cheguei é que o prof. da Nóvoa é de facto uma inteligência superior. A quem? No mínimo, aos espécimes que o levam a sério – os que fingem levá-lo a sério por estratégia ou gozo não contam.





domingo, 31 de maio de 2015


A invasão que aí vem


Miguel Esteves Cardoso, Público, 19 de Maio de 2013

No PÚBLICO.pt de ontem dá-se conta de uma reportagem da LUSA sobre o protesto dos pequenos produtores da aldeia transmontana de Duas Igrejas contra a nova lei das sementes que está quase a ser aprovada pelo Parlamento Europeu.

Falam por todas as sementes, todas as hortas, todos os agricultores e, sobretudo, pela economia e cultura portuguesas. A lei das sementes – que proíbe, regulamentando, a milenária troca de sementes entre produtores – é pior do que uma invasão francesa de Napoleão.

É uma invasão fascista que quer queimar a terra para preparar a incursão das agro-corporações multinacionais (como a gigantesca e sinistra Monsanto) que virão patentear as sementes que são nossas há que séculos, obrigando-nos depois a pagar-lhes direitos de autor, só por serem legalisticamente mais espertos. Pense-se em cada semente como uma palavra da língua portuguesa. Na nova lei colonialista das sementes é como obrigar os portugueses a sofrer a chatice e a despesa de registar tudo o que dizem, burocratizando cada conversa.


Atenção: é o pior ataque à nossa cultura e economia desde que todos nascemos. Querem empobrecer-nos e tornar-nos ainda mais pobres do que somos, roubando-nos as nossas poucas riquezas para podermos passar a ter de comprá-las a empresas multinacionais que se apoderaram delas, legalmente mas sem qualquer mérito, desculpa ou escrutínio.

Revoltemo-nos. Já. Faltam poucos dias antes de ser ter tarde de mais. E para sempre. Acorde.





sábado, 23 de maio de 2015


Um «transportador de desassossegos»


Maria de Fátima Bonifácio, Público, 22 de Maio de 2015

Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo.

Na realidade, este artigo sobre António Nóvoa também se poderia chamar «O sonho comanda a vida». A noite de 29 de Abril, em que lançou a sua candidatura à Presidência da República, não foi inteira nem limpa. Fragmentos de versos de Sophia, de Zeca Afonso e de Sérgio Godinho foram usados para adornar e ocultar a absoluta vacuidade do discurso do candidato, ex-magnífico reitor da Universidade de Lisboa, descendente de uma «família da nobreza». Esta informação relevantíssima, prestada há dias no decurso de uma reportagem-vídeo do JN, tranquilizou-me imenso. Portugal está farto de presidentes plebeus.

O discurso não tem princípio, meio e fim. Não passa de uma lista arbitrária de evocações, exortações, visões, desejos, intenções, desabafos, promessas, divagações. Os poetas estão lá para introduzir a tonalidade lírica e onírica que convoca os ouvintes para sonhar. Sonhar com «um caminho de mudança e de esperança» que não sabem qual é, onde está e para onde leva. Sonhar com «fazer a diferença» que não sabem em que consiste nem no que resulta. Sonhar com «uma outra visão, uma outra ideia do que pode ser Portugal», não lhes sendo dito quais sejam nem com que se parecem. E por aí fora, uma longa, longa série de lugares-comuns e puras abstracções servidas numa pseudo-poesia barata e possidónia. Nóvoa revolta-se contra «uma austeridade» que fragilizou e empobreceu Portugal e indigna-se com uma «política» incapaz de apresentar «uma única ideia de futuro». Lê-se e pasma-se: ele próprio não apresenta nem a sombra de metade duma. Um voto em Nóvoa é um cheque em branco.

É-o por razões mais graves, que ocorrem percorrendo a entrevista ao PÚBLICO de 30 de Abril. De novo, lê-se e pasma-se. A sua ideia de campanha eleitoral é todo um programa para a Presidência. Informal, basista, feita de «redes animadas pelas pessoas»; sem a «organicidade» que mata a imaginação e coarcta a iniciativa espontânea das «pessoas». Nóvoa espera delas quase tudo, incluindo as ideias que ele não tem. Resultará? Há «risco», mas o «transportador de desassossegos» (assim lhe chama Barata Moura) «preferirá sempre morrer ingénuo do que amargurado». Não lhe ocorre que a ingenuidade na fase adulta da vida ou indica estupidez e imperdoável inexperiência, ou significa que se passou pela vida sem dar por ela, em estado de permanente distracção. Mas grave é apenas a hipocrisia, porque a universidade é um meio humano como qualquer outro: com invejas, raivas, disputas, competições e por aí fora, como na política. E, tal como na política, não se chega a reitor sem muito jogo de cintura. Nóvoa não é puro e virginal.

Porém, mais grave do que a hipocrisia, é a incógnita política que Nóvoa representa. Sabemos que execra a austeridade, mas deixa-nos no absoluto desconhecimento da alternativa que teria a oferecer — pelo motivo de que nem ele sabe. É facto que jura renegociar a dívida «até ao limite do possível», mas ignora por onde passam o limite e o possível. Reconhece que somos prisioneiros dos compromissos assumidos com a Europa e que «honradamente temos de os cumprir». Mas já nada nos obriga a cumpri-los «de forma ordeira». Iremos todos em voos fretados berrar para Bruxelas? A Europa, paradoxalmente e infelizmente, «transformou-nos a todos em eurocépticos». Há lá muito que mudar, «e seriamente». E Nóvoa é o homem providencial para abraçar esse combate e demonstrar ao mundo «que as políticas de austeridade não são uma inevitabilidade». Como a Grécia tem constatado, os credores europeus são fáceis de converter e comover.

Sabemos também que se «irrita» com «a inevitabilidade do centro» em Portugal; que acha o «famoso arco da governação (…) uma coisa verdadeiramente insuportável». As contas são fáceis de fazer: com esse «arco» malfadado, 20% dos portugueses ficam «excluídos» «logo à partida». O remédio, como se adivinha, está em puxar o arco para a esquerda até incluir o Bloco e o PC. Mas, nesta hipótese humana e generosa, ficam excluídos 80% dos portugueses. Temos então um problema ainda maior? Não, ou pelo menos assim o diz Nóvoa. Porquê? Porque com o seu génio negocial e a sua vocação para os consensos, de que constantemente se gaba, fará milagrosos entendimentos. «A partir do respeito pela diversidade, temos de ter a capacidade de fazer entendimentos que resultem da vontade popular.» Mas que talismã lhe dirá qual é a vontade popular, pois que ela só se revela validamente através do voto partidário? Ao cabo de tantos e tantos anos, e de tantos esforços, Nóvoa ainda não assimilou um dado elementar da vida política portuguesa, a saber, que a extrema-esquerda recusa liminarmente todo o «entendimento» com qualquer partido integrante do «insuportável» arco da governação. Ainda ontem o Bloco apresentou um programa eleitoral que tomava por pressuposto assumido a saída de Portugal do euro, e da Europa, aliás, já há muito defendida pelo PCP. Como pensa Nóvoa «entender-se» com eles?

Não pensa nada. Inquirido, há dias, se se sentia mais próximo do Partido Socialista ou do Partido Comunista, o candidato à Presidência da República respondeu: «Não sei.» Está tudo dito. Politicamente, António Nóvoa não sabe o que é, nem quem é. Sabe que lhe falta o cursus honorum da política, mas acha natural o desígnio de se projectar logo para o topo. De resto, salvo um convívio informal com a LUAR nos seus tempos de juventude, que lhe proporcionou o conhecimento de Zeca Afonso e «os momentos mais importantes da sua vida», nunca se conspurcou no antro dos partidos. A sua candidatura, que ainda não recebeu o apoio declarado de nenhuma dessas agremiações, é «pessoal». Esta circunstância confere-lhe uma «independência» «na qual sectores militares se revêem com alguma simpatia». Eis o que nos deve tranquilizar a todos. Tanto mais que «sempre foi muito desalinhado». «Nunca me filiei.»

Não tenhamos dúvidas de que este «transportador», caso António Costa cometa o erro colossal de o impor ao PS, vai derramar sobre as nossas cabeças (e sobre a dele) uma chuva de «desassossegos».





terça-feira, 19 de maio de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015


«Apocalise abruto»

Acordo ortográfico


Octávio dos Santos, Público, 13 de Março de 2015

A imposição — ilegítima, ilegal, imoral, inútil, prejudicial, ridícula, totalitária — do dito «Acordo Ortográfico de 1990» como que já «normalizou», aparente e infelizmente, aberrações como «atividade», «ator» e «atriz», «direto», «espetáculo», e outras (de)mais. Porém, bastantes «anomalias» adicionais têm vindo a ocorrer induzidas pela ideia — errada mas compreensível — de que, com o AO 90, qualquer consoante de pronunciação minimamente «duvidosa» provavelmente não deve estar antes de outra.

Este perigo de proliferação, de multiplicação, de erros, de deturpações foi previsto e alertado atempada e acertadamente por muitos opositores do dito cujo, que então não receberam toda a atenção que mereciam mas que agora vêem os seus receios confirmados. Com exemplos como:


«abruto»,

«acupuntura»,

«adatação»,

«adeto»,

«adómen»,

«ajunto»,

«amidalite»,

«aministração»,

«aministrador»,

«anistia»,

«apocalise»,

«artefato»,

«autótenes»,

«avertência»,

«batéria»,

«batericida»,

«carateres»,

«cetro»,

«compatar»,

«conetar»,

«conosco»,

«contratura»,

«convição»,

«cootar»,

«correu»

«corrução»,

«corrutor»,

«critografia»,

«dianóstico»,

«disseção»,

«dítico»,

«dútil»,

«eletroténico»,

«elipsou(-se)»,

«elise»,

«elítico»,

«enográfico»,

«erução»,

«esfínter»,

«espetativa»,

«espetável»,

«espetro»,

«estupefato»,

«etópica»,

«eucalito»,

«expetoração»,

«ezema»,

«fição»,

«fratais»,

«frição»,

«ginodesportivo»,

«helicótero»,

«histeretomia»,

«ilariante»,

«impato»,

«indenização»,

«infeciologia»,

«intato»,

«inteleto»,

«interrução»,

«interrutor»,

«invita»,

«iterícia»,

«latente» (não o que ainda não se manifestou exteriormente),

«manífico»,

«mastetomia»,

«mição»,

«nétar»,

«Netuno»,

«oção»,

«ocional»,

«onívoros»,

«ostáculo»,

«ostipação»,

«otanagem»,

«otativo»,

«otogenário»,

«otógono»,

«pato» (não a ave),

«perfecionista»,

«piroténico»,

«pitórico»,

«plânton»,

«politénico»,

«protologia»,

«proveta» (não a dos bebés e dos laboratórios),

«putrefato»,

«refratário»,

«réteis»,

«reto» (não a parte da anatomia),

«seticemia»,

«setor»,

«sução»,

«sujacente»,

«suntuoso»,

«ténica»,

«tenologia»,

«tenológico»,

«tetónico»,

«trato» (não a forma de lidar com outros),

«trítico»,

«tumefação»,

«tumefato»,

«umidade» e

«vasetomia».


Quais são as letras que faltam nas «palavras» acima referidas? Já não são só os «c’s» e os «p’s» que cortam... os «b’s», os «g’s», os «h’s», os «m’s», os «n’s» e os «t’s» também podem desaparecer!

Localizadas e compiladas por João Pedro Graça, principal impulsionador da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, e que assim alargou e levou até às últimas — e assustadoras — consequências um trabalho meritório de denúncia em que também têm participado, entre outros, João Roque Dias, Francisco Miguel Valada, Fernando Venâncio e António Fernando Nabais, as asneiras acima citadas não foram detectadas em meros, modestos, blogs ou páginas de Facebook de jovens ortograficamente inexperientes, iliteratos e ignorantes. Estavam e estão em sítios oficiais de importantes instituições e empresas, públicas e privadas, incluindo estabelecimentos de ensino superior e órgãos de comunicação social. Como:


A Bola,

Autoridade Tributária e Aduaneira,

Banco Santander,

Boehringer Ingelheim,

Câmara Municipal de Alfândega da Fé,

Câmara Municipal de Guimarães,

Câmara Municipal de Viseu,

CMTV,

Correio da Manhã,

Correio do Minho,

Destak,

Diário da República,

Diário de Notícias,

Diário do Alentejo,

Direcção-Geral do Património Cultural,

Escola Superior de Educação de Bragança,

Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu,

Expresso,

Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto,

Fenprof,

FNAC,

Fundação Calouste Gulbenkian,

Instituto Polité(c)nico de Coimbra,

Instituto Politécnico de Lisboa,

Instituto Politécnico de Viseu,

Jornal de Notícias,

Lusitânia Seguros,

MaisFutebol,

Ministério da Educação e Ciência,

OLX,

Portugalio,

Presidência do Conselho de Ministros,

Procter & Gamble,

Revista Portuguesa de Cardiologia,

Sapo,

SIC,

Tribunal da Relação do Porto,

TVI,

Universidade de Aveiro,

Universidade Católica Portuguesa,

Universidade do Porto,

Universidade Lusófona e

Visão.


Para saber quem «escreveu» o quê deve-se ir ao sítio da ILCAO (http://ilcaocedilha.net) e consultar o inacreditável «inventário» em constante actualização. Que constitui uma prova irrefutável e definitiva deste «apocalise abruto», deste «cAOs» ortográfico — e, consequentemente, também comunicacional, cultural e educativo — que está a alastrar em Portugal.

Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido?


De Belém e de S. Bento espera-se uma resposta. Urgentemente.





domingo, 17 de maio de 2015

A degradação das Forças Armadas

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