domingo, 28 de junho de 2015


A tranquibérnia do costume


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador



«Um povo que tenha a coragem
de se manter pobre é invencível.»
Oliveira Salazar

A Fundação Oriente promoveu no passado dia 11/6/2015 uma conferência sobre o presente e o futuro da União Europeia (UE).

Em boa hora o fez, pois se há assunto que mais afecte a nação portuguesa, e os portugueses menos noção tenham do que está em causa, é justamente este.

Foram oradores a deputada do Parlamento Europeu Dr.ª Maria João Rodrigues (PS) e o conhecido eurocéptico – se assim lhe podemos chamar – Prof. João Ferreira do Amaral.

A moderadora foi a conhecida jornalista e «especialista» em assuntos europeus, Dr.ª Teresa de Sousa.

A Dr.ª Rodrigues, que tem uma boa presença e excelente dicção, fez uma exposição dos pontos que considera relevantes de uma forma clara e bem estruturada de pendor favorável (embora não optimista) à manutenção da «União», não apresentando, porém, grandes saídas para os actuais impasse e cacofonia, existentes.

O Prof. Amaral expôs os seus conhecidos pontos de vista críticos relativamente à UE e sobretudo relativamente ao euro, chegando a considerar a hipótese de Portugal, dever não só equacionar a saída do euro, mas também da própria UE (o que ouvimos pela 1.ª vez), visão com a qual concordamos e só peca por tardia.

O Prof. Amaral fala pausadamente e com critério, o que é bom, mas falta-lhe viço e emoção, pelo que o seu discurso sai pouco apelativo; as ideias força dificilmente impressionam o negativo da mente e a poucos arrastará com o seu discurso.

A Dr.ª Teresa de Sousa está uma sombra do que já, certamente foi, mas não se limita a ser moderadora, intervindo e opinando sobre tudo um pouco.

O seu comportamento faz jus, aliás, à designação de «fundamentalista» da União Europeia, expressão que se me afigura feliz para a caracterizar.

Em todo o debate, porém, incluindo a assistência que interveio, todos laboraram num equívoco que foi o de falar na «Europa» como se tratasse de algo que vá para além de uma realidade geográfica – e mesmo sobre os limites desta, está longe de haver consenso…

Isto é, todos assumiram estar a falar de uma realidade política, quando pelo menos em termos da ciência política ninguém se atreve a dar-lhe uma designação como actor político na cena internacional.

Mas não é nestes aspectos que pretendo focalizar a ponta da caneta, embora não possa deixar de reafirmar, que todos os cenários previsíveis para o futuro desta pretensa UE, serem maus para Portugal e o nosso país dever procurar rapidamente uma estratégia de sobrevivência fora do referido âmbito.

Pretendemos, outrossim, focarmos num comentário que a citada moderadora fez a uma pergunta (pertinente) de um compatriota da assistência, sobre o equacionamento de outros cenários onde o nosso (ainda) país se pudesse mover, chamando a atenção para a centralidade atlântica e ultramarina da maioria da nossa História.

A Dr.ª Teresa antes de passar a pergunta, farpou-a a despropósito e, agastada, afirmou que em 1974, o país «era pobre, para já não falar na falta de liberdade»…

Oh Dr.ª Teresa…

Então nós, como país devemos «aliar-nos» ou fazermos opções políticas para ficarmos mais ricos? Eu julgava que era por razões de geopolítica e de geoestratégia!…

E, se até Maastricht, a CEE/CE, se podia considerar uma aliança, a partir daquele tratado a «aliança» ficou para trás, a fim de se tentar a integração. Ou seja elevou-se o patamar das intenções para tocar os aspectos verdadeiramente relevantes e sensíveis, que são aqueles relacionados com a soberania e o próprio carácter dos povos.

Já percebi, pelos vistos a Dr.ª Teresa não se importa de matar a própria mãe, para ficar rica…

Ser rico está acima de tudo? Ser rico é algum ideal de humanidade? Ser rico tem a ver com o Bem, com a Justiça, com a harmonia da sociedade? Com o Belo? Com a Moral?

Ser rico é, para a Dr.ª Teresa, um fim teleológico?

Ficámos pois a saber que a Dr.ª Teresa quer ser rica ou, pelo menos, não quer ser pobre. Seguramente, que se sentia pobre em 1974 – gostava também, que me dissesse se nalguma altura fomos ricos...


*****

Vejamos, pelas minhas contas, em 1974, a economia do país, crescia a 7% ao ano (Angola e Moçambique cresciam mais); o escudo era a sexta moeda mais forte (e respeitada) do mundo; nos cofres do Banco de Portugal, jaziam cerca de 850 toneladas de ouro e 50 milhões de contos, em divisas. Havia paz social, apesar de rebentarem umas bombas, de quando em vez, accionadas por umas duas ou três «associações filantrópicas» de inspiração comunista, que sobreviviam.

As contas estavam equilibradas desde 1929/30 (apesar da crise de 1929 – «crash» da bolsa de Wall Street); da crise da Libra, de 1931; da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial; lançando-se ainda as bases para a industrialização do país, que teve início a partir do Plano de Fomento de 1951 – o que acontecia pela 1.ª vez desde Afonso Henriques…(1)

Tudo isto note-se, feito com meios próprios, sem qualquer tipo de ajuda externa (Plano Marshall, por exemplo) e com parco recurso ao crédito externo – sempre pago a horas – e com pouquíssimos casos de corrupção ou «derrapagens» de prazos, conhecidos.

Assim chegamos a 1974 em que a Dr.ª Teresa se sentia pobre e com falta de liberdade, lembrando ainda que como pano de fundo, o país mantinha cerca de 230 000 homens em armas, espalhados por quatro continentes e três oceanos, 130 000 dos quais lutavam vitoriosamente e com garbo, em três teatros de operações enormes, separados entre si e a base logística principal (que era a Metrópole) por milhares de quilómetros!

Um «pormenor» que provavelmente escapou à perspicácia (e pesporrência) da Dr.ª Teresa de Sousa.


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Mas eis que se ultrapassou o ano de 1974 e a citada senhora passou a sentir-se (depreende-se) rica e libertada.

Contudo, vendo bem as contas (e as coisas), estas não devem ser as do rectângulo florido (a cravos) à beira mar plantado – mas agora de costas voltadas para o mesmo e só com olhos postos em Bruxelas!

A «Liberdade» pelos vistos é má administradora pois, num ápice, isto é, em 1978, já o país estava em bancarrota e com uma intervenção do FMI, a que se seguiu episódio semelhante, em 1981.

As divisas foram-se; o dinheiro para as pensões delapidado e da pesada herança em ouro, restam agora 382 toneladas (nunca foram apresentadas contas da sua alienação) das quais o Banco de Portugal não pode dispor, pois estão «hipotecadas» ao euro!

Sim ao euro, já que ficámos sem a tal 6.ª moeda mais forte e respeitada do mundo, coisa que nem a dinastia Filipina se tinha atrevido a fazer!

O povo, ou parte dele, também anda muito satisfeito, sendo rara a semana desde então, em que não houve uma greve ou manifestação…

Entretanto entrámos para a CEE, em condições de extrema fraqueza, em 1986 – ao contrário de 1973, em que negociámos um tratado de comércio altamente favorável – sem debate que se visse e sem referendo, mas engalanando em arco: estávamos (finalmente!) sentados à mesa dos ricos e os nossos problemas estavam resolvidos!

Trabalhar e organizarmos em conformidade não estava, obviamente, na equação. Para quê maçar os portugueses com estes preciosismos, devem ter pensado os adiantados mentais que nos meteram neste imbróglio…

Ainda tramavam a demagogia do voto através do qual o povo, embriagado de liberdade, tratava do seu destino!

Foi assim, não foi, Dr.ª Teresa?

E ainda havia a NATO, que nos defenderia de qualquer eventualidade, obviamente descartada para o símbolo das impossibilidades – esquecendo convenientemente, que para sermos parte de uma Aliança também temos de contribuir para ela…

Ora, como ainda por cima já não tínhamos «colónias» e não havia ameaças, as Forças Armadas (essa «Instituição anacrónica») não eram precisas para nada.

Desta forma começam a destruir a Instituição Militar estando o processo em vias de conclusão, no mínimo, bem encaminhado.

O mesmo caminho levou a Diplomacia.

Ora com a entrada para a CEE começou a chover dinheiro fácil, de vários programas comunitários, que a falsa elite tuga entendeu como oportunidade de negócio e promessa de caça ao voto, em vez de os aproveitarem para o que se deviam destinar, ou seja para serem usados parcimoniosamente no desenvolvimento do país e na reestruturação do Estado.

Em vez disso o país corrompeu-se e deixou-se corromper entre «fugas» para a frente, irresponsabilidade, negociatas ilícitas e na monumental estupidez de se pensar que tudo não passava de almoços grátis; que os recursos eram ilimitados e, ou, quem viesse atrás que apagasse a luz e fechasse as portas…

A classe política que desgovernou o país – originária na ditadura dos Partidos Políticos – é, sem dúvida, a que maior responsabilidade tem em tudo isto e o regime/sistema dito democrático implantado, entre sequestros e loucuras várias, nos idos de 1975/76, tem-se mostrado tão competente, que até faz com que o povo vote na sua própria destruição e no desaparecimento do País!

Mas, ao fim de 20 anos de entrarem nos cofres do Estado, cerca de dois milhões de contos/dia – uma soma astronómica que bate tudo o que trouxemos da Índia, do Brasil e de África, por larga margem e que nem sequer custou trabalho, vidas e fazenda a ir buscar – o país entrou novamente em bancarrota, ficando sujeito à humilhação não da bota cardada de algum exército inimigo, mas à muito pior vestimenta de veludo da «Troika», a qual à pala de nos baixar os juros dos empréstimos que passámos a contrair desenfreadamente, empobrecerem a população em geral – obrigando, entre muitas outras, à inaudita medida do corte das pensões, medida esta que não lembraria nem ao pior sátrapa do antigo Império Persa.

E não se ficaram por aqui: os «homens de fraque», a mando de rostos invisíveis, obrigaram à alienação liberal de empresas e património, que já deve ir no valor de cerca de 40 mil milhões de euros, para mão estrangeiras.

A última vai ser a TAP e os transportes públicos de Lisboa e Porto, que a bandalheira de sindicatos e administrações, de mãos dadas com a pusilanimidade dos sucessivos governos, provocaram a acumulação de um passivo de biliões de euros!

E, Dr.ª Teresa, ao contrário daquilo que o governo do Professor Salazar que a senhora indecorosamente abomina, mas que conseguiu recuperar, nos anos 30 e 40, quase tudo o que estava em mãos estrangeiras, aqui e no Ultramar (portos, caminhos de ferro, carris, telefones, etc., etc.), nem daqui a 200 anos o que agora se foi, terá hipóteses de retornar à lusa gente.

Aliás, daqui a 200 anos ainda vamos estar a pagar a dívida entretanto contraída e que não pára de crescer. A tal dívida com que a senhora julga que ficou rica…

Nessa altura os descendentes da Dr.ª Teresa, se é que algum, hão-de estar riquíssimos e inchados de liberdade. Tenha esperança!

Isto claro, se entretanto uma multinacional preta, amarela, branca, árabe, assim-assim, etc., não tenha comprado já o país todo e a Dr.ª Teresa já nem um metro quadrado de terreno disponha para plantar cenouras e assim ficar com os olhos mais bonitos.

Ou, até, que o grande capital internacionalista, em grande parte de inspiração (e usufruto) sionista, onde aparecem aflorações de índole reformista, consigam impor um governo mundial de que já não têm escrúpulos em falar (não é Dr. Durão Barroso?) e de que a UE aparenta ser uma peça importante do puzzle (estando a posição da Alemanha e da Rússia novamente a baralhar essas contas – ironias do destino…). (2)

Ou seja, Dr.ª Teresa, O actual regime político, depois de deixar alienar num ápice, cerca de 95% do território e 60% da população portuguesa – semeando guerras civis por todo o lado, que provocaram perdas estimadas entre um e dois milhões de mortos –, nada fez com riqueza que criou, já que tudo o que realizou desde o 25/4, foi feito com os bens que herdou, recebeu de bandeja de Bruxelas e, ou, pediu emprestado.

É difícil ser-se mais incompetente em qualquer parte do mundo!


*****

Agora a Liberdade. Não sabemos o que a Dr.ª Teresa entende por liberdade, mas sempre lhe quero dizer que esta, sendo um bem absoluto – por isso intangível – tem aplicação relativa.

Em termos comezinhos, tal quer dizer que a liberdade de cada um acaba quando colide com a liberdade do outro; que há vários «tipos» de liberdade e que há, até, hierarquia na liberdade.

A liberdade individual é para a Dr.ª Teresa mais importante do que a colectiva?

Como em tudo na vida, tem que ter regras que disciplinem e harmonizem as coisas, à luz da evolução dos conceitos morais de cada época.

O que é uma procura de sempre, mas não significa seguramente, cada um fazer o que quer. O que está sempre limitado pelo Direito Natural – conceito combatido por racionalistas, jacobinos e positivistas – e que quase desapareceu da escola, da família e da sociedade; pela Moral, pela Ética e pelas leis.

Estou seguro que, a agora moderadora, está também ciente de que em metade dos países da UE, existe o delito de opinião sobre certas matérias. Como vê uma medida muito democrática e respeitadora da liberdade…

Presumo que a Dr.ª Teresa já não seja do tempo daquele senhor que quando ouvia gritar por liberdade, ia à janela ver quem a turba levava preso, mas sempre lhe digo que este meu escrito tem 5% de hipóteses de alguma vez ser publicado, lido ou debatido, nos meios onde a senhora se movimenta e debita.

Do mesmo modo que, presumo, jamais entenderá (ão) a profundidade da citação do extraordinário estadista, que abre o texto, até porque todos, pelos vistos, querem ser ricos – o que está longe de significar, ter uma boa existência!

E ser «invencível» é superar as contrariedades e perseverar como nação independente e individualizada no concerto e desconcerto da Humanidade.

É isso que garante verdadeiramente a liberdade de todos nós e com isso as liberdades individuais.

A Dr.ª Teresa é livre de deixar a Nação dos Portugueses, mas já não lhe reconheço o direito, e por isso a liberdade, de querer acabar com a mesma.

E quando uma parte substancial das pessoas se começar a aperceber disto – e por toda a Europa já começaram – não há UE que resista. Dá guerra.

Cumprimentando.



(1) Os afloramentos de desenvolvimento industrial tentados pelo Conde da Ericeira, pelo Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo e Alfredo da Silva, comparado com os planos de fomento dos anos 50 e 60 do século XX, podem apenas ser considerados de incipientes.

(2) Fukuyama, Fukuyama, não voltes, pois não estás perdoado!...





sexta-feira, 26 de junho de 2015


A des-socratização do regime


Rui Ramos

Sócrates não é apenas um problema do PS, mas é um problema que só o PS pode resolver.

José Sócrates pretende ser um «preso político». A propósito, Luís Marques Mendes experimentou um trocadilho: Sócrates não é um «preso político», mas apenas um «político preso». Tem graça, mas não é uma solução. O caso de Sócrates é político. Não vale a pena tentar resumi-lo a um simples processo judicial como outro qualquer.

Em primeiro lugar, porque a justiça portuguesa é frágil. É um passadouro de segredos e de indiscrições. Os seus processos desenrolam-se nos tribunais, mas também nos jornais, televisões e cafés. As gravações reveladas a semana passada mostram como Sócrates está consciente disso. Mais do que um interrogatório, registaram uma zaragata, isto é, uma oportunidade para Sócrates se exibir para as bancadas, no seu estilo característico (ó pá, a sua cabecinha). Para Sócrates, é óbvio que o processo nos tribunais é apenas um detalhe técnico de um problema que ele espera decidir, em última instância, pelos mesmos meios com que sempre fez política. Segundo Sócrates, este é um país onde a força prevalece sobre a lei. Com efeito, foi assim que durante seis anos no governo, ele resistiu e derrotou todos os processos e suspeitas judiciais. Muito provavelmente, acredita que só está preso porque perdeu poder. Resta-lhe, por isso, tentar recuperar esse poder, ou parte dele. Não lhe faltam, aliás, exemplos de que nunca a justiça em Portugal conseguiu terminar a carreira de um político, enquanto este teve força ou alguma influência. Mesmo depois de condenado em todas as instâncias.

Até por isso, é preciso tratar este caso de um ponto de vista político. Para Sócrates, a questão política é um ex-primeiro ministro ter sido preso. Mas a questão política é outra. Pelo que sabemos, Sócrates e os seus representantes legais negam tudo, menos uma coisa: que durante anos, incluindo os anos como primeiro-ministro, José Sócrates levou uma vida de luxo, acima das suas posses, graças a enormes quantidades de dinheiro que recebia secretamente do administrador de uma empresa com grandes contratos com o Estado (o qual lhe pagou, por exemplo, um fim-de-ano em Veneza em 2009). Não interessa agora discutir a origem desse dinheiro: essa é a questão judicial. A questão política é que tal situação de dependência oculta, mesmo que não configure nenhum ilícito penal, é absolutamente inapropriada para um político. Em Inglaterra, o ministro trabalhista Peter Mandelson demitiu-se em 1998 por não ter declarado no Registo de Interesses da Câmara dos Comuns um empréstimo de 373 000 libras de um colega do governo.

Em época eleitoral, a tendência é para tratar Sócrates como um problema do PS. Mas no seu auge, o socratismo foi um fenómeno politicamente transversal, como aliás lembraram os comentários à publicação das gravações a semana passada: a brutalidade com que Sócrates exerceu o poder fascinou a direita reformista, enquanto ele tentou passar por «liberal», e fascinou a esquerda radical, quando ele se fez «socialista», depois da crise de 2008 e sobretudo durante a oposição ao actual governo. Sócrates só não entrou na área do PCP. Ninguém em Portugal teve uma visão tão crua do poder. Enquanto primeiro-ministro, quase provou que era possível submeter o país como um todo ao regime típico do pior municipalismo, aquele que fez de algumas autarquias locais o feudo de tiranetes provincianos que tudo controlam e tudo manipulam. Mas se Sócrates nunca foi só um problema do PS, é agora um problema que só o PS pode resolver. Perante a justiça, Sócrates está a tentar passar por uma espécie de sinédoque do seu partido. Na sua pessoa, estariam a ser perseguidos todos os socialistas. Ora, até as condecorações de 10 de Junho aos ex-ministros Teixeira dos Santos e Mariano Gago (a título póstumo) provam que não há conspiração nenhuma contra o PS. Sócrates é o nome da fragilidade da nossa democracia. O regime precisa de se libertar do socratismo, e é o PS que neste momento lhe pode negar o oxigénio político com que ele está a tentar manter viva a sua causa. Ninguém compreenderá se os líderes socialistas não conseguirem dissociar-se da estratégia de defesa socrática. A solidariedade tribal não pode justificar tudo.





quarta-feira, 24 de junho de 2015


Vamos referendar o Acordo Ortográfico!


Heduíno Gomes

Em boa a verdade, a ortografia não é assunto que se referende por constituir matéria a ser tratada por especialistas — competentes e não por broncos ou vendidos a interesses —, no exercício da autoridade do Estado que defenda a identidade nacional — Estado que não temos.

Esta acção política do referendo não é propriamente para decidir da correcta ortografia mas apenas se destina a travar esse crime contra a língua portuguesa iniciado por Santana Lopes-Cavaco e continuado pelos sucessivos políticos medíocres que nos têm governado ao longo destes decénios.

Eis os elementos essenciais sobre a iniciativa.


Recolha de assinaturas está em marcha.

Personalidades das áreas da política, artes, cultura e académicos estão a recolher assinaturas para um 
referendo ao Acordo Ortográfico  (AO1990) e questionam sobre a matéria os candidatos a cargos políticos nas próximas eleições.

Finalmente, os cidadãos podem pronunciar-se sobre um assunto que sempre foi decidido e imposto sem lógica.

Da lista fazem parte escritores, professores e cientistas, políticos, comentadores, jornalistas, todos juntos numa iniciativa que nasceu em Abril passado num fórum realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com o título «Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao Acordo Ortográfico de 1990».

Além do referendo, os promotores querem também perguntar às forças políticas e aos candidatos presidenciais o que pensam sobre o Acordo, se o utilizarão no exercício do cargo caso sejam eleitos, de que forma Portugal se deve de desvincular (se for o caso) e em que sentido votarão a iniciativa de referendo na Assembleia da República.

A iniciativa tem 52 mandatários. O referendo, segundo a Constituição (artigo 115.º  2) pode resultar de iniciativa de cidadãos dirigida à Assembleia da República. São necessárias 75 mil assinaturas.


Onde Assino?

https://referendoao90.wordpress.com/






terça-feira, 16 de junho de 2015


Redacção – Declaração de Amor

à Língua Portuguesa


Teolinda Gersão, Junho, 2012

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia «ele está em casa», «em casa» era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. «O Quim está na retrete»: «na retrete» é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos «ela é bonita». Bonita é uma característica dela, mas «na retrete» é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um «complemento oblíquo». Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo «complemento oblíquo», já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, «algumas» é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos «O Zé não foi ao Porto», era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

No ano passado, se disséssemos «A rapariga entrou em casa. Abriu a janela», o sujeito de «abriu a janela» era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em «ampa», isso mesmo, claro).

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).





segunda-feira, 15 de junho de 2015


O infantilismo, doença degenerativa

do socialismo


Helena Matos, Observador, 13 de Junho de 2015

Os partidos socialistas vão ficando cada vez mais fracos, os seus eleitorados mais irrealistas e disponíveis para os mais destravados populismos e as lideranças mais reféns dos índices de popularidade

Portugal tem um problema: o PS não quer governar. Quer simplesmente voltar atrás. Quer voltar a ser criança, coisa que à esquerda se traduz por radicalizar e proferir as maiores inanidades com o ar sorridente, feliz, de quem sabe que nunca lhe serão pedidas responsabilidades.

Quando o dinheiro acabou o socialismo (redistributivo por natureza) desistiu do pensamento, de construir propostas e foi substituído pelo infantilismo. Só a natureza intelectual e emocionalmente regressiva desse processso explica que, de repente, os socialistas não se distingam dos bloquistas e demais movimentos clonados. Basta atentar em títulos como: «PS diz que irá reverter o processo de privatização da TAP se for Governo» ou «Costa recusa cortes e promete repor pensões» para percebermos que o PS ou não pensa governar ou pelo menos não pensa governar em moldes democraticamente aceitáveis. Já as declarações dos socialistas sobre a TAP ter sido vendida por meio Jorge Jesus estão ao nível do patetismo, coisa que nem me apetece comentar! Fiquemo-nos portanto pela infantilização.

Os socialistas portugueses não estão sós neste seu processo de infantilização que pateticamente confundem com ideologia. Como é hábito, em Espanha tudo é mais acentuado e neste momento os socialistas espanhóis (numa atitude que revela um assinalável desconhecimento da sua própria História) fogem das alianças ao centro e optam por aliar-se à extrema-esquerda. Assim, entre acordos vários, por toda a Espanha, o PSOE deu o seu aval e os seus votos para que radicais de esquerda fiquem à frente das localidades ganhas sem maioria absoluta pelo PP. Estas frentes populares acabarão como de costume: os socialistas ficam destruídos e os radicais insuflados.

Símbolo de tudo isto: graças aos votos do PSOE, Madrid vai ter como responsável autárquica Manuela Carmena, uma senhora que enquanto juíza se caracterizou frequentemente por ter uma visão do Direito em que, como afirmam alguns dos seus colegas, se via simultaneamente como parte, legislador e juiz. Visão essa que às vezes levava a situações anedóticas, como aconteceu no chamado caso das calças. (Um processo movido contra vários empresários acusados de venda ilegal de calças de ganga que acabou com o Estado espanhol a ter de indemnizar os ditos empresários pois a juíza Carmena achou por bem distribuir por várias associações as calças apreendidas muito antes de se saber o desfecho do processo. Carmena não ponderara que se os homens fossem considerados inocentes – o que veio a suceder – teriam direito a reaver a mercadoria apreendida).

Num plano politicamente mais complicado também tivemos a juíza Carmena a aplicar as suas teses sobre a sem razão das prisões ao colocar em liberdade, por aquilo que considerou ponderosos problemas de saúde, Manuel Azkárate Ramos, um terrorista da ETA. Misteriosamente a doença que tanto impressionara a juíza Carmena não impedira, no passado, Azkárate Ramos de ser terrorista e muito menos o impediu de continuar a sê-lo assim que a juíza Carmena lhe deu a liberdade condicional.

Por agora Manuela Carmena pretende que a habitação é um direito humano e portanto quer acabar com os despejos; também quer municipalizar os serviços de recolha do lixo e promover activíssimas políticas de género. Este último item, apesar de não se perceber o que tem a ver com os trabalhos inerentes a um município, talvez seja o que levará a cabo com maior sucesso porque gera muito alarido e pouca despesa.

Ao verem-se as improváveis criaturas que o PSOE tem apadrinhado simplesmente para que o PP não exerça o poder, ao constatar-se como os socialistas fecham os olhos ao comportamento dos seus novos parceiros (nomeadamente as arruaças feitas pelo Podemos durante a tomada de posse de Manuela Carmena), cabe perguntar: o que querem os socialistas? E a resposta é só uma e não passa por governar mas sim por declarar: dizerem-se de esquerda. Mesmo que isso implique escaqueirar qualquer possibilidade de efectuar as reformas indispensáveis e que, tanto em Espanha como em Portugal, só podem ser feitas pelo centro.

Dir-se-á que faz parte dos livros que na oposição os socialistas radicalizam o discurso mas que, uma vez chegados ao governo, logo cai sobre eles o mais profundo sentido de Estado. Sendo isto frequentemente verdade, não quer dizer que seja isento de consequências a médio prazo: suponha-se que na oposição o PSD e o CDS ou em Espanha o PP não só confraternizavam como se aliavam e reconheciam a superioridade moral de uns grupos de extrema-direita? Pois esse exercício, que felizmente é mortal à direita, é praticado alegremente à esquerda com a não irrelevante consequência de legitimar, apadrinhar e incentivar uma gente que não tem qualquer programa exequível para governar e que continua intolerante e radical como sempre foi.

Por outro lado, este exercício vai ficando cada vez mais perigoso porque os partidos socialistas vão ficando cada vez mais fracos, os seus eleitorados mais irrealistas e disponíveis para apoiar os mais destravados populismos e as suas lideranças mais reféns dos índices de popularidade. (Qualquer semelhança com a actual situação do PS não é coincidência).

Quanto à direita, ou a não-esquerda como prefere ser chamada, pode perder as eleições, mas essa radicalização ideológica dos socialistas até lhes convém (mas só convém de facto à direita e só convém num primeiro momento) pois fugindo a direita ao debate ideológico, o espectáculo mais ou menos folclórico das frentes de esquerda no poder é o melhor presente que pode ter.

Querem melhor exemplo que o Syriza? O Syriza tem feito mais pela credibilidade de Maria Luís Albuquerque que quaisquer resultados conseguidos pelo seu ministério. O Syriza e as declarações de António Costa sobre a vitória do Syriza são o melhor presente que Passos teve este ano.

Afinal não podemos esquecer que o infantilismo da esquerda tem o seu reverso à direita no evidentismo: a direita não tem ideias e quando as tem, tem vergonha delas. Ou melhor dizendo, acha-as em geral menos nobres que o socialismo. A este último reserva a direita o estatuto de sociedade perfeita mas utópica. Não fosse a realidade desfazer sistematicamente a utopia e também a direita seria socialista. Daí decorre o evidentismo: mostrar à evidência os evidentes erros dos governos de esquerda não é uma estratégia eleitoral da direita. É a sua ideologia oficial. A sua justificação moral para não ser de esquerda.

E assim Portugal está entre o evidentismo e o infantilismo. Há contudo dilemas piores. Mas espero não ter de escrever sobre eles.





domingo, 14 de junho de 2015


Onde estava no 12 de Junho?



Rui Ramos, Observador 12 de Junho de 2015

É um dos paradoxos da democracia portuguesa: das duas maiores decisões do regime, a descolonização e a integração europeia, nenhuma foi matéria de referendo, mas tão-só de fatalismo histórico.

A pergunta é, numa rábula conhecida, ritualmente feita acerca do 25 de Abril. Mas a menos que o inquirido estivesse entre os oficiais do MFA, a resposta até pode lisonjear a sua vaidade cívica, mas é irrelevante para a história. O 25 de Abril foi uma revolução, em que só os revolucionários contaram. O mesmo, porém, não deveria ser verdade para 12 de Junho de 1985, data da assinatura do tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE). Há trinta anos, vivíamos em democracia. Devíamos ter contado todos. Mas não contámos, pelo menos directamente. O 12 de Junho não foi um referendo. Apenas uma «assinatura».

Não porque o regime tivesse menorizado o momento. Pelo contrário: em toda a história democrática, poucos eventos mereceram uma encenação tão pomposa, com a nova oligarquia democrática a ocupar o mosteiro dos Jerónimos, como os navegantes de uns novos Descobrimentos. O caminho da Europa substituía o caminho da Índia. Porque é que o país só teve o direito de assistir pela televisão  a uma cerimónia diplomática para «altas individualidades»? Numa democracia, não deveriam ter sido convocados os cidadãos para sufragar a decisão, antes das canetas riscarem o papel?

É verdade: a maioria dos eleitores votara sempre nos partidos que tinham promovido a causa da adesão: 76% nas eleições de 1983. Mas em nenhuma eleição a adesão à CEE fora a questão principal. A oligarquia decidiu, desde cedo, tratar a adesão como uma fatalidade. Portugal não tinha escolha, se queria sobreviver e prosperar. A democracia perfilhou assim uma maneira velha de lidar com as grandes opções nacionais. A ditadura salazarista fizera o mesmo com o «ultramar». Sem Angola, não havia vida para Portugal. Agora, a CEE substituía Angola. O raciocínio era o mesmo. A «Europa» era a terra prometida de um povo a quem as fronteiras de uma velha independência não bastavam para a salvação. Depois da Índia, do Brasil e da África, era a vez da Europa.

E também é verdade: havia uma dose de fatalidade nesta história. A adesão à CEE vinha de longe – mais longe do que a mitologia democrática quis reconhecer, ao fazer começar a história apenas com o pedido formal de 1977. Podia-se recuar a 1960, até à adesão de Portugal à Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), ou mesmo a 1948, aquando da filiação portuguesa na Organização para a Cooperação Económica na Europa (OEEC). A ditadura salazarista tentara sempre combinar as suas opções coloniais e anti-democráticas com o acompanhamento da integração económica europeia. Na década de 1960, a inserção na Europa – através do comércio livre, mas também da emigração e do turismo – transformou profundamente o país. Em 1975, os oficiais do MFA que sonhavam com uma Cuba europeia tiveram de se resignar: Portugal estava demasiado enraizado no Ocidente para permitir novas aventuras luso-tropicalistas, agora em versão guevarista. Parecia demasiado tarde para haver escolha.

Onde esteve então o problema? Nisto: não apenas Portugal, mas também a «Europa» ia mudar. Em 12 de Junho de 1985, a República Portuguesa aderiu à CEE. Oito anos depois, a CEE já não existia, substituída pela União Europeia do Tratado de Maastricht. Mais: a Europa de 1985 também já não existia. O colapso do comunismo europeu e a «globalização» transformaram os mapas e abriram as fronteiras. Portugal, que esperava deslocalizações industriais a seu favor, foi subitamente confrontado com concorrentes inesperados, da China à República Checa. A classe dirigente da democracia portuguesa decidiu então mergulhar o país na parte mais funda da piscina. Era preciso, a todo o custo, manter Portugal no «pelotão da frente» da integração. Mercado único, moeda única — tudo foi tratado como matéria de urgência e de consenso.

Houve sempre velhos do Restelo. Mas nunca em número suficiente para sujeitar o «processo europeu» ao teste da vontade popular. É um dos paradoxos da democracia: das duas maiores decisões do regime, a descolonização e a europeização, nenhuma foi referendada. No caso da integração europeia, além do fatalismo histórico, havia outro pormenor a desaconselhar a consulta: as opiniões sobre o «projecto europeu» pareceram sempre demasiado circunstanciais. Quando havia subsídios, os portugueses gostavam da «Europa». Quando havia cortes, não gostavam. Nunca pareceu possível discutir a integração em termos do que o país queria ser, mas apenas em termos do que tinha a ganhar. Foi menos uma questão ontológica do que contabilística.

A Europa mudou. Portugal também. Em 1985, os portugueses eram ainda uma população jovem numa economia agro-industrial. Trinta anos depois, formam uma população envelhecida numa economia de serviços. A integração europeia enquadrou esta metamorfose. É costume agora lamentar as oportunidades perdidas, e os erros de trajectória. Mas uma coisa que foi feita com um espírito de fatalidade terá provavelmente de ser prosseguida com o mesmo espírito. Até certo ponto. Porque um dia, a história mudará outra vez. Também é fatal.





sábado, 13 de junho de 2015


Parabéns à Turquia


António Justo

Os resultados das votações na Turquia depois de terem sido contados quase todos os votos revelam a perda da maioria absoluta do presidente islamita Erdogan (AKP) que esperava atingir 330 deputados e conseguiu apenas 41%/259 deputados, (para atingir a maioria absoluta seriam necessárias 276 assentos) revelam. Em segundo lugar ficou a esquerda CHP com 25,2%/131 deputados; a ultra-direita MHP atingiu 16,9%/84 deputados; a HDP pró-curda alcançou cerca de 13% (79 deputados).

O sistema eleitoral turco não permite grande variedade de partidos no ciclo parlamentar, pois para um partido ter assento no Parlamento tem de superar os 10% dos votantes. A oposição conseguiu 291 deputados.

Erdogan queria mudar a Constituição para consolidar os seus poderes presidenciais à maneira de «sultão». Para tal precisaria de 330 deputados. 56,6 milhões de turcos estavam chamados a votar. A participação nas eleições foi de 85,4%. Na Alemanha houve 480 000 turcos que votaram.

Tudo isto revela que o povo turco é distinto e mais democrata do que queriam fazer dele. Felizmente a Turquia está mais moderna que a maioria dos seus chefes.





segunda-feira, 8 de junho de 2015


A Grécia não quer a vaca
mas quer ficar com o leite

O Governo grego enerva a Europa governante
e especula em segredo sobre eleições


António Justo

A Grécia parece não ter curral para a vaca da UE mas quer continuar a receber o seu leite sem se preocupar com os problemas que a vaca custa a manter. O governo de Tsipras não tem futuro porque quer governar e ao mesmo tempo ocupar o lugar de uma oposição que geralmente vive de exigências e de reclamações. Governar implica compromisso e assumir responsabilidade, implica reconhecer que pertencer ao sistema euro, e à moda globalista em voga, tem como consequência o respeito pelas regras do grupo ou então a tentativa de mudá-las sem fugir a elas.

O governo de Tsipras continua em curso de confrontação numa táctica dupla de falar no próprio parlamento contra os credores e contra a Comissão Europeia e cá fora adiar propostas de solução, expondo-se com palavras bonitas para insuflar as asas da ideologia e colher o aplauso de uma claque internacional propensa a ideologias. «Com papas e bolos se enganam os tolos», reconhece a sabedoria popular que apesar disso se deixa enganar. Até o seu amigo Juncker já perde a paciência ao constatar o contínuo adiar da problemática. Tsipras e o seu partido Syriza esperam um corte de dívidas, à custa dos outros países e de instituições bancárias (seus credores; Portugal já perdoou 600 milhões de euros à Grécia (1).

Com o adiamento da proposta de soluções, Atenas ganha tempo para surpresas que depois acontecerão de uma só vez. O governo não está interessado em compromisso (por isso não permite visão nos seus dados e estatísticas), porque o jogo é ideológico e compromisso (aquilo com que se faz política) cheira a traição. Tsypras está interessado nos votos e nos votantes e como tal quer um povo a viver do Estado ou de vacas leiteiras que se nega a manter.

Com o adiamento, agora conseguido, do pagamento do troço de 300 milhões de euros às instituições credoras o Governo grego impediu o colapso financeiro no pagamento de salários e vencimentos dos empregados de Estado. O adiamento dos compromissos assumidos para 30 de Junho, alcança um valor conjunto de 1,6 mil milhões de euros a terem então de ser pagos. O Pacote de resgate da Troika que se daria a 30 de Junho no valor de 7,2 mil milhões está dependente de reformas a propor pelo Governo grego jogando com o interesse que a zona euro tem em manter a Grécia como membro.

Á táctica de adiamento dos problemas pelo Governo grego tem certamente a ver com a incompetência de um governo de visão ideológico-partidária que especula certamente sobre novas eleições e a saída do euro. Com elas poderá lavar as mãos perante o povo como partido e desresponsabilizar-se perante os fiadores e a UE. Um governo que só sabe dizer não é impróprio para a governação e prejudica os interesses do seu país e do seu povo.

Na política e em governação, tal como na vida de um povo é de ter presente a história da cigarra e da formiga. A cigarra quer viver da cantoria e da conversa pública mas à custa da alimentação da formiga. Para uma sociedade futura, sem pretender que se acabe com a rica diversidade política e social de formigas e cigarras, precisar-se-ia de criar mais um ser cívico que integre em si os genes da cigarra e da formiga e de uma nova raça política transparente desinteresseira comprometida com o povo e o país.

Atenas perdeu a oportunidade e a credibilidade de se tornar num elemento corrector da política da UE. O governo de esquerda nacionalista teima em não processar os grandes capitalistas gregos que transferiram centenas de milhares de milhões para fora do país (Suíça, etc.) fugidos ao fisco grego mas, por outro lado, combate o capitalismo da Troika. Até é lógico que queiram defender os grandes oligarcas gregos mas nas suas exigências em relação ao estrangeiro perdem toda a razão institucional pretendendo apenas continuar a ser, com as suas piruetas, a azia estomacal da UE dos fortes sem entender nada do Euro-Esperanto.

De momento, só a saída do euro seria uma medida lógica e coerente com a ideologia que Tsipras defende; o seu jogo das escondidas torna-se vergonhoso para ele e uma desilusão para a esquerda europeia que projectava nele muitas esperanças e desejos escondidos. Tem sido triste a figura que têm feito pedinchando com uma mão e dizendo que não com a outra. Este é o dilema de uma esquerda ainda retrógrada e velha que além de oportunista se tornou corrupta ao assumir a governação tem calcando os ideais de justiça da hombridade e da transparência. Já não nos encontramos no tempo dos heróis e dos exemplos. Cada um serve-se como pode.

Não se vai longe enquanto a UE só se preocupar com poder e dinheiro e a Grécia se interessar pela mistura de dinheiro e ideologia.

O facto de descrever ou tentar prever o que vai acontecer em relação à Grécia não quer dizer que seja por um sistema ou por outro.

O facto de o Governo grego, tal como Portugal, Irlanda e outros países terem razão nas reclamações no que respeita a imposições de poupanças e privatizações em benefício da avalanche agressiva do turbo-capitalismo liberalista das grandes potências, um comportamento de adolescentes só serve para enganar o povo e não alcança nada contra a injustiça institucionalizada. O que a Grécia e Portugal devem contestar e renegociar é a vantagem que a Alemanha e os países fortes da zona euro têm em relação ao mercado mundial, vantagem adquirida, em grande parte, à custa da destruição das economias dos países da periferia da zona euro que viram o seu poder de concorrência na Europa destruído pela abertura ao mercado chinês. Aqui é necessária a negociação de contratos de compensações estruturais económicas e não a luta ideológica.


(1) Não aceita o curso político de poupança ao contrário do que fez Portugal, que abnegado e respeitado consegue, por força própria, sair da dependência da Troika (Portugal vai agora fazer mais um reembolso antecipado, de cerca de 2 mil milhões de euros ao Fundo).





segunda-feira, 1 de junho de 2015


O homem que caminha ao lado das pessoas


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 31 de Maio de 2015

Ramalho Eanes apurou que Sampaio da Nóvoa é uma «inteligência superior». Sem acesso aos estudos científicos que decerto fundamentaram a opinião do general, analisei com cuidado os princípios da candidatura presidencial do citado génio, apresentados há dias no Porto. Terminei fascinado.

O prof. da Nóvoa promete abraçar o «legado» dos ex-presidentes que o apoiam, na medida em que um chefe de Estado «não deve agir nem contra nem a favor dos governos ou oposições». É bem visto: Jorge Sampaio usou Santana para sossegar o PS e patrocinar a ascensão do lendário Sócrates. Soares passou o segundo mandato em campanha contra Cavaco. Eanes cozinhou um partido privativo.

O prof. da Nóvoa exigirá que a Europa abandone as «políticas de austeridade». Embora pareça impossível, há mesmo indivíduos convencidos de que a abundância se estabelece por decreto.

O prof. da Nóvoa não aceitará sem referendo «mais medidas que retirem soberania a Portugal». A ideia subjacente é a de que temos escolha, ou uma escolha que não conduz à bancarrota num ápice.

O prof. da Nóvoa deseja que os portugueses travem «um amplo debate» sobre a Europa. É igual a discutir a FIFA na assembleia geral do Olhanense: não se espera que a Europa trema.

O prof. da Nóvoa prestará «atenção especial ao combate à corrupção e à promiscuidade entre a política e os negócios». Presumivelmente, ainda não acredita que será o candidato do PS.

O prof. da Nóvoa propõe um «compromisso claro na luta contra a pobreza e contra o aumento das desigualdades». É o modelo grego ou, na versão tropical, «bolivariano», que em geral acaba com a classe média de rastos e a igualdade obtida na partilha da miséria.

O prof. da Nóvoa defende que «um presidente pode ser muito mais do que tem sido, (...) pode ser alguém que junta, que une, que abre o futuro quando caminha ao lado das pessoas». Curioso: se alinharmos umas palavras a seguir às outras forma-se qualquer coisa semelhante a uma frase.

O prof. da Nóvoa assume que «ser poeta também é essa inabilidade para o mundo do lucro». Tradução: de lirismo em lirismo até ao prejuízo final.

O prof. da Nóvoa acha que «não podemos continuar a forçar a emigração dos nossos jovens mais qualificados». Evidentemente, muitos dos idosos sem qualificação perceptível ficaram por cá.

O prof. da Nóvoa admite ser um candidato que «incomoda muita gente». O termo adequado é embaraça. Embaraça.

A conclusão a que cheguei é que o prof. da Nóvoa é de facto uma inteligência superior. A quem? No mínimo, aos espécimes que o levam a sério – os que fingem levá-lo a sério por estratégia ou gozo não contam.





domingo, 31 de maio de 2015


A invasão que aí vem


Miguel Esteves Cardoso, Público, 19 de Maio de 2013

No PÚBLICO.pt de ontem dá-se conta de uma reportagem da LUSA sobre o protesto dos pequenos produtores da aldeia transmontana de Duas Igrejas contra a nova lei das sementes que está quase a ser aprovada pelo Parlamento Europeu.

Falam por todas as sementes, todas as hortas, todos os agricultores e, sobretudo, pela economia e cultura portuguesas. A lei das sementes – que proíbe, regulamentando, a milenária troca de sementes entre produtores – é pior do que uma invasão francesa de Napoleão.

É uma invasão fascista que quer queimar a terra para preparar a incursão das agro-corporações multinacionais (como a gigantesca e sinistra Monsanto) que virão patentear as sementes que são nossas há que séculos, obrigando-nos depois a pagar-lhes direitos de autor, só por serem legalisticamente mais espertos. Pense-se em cada semente como uma palavra da língua portuguesa. Na nova lei colonialista das sementes é como obrigar os portugueses a sofrer a chatice e a despesa de registar tudo o que dizem, burocratizando cada conversa.


Atenção: é o pior ataque à nossa cultura e economia desde que todos nascemos. Querem empobrecer-nos e tornar-nos ainda mais pobres do que somos, roubando-nos as nossas poucas riquezas para podermos passar a ter de comprá-las a empresas multinacionais que se apoderaram delas, legalmente mas sem qualquer mérito, desculpa ou escrutínio.

Revoltemo-nos. Já. Faltam poucos dias antes de ser ter tarde de mais. E para sempre. Acorde.