quinta-feira, 2 de julho de 2015


O grande embuste


Maria de Fátima Bonifácio, Observador, 30 de Junho de 2015

É verdade que os gregos votaram pelo fim da austeridade, mas o Syrisa – se ganhar o referendo – irá impor-lhes não só os mesmos ou piores rigores, mas ainda uma revolução que nunca lhe foi encomendada

Em 25 de Janeiro último, o Syrisa ganhou as eleições gregas graças a uma chusma de promessas delirantes, em que qualquer adulto normalmente constituído via de imediato uma lista de impossíveis. Eram promessas maravilhosas: não se pagava a dívida, acabava-se a austeridade, e o povo grego continuava a desfrutar da vida aconchegada a que se habituara desde que os euros tinham começado a regar as terras da antiga Hélade. Mais de 30% dos gregos acreditou neste «conto de crianças», o suficiente para que a coligação de extrema-esquerda denominada Syrisa, acolitada por um pequeno partido de extrema-direita nacionalista, chegasse ao poder. A factura – pois o bôdo prometido custava muitos milhares de milhões – essa pagava-a a Europa, quer dizer, os contribuintes europeus, pois até o dinheiro de Bruxelas terá de vir de algum lado, que só pode ser os nossos bolsos.

Muita gente se interrogou como era possível que um povo com tão ilustre ancestralidade – apesar da miscigenação ocorrida ao longo dos vários séculos de ocupação turca – se deixasse iludir tão entusiástica e facilmente. Proliferaram as teses sobre este mistério. A mais razoável sustentava que a violência da austeridade imposta pela impiedade europeia causara tal miséria e sofrimento, que muitos gregos, esgotada toda a esperança, se convenceram de que já nada, mas nada, tinham a perder. A miséria e o sofrimento são um facto que não oferece dúvida. Mas entre as muitas lições que se podem tirar da experiência grega, uma delas é que os gregos estavam enganados. A Grécia de hoje, mais exaurida e empobrecida, indica que, afinal, ainda havia alguma coisa a perder e portanto a conservar. O Syrisa, como agora ficámos a perceber, optou deliberada e premeditadamente por lançar fogo à casa e mandar tudo borda fora (ver o importante artigo de Teresa de Sousa no Público, 28.6.15). Durante os últimos cinco meses, o Syrisa dedicou-se a um exercício de cinismo que faz de Maquiavel uma alma cândida.

De facto, muita coisa se estranhava nos modos e métodos de negociar da delegação grega que se apresentou em Bruxelas, a começar pelos do seu chefe, o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis. Um tipo giro e bem apessoado, que em Atenas se desloca para o ministério numa moto potente e espalhafatosa, e cuja mulher, uma artista plástica, aproveitou logo a súbita notoriedade do marido para exibir em Madrid os seus maravilhosos artefactos. A dupla era encantadora. As fotografias tiradas pela Paris Match na sua varanda com vista para a Acrópole, comoviam pela alegre simplicidade e notória felicidade de um casal que seguia amando-se à margem do turbilhão político em que a Grécia já então estava mergulhada. É verdade que a exibição pública da intimidade conjugal contrariava o tradicional dever de modéstia e discrição revolucionária. Mas esta era gente moderna, também não falava em capital, nem em exploração capitalista, nem em classes sociais, nem em luta de classes, e menos ainda em vanguarda operária. Falava, muito sucintamente, em nome do «povo», solidário e uno na rejeição da austeridade feroz imposta pela «Europa».

Varoufakis aterrou na primeira reunião do Eurogrupo de rompante e com espalhafato. Optou pela arrogância e provocação, fiado, por certo, no infalível trunfo da chantagem: ou as «instituições» cedem, ou a Grécia sai do Euro, primeiro acto de uma tragédia conducente em linha recta à fatal ruína da União. Ninguém se impressionou ou intimidou por aí além. Nos primeiros tempos, Varoufakis e Tsipras puderam contar com a condescendência dos parceiros do Eurogrupo e o entusiasmo das esquerdas europeias. O da nossa não ficou atrás de ninguém: recorde-se a generalizada esperança do PS e a ridícula carta aberta em que Rui Tavares, pelo Livre e adjacências, prometia para muito breve o envio de novos Albuquerques lusitanos para ajudar a luta titânica que os valentes gregos travavam na vanguarda.

À medida que o ritmo dos «trabalhos técnicos» aumentava sem proveito, e que as reuniões do Eurogrupo se multiplicavam sem sucesso, a condescendência e a paciência foram-se esgotando. Renzi deixou de sorrir. O próprio Hollande torceu o nariz. E até Juncker se deixou de palmadinhas na face do amigo Yanis e acabou por amuar. Só Angela Merkel, a figura mais demonizada durante todo este longo processo, só a pérfida chanceler, ávida de engrandecer o nefasto poderio alemão, não baixou os braços no último momento, procurando ainda forçar uma 25.ª hora: as partes estavam já muito próximas (El País, 28.6.15, «Abortar la negociácion») e que se fizesse um derradeiro esforço (Observador, 28.6.15). Mas ao findar a 24.ª hora, Tsipras mandou parar tudo: o governo grego decidira submeter a proposta de acordo oferecida pela Europa a um referendo, marcado para 5 de Julho.

Perante esta ruptura unilateral das negociações, Merkel teve de se inclinar. E desde então as suas noites devem ter piorado. Não a pensar no Euro, não a pensar nos bancos e na Finança, nem sequer a pensar no contribuinte alemão. Com uma leviandade que causa espanto, Soromenho Marques estabeleceu entre a chanceler e o Kaiser Guilherme II uma hilariante comparação. Ao contrário do que sugere, o Kaiser pensou e tornou a pensar no Plano Schlieffen. Aliás, de 1890 a 1914, Guilherme II, um verdadeiro nazi avant la lettre, não pensou noutra coisa a não ser em arranjar maneira de provocar uma Guerra Mundial, e por isso mesmo entrou em rota de colisão com Bismarck, que naquele ano tratou de se demitir (C. Clark, em The Sleepwalkers, 2013, omite fontes. Cf. J.C.G. Roehl, Kaiser Wilhelm II, 2014).

Angela Merkel está nas antípodas de Guilherme II. As suas insónias devem-se à ponderação de que a Grécia, independentemente da irresponsabilidade de governantes e governados, constitui a última fronteira não apenas da Europa, como também do Ocidente. Ou seja, perdida a Grécia, não são os problemas económicos e financeiros que metem medo – a Grécia representa uns meros 2% do PIB europeu. Neste domínio, há evidentemente motivo para justificada preocupação; esta manhã, o euro já dera uma queda. Mas a inevitável turbulência económico-financeira não se reveste da gravidade, perigosidade e dificuldade que representa o desmoronamento da última fronteira que protege a Europa das convulsões que já transbordam do seu leito no Próximo e Médio Oriente, bem como das que se encontram em gestação na região balcânica, onde Putin não desistirá de implantar a influência da velha Rússia imperial que aspira a recriar. Em suma, a saída da Grécia do Euro, prelúdio para a saída da «Europa», coloca a esta (e à NATO, e portanto aos EUA) um tremendo quebra-cabeças geo-estratégico (ver artigo exemplar de J.A.Fernandes, Público, 28.6.15).

Escrevi logo em Fevereiro que as teorias revolucionárias do Syrisa eram pós-marxistas e pós-leninistas (mas algo gramscianas). O seu mestre, ou um dos seus mestres, certamente o principal, chama-se Ernesto Laclau, um filósofo e docente universitário em Londres, falecido há dois anos. Dei-me ao trabalho de ler minuciosamente o seu livro que para o caso grego mais directamente importa: On Populist Reason (2005). Na impossibilidade de o resumir aqui – é complexo e teoricamente sofisticado –, aconselho a leitura a quem já tenha percebido que, no contexto da globalização e perante o desaparecimento do operariado tradicional e o aburguesamento do que dele sobra, uma teoria revolucionária moderna tem que assentar numa capacidade de mobilização interclassista que supere interesses particularistas contraditórios ou concorrentes. O Capital sumiu-se pelos cabos e interstícios de milhões de computadores instalados em arranha-céus, que num abrir e fechar de olhos comunicam entre si através do planeta. A nova mobilização revolucionária consistirá então, segundo Laclau, na possibilidade de aparecer uma palavra – um significante – «vazio», i.e., desprovido de significado concreto e preciso, e que precisamente pela circunstância desta disjunção se presta a ser apropriado por todos e qualquer um, que nele projectam as suas mais diversas queixas ou reivindicações. Esta amálgama de significações associadas a uma palavra (ou algumas, mas poucas), adquire a hegemonia discursiva que permite mobilizar multidões heterogéneas, mas unificadas por esta espécie de passe de mágica linguístico.

Acontece que na Grécia não há uma oligarquia corrupta que pudesse ser construída como um inimigo comum e absoluto, pelo simples motivo de que a sociedade grega é corrupta de alto a baixo, do porteiro de prédio ao armador de navios. A palavra de eleição foi, então, «austeridade», e tudo, desde a incompetência mais notória aos azares mais casuais, passando pela inesgotável variedade das frustrações pessoais, passou a ser imputado à austeridade. Por aqui deveria passar a fronteira do antagonismo irredutível entre a parte e o todo. Ora a austeridade – conforme pensa o vulgo – não é mais do que um capricho ideológico imposto pela Europa neoliberal, que logicamente deveria ser envolvida no mesmo manto de rejeição. Mas não foi! E não é ainda agora! Os gregos desejam duas coisas incompatíveis: permanecer no euro e na Europa, mas sem «austeridade». O Syrisa mentiu-lhes descaradamente ao prometer ambas as coisas em simultâneo. Foi a maneira elegante de chegar ao poder.

Quando, na última reunião do Eurogrupo, os Tsipras e Varoufakis perceberam que talvez estivessem à beira de um acordo irrecusável, cuja rejeição demonstraria pura má-fé, Tsipras manda abortar as negociações, anunciando que vai referendar a última proposta em cima da mesa. Logicamente, acabou logo tudo ali, incluindo a eventual extensão do programa em curso por mais um mês. Com efeito, de que servia negociar se a vontade do povo grego poderia sempre, em referendo, anular o que os parceiros tivessem acordado?

A responsabilidade pelo abismo sobre cujas bordas a Grécia vacila foi miseravelmente trespassada pelo Syrisa para o povo, algo que Varoufakis apenas há um mês qualificou de «crueldade». Não sei se é cruel ou deixa de ser. Sei que os gregos foram armadilhados. E pouco ou nada importa saber se foi a extrema-esquerda que impôs a Tsipras esta traição. A verdade é que, desde o princípio, os gregos votaram pelo fim da «austeridade», mas o Syrisa – se ganhar o referendo – irá impor-lhes não só os mesmos ou piores rigores, mas ainda uma revolução – que nunca lhe foi encomendada. Não sei porquê, mas já ontem me vieram à ideia uns coronéis.





terça-feira, 30 de junho de 2015


Um Papa pessimista e injusto


Miguel Angel Belloso, Diário de Notícias, 26 de Junho de 2015

Sempre considerei a fé como um motor de esperança e de alegria. Professei também uma grande admiração pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Nenhum deles deixou de assinalar os grandes desafios que a humanidade enfrenta, mas ambos mostraram uma grande confiança no indivíduo e contemplavam o mundo com o optimismo próprio do crente. O primeiro combateu o comunismo pela destruição e morte que este tinha provocado onde foi adoptado como modelo político. Bento seguiu a esteira do seu predecessor ao considerar tacitamente o capitalismo como o sistema mais capaz de produzir o bem-estar geral apesar das suas imperfeições. Em muito pouco tempo, o Papa Francisco impulsionou uma revolução na Igreja. A sua nova encíclica, «Laudatio si», a sua carta pastoral «Evangelii gaudium», assim como as suas frequentes intervenções nos foros públicos refletem um pessimismo ontológico perturbador. Segundo Francisco, o mundo está a desmoronar-se à nossa volta sem que façamos qualquer coisa para o evitar. Os pobres são cada vez mais pobres. As desigualdades são maiores do que nunca e os bens necessários para sustentar a vida humana são cada vez mais inacessíveis. Mas estas ideias, lançadas sem o acompanhamento de um único dado, como se fossem um dogma de fé, não resistem à mais pequena análise empírica e estão completamente erradas. Se já é duvidoso do ponto de vista científico que estejamos em presença de uma mudança climática originada pelo homem, e não por circunstâncias relacionadas com a natureza do planeta, é falso que o crescimento económico aumente a degradação do meio ambiente.

Num editorial publicado no Catholic Herald Philip Booth escreve: «Como é habitual, as análises de Francisco sobre o estado económico do mundo são tremendamente pessimistas. É correcto dizer-se que a poluição origina mortes prematuras e muitos argumentam que as mudanças climáticas estão por trás dos efeitos nocivos. Mas, por outro lado, o cenário subjacente é um incremento colossal da esperança de vida e da saúde como consequência do desenvolvimento económico. E em muitas zonas do mundo, o ambiente está a melhorar espectacularmente.» Assim é: se se quiser abordar com honestidade o problema, este não reside nos países ricos mas naqueles onde não funciona a economia de mercado ou não existe liberdade nem democracia. A China, por exemplo, é dos mais contaminantes. Durante a maior parte do século XX, os Estados comunistas foram os que tiveram mais poluição e um ambiente mais degradado, enquanto os capitalistas limpavam a atmosfera de elementos tóxicos. Há solução para os problemas do meio ambiente mas esta não se encontra na ecologia, que com o pretexto de tornar-nos a vida mais agradável apoia o intervencionismo político e quer travar o progresso técnico e o desenvolvimento económico. A solução depende de que cada vez maiores partes do mundo se incorporem no mercado e se orientem para ele.

Um estudo recente do Banco Mundial indica que o número de pessoas que vivem com menos de 1,25 dólares por dia – o limiar da pobreza – diminuiu em mais de 30% desde 1981, e um relatório da Universidade de Oxford, que corrobora outro similar da ONU – pouco suspeita de ser capitalista –, confirma esta descida dramática e augura que a pobreza será completamente erradicada nos países em desenvolvimento nos próximos 20 anos se os progressos se mantiverem ao ritmo actual. A Associação Americana para o Avanço da Ciência também assinala que a esperança de vida aumentou sustentadamente desde há 200 anos, devido à diminuição das doenças cardiovasculares nos países ricos e à menor mortalidade infantil nos pobres. Se fizermos comparações estatísticas entre os países mais orientados para o mercado e os menos, comprovaremos que são os primeiros os que providenciam melhores condições aos desfavorecidos. O que melhora os níveis de vida é a industrialização e o livre comércio e não as economias dirigidas ou auto-suficientes. E são também aqueles que impulsionam as migrações das zonas rurais para as cidades, que não são os lugares sujos e desagradáveis que Charles Dickens descrevia, mas antes uma oportunidade para ganhar um salário mais alto e viver confortavelmente. Nos países emergentes, mil milhões de pessoas entrarão na incipiente classe média nas próximas duas décadas, de modo que a desigualdade global também está a diminuir. Apesar de os meios de comunicação sugerirem o contrário, o número de conflitos civis e de guerras está no ponto mais baixo da história, segundo a ONU.

Estes são os dados, mas é como se a verdade fosse uma inconveniência para Francisco e para o conjunto da esquerda. João Paulo II sempre abordou os problemas globais com foco e linguagem religiosa. Pensava que a solução para os males do mundo estava em cultivar as virtudes pessoais e em voltar o olhar para Deus. Francisco é um Papa decididamente político, um socialista convencido de que se a humanidade exibe resultados tão desastrosos é porque os seus dirigentes renunciaram ao seu papel executivo, que bem orientado daria lugar a um mundo melhor do que o governado pela força espontânea dos indivíduos actuando livremente no mercado.

Muitas das opiniões da sua última encíclica são inaceitáveis, inapropriadas ou infundadas. Engana-se quando diz que a salvação dos bancos foi feita à custa da população, pois a falência foi evitada para garantir as poupanças dos mais necessitados. A imaginária submissão da política aos poderes financeiros, às multinacionais ou à tecnocracia destila um aroma a um esquerdismo antiquado que não resiste a um único assalto: mesmo nos países mais livres e democráticos, o peso do Estado e a intervenção dos políticos na vida económica são tão perniciosos como dispensáveis. Francisco chega a ser ofensivo ao assegurar que a propriedade privada não pode estar acima do bem comum, quando é precisamente ela que o origina. Só o que se considera próprio estimula o cuidado e a atenção das pessoas para o preservar e enriquecer, quer seja uma quinta ou uma reserva de elefantes, enquanto o público, como mostra a experiência, é habitualmente pasto da negligência e do saque dos que, não se sentindo envolvidos, o maltratam e exploram por o considerarem alheio.

(…)





segunda-feira, 29 de junho de 2015


Subdiretor de Informação SIC


José Gomes Ferreira, Subdiretor de Informação SIC
opiniao@sic.pt- 14:35 18.11.2014



Peço à Galp e à REN
que façam um grande favor
aos contribuintes





Exmos Srs Presidentes executivos da Galp e da REN,
Engenheiro Ferreira de Oliveira e Dr. Rui Vilar:

Peço-vos encarecidamente que divulguem, o mais rapidamente possível, os pareceres jurídicos que vos levam a não pagar a contribuição extraordinária sobre o sector energético de 2014.

Será um grande favor, um verdadeiro serviço público, que farão a todos os contribuintes portugueses.

Os juristas que trabalharam para as vossas empresas, pagos a preço de ouro, são, certamente, grandes especialistas. Tão bons especialistas que conseguem arranjar argumentos para não cumprir uma lei da República, a Lei do Orçamento do Estado de 2014, onde o imposto extraordinário está previsto.

Por favor, divulguem esses pareceres para todos nós, contribuintes portugueses, podermos deixar de pagar a sobretaxa de IRS ao Estado. Sabem, é que os contribuintes normais não têm possibilidade de pagar estudos desses. E certamente que os argumentos invocados para não pagar a sobretaxa de IRC, são certamente utilizáveis para nós não pagarmos a sobretaxa de IRS. Basta copiá-los.

E sabem, cada um de nós até tem muito mais autoridade moral para utilizar esses pareceres e não pagar a sobretaxa de IRS do que as vossas empresas. É que, quando nós instalamos um pequeno negócio, não temos à partida uma rentabilidade garantida dos capitais investidos como a REN tem garantida por lei; e não temos a possibilidade de andar anos a fio a vender gás natural nos mercados internacionais e encaixar 500 milhões de euros de mais valias, por os contratos de abastecimento terem condições vantajosas, enquanto os consumidores portugueses continuam a pagar o gás nas suas casas a preço de ouro, como fez a Galp Energia.

De facto, a crise quando nasce não é para todos.

A pouca vergonha e a falta de decência chegaram a um nível inimaginável no meu País.

E têm carimbo de eficiência dado pelos melhores advogados portugueses.







domingo, 28 de junho de 2015


A tranquibérnia do costume


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador



«Um povo que tenha a coragem
de se manter pobre é invencível.»
Oliveira Salazar

A Fundação Oriente promoveu no passado dia 11/6/2015 uma conferência sobre o presente e o futuro da União Europeia (UE).

Em boa hora o fez, pois se há assunto que mais afecte a nação portuguesa, e os portugueses menos noção tenham do que está em causa, é justamente este.

Foram oradores a deputada do Parlamento Europeu Dr.ª Maria João Rodrigues (PS) e o conhecido eurocéptico – se assim lhe podemos chamar – Prof. João Ferreira do Amaral.

A moderadora foi a conhecida jornalista e «especialista» em assuntos europeus, Dr.ª Teresa de Sousa.

A Dr.ª Rodrigues, que tem uma boa presença e excelente dicção, fez uma exposição dos pontos que considera relevantes de uma forma clara e bem estruturada de pendor favorável (embora não optimista) à manutenção da «União», não apresentando, porém, grandes saídas para os actuais impasse e cacofonia, existentes.

O Prof. Amaral expôs os seus conhecidos pontos de vista críticos relativamente à UE e sobretudo relativamente ao euro, chegando a considerar a hipótese de Portugal, dever não só equacionar a saída do euro, mas também da própria UE (o que ouvimos pela 1.ª vez), visão com a qual concordamos e só peca por tardia.

O Prof. Amaral fala pausadamente e com critério, o que é bom, mas falta-lhe viço e emoção, pelo que o seu discurso sai pouco apelativo; as ideias força dificilmente impressionam o negativo da mente e a poucos arrastará com o seu discurso.

A Dr.ª Teresa de Sousa está uma sombra do que já, certamente foi, mas não se limita a ser moderadora, intervindo e opinando sobre tudo um pouco.

O seu comportamento faz jus, aliás, à designação de «fundamentalista» da União Europeia, expressão que se me afigura feliz para a caracterizar.

Em todo o debate, porém, incluindo a assistência que interveio, todos laboraram num equívoco que foi o de falar na «Europa» como se tratasse de algo que vá para além de uma realidade geográfica – e mesmo sobre os limites desta, está longe de haver consenso…

Isto é, todos assumiram estar a falar de uma realidade política, quando pelo menos em termos da ciência política ninguém se atreve a dar-lhe uma designação como actor político na cena internacional.

Mas não é nestes aspectos que pretendo focalizar a ponta da caneta, embora não possa deixar de reafirmar, que todos os cenários previsíveis para o futuro desta pretensa UE, serem maus para Portugal e o nosso país dever procurar rapidamente uma estratégia de sobrevivência fora do referido âmbito.

Pretendemos, outrossim, focarmos num comentário que a citada moderadora fez a uma pergunta (pertinente) de um compatriota da assistência, sobre o equacionamento de outros cenários onde o nosso (ainda) país se pudesse mover, chamando a atenção para a centralidade atlântica e ultramarina da maioria da nossa História.

A Dr.ª Teresa antes de passar a pergunta, farpou-a a despropósito e, agastada, afirmou que em 1974, o país «era pobre, para já não falar na falta de liberdade»…

Oh Dr.ª Teresa…

Então nós, como país devemos «aliar-nos» ou fazermos opções políticas para ficarmos mais ricos? Eu julgava que era por razões de geopolítica e de geoestratégia!…

E, se até Maastricht, a CEE/CE, se podia considerar uma aliança, a partir daquele tratado a «aliança» ficou para trás, a fim de se tentar a integração. Ou seja elevou-se o patamar das intenções para tocar os aspectos verdadeiramente relevantes e sensíveis, que são aqueles relacionados com a soberania e o próprio carácter dos povos.

Já percebi, pelos vistos a Dr.ª Teresa não se importa de matar a própria mãe, para ficar rica…

Ser rico está acima de tudo? Ser rico é algum ideal de humanidade? Ser rico tem a ver com o Bem, com a Justiça, com a harmonia da sociedade? Com o Belo? Com a Moral?

Ser rico é, para a Dr.ª Teresa, um fim teleológico?

Ficámos pois a saber que a Dr.ª Teresa quer ser rica ou, pelo menos, não quer ser pobre. Seguramente, que se sentia pobre em 1974 – gostava também, que me dissesse se nalguma altura fomos ricos...


*****

Vejamos, pelas minhas contas, em 1974, a economia do país, crescia a 7% ao ano (Angola e Moçambique cresciam mais); o escudo era a sexta moeda mais forte (e respeitada) do mundo; nos cofres do Banco de Portugal, jaziam cerca de 850 toneladas de ouro e 50 milhões de contos, em divisas. Havia paz social, apesar de rebentarem umas bombas, de quando em vez, accionadas por umas duas ou três «associações filantrópicas» de inspiração comunista, que sobreviviam.

As contas estavam equilibradas desde 1929/30 (apesar da crise de 1929 – «crash» da bolsa de Wall Street); da crise da Libra, de 1931; da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial; lançando-se ainda as bases para a industrialização do país, que teve início a partir do Plano de Fomento de 1951 – o que acontecia pela 1.ª vez desde Afonso Henriques…(1)

Tudo isto note-se, feito com meios próprios, sem qualquer tipo de ajuda externa (Plano Marshall, por exemplo) e com parco recurso ao crédito externo – sempre pago a horas – e com pouquíssimos casos de corrupção ou «derrapagens» de prazos, conhecidos.

Assim chegamos a 1974 em que a Dr.ª Teresa se sentia pobre e com falta de liberdade, lembrando ainda que como pano de fundo, o país mantinha cerca de 230 000 homens em armas, espalhados por quatro continentes e três oceanos, 130 000 dos quais lutavam vitoriosamente e com garbo, em três teatros de operações enormes, separados entre si e a base logística principal (que era a Metrópole) por milhares de quilómetros!

Um «pormenor» que provavelmente escapou à perspicácia (e pesporrência) da Dr.ª Teresa de Sousa.


*****

Mas eis que se ultrapassou o ano de 1974 e a citada senhora passou a sentir-se (depreende-se) rica e libertada.

Contudo, vendo bem as contas (e as coisas), estas não devem ser as do rectângulo florido (a cravos) à beira mar plantado – mas agora de costas voltadas para o mesmo e só com olhos postos em Bruxelas!

A «Liberdade» pelos vistos é má administradora pois, num ápice, isto é, em 1978, já o país estava em bancarrota e com uma intervenção do FMI, a que se seguiu episódio semelhante, em 1981.

As divisas foram-se; o dinheiro para as pensões delapidado e da pesada herança em ouro, restam agora 382 toneladas (nunca foram apresentadas contas da sua alienação) das quais o Banco de Portugal não pode dispor, pois estão «hipotecadas» ao euro!

Sim ao euro, já que ficámos sem a tal 6.ª moeda mais forte e respeitada do mundo, coisa que nem a dinastia Filipina se tinha atrevido a fazer!

O povo, ou parte dele, também anda muito satisfeito, sendo rara a semana desde então, em que não houve uma greve ou manifestação…

Entretanto entrámos para a CEE, em condições de extrema fraqueza, em 1986 – ao contrário de 1973, em que negociámos um tratado de comércio altamente favorável – sem debate que se visse e sem referendo, mas engalanando em arco: estávamos (finalmente!) sentados à mesa dos ricos e os nossos problemas estavam resolvidos!

Trabalhar e organizarmos em conformidade não estava, obviamente, na equação. Para quê maçar os portugueses com estes preciosismos, devem ter pensado os adiantados mentais que nos meteram neste imbróglio…

Ainda tramavam a demagogia do voto através do qual o povo, embriagado de liberdade, tratava do seu destino!

Foi assim, não foi, Dr.ª Teresa?

E ainda havia a NATO, que nos defenderia de qualquer eventualidade, obviamente descartada para o símbolo das impossibilidades – esquecendo convenientemente, que para sermos parte de uma Aliança também temos de contribuir para ela…

Ora, como ainda por cima já não tínhamos «colónias» e não havia ameaças, as Forças Armadas (essa «Instituição anacrónica») não eram precisas para nada.

Desta forma começam a destruir a Instituição Militar estando o processo em vias de conclusão, no mínimo, bem encaminhado.

O mesmo caminho levou a Diplomacia.

Ora com a entrada para a CEE começou a chover dinheiro fácil, de vários programas comunitários, que a falsa elite tuga entendeu como oportunidade de negócio e promessa de caça ao voto, em vez de os aproveitarem para o que se deviam destinar, ou seja para serem usados parcimoniosamente no desenvolvimento do país e na reestruturação do Estado.

Em vez disso o país corrompeu-se e deixou-se corromper entre «fugas» para a frente, irresponsabilidade, negociatas ilícitas e na monumental estupidez de se pensar que tudo não passava de almoços grátis; que os recursos eram ilimitados e, ou, quem viesse atrás que apagasse a luz e fechasse as portas…

A classe política que desgovernou o país – originária na ditadura dos Partidos Políticos – é, sem dúvida, a que maior responsabilidade tem em tudo isto e o regime/sistema dito democrático implantado, entre sequestros e loucuras várias, nos idos de 1975/76, tem-se mostrado tão competente, que até faz com que o povo vote na sua própria destruição e no desaparecimento do País!

Mas, ao fim de 20 anos de entrarem nos cofres do Estado, cerca de dois milhões de contos/dia – uma soma astronómica que bate tudo o que trouxemos da Índia, do Brasil e de África, por larga margem e que nem sequer custou trabalho, vidas e fazenda a ir buscar – o país entrou novamente em bancarrota, ficando sujeito à humilhação não da bota cardada de algum exército inimigo, mas à muito pior vestimenta de veludo da «Troika», a qual à pala de nos baixar os juros dos empréstimos que passámos a contrair desenfreadamente, empobrecerem a população em geral – obrigando, entre muitas outras, à inaudita medida do corte das pensões, medida esta que não lembraria nem ao pior sátrapa do antigo Império Persa.

E não se ficaram por aqui: os «homens de fraque», a mando de rostos invisíveis, obrigaram à alienação liberal de empresas e património, que já deve ir no valor de cerca de 40 mil milhões de euros, para mão estrangeiras.

A última vai ser a TAP e os transportes públicos de Lisboa e Porto, que a bandalheira de sindicatos e administrações, de mãos dadas com a pusilanimidade dos sucessivos governos, provocaram a acumulação de um passivo de biliões de euros!

E, Dr.ª Teresa, ao contrário daquilo que o governo do Professor Salazar que a senhora indecorosamente abomina, mas que conseguiu recuperar, nos anos 30 e 40, quase tudo o que estava em mãos estrangeiras, aqui e no Ultramar (portos, caminhos de ferro, carris, telefones, etc., etc.), nem daqui a 200 anos o que agora se foi, terá hipóteses de retornar à lusa gente.

Aliás, daqui a 200 anos ainda vamos estar a pagar a dívida entretanto contraída e que não pára de crescer. A tal dívida com que a senhora julga que ficou rica…

Nessa altura os descendentes da Dr.ª Teresa, se é que algum, hão-de estar riquíssimos e inchados de liberdade. Tenha esperança!

Isto claro, se entretanto uma multinacional preta, amarela, branca, árabe, assim-assim, etc., não tenha comprado já o país todo e a Dr.ª Teresa já nem um metro quadrado de terreno disponha para plantar cenouras e assim ficar com os olhos mais bonitos.

Ou, até, que o grande capital internacionalista, em grande parte de inspiração (e usufruto) sionista, onde aparecem aflorações de índole reformista, consigam impor um governo mundial de que já não têm escrúpulos em falar (não é Dr. Durão Barroso?) e de que a UE aparenta ser uma peça importante do puzzle (estando a posição da Alemanha e da Rússia novamente a baralhar essas contas – ironias do destino…). (2)

Ou seja, Dr.ª Teresa, O actual regime político, depois de deixar alienar num ápice, cerca de 95% do território e 60% da população portuguesa – semeando guerras civis por todo o lado, que provocaram perdas estimadas entre um e dois milhões de mortos –, nada fez com riqueza que criou, já que tudo o que realizou desde o 25/4, foi feito com os bens que herdou, recebeu de bandeja de Bruxelas e, ou, pediu emprestado.

É difícil ser-se mais incompetente em qualquer parte do mundo!


*****

Agora a Liberdade. Não sabemos o que a Dr.ª Teresa entende por liberdade, mas sempre lhe quero dizer que esta, sendo um bem absoluto – por isso intangível – tem aplicação relativa.

Em termos comezinhos, tal quer dizer que a liberdade de cada um acaba quando colide com a liberdade do outro; que há vários «tipos» de liberdade e que há, até, hierarquia na liberdade.

A liberdade individual é para a Dr.ª Teresa mais importante do que a colectiva?

Como em tudo na vida, tem que ter regras que disciplinem e harmonizem as coisas, à luz da evolução dos conceitos morais de cada época.

O que é uma procura de sempre, mas não significa seguramente, cada um fazer o que quer. O que está sempre limitado pelo Direito Natural – conceito combatido por racionalistas, jacobinos e positivistas – e que quase desapareceu da escola, da família e da sociedade; pela Moral, pela Ética e pelas leis.

Estou seguro que, a agora moderadora, está também ciente de que em metade dos países da UE, existe o delito de opinião sobre certas matérias. Como vê uma medida muito democrática e respeitadora da liberdade…

Presumo que a Dr.ª Teresa já não seja do tempo daquele senhor que quando ouvia gritar por liberdade, ia à janela ver quem a turba levava preso, mas sempre lhe digo que este meu escrito tem 5% de hipóteses de alguma vez ser publicado, lido ou debatido, nos meios onde a senhora se movimenta e debita.

Do mesmo modo que, presumo, jamais entenderá (ão) a profundidade da citação do extraordinário estadista, que abre o texto, até porque todos, pelos vistos, querem ser ricos – o que está longe de significar, ter uma boa existência!

E ser «invencível» é superar as contrariedades e perseverar como nação independente e individualizada no concerto e desconcerto da Humanidade.

É isso que garante verdadeiramente a liberdade de todos nós e com isso as liberdades individuais.

A Dr.ª Teresa é livre de deixar a Nação dos Portugueses, mas já não lhe reconheço o direito, e por isso a liberdade, de querer acabar com a mesma.

E quando uma parte substancial das pessoas se começar a aperceber disto – e por toda a Europa já começaram – não há UE que resista. Dá guerra.

Cumprimentando.



(1) Os afloramentos de desenvolvimento industrial tentados pelo Conde da Ericeira, pelo Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo e Alfredo da Silva, comparado com os planos de fomento dos anos 50 e 60 do século XX, podem apenas ser considerados de incipientes.

(2) Fukuyama, Fukuyama, não voltes, pois não estás perdoado!...





sexta-feira, 26 de junho de 2015


A des-socratização do regime


Rui Ramos

Sócrates não é apenas um problema do PS, mas é um problema que só o PS pode resolver.

José Sócrates pretende ser um «preso político». A propósito, Luís Marques Mendes experimentou um trocadilho: Sócrates não é um «preso político», mas apenas um «político preso». Tem graça, mas não é uma solução. O caso de Sócrates é político. Não vale a pena tentar resumi-lo a um simples processo judicial como outro qualquer.

Em primeiro lugar, porque a justiça portuguesa é frágil. É um passadouro de segredos e de indiscrições. Os seus processos desenrolam-se nos tribunais, mas também nos jornais, televisões e cafés. As gravações reveladas a semana passada mostram como Sócrates está consciente disso. Mais do que um interrogatório, registaram uma zaragata, isto é, uma oportunidade para Sócrates se exibir para as bancadas, no seu estilo característico (ó pá, a sua cabecinha). Para Sócrates, é óbvio que o processo nos tribunais é apenas um detalhe técnico de um problema que ele espera decidir, em última instância, pelos mesmos meios com que sempre fez política. Segundo Sócrates, este é um país onde a força prevalece sobre a lei. Com efeito, foi assim que durante seis anos no governo, ele resistiu e derrotou todos os processos e suspeitas judiciais. Muito provavelmente, acredita que só está preso porque perdeu poder. Resta-lhe, por isso, tentar recuperar esse poder, ou parte dele. Não lhe faltam, aliás, exemplos de que nunca a justiça em Portugal conseguiu terminar a carreira de um político, enquanto este teve força ou alguma influência. Mesmo depois de condenado em todas as instâncias.

Até por isso, é preciso tratar este caso de um ponto de vista político. Para Sócrates, a questão política é um ex-primeiro ministro ter sido preso. Mas a questão política é outra. Pelo que sabemos, Sócrates e os seus representantes legais negam tudo, menos uma coisa: que durante anos, incluindo os anos como primeiro-ministro, José Sócrates levou uma vida de luxo, acima das suas posses, graças a enormes quantidades de dinheiro que recebia secretamente do administrador de uma empresa com grandes contratos com o Estado (o qual lhe pagou, por exemplo, um fim-de-ano em Veneza em 2009). Não interessa agora discutir a origem desse dinheiro: essa é a questão judicial. A questão política é que tal situação de dependência oculta, mesmo que não configure nenhum ilícito penal, é absolutamente inapropriada para um político. Em Inglaterra, o ministro trabalhista Peter Mandelson demitiu-se em 1998 por não ter declarado no Registo de Interesses da Câmara dos Comuns um empréstimo de 373 000 libras de um colega do governo.

Em época eleitoral, a tendência é para tratar Sócrates como um problema do PS. Mas no seu auge, o socratismo foi um fenómeno politicamente transversal, como aliás lembraram os comentários à publicação das gravações a semana passada: a brutalidade com que Sócrates exerceu o poder fascinou a direita reformista, enquanto ele tentou passar por «liberal», e fascinou a esquerda radical, quando ele se fez «socialista», depois da crise de 2008 e sobretudo durante a oposição ao actual governo. Sócrates só não entrou na área do PCP. Ninguém em Portugal teve uma visão tão crua do poder. Enquanto primeiro-ministro, quase provou que era possível submeter o país como um todo ao regime típico do pior municipalismo, aquele que fez de algumas autarquias locais o feudo de tiranetes provincianos que tudo controlam e tudo manipulam. Mas se Sócrates nunca foi só um problema do PS, é agora um problema que só o PS pode resolver. Perante a justiça, Sócrates está a tentar passar por uma espécie de sinédoque do seu partido. Na sua pessoa, estariam a ser perseguidos todos os socialistas. Ora, até as condecorações de 10 de Junho aos ex-ministros Teixeira dos Santos e Mariano Gago (a título póstumo) provam que não há conspiração nenhuma contra o PS. Sócrates é o nome da fragilidade da nossa democracia. O regime precisa de se libertar do socratismo, e é o PS que neste momento lhe pode negar o oxigénio político com que ele está a tentar manter viva a sua causa. Ninguém compreenderá se os líderes socialistas não conseguirem dissociar-se da estratégia de defesa socrática. A solidariedade tribal não pode justificar tudo.





quarta-feira, 24 de junho de 2015


Vamos referendar o Acordo Ortográfico!


Heduíno Gomes

Em boa a verdade, a ortografia não é assunto que se referende por constituir matéria a ser tratada por especialistas — competentes e não por broncos ou vendidos a interesses —, no exercício da autoridade do Estado que defenda a identidade nacional — Estado que não temos.

Esta acção política do referendo não é propriamente para decidir da correcta ortografia mas apenas se destina a travar esse crime contra a língua portuguesa iniciado por Santana Lopes-Cavaco e continuado pelos sucessivos políticos medíocres que nos têm governado ao longo destes decénios.

Eis os elementos essenciais sobre a iniciativa.


Recolha de assinaturas está em marcha.

Personalidades das áreas da política, artes, cultura e académicos estão a recolher assinaturas para um 
referendo ao Acordo Ortográfico  (AO1990) e questionam sobre a matéria os candidatos a cargos políticos nas próximas eleições.

Finalmente, os cidadãos podem pronunciar-se sobre um assunto que sempre foi decidido e imposto sem lógica.

Da lista fazem parte escritores, professores e cientistas, políticos, comentadores, jornalistas, todos juntos numa iniciativa que nasceu em Abril passado num fórum realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com o título «Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao Acordo Ortográfico de 1990».

Além do referendo, os promotores querem também perguntar às forças políticas e aos candidatos presidenciais o que pensam sobre o Acordo, se o utilizarão no exercício do cargo caso sejam eleitos, de que forma Portugal se deve de desvincular (se for o caso) e em que sentido votarão a iniciativa de referendo na Assembleia da República.

A iniciativa tem 52 mandatários. O referendo, segundo a Constituição (artigo 115.º  2) pode resultar de iniciativa de cidadãos dirigida à Assembleia da República. São necessárias 75 mil assinaturas.


Onde Assino?

https://referendoao90.wordpress.com/






terça-feira, 16 de junho de 2015


Redacção – Declaração de Amor

à Língua Portuguesa


Teolinda Gersão, Junho, 2012

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia «ele está em casa», «em casa» era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. «O Quim está na retrete»: «na retrete» é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos «ela é bonita». Bonita é uma característica dela, mas «na retrete» é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um «complemento oblíquo». Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo «complemento oblíquo», já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, «algumas» é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos «O Zé não foi ao Porto», era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

No ano passado, se disséssemos «A rapariga entrou em casa. Abriu a janela», o sujeito de «abriu a janela» era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em «ampa», isso mesmo, claro).

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).





segunda-feira, 15 de junho de 2015


O infantilismo, doença degenerativa

do socialismo


Helena Matos, Observador, 13 de Junho de 2015

Os partidos socialistas vão ficando cada vez mais fracos, os seus eleitorados mais irrealistas e disponíveis para os mais destravados populismos e as lideranças mais reféns dos índices de popularidade

Portugal tem um problema: o PS não quer governar. Quer simplesmente voltar atrás. Quer voltar a ser criança, coisa que à esquerda se traduz por radicalizar e proferir as maiores inanidades com o ar sorridente, feliz, de quem sabe que nunca lhe serão pedidas responsabilidades.

Quando o dinheiro acabou o socialismo (redistributivo por natureza) desistiu do pensamento, de construir propostas e foi substituído pelo infantilismo. Só a natureza intelectual e emocionalmente regressiva desse processso explica que, de repente, os socialistas não se distingam dos bloquistas e demais movimentos clonados. Basta atentar em títulos como: «PS diz que irá reverter o processo de privatização da TAP se for Governo» ou «Costa recusa cortes e promete repor pensões» para percebermos que o PS ou não pensa governar ou pelo menos não pensa governar em moldes democraticamente aceitáveis. Já as declarações dos socialistas sobre a TAP ter sido vendida por meio Jorge Jesus estão ao nível do patetismo, coisa que nem me apetece comentar! Fiquemo-nos portanto pela infantilização.

Os socialistas portugueses não estão sós neste seu processo de infantilização que pateticamente confundem com ideologia. Como é hábito, em Espanha tudo é mais acentuado e neste momento os socialistas espanhóis (numa atitude que revela um assinalável desconhecimento da sua própria História) fogem das alianças ao centro e optam por aliar-se à extrema-esquerda. Assim, entre acordos vários, por toda a Espanha, o PSOE deu o seu aval e os seus votos para que radicais de esquerda fiquem à frente das localidades ganhas sem maioria absoluta pelo PP. Estas frentes populares acabarão como de costume: os socialistas ficam destruídos e os radicais insuflados.

Símbolo de tudo isto: graças aos votos do PSOE, Madrid vai ter como responsável autárquica Manuela Carmena, uma senhora que enquanto juíza se caracterizou frequentemente por ter uma visão do Direito em que, como afirmam alguns dos seus colegas, se via simultaneamente como parte, legislador e juiz. Visão essa que às vezes levava a situações anedóticas, como aconteceu no chamado caso das calças. (Um processo movido contra vários empresários acusados de venda ilegal de calças de ganga que acabou com o Estado espanhol a ter de indemnizar os ditos empresários pois a juíza Carmena achou por bem distribuir por várias associações as calças apreendidas muito antes de se saber o desfecho do processo. Carmena não ponderara que se os homens fossem considerados inocentes – o que veio a suceder – teriam direito a reaver a mercadoria apreendida).

Num plano politicamente mais complicado também tivemos a juíza Carmena a aplicar as suas teses sobre a sem razão das prisões ao colocar em liberdade, por aquilo que considerou ponderosos problemas de saúde, Manuel Azkárate Ramos, um terrorista da ETA. Misteriosamente a doença que tanto impressionara a juíza Carmena não impedira, no passado, Azkárate Ramos de ser terrorista e muito menos o impediu de continuar a sê-lo assim que a juíza Carmena lhe deu a liberdade condicional.

Por agora Manuela Carmena pretende que a habitação é um direito humano e portanto quer acabar com os despejos; também quer municipalizar os serviços de recolha do lixo e promover activíssimas políticas de género. Este último item, apesar de não se perceber o que tem a ver com os trabalhos inerentes a um município, talvez seja o que levará a cabo com maior sucesso porque gera muito alarido e pouca despesa.

Ao verem-se as improváveis criaturas que o PSOE tem apadrinhado simplesmente para que o PP não exerça o poder, ao constatar-se como os socialistas fecham os olhos ao comportamento dos seus novos parceiros (nomeadamente as arruaças feitas pelo Podemos durante a tomada de posse de Manuela Carmena), cabe perguntar: o que querem os socialistas? E a resposta é só uma e não passa por governar mas sim por declarar: dizerem-se de esquerda. Mesmo que isso implique escaqueirar qualquer possibilidade de efectuar as reformas indispensáveis e que, tanto em Espanha como em Portugal, só podem ser feitas pelo centro.

Dir-se-á que faz parte dos livros que na oposição os socialistas radicalizam o discurso mas que, uma vez chegados ao governo, logo cai sobre eles o mais profundo sentido de Estado. Sendo isto frequentemente verdade, não quer dizer que seja isento de consequências a médio prazo: suponha-se que na oposição o PSD e o CDS ou em Espanha o PP não só confraternizavam como se aliavam e reconheciam a superioridade moral de uns grupos de extrema-direita? Pois esse exercício, que felizmente é mortal à direita, é praticado alegremente à esquerda com a não irrelevante consequência de legitimar, apadrinhar e incentivar uma gente que não tem qualquer programa exequível para governar e que continua intolerante e radical como sempre foi.

Por outro lado, este exercício vai ficando cada vez mais perigoso porque os partidos socialistas vão ficando cada vez mais fracos, os seus eleitorados mais irrealistas e disponíveis para apoiar os mais destravados populismos e as suas lideranças mais reféns dos índices de popularidade. (Qualquer semelhança com a actual situação do PS não é coincidência).

Quanto à direita, ou a não-esquerda como prefere ser chamada, pode perder as eleições, mas essa radicalização ideológica dos socialistas até lhes convém (mas só convém de facto à direita e só convém num primeiro momento) pois fugindo a direita ao debate ideológico, o espectáculo mais ou menos folclórico das frentes de esquerda no poder é o melhor presente que pode ter.

Querem melhor exemplo que o Syriza? O Syriza tem feito mais pela credibilidade de Maria Luís Albuquerque que quaisquer resultados conseguidos pelo seu ministério. O Syriza e as declarações de António Costa sobre a vitória do Syriza são o melhor presente que Passos teve este ano.

Afinal não podemos esquecer que o infantilismo da esquerda tem o seu reverso à direita no evidentismo: a direita não tem ideias e quando as tem, tem vergonha delas. Ou melhor dizendo, acha-as em geral menos nobres que o socialismo. A este último reserva a direita o estatuto de sociedade perfeita mas utópica. Não fosse a realidade desfazer sistematicamente a utopia e também a direita seria socialista. Daí decorre o evidentismo: mostrar à evidência os evidentes erros dos governos de esquerda não é uma estratégia eleitoral da direita. É a sua ideologia oficial. A sua justificação moral para não ser de esquerda.

E assim Portugal está entre o evidentismo e o infantilismo. Há contudo dilemas piores. Mas espero não ter de escrever sobre eles.





domingo, 14 de junho de 2015


Onde estava no 12 de Junho?



Rui Ramos, Observador 12 de Junho de 2015

É um dos paradoxos da democracia portuguesa: das duas maiores decisões do regime, a descolonização e a integração europeia, nenhuma foi matéria de referendo, mas tão-só de fatalismo histórico.

A pergunta é, numa rábula conhecida, ritualmente feita acerca do 25 de Abril. Mas a menos que o inquirido estivesse entre os oficiais do MFA, a resposta até pode lisonjear a sua vaidade cívica, mas é irrelevante para a história. O 25 de Abril foi uma revolução, em que só os revolucionários contaram. O mesmo, porém, não deveria ser verdade para 12 de Junho de 1985, data da assinatura do tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE). Há trinta anos, vivíamos em democracia. Devíamos ter contado todos. Mas não contámos, pelo menos directamente. O 12 de Junho não foi um referendo. Apenas uma «assinatura».

Não porque o regime tivesse menorizado o momento. Pelo contrário: em toda a história democrática, poucos eventos mereceram uma encenação tão pomposa, com a nova oligarquia democrática a ocupar o mosteiro dos Jerónimos, como os navegantes de uns novos Descobrimentos. O caminho da Europa substituía o caminho da Índia. Porque é que o país só teve o direito de assistir pela televisão  a uma cerimónia diplomática para «altas individualidades»? Numa democracia, não deveriam ter sido convocados os cidadãos para sufragar a decisão, antes das canetas riscarem o papel?

É verdade: a maioria dos eleitores votara sempre nos partidos que tinham promovido a causa da adesão: 76% nas eleições de 1983. Mas em nenhuma eleição a adesão à CEE fora a questão principal. A oligarquia decidiu, desde cedo, tratar a adesão como uma fatalidade. Portugal não tinha escolha, se queria sobreviver e prosperar. A democracia perfilhou assim uma maneira velha de lidar com as grandes opções nacionais. A ditadura salazarista fizera o mesmo com o «ultramar». Sem Angola, não havia vida para Portugal. Agora, a CEE substituía Angola. O raciocínio era o mesmo. A «Europa» era a terra prometida de um povo a quem as fronteiras de uma velha independência não bastavam para a salvação. Depois da Índia, do Brasil e da África, era a vez da Europa.

E também é verdade: havia uma dose de fatalidade nesta história. A adesão à CEE vinha de longe – mais longe do que a mitologia democrática quis reconhecer, ao fazer começar a história apenas com o pedido formal de 1977. Podia-se recuar a 1960, até à adesão de Portugal à Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), ou mesmo a 1948, aquando da filiação portuguesa na Organização para a Cooperação Económica na Europa (OEEC). A ditadura salazarista tentara sempre combinar as suas opções coloniais e anti-democráticas com o acompanhamento da integração económica europeia. Na década de 1960, a inserção na Europa – através do comércio livre, mas também da emigração e do turismo – transformou profundamente o país. Em 1975, os oficiais do MFA que sonhavam com uma Cuba europeia tiveram de se resignar: Portugal estava demasiado enraizado no Ocidente para permitir novas aventuras luso-tropicalistas, agora em versão guevarista. Parecia demasiado tarde para haver escolha.

Onde esteve então o problema? Nisto: não apenas Portugal, mas também a «Europa» ia mudar. Em 12 de Junho de 1985, a República Portuguesa aderiu à CEE. Oito anos depois, a CEE já não existia, substituída pela União Europeia do Tratado de Maastricht. Mais: a Europa de 1985 também já não existia. O colapso do comunismo europeu e a «globalização» transformaram os mapas e abriram as fronteiras. Portugal, que esperava deslocalizações industriais a seu favor, foi subitamente confrontado com concorrentes inesperados, da China à República Checa. A classe dirigente da democracia portuguesa decidiu então mergulhar o país na parte mais funda da piscina. Era preciso, a todo o custo, manter Portugal no «pelotão da frente» da integração. Mercado único, moeda única — tudo foi tratado como matéria de urgência e de consenso.

Houve sempre velhos do Restelo. Mas nunca em número suficiente para sujeitar o «processo europeu» ao teste da vontade popular. É um dos paradoxos da democracia: das duas maiores decisões do regime, a descolonização e a europeização, nenhuma foi referendada. No caso da integração europeia, além do fatalismo histórico, havia outro pormenor a desaconselhar a consulta: as opiniões sobre o «projecto europeu» pareceram sempre demasiado circunstanciais. Quando havia subsídios, os portugueses gostavam da «Europa». Quando havia cortes, não gostavam. Nunca pareceu possível discutir a integração em termos do que o país queria ser, mas apenas em termos do que tinha a ganhar. Foi menos uma questão ontológica do que contabilística.

A Europa mudou. Portugal também. Em 1985, os portugueses eram ainda uma população jovem numa economia agro-industrial. Trinta anos depois, formam uma população envelhecida numa economia de serviços. A integração europeia enquadrou esta metamorfose. É costume agora lamentar as oportunidades perdidas, e os erros de trajectória. Mas uma coisa que foi feita com um espírito de fatalidade terá provavelmente de ser prosseguida com o mesmo espírito. Até certo ponto. Porque um dia, a história mudará outra vez. Também é fatal.