sexta-feira, 14 de agosto de 2015


630 anos da batalha de Aljubarrota



A independência de Portugal como terra livre de gente livre foi confirmada com sangue e sacrifício, pela força das armas, na batalha de Aljubarrota, na tarde de 14 de Agosto de 1385. Faz 630 anos, um momento decisivo da nossa história mostrou aquilo de que fomos capazes quando estávamos unidos por uma vontade comum e sabíamos escolher chefes capazes e dignos de confiança.

Desde a Fundação da nacionalidade, no século XII, até à expulsão dos mouros do nosso território com a conquista definitiva do Algarve por D. Afonso III, em 1249, a prioridade estratégica dos reis de Portugal foi a Reconquista. No entanto, as ameaças hegemónicas de Castela e a política de casamentos entre a família real portuguesa e as dos outros reinos cristãos da Península Ibérica (Castela, Leão, Aragão e Navarra), estiveram a ponto de levar o nosso país ao mesmo destino dos outros reinos peninsulares, absorvidos pela força centrípeta dos castelhanos. As derrotas de D. Fernando nas três guerras travadas contra Juan I saldaram-se pelo desastroso casamento da sua filha e herdeira, D. Beatriz, com o rei castelhano. Por morte de D. Fernando, em 1383, Juan I veio reclamar a herança da sua rainha: o trono de Portugal.

A viúva de D. Fernando, D. Leonor Teles, seguida pela maior parte da aristocracia lusitana, seguiu as regras próprias da época do feudalismo e reconheceu sua filha D. Beatriz como sucessora, conforme estipulava o Tratado de Salvaterra de Magos, assinado por D. Fernando.

Em Dezembro de 1383, o Mestre de Avis, D. João, filho natural do rei D. Pedro I e meio-irmão de D. Fernando, encabeçou uma revolução, com o apoio do povo da capital do reino, expulsou de Lisboa os partidários de D. Leonor, D. Beatriz e dos castelhanos, depois de assassinar, em pleno palácio real, o conde João Fernandes Andeiro, um nobre galego que se tornara amante e principal conselheiro da rainha viúva.

As notícias da revolução de Lisboa puseram o país em pé-de-guerra: de Norte a Sul, muitas cidades e castelos tomaram voz pelo Mestre de Avis, já nomeado Regedor e Defensor do Reino.

Rei por vontade do povo

Após uma prolongada resistência das forças patrióticas contra as pretensões de Juan I de Castela, que entretanto invadira Portugal e pusera cerco a Lisboa durante meses (1384), até ser obrigado a retirar por um surto de peste, reuniram-se Cortes em Coimbra para resolver o problema da sucessão.

Em Março de 1385, os representantes do clero, da nobreza e do povo dividiram-se em duas facções. Os partidários de D. Beatriz primaram pela ausência, preferindo defender os seus direitos pela força das armas, ao lado do rei de Castela. Dos presentes em Coimbra, uma facção, onde se destacavam membros da alta nobreza e do alto clero, declarou-se favorável aos infantes D. João e D. Dinis, filhos do rei D. Pedro e de D. Inês de Castro, sustentando que estes deviam ser considerados filhos legítimos, uma vez que os seus pais tinham chegado a casar-se, embora clandestinamente. O outro «partido», formado sobretudo por elementos da baixa nobreza e representantes dos concelhos, apoiava o Mestre de Avis, por quem se tinham manifestado em Lisboa e outras cidades e vilas.

Contra os opositores da causa do Mestre de Avis destacaram-se os argumentos do doutor João das Regras, apoiados sem papas na língua por Nuno Álvares Pereira (hoje venerado nos altares como S. Nuno de Santa Maria). Ao fim de um mês de debates, as Cortes deliberaram que o trono estava vago, sendo assim legítimo escolher um novo rei. Por unanimidade, os participantes aclamaram então o Mestre de Avis rei de Portugal, com o nome de D. João I.





terça-feira, 4 de agosto de 2015


A língua portuguesa e o século XXI


Juca Ferreira, 3 de Agosto de 2015
Sociólogo, ministro de Estado da Cultura do Brasil

Convoquemos todos para a construção de uma estratégia planetária para a língua portuguesa.

O século XXI começou a testar todos os falantes da língua portuguesa. Está a exigir-nos um protagonismo de grandes proporções. Hoje, há uma expressiva presença do nosso idioma em todos os continentes, que não pára de crescer e adquirir amplas dimensões planetárias.

Compomos um universo de falantes que supera outras línguas muito mais tradicionais no mundo da cultura e dos negócios. Somos mais falados do que o italiano e o alemão. O francês supera-nos apenas quanto ao número de falantes não nativos. Juntos, estamos entre as cinco maiores economias do planeta.

A língua portuguesa está-nos a exigir uma afirmação global, e a solicitar-nos uma obrigação para com ela. Impressiona-me que não tenhamos uma política comum a todos os países que falam o português. Quem há-de negar que precisamos definir uma grande estratégia cultural de presença no mundo que abranja todo o nosso território linguístico?

Quem há-de subestimar a importância da língua? É grande a sua dimensão social, política, económica e geopolítica. É muito mais que uma ferramenta de comunicação. Nela, não estão armazenados somente conhecimentos e informações. A língua é a cultura que ela produz. É quem nos dá os sentidos. É o universo desenhado por ela que nos referencia e nos singulariza. A língua gera coesão, fortalece-nos no mundo globalizado, «é a casa onde moramos». Nela, se deposita (know how), tecnologia. Língua também é economia.

Não subestimemos o assunto. Ele é sério. Estamos diante de uma questão de afirmação da qual não nos podemos escapar. Através da nossa cultura podemos afirmar uma visão de mundo, um modo de vida, projectos de civilização fundados em estratégias generosas e abrangentes. Estou convencido de que podemos ser portadores de uma mensagem planetária singular.

No mundo globalizado em que vivemos, nunca houve tantas trocas de ideias, de discurso, de palavras, entre todos os falantes da língua portuguesa – nunca houve tanto conhecimento e reconhecimento mútuo.

O português de Portugal, o português que emerge nos países africanos e a língua que é falada no Brasil formam um só idioma. Não tenho dúvidas que uma ortografia comum, como parte de uma maior interacção cultural, nos dará a grandeza e dimensão que os nossos artistas e escritores projectam.

É claro que precisamos de uma ortografia uniformizada. É insensato não crer na necessidade de um acordo ortográfico. Possíveis erros de condução não diminuem a sua importância, e o que representa para o fortalecimento da língua no contexto global. A diversidade e a riqueza de um português que floresce em vários cantos do planeta, e que a enriquece, sem uma escrita comum podem vir a comprometer a sua unidade.

Precisamos dar novos passos para a consolidação de uma comunidade de língua portuguesa, compartilhar o nosso universo cultural num grau e proporção ainda não experimentado. Precisamos fortalecer acções de colaboração e integração mútua rumo a uma maior projecção global.

Convoquemos todos para a construção de uma estratégia planetária para a língua portuguesa. Convoquemos aqueles que com ela criam, tendo-a como matéria prima, aqueles que a mantêm viva, que a recriam diariamente e que expressam os seus falares.

Convoquemos os poetas, os escritores, os artistas, os jornalistas, os cronistas, os tradutores, os editores, os professores, os filólogos, os intelectuais, os sociolinguistas, os media, os críticos literários e, também, os padronizadores. Precisamos de todos, inclusive dos Estados nacionais.

Pensemos a língua nas suas diversas dimensões. Consolidemos um universo cultural comum, não apenas nas suas expressões literárias e poéticas, mas também na música, no teatro, no cinema, no pensamento; e nas suas publicações na internet, na rádio, no jornalismo, na TV, etc. etc. Pensemos globalmente.

Não podemos, enfim, simplificar o assunto, reduzindo-o a uma questão puramente técnica. Não podemos desligar a uniformização da ortografia de um contexto cultural mais amplo que diga respeito a toda a comunidade lusófona.





segunda-feira, 27 de julho de 2015


Costa e castigo


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 26 de Julho de 2015

Não era difícil prever o desastre que é António Costa. Os primeiros indícios chegaram com o culto da «inteligência» caseira, que se destaca pela portentosa falta da dita e atabalhoadamente tentou converter um amorfo funcionário do PS no D. Sebastião de 2014. Os sinais acentuaram-se durante o combate contra Seguro, raro momento em que, por comparação, este se assemelhou a um estadista promissor ou, vá lá, a um ser vivo. Chegado à liderança do partido, o dr. Costa continuou a provar com espantosa frequência que a inabilidade na gestão de uma autarquia não basta para governar um país. Não era difícil prever o desastre: difícil era adivinhar a respectiva dimensão.

Comentadores magnânimos atribuem o fiasco a factores externos, da prisão de Sócrates ao advento do Syriza. Na sua generosidade, esquecem-se de acrescentar que, sozinha, a brutal inépcia do dr. Costa, que possui a firmeza da esparguete cozida, transformou cada eventual obstáculo numa cordilheira inultrapassável.

Sobre Sócrates, o dr. Costa começou tipicamente por avaliar mal o «sentimento» popular e defender com tremeliques de orgulho as proezas do preso 44 enquanto primeiro-ministro. Uma bela manhã até desceu a Évora. Meses depois, numa exibição de objectividade sem precedentes, o dr. Costa criticou um governo de que ele próprio fez parte e jurou, sem jurar, não repetir a excursão alentejana.

Sobre o Syriza, o dr. Costa já disse tudo e o seu oposto, de acordo com o que tomou pelo clima do momento. Qualquer hipotético avanço dos maluquinhos que fingem mandar na Grécia tinha o dr. Costa, dez minutos decorridos, a erguê-los ao estatuto de farol da Europa. Em vinte minutos, os avanços recuavam estrategicamente e a apreciação do dr. Costa também: uma ocasião, apelidou o Syriza de «tonto». Mas isso foi antes do referendo, em que o Syriza voltou a ser sublime. E o referendo foi antes do acordo, em que o glamour do Syriza regressou a níveis da peste bubónica.

Nos intervalos dos Grandes Temas, o dr. Costa desdobrou-se a opinar acerca de temas minúsculos, naquele português de causar inveja a Jorge Jesus e sempre no lado errado do discernimento: o «investimento» público (promete muito), a austeridade (é uma péssima opção), a autonomia dos autarcas (quer reforçá-la), a «lusofonia» (acha-a linda). Nos intervalos dos intervalos, passeou o currículo democrático e arranjou uma guerra interna com as «bases» do PS, que consultaram as sondagens e desataram a questionar a infalibilidade do chefe. As cambalhotas em volta dos (inacreditáveis) candidatos presidenciais não ajudaram. Nem os abraços aos socialistas franceses que, afinal, conspiram para varrer Portugal do euro. Nem nada.

Resta apurar se a tendência para a calamidade é involuntária ou propositada. A verdade é que o dr. Costa conseguiu, em pouco tempo, renovar as esperanças eleitorais da coligação no poder. Um tiro no pé do Governo é invariavelmente seguido por uma explosão auto-infligida no porta-aviões do PS. Se o PS perder as eleições, o mérito será inteirinho do dr. Costa. Se ganhar, é Portugal que não merece melhor. E pior parece impossível.






terça-feira, 21 de julho de 2015


Avisem o António Costa.

Sem austeridade não há euro


António Ribeiro Ferreira, Jornal i, 20 de Julho de 2015

O revolucionário Alexis Tsipras percebeu bem as regras. Um país da moeda única não pode andar a contaminar os outros com défices e dívidas.

A Grécia não foi humilhada coisa nenhuma. Estava de novo na bancarrota, sem dinheiro para pagar aos credores, bancos fechados e controlo de capitais, com as importações limitadas e em risco de falhar salários e pensões. Pediu um terceiro resgate, que pode chegar aos 86 mil milhões de euros, e ouviu dos seus parceiros as condições necessárias e suficientes para receber mais um empréstimo. Tudo normal, nada de capitulações, rasgar de vestes e tratados de Versalhes. Claro que para o Syriza e para o primeiro-ministro Alexis Tsipras, são sapos difíceis de engolir. É normal. Depois de uma campanha eleitoral cheia de slogans contra a austeridade, apoiada e aclamada pela extrema-esquerda e extrema-direita europeias, com alguns socialistas pelo meio, chegar a Atenas com um caderno de encargos recheado de reformas e cortes não é fácil nem agradável.

Ainda por cima, depois de um referendo em que o governo do Syriza apelou de novo a um chumbo da austeridade e recebeu o apoio de 61% dos gregos. Mas Tsipras deve ter aprendido bem a lição de estar numa moeda única. A austeridade só é exigida a quem não tem as contas públicas em ordem, tem défices excessivos e dívidas incomportáveis e não consegue avançar para reformas no mundo do trabalho e no Estado social que garantam crescimento económico, emprego e excedentes orçamentais que permitam baixar o endividamento. Um país que aceitou pertencer à União Monetária e adoptou a moeda única está obrigado a cumprir regras. Não pode, com a sua indisciplina, andar a contaminar as economias dos países que fazem esforços, aplicam medidas duras aos cidadãos, fazem reformas e depois vêem os seus esforços deitados para o lixo por erros alheios. A cimeira de 12 e 13 de Julho fica, naturalmente, na história.

Não por se ter chegado a acordo com a Grécia para o terceiro e, provavelmente, último resgate do país. Mas pelo facto de os países do euro terem, pela primeira vez, posto em cima da mesa, de uma forma clara, a possibilidade de um país sair da zona euro. É um passo em frente, um grande e sério aviso a toda a navegação europeia. E deve, por isso mesmo, ser levado em conta em Portugal, numa altura em que os partidos estão na estrada a vender aos portugueses os seus programas eleitorais, as suas promessas e as suas ilusões para o futuro. Os portugueses, que acompanham com muita atenção o que se passa na Grécia, já perceberam com certeza que as regras da moeda única não só não vão mudar como não vão ficar mais flexíveis, como anda por aí a vender o líder socialista António Costa. Não há alternativa ao Tratado Orçamental e às suas regras.

As contas têm de estar equilibradas, os défices claramente abaixo dos 3%, e os países devem apresentar excedentes orçamentais primários para tornar as dívidas públicas sustentáveis. A promessa socialista de encher os bolsos dos portugueses de dinheiro para aumentar o consumo, fórmula mágica de fazer crescer a economia e o emprego, é o caminho certo para o desastre. A promessa socialista de voltar ao investimento público para aumentar o emprego e o PIB é o caminho certo para o país voltar ao desastre não só de 2011 como de 1976 e 1983. Os portugueses devem lembrar-se que o país já caiu três vezes na bancarrota em 41 anos de democracia. Se cair na quarta, sai do euro e entra no caos e na miséria. Na hora do voto, a Grécia deve estar na ponta da caneta.





sexta-feira, 17 de julho de 2015


Como os «democratas» escrevem a história...


Heduíno Gomes


No blogue de um alfarrabista surge o anúncio de um livro editado em 1935 dando conta da insurreição de 1931 contra a Ditadura Nacional, a qual teve lugar nos Açores e Madeira.

Eis o texto de apresentação do livro e que é reproduzido no blogue.

Insurreição contra o regime de Salazar, também conhecida como revolta dos deportados, pretendia no essencial a reposição dos direitos constitucionais estrangulados pela ditadura triunfante a 28 de Maio de 1926. Leonel Ferro Alves dá aqui um contributo para que a história dessa época não se fique apenas por umas notas oficiosas na imprensa estatal: «[...] Para que se compreenda a politica repressiva do govêrno é imprescindível conhecer a intensidade do movimento revolucionário dêsse tempo. [...]»

Ora, nesse momento da insurreição contra o Governo da Ditadura Nacional, em 1931, Salazar era apenas Ministro das Finanças. Só passou a Presidente do Ministério em 1932.

Este é apenas um exemplo de pequenas falsificações — e grandes também as há — da história feitas pelos ignorantes ou trafulhas «historiadores» «democratas», sempre moldando factos de modo a «provar» o que pretendem.

Note-se também que o livro foi editado já em 1935, portanto com três anos de Governo de Salazar, e levando o citado texto como apresentação — o que prova bem a feroz censura existente...

«Palavras para quê? São artistas portugueses...»





quinta-feira, 16 de julho de 2015


Eu culpo François Hollande


Rui Ramos, Observador, 14 de Julho de 2015

Quem redigiu o novo guião de austeridade de Tsipras não foi a Alemanha: foi a França. Deixem portanto Merkel e Schauble em paz. Se querem um culpado, olhem para François Hollande: «a Europa é ele».

Ainda vale a pena bater no Syriza? Ontem, Tsipras prontificou-se a aprovar em menos de 48 horas todos os cortes e todas as liberalizações a que os seus antecessores da direita e da esquerda moderada resistiram durante cinco anos. Sim, o mundo é um pouco mais complexo do que parecia no bar da faculdade. Quem é que esperava ver a austeridade convertida na melhor opção da esquerda radical? Os radicais tinham razão: é mesmo uma «ideia perigosa» — parece que se pega.

As viúvas do Syriza têm uma explicação simples para este milagre digno da estrada de Damasco: foi tudo uma vingança alemã. Com o devido respeito, não me parece: a Alemanha, segundo constou, não desejava mais austeridade para a Grécia. Preferia, sem ilusões, deixá-la seguir o seu caminho de plena soberania, com a ajuda de um programa humanitário. Quem redigiu o novo guião de austeridade de Tsipras não foi a Alemanha: foi a França. Deixem portanto Merkel e Schauble em paz. Se querem um culpado, olhem para François Hollande. O presidente francês, aliás, confessou tudo na sua monárquica conferência de imprensa da manhã de segunda-feira: «Na Alemanha, havia uma grande pressão para a saída da Grécia. Mas eu recusei essa opção». Uma fonte governamental francesa foi ainda mais clara no Le Monde: «A Europa é ele». Luís XIV só dizia isso do Estado em França. Os seus sucessores republicanos, muito mais soberbos, já o dizem de todo o continente.

Há três anos, Hollande foi, com a sua conversa de «crescimento», o primeiro D. Sebastião dos inimigos da austeridade. Mas a austeridade é ele. Em França, através do ministro Macron. Na Grécia, por meio de Tsipras. E isto é assim, não porque Hollande pretenda liberalizar a França ou a Grécia, mas porque há muito tempo – desde François Mitterrand — que os políticos franceses resolveram sacrificar tudo e todos à sua ideia de capturar o poder económico alemão através de uma união monetária à escala continental. Jamais a França quis reconhecer que a moeda única deveria resultar da convergência das economias e das instituições. Jamais a França poderia admitir que o euro era reversível. Por isso, a Grécia entrou no euro, e por isso a Grécia não saiu agora. Para os políticos franceses, o euro é uma questão política, que diz sobretudo respeito ao equilíbrio de poderes na Europa ocidental. Mas é também o seu meio, através das transferências do BCE, para protegerem a França das mudanças a que estaria sujeita no mundo da globalização.

O projecto francês assenta, em primeiro lugar, no velho complexo de culpa da Alemanha. Mas o euro tem também uma base social. Sem isso, os devaneios de poder parisienses não iriam longe. Em países como a Grécia, só o regime do euro pode manter uma moeda forte que embaratece as importações e defende pensões e poupanças contra as desvalorizações monetárias. Por isso, muita gente na Grécia está disposta a aguentar, até certo ponto, as taxas e os impostos necessários para equilibrar as contas, se a alternativa for a saída do euro. Mas não esteve, até agora, pronta para sustentar liberalizações ou a debater o papel do Estado. Ora, o aperto fiscal sem reformas estruturais, que é aquilo que temos tido no sul da Europa, é de facto uma armadilha.

Beneficia aforradores e (apesar dos cortes) também os pensionistas, mas à custa de todos aqueles a quem os impostos e as regulamentações tiram recursos e oportunidades. Nestes termos, é a receita de uma longa decadência.

Pior ainda: devido à relutância de todos os políticos em assumir a disciplina e o ajustamento do euro, estes aparecem sempre como uma imposição do exterior. A «pressão de Bruxelas» é um jogo de que os governos gostam, porque é uma boa desculpa quando confrontados com clientelas e eleitores desiludidos. Mas este jogo presta-se facilmente à manipulação de demagogos como Tsipras, sempre prontos para contestar a classe política estabelecida em nome da «soberania», da «democracia» e do «Estado social» — mesmo que seja apenas para, uma vez no poder, fazerem exactamente como os seus antecessores, ou até pior.

O resultado é uma espécie de morte da política: o voto deixa de ter consequências, e a governação passa a ser regulada por noitadas em Bruxelas. É significativo que seja agora Tsipras, um esquerdista radical, o agente incumbido de liberalizar a Grécia: nada podia ser mais indicativo da falta de convicção ideológica e da ausência de apoio social com que estas reformas vão ser supostamente executadas. Alguém acredita? O Syriza ameaça desfazer-se e o líder da extrema-direita Panos Kammenos, que Tsipras levou ao poder, já se candidatou ao lugar vago de chefe da resistência à austeridade. Até ser a vez dele de assinar um acordo em Bruxelas. Não se levantem dos lugares, porque o filme continua.





quarta-feira, 15 de julho de 2015


Proposta de um cidadão europeu a Alexis Tsipras

(há sempre um «tuga» para fazer a pergunta chata)


Nicolau do Vale Pais, Jornal de Negócios, 10 de Julho de 2015

O Sr. Tsipras gosta de tomar os restantes países intervencionados e atrofiados pela mesma troika que esteve na Grécia por parvos.

O Sr. Tsipras gosta de tomar os restantes países intervencionados e atrofiados pela mesma troika que esteve na Grécia por parvos. Já todos percebemos que o governo do Syriza joga com a geoestratégia da mesma forma capciosa que, digamos, a Alemanha. Não fosse assim, e a sua primeira visita de Estado não teria sido ao Sr. Putin, com quem fez acordos para «pipelines» construídos com a mão-de-obra barata de uma Grécia à míngua, para lá do razoável. Desde Janeiro que não sei o que quer o Sr. Tsipras: uma nova e reluzente Cuba na Grécia, que, de prato vazio, sirva de modelo de virtudes ao Mundo? Pasmo com a disponibilidade geral para achar que o governo Syriza – que, de Janeiro a Maio, destruiu todas as pontes com a Europa, virando-se ostensivamente para o Nordeste – não tem, ele próprio, financiadores, propósitos, enfim, uma agenda. Lembremo-nos de que a Grécia estava em crescimento económico no final do ano passado. Hoje apoiam o Syriza criaturas como Marine Le Pen (da Frente Nacional) ou Nigel Farage (do UKIP).

Ontem, no Parlamento Europeu, o Sr. Tsipras foi lembrado de tudo o que o seu governo deixou por fazer a nível de reformas, especialmente na área da fiscalidade, a tal para a qual o ex-ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, esteve mandatado durante seis meses. Este, entretanto, não pôde participar de tal debate, pois já abandonou a causa, saindo como entrou: a falar de si mesmo, como um «entertainer».

Mas voltemos ao que nos resta da casa-mãe da democracia europeia, o Parlamento Europeu. O belga Guy Verhofstadt perguntou, alto e bom som, ao Sr. Tsipras quando é que ele começa a fazer política; perguntou-lhe pelo fim dos privilégios fiscais da Igreja Ortodoxa. Perguntou-lhe pelo fim dos opíparos bónus e alcavalas dos militares, pelo fim do clientelismo, por legislação anti-corrupção, por reformas do IVA. Pelo fim dos privilégios obscenos dos armadores. É claro que Guy Verhofstadt deve saber o mesmo que eu: que boa parte destas áreas é tutelada por um ministro da extrema-direita, que até já ameaçou «inundar a Europa de imigrantes e jihadistas». Ele é «só» o ministro da Defesa, precisamente, armador de profissão. Perante isto, o primeiro-ministro grego voltou a bater na tecla do perdão de dívida à Alemanha, tornando a esquecer que a Grécia já teve um perdão de 50%, acerca dos quais portugueses, espanhóis, italianos, irlandeses e cipriotas não abriram a boca, muitos dos quais por solidariedade. Uma solidariedade que o governo grego tem desprezado, não perdendo uma oportunidade para – tipo Merkel – nos dizer «o que temos de fazer» a seguir.

Ora, a sorte do Sr. Tsipras é que os burocratas eleitos pela Alemanha para o Parlamento Europeu são uns nabos. É que a pergunta que se impunha, perante tal matreirice deselegante, é se a Grécia e Tsipras estão, ou estariam, interessados em claudicar às mesmas condições que a Alemanha teve de claudicar, para que lhe fosse perdoada a dívida nos tais moldes dos acordos de Londres de 1953. Ou seja, e entre outras:
  • A entrega incondicional de toda a soberania grega: a Alemanha era, de facto, um país ocupado há oito anos na altura, e assim teve de continuar; acabava-se, assim, o governo Syriza, e referendos, nem vê-los;
  • A perda total de autonomia para negociar com outros agentes que não os representantes do Plano Marshall: a Alemanha viu-se obrigada a reduzir toda a sua actividade económica àquilo que os Aliados quiseram dela fazer; acabavam-se assim os negócios com o Sr. Putin;
  • A inscrição de medidas constitucionais que proibiram a existência de partidos extremistas; acabaria, assim, sei lá, o Syriza…
Se o Sr. Tsipras está disponível para aceitar este pacote de medidas, então eu, cidadão europeu, aceito o perdão. Mas não é de 63% como tem sido evocado, mas de 13%, já que 50% já estão debitados na conta de todos os contribuintes da Zona Euro. O Sr. Tsipras mentiu, dizendo aos gregos que depois do referendo tinha um acordo «em 24 horas»; o Sr. Varoufakis mentiu quando disse que tinha «reservas para aguentar seis meses em caso de bloqueio económico». Já não há remédios nas farmácias, mas, claro, é fácil negociar com a fome dos outros. Entretanto, a miséria cresce e cresce, desmentindo o axioma de que «não há pior do que a austeridade». Há pois; por exemplo, ser alemão em 1946 sem ter tido nada que ver com os assuntos do III Reich.






À atenção do público em geral

e de alguns jornalistas, locutores, políticos

e até professores universitários...







sábado, 11 de julho de 2015


Partido alemão (AfD)

Nas pegadas da «Front national» francesa?


O despertar dos nacionalismos
como resposta à irresponsabilidade política
e económica da União Europeia

António Justo

No Congresso do partido AfD (Alternativa para a Alemanha) realizado em Hessen a 4 e 5 de Julho, impuseram-se as forças nacional-conservadoras, elegendo como sua presidente Frauke Petry. Deste modo a AfD perdeu o seu fundador Prof. Dr. Bernd Lucke que há anos tinha profetizado a actual crise da Grécia.

O economista Bernd Lucke, depois de ter sido destituído de chefe demitiu-se do partido. Lucke vê na eleição da nova direcção (a sua rival Frauke Petry) uma nova orientação que permite o espalhar-se de  ideias latentes islamofóbicas e contra os estrangeiros. O presidente deposto alega que a nova presidência assumirá uma orientação anti-ocidental (USA) e «uma orientação resoluta a favor de uma política externa e de segurança pró-russa».

Bernd Lucke na sua atitude professoral não era a pessoa mais indicada para estar no topo do partido que reúne em si imensa gente descontente. Bernd Lucke é presidente da Associação «Weckruf 2015» («Relógio Despertador 2015») e pode fundar um novo partido. Nos últimos dias 600 membros já abandonaram o partido AfD que contava com 21 000 filiados.

Apesar da clientela do partido, no dizer dos partidos estabelecidos, constar de uma mistura de «críticos do sistema, nacionalistas, populistas, amigos do movimento Pegida e racistas» não será fácil a Bernd Lucke conseguir a fundação de um novo partido que se afirme.

Com Frauke Petry, o partido tornar-se-á mais radical. Atendendo ao geral descontentamento político em relação aos partidos principais e aos problemas de integração de estrangeiros, à crise do Euro e ao descontentamento de grande parte da população em relação à política americana nas fronteiras com a Rússia, a AfD continuará a ter muitas chances.

Embora a Alemanha não se possa comparar com a França, o potencial de eleitores do estilo da «Front nacional» francesa, aumentará também na Alemanha. Frauke Petry afirma que não seguirá as pegadas da Front nacional.

Os ventos que correm na Europa e no mundo, em reacção ao globalismo e ao modo como a UE se comporta com os seus países membros, dão mais razão a uma retalhação da sociedade como movimento reactivo às centralizações do poder político-económico-ideológico.

Numa democracia, os governos e os parlamentos dependem dos eleitores e estes estão muito descontentes devido a uma política europeia de tecnocratas cada vez mais distante dos cidadãos e mais próxima das elites. O melhor exemplo revelador da situação europeia torna-se palpável no teatro da tragédia grega e no teatro das marionetes de Bruxelas. De um lado o nacionalismo grego e do outro lado os nacionalismos congregados em torno da UE e representados até ao esgotamento.





quinta-feira, 9 de julho de 2015


E se a Grécia sair do euro?


Diversos autores

Sempre que um país passa por problemas económicos, surge um grupo de economistas dizendo que tudo pode ser corrigido caso o governo desvalorize simplesmente a moeda — isto é, deprecie a sua taxa de câmbio.

Apesar de não ser possível encontrar um exemplo de país que tenha saído da pobreza e se tenha tornado próspero depreciando a sua moeda em relação às outras, tal «solução» segue impavidamente em moda. A desvalorização da moeda é uma panaceia que ainda atrai muitos «pensadores» e continua sendo uma ideia extremamente popular entre alguns círculos de economistas.

Aproveitando o momento, façamos um exercício mental para analisar as prováveis consequências da desvalorização. Vamos utilizar a Grécia como exemplo.

Suponhamos que a Grécia, que hoje faz parte da zona do euro, conseguisse de alguma forma voltar a emitir um novo Dracma, e que essa nova moeda se desvalorizasse rapidamente, passando de um dracma por euro para dois dracmas por euro num curto período de tempo (um mês, talvez), o que representaria uma desvalorização de 50%.

Vamos também supor que o governo utilize os seus poderes coercivos para estipular que todas as obrigações existentes em euro, tais como títulos e contractos de trabalho, para todas as pessoas e entidades na Grécia, sejam unilateralmente convertidas em dracmas na relação de 1 dracma para 1 euro.

O dracma agora é uma moeda independente e com câmbio flutuante, e a sua taxa de câmbio está relativamente estável perto de 2 dracmas por euro (uma taxa até bastante optimista).

Sendo assim, o valor total da dívida do governo da Grécia, em termos de euro, cai 50% (repetindo: a moeda desvalorizou-se 50% em relação ao euro, mas todos os passivos foram convertidos de euro para dracma à taxa de 1 para 1).

Consequentemente, as dívidas de todos os outros devedores na Grécia, tais como empresas, bancos e pessoas, também são reduzidas em 50% em termos de euro.  (Se uma empresa devia 100 milhões de euros, agora ela deve 100 milhões de dracmas.  Mas como 1 dracma vale 0,50 euro, 100 milhões de dracmas são 50 milhões de euros.)

Em princípio, isso não é um grande benefício para os endividados gregos, entre eles o governo, pois o rendimento, denominado em dracmas desvalorizados, também caiu 50% em valores de euro. Tanto a dívida quanto a receita tributária do governo foram simultaneamente desvalorizadas, e o mesmo ocorre com os salários das pessoas e as suas dívidas.

No entanto, não vai demorar muito para que as receitas tributárias, as receitas das empresas e os salários das pessoas comecem a subir (em termos nominais) em consequência tanto da inflação monetária que agora o governo grego poderá causar (ao sair do euro e adoptar uma moeda própria, o governo está mais livre para inflacionar a moeda) quanto à grande inflação de preços que será causada pela desvalorização da moeda.

Como consequência de tudo, os calotes nas dívidas diminuirão. O declínio nos calotes irá permitir que os bancos gregos, até então descapitalizados por causa de empréstimos ruins, readquiram alguma saúde financeira. Para completar, os activos estrangeiros dos bancos gregos (como títulos do governo alemão ou empréstimos feitos a empresas italianas e espanholas) irão dobrar de valor em termos de dracma, o que irá melhorar os seus balancetes consideravelmente.

Com a redução dos calotes, as falências corporativas também irão diminuir, o que significa menos desemprego. Os trabalhadores gregos, cujos salários foram reduzidos à metade em termos de euro, agora estão mais «competitivos» (isto é, recebem menos) que os de Portugal, Espanha e Itália.

Por outro lado, as empresas gregas voltadas exclusivamente para o mercado interno não usufruirão de grandes benefícios, pois os trabalhadores gregos não serão capazes de comprar muita coisa com os seus salários desvalorizados. Por causa da súbita desvalorização cambial, o poder de compra dos gregos caiu. O custo dos bens e serviços importados dobrou, o que reduz ainda mais o rendimento disponível dos trabalhadores. Tudo o que foi produzido no país e que não foi consumido (pois o rendimento real da população caiu), será transformado em excedente exportável.

Aqueles assalariados mais bem pagos da Alemanha e da Inglaterra, que querem escapar dos seus respectivos Invernos e estão à procura de uma praia (ou mesmo de um local barato para viver quando se aposentarem), trocarão a Espanha pela Grécia e aproveitarão todas as ofertas em dracmas desvalorizados.

Sendo assim, a Grécia vivenciará um forte aumento nos negócios e nas contratações relacionadas com o turismo e, talvez, no sector da exportação. Por causa disso, a economia parecerá estar a melhorar, e as receitas tributárias do governo estarão aumentando, pelo menos em termos nominais de dracmas.  Os preços ao consumidor subirão aproximadamente 20% no primeiro ano da desvalorização, e os economistas aplaudirão efusivamente, pois a deflação de preços «foi superada».

Principalmente por ter começado com valores pequenos na decorrência da crise, a bolsa de valores da Grécia irá disparar. Mas ela teria de subir pelo menos 100% apenas para se manter com o mesmo valor em termos de euros.

Este cenário parece agradável, não?

Mas há outros fenómenos a ocorrer. O que acontecerá com todos os bancos alemães e franceses que fizeram empréstimos para as empresas gregas? O que acontecerá com todos aqueles títulos do governo grego na posse dos bancos alemães? Os títulos e os empréstimos agora valem apenas 50% do seu valor da metade em termos de euro. Os bancos alemães e franceses terão de ser socorridos, e milhões de correntistas alemães e franceses darão esse socorro compulsório por meio de uma redução nas suas contas bancárias (exactamente como ocorreu em Chipre).

Os destinos turísticos em Espanha e no sul da Itália perderão clientes e, como consequência dessa súbita perda de receitas, começarão a dar calotes nas suas dívidas. As indústrias de cimento e naval de outros países europeus não conseguirão concorrer contra as importações baratas da Grécia, e também começarão a dar calotes nas suas dívidas. O desemprego nestes países irá subir.

O trabalhador grego tem agora um novo emprego, mas o seu salário, reduzido a metade em termos de euro, nunca mais compra tudo aquilo que antes ele conseguia comprar. Os preços internos aumentam continuamente, e, embora o seu salário também aumente em termos nominais, ele não acompanha a subida dos preços. Os pensionistas gregos são os mais afectados, principalmente aqueles cuja poupança estava nos bancos gregos (e não noutros países da zona do euro).  Ao passo que os seus semelhantes em França e na Alemanha tiveram uma perda de 20% nas suas contas bancárias (20% é o total de títulos gregos na posse dos bancos europeus), os poupadores gregos descobrirão que agora compram aproximadamente 50% menos com a sua poupança (por causa da desvalorização cambial e da inflação de preços crescente na Grécia).

O sistema tributário grego certamente não será ajustado de acordo com a desvalorização. A consequência será a de que, com rendimentos nominais maiores, uma maior fatia dos ganhos será tributada. E o resultado final é que pessoas com rendimento real mais baixo — e até então isentas — também terão de pagar imposto de rendimento. Isso gerará um grande fardo sobre toda a economia, que poucos serão capazes de identificar. Tradicionalmente, a culpa será atribuída aos altos preços da energia importada.

Após algum tempo — talvez alguns anos —, os salários dos trabalhadores gregos já terão subido, em termos nominais, o bastante para acabar com aquela «vantagem comparativa» inicial.  Os impostos reais mais altos começarão a introduzir uma persistente obstrução na economia grega.

Adicionalmente, o sistema financeiro grego já se tornou deficiente e inconfiável. Após a desvalorização, ninguém está disposto a conceder mais empréstimos em dracmas. Afinal, quem vai querer correr o risco de ter os seus activos subitamente desvalorizados novamente? As taxas de juros domésticas já subiram e estão altas, e o volume de empréstimos está baixo.

As grandes empresas ainda conseguem alcançar empréstimos em euros, mas isso não estará disponível para famílias e pequenas empresas. As famílias, que já foram prejudicadas uma vez, não irão manter a sua poupança nos bancos gregos. O mais provável é que elas descubram maneiras informais de poupar e investir sem recorrer ao sistema financeiro. Já as famílias mais sofisticadas irão simplesmente utilizar os bancos alemães (porque os mais ricos já retiraram quase todo o seu dinheiro dos bancos gregos), e a sua poupança e o seu capital jamais retornarão à Grécia.

Por tudo isso, a economia grega apresentará uma baixa criação de capital, um ambiente de investimentos totalmente distorcido, no qual apenas as grandes corporações conseguem financiamento, e uma baixa criação de empregos. A economia volta a estagnar-se. Consequentemente, o governo volta a incorrer em déficits orçamentais, uma vez que as receitas tributárias começam a cair e a procura por serviços na Segurança Social cresceram. Como o governo não consegue endividar-se em dracmas — só a taxas de juros proibitivas —, terá de se endividar em euros. Mas isso também será difícil, pois o governo já se mostrou inconfiável. A única opção será aumentar ainda mais os impostos.

À medida que essas dificuldades se vão acumulando, alguns economistas acreditarão ter encontrado a solução: desvalorizar novamente! Essa ideia ganhará o imediato apoio dos grandes exportadores e do sector do turismo, os quais adorariam voltar a ter uma «vantagem competitiva» em termos de mão-de-obra barata.

Como esses sectores antes já se tinham beneficiado economicamente, tornaram-se mais influentes politicamente. Por outro lado, os sectores que foram prejudicados pela desvalorização, como as empresas que dependem de importações e as voltadas exclusivamente para o mercado doméstico, perderam toda a sua influência política. Sendo assim, o sistema político passa a ser orientado apenas pela ideia de mais desvalorizações.

Com a imposição de novas desvalorizações, todo o ciclo se reinicia: o sector exportador e o sector turístico ganham um impulso temporário, mas todo o resto dos trabalhadores gregos perde poder de compra, e o seu custo de vida sobe. A inflação de preços dá outro salto. O imposto de rendimentos continuará a não ser corrigido pela inflação — pois o governo precisa de todas as receitas possíveis —, o que gerará um confisco cada vez maior do rendimento real das pessoas e empresas, o que, por sua vez, prejudicará ainda mais os investimentos.

Já os outros países da zona do euro muito provavelmente não ficarão passivos perante os sectores exportador e turístico gregos. É provável que imponham pesadas tarifas sobre as importações e também sobre a conversão de euros em dracmas.

A conclusão é que a desvalorização funciona apenas por algum tempo, e é benéfica apenas para poucos sectores muito específicos — e ainda assim apenas no curto prazo.

Em termos gerais, a desvalorização da moeda prejudica toda a população, pois esta é roubada do seu poder de compra, é submetida a uma grande inflação de preços, e acaba ficando sem acesso a bens importados de maior qualidade.

Um governo que desvaloriza a sua moeda está, na prática, fechando as suas fronteiras aos bens estrangeiros, isolando a sua população (e prejudicando principalmente a classe mais pobre, agora proibida de comprar produtos estrangeiros mais baratos), reduzindo o seu rendimento, e destruindo enormemente o seu padrão de vida.

O economista que acredita realmente que desvalorizar a moeda é o caminho para a prosperidade está, na prática, dizendo que uma sociedade formada por uma minoria exportadora e rica e por uma maioria que não tem nenhum poder de compra é o arranjo ideal. Está dizendo que uma redução compulsória do rendimento total da população representa prosperidade e enriquecimento. Não faz absolutamente sentido nenhum.

O que aconteceu com a Argentina em 2002, quando a súbita desvalorização do peso fez com que fosse quase impossível para muitas mães comprarem leite para os seus filhos, pode perfeitamente acontecer com a Grécia em 2015. É muito difícil uma desvalorização da moeda passar impune.





Όχι: o cansaço grego


Paulo de Almeida SandeObservador, 7 de Julho de 2015

E aqui chegámos: o referendo reforçou o governo de Tsipras na sua legitimidade popular e fez das instituições europeias as «más da fita», responsáveis primeiras e irredimíveis do sofrimento dos povos

Todos gostam de um bom herói. David. A Grécia do referendo e da luta contra a austeridade. Um herói precisa de vilões para ser realçado. Golias. Os malvados credores, isto é, as instituições europeias. Hoje, pela Europa fora, ou pelo menos nos países do sul, os corajosos gregos são louvados como o paradigma da luta contra a opressão e a ditadura da dívida.

E aqui chegámos: os gregos votaram Não no domingo e a zona euro está em ebulição.

E aqui chegámos: 8 anos depois do início da crise. 6 depois do seu reconhecimento na Grécia. 5 após o 1.º programa de assistência de 110 mil milhões de euros. 3 anos depois do 2.º programa de assistência de 130 mil milhões até ao início de 2015, alargado ao final de Junho, quando expirou irremediavelmente. 3 anos após o «haircut» da dívida – na mão de credores privados – de cerca de 100 mil milhões de euros. Hoje, agora, amanhã, os gregos encaram o futuro com esperança e inquietação, a Europa encara o futuro com inquietação e esperança.

E aqui chegámos: a saída de cena de Varoufakis não espanta, se pensarmos que, entre muitas outras coisas bondosas, acusou o FMI de ter praticado actos criminosos na Grécia; denunciou as tácticas negociais terroristas da troika; deu as boas vindas «ao ódio» para com ele dos ministros das finanças da zona euro, como twittou em certa ocasião. A sua demissão permite pelo menos alguma esperança na negociação, ainda que aparentemente o novo ministro das Finanças grego, mais conciliador do que Varoufakis, seja menos favorável à Europa do que ele.

E aqui chegámos: quando há pouco mais de 6 meses tudo indicava que a eurozona iria encarar de frente o problema das dívidas dos países do Sul, impossíveis de pagar, e a Grécia, regressada ao crescimento, parecia a caminho de sair da assistência, tudo volta violentamente atrás. E o FMI, a 2 de Julho, admitiu que o país precisa agora de um 3.º resgate de nunca menos de 50 mil milhões de euros até ao final de 2018.

E aqui chegámos: o referendo reforçou o governo de Tsipras na sua legitimidade popular e fez das instituições europeias as «más da fita», responsáveis primeiras e irredimíveis do sofrimento dos povos europeus (a par da senhora Merkel, mas essa é história antiga que, de tantas vezes repetida, se foi fazendo verdadeira aos olhos de quem vê com óculos de não querer ver).

E aqui chegámos: a Grécia nunca devia ter entrado para a zona euro: com uma dívida pública de 126,4% do PNB em 2002, data da sua entrada na zona euro, estava longe dos 60% exigidos para poder fazer parte dela. Com esse nível de endividamento e uma disciplina fiscal incerta, a entrada numa união monetária – perdendo soberania fiscal e instrumentos importantes de política económica como a desvalorização cambial –, foi um erro. Mas tendo entrado, uma possível saída é um enorme risco, para a Grécia e a Europa.

E aqui chegámos: sem a ajuda do Banco Central Europeu, os bancos gregos não têm liquidez para prover às necessidades do país, e depressa entrarão em colapso. Mas a Grécia tem de pagar, até 20 de Julho, 3,5 mil milhões… ao Banco Central Europeu. Ora esse pagamento só é possível se até lá houver novo programa de ajuda externa dos parceiros europeus ou de terceiros (só não se sabe quem, dificilmente poderá ser a Rússia); ou isso ou outro milagre qualquer. Nesse cenário, a ruptura e a saída do euro – seja qual for a solução jurídica, incluindo um pedido grego de saída da União Europeia – pode tornar-se a única via possível.

E aqui chegámos: entre 2001 e 2007, a Grécia cresceu 32% (contra 9% de Portugal e 11% da Alemanha), crescimento acompanhado de uma subida dos salários em 75%. 75%! À custa, claro, de endividamento público. Já os défices orçamentais – razão principal para o crescimento da dívida – vinham de longe: 14,07% em 1989, 16,1% em 1990, 20,79% em 1994. Cresceu a dívida (dos 24,6% do produto em 1975 para 111,3% em 96); o programa de estabilização de 1993 para a entrada da Grécia no euro levou à sua drástica redução nominal, para 8,1% em 1997 e 1,6% em 1999. Mas em 2004 o governo grego reconheceu que esses números estavam errados e que o défice nunca teria baixado dos 3%. Nesse ano de Jogos Olímpicos, depressa chegou aos 9,47%.

E aqui chegámos: fica o problema da dívida. Caso os países europeus decidissem reestruturar exclusivamente a dívida grega – de 341,4 mil milhões de euros –, coisa que o Banco Central Europeu já disse ser impossível por não se poder singularizar um único país, não seriam apenas os bancos alemães a sofrer, como tantos admiradores do David grego gostam de proclamar.  Portugal, por exemplo, tem uma exposição à dívida grega da ordem dos 4,8 mil milhões, qualquer coisa como 2,8% do nosso PIB. Mas pronto, deve ser uma coisa boa proceder a um segundo «haircut» da dívida grega à custa dos contribuintes europeus.

E aqui chegámos: em Janeiro, o novo governo grego interrompeu um processo em que as dívidas soberanas dos países europeus, com destaque para os do Sul, estavam a ser consideradas em conjunto; premissa maior era a clara percepção da carga que representam para as economias europeias em geral, as dos países mais endividados em particular, e para a própria integração europeia. Essa era a agenda e as negociações nunca pararam, até os gregos terem decidido introduzir no processo uma espécie de travão radical, com a não aceitação das condições das instituições e, sobretudo, a convocação do referendo. E contudo, ao contrário do que tantos dizem, não parece haver na Europa má vontade contra a Grécia (pretextos para forçar um grexit foram já legião); é hoje claro que os parceiros europeus querem o país no euro e na União – mas não a qualquer custo e, sobretudo, não a custo das respectivas populações e contribuintes. A solidariedade europeia é fundamental, mas tem de ser recíproca.

E agora? Perante os gritos de bajulação do gesto grego – do referendo e o seu resultado –, ninguém sabe bem o que se vai passar. Os líderes europeus reúnem-se em vagas sucessivas e o eixo franco-alemão, de súbito reactivado, já se pronunciou: aguarda-se as propostas gregas. Mas o relógio não pára e o tempo para aquele que será talvez o verdadeiro derradeiro prazo começa a escassear.

Os líderes europeus, incluindo os gregos, têm de mostrar bom senso e negociar com abertura de espírito e vontade de chegar a resultados. De ter contenção verbal, como não aconteceu, de parte a parte, nos últimos seis meses.

A comédia grega não pode acabar em tragédia, sob pena de fazer implodir o venerável e ambicioso anfiteatro europeu em que todos somos a um tempo espectadores e actores.





terça-feira, 7 de julho de 2015


Agora aturem-nos


Helena MatosObservador, 5 de Julho de 2015

Por que hão-de países cujos cidadãos vivem pior que os gregos, pagam mais impostos que os gregos e se reformam mais tarde que os gregos ser «solidários» com os gregos? O voto foi dos gregos, não deles

Há três conclusões a tirar do referendo grego:

I) Não se pode negociar com demagogos da mesma forma que se negoceia com quem está disposto a respeitar as regras.

II) Aos demagogos os povos não exigem nada antes toleram quase tudo porque os demagogos sobrevivem porque transferem sempre as culpas para os outros.

III) Se no poder os demagogos são quase imbatíveis na verdade só lá conseguem chegar porque beneficiam de uma extraordinária tolerância e condescendência por parte dos outros protagonistas.

A coisa começou mais ou menos assim: eles têm tanta graça. Porque não usam gravata. Porque usam rabo de cavalo. Porque rapam o cabelo. Porque andam de bicicleta. Porque andam de mota. Porque andam de metro. Porque andam. Porque são aplaudidos nas marchas do negócio do politicamente correcto. Porque passam dos restaurantes mais in para os colectivos de okupas. Porque para lá dos seus círculos só vêem roubalheira, negociatas, interesses. Porque nas televisões de dedo espetado dizem que todos os outros são corruptos. Eles claro nunca são corruptos e se por acaso alguém lhes chama a atenção para um financiamento obscuro ou um caso de nepotismo reagem vivamente indignados e exigem desculpas imediatas. É como o patriotismo. Quando eles falam de orgulho nacional, de pátria e de levantar a cabeça quase nos devemos perfilar. Mas se forem os outros a fazer o mesmo discurso está-se diante de velho ranço da direita nacionalista, patrioteira, folclórica para não dizer fascista.

Eles determinam o que é correcto e incorrecto. Mas não só. Garantem também como vão ser as famílias do futuro, as causas do futuro, o futuro em si mesmo. Do berço à cova eles têm uma causa e uma política para cada momento.

Eles são os nossos radicais. De esquerda, claro. (Também os há de direita e vão vê-los dentro em breve!)

Em muitas das universidades são dominantes. Os jornalistas tratam-nos por tu. São tão amorosos não são? Tão inteligentes, tão giros, tão sexys. E depois dizem aquelas coisas sobre as pessoas que não são números, falam de afectos, de virar a página a isto e àquilo sem mais problemas. São adoráveis de facto. Até ao momento em que têm poder.

Aí percebe-se que não mudaram nada. Continuam na mesma barricada dos outros tempos. Enquanto exigem para si e para os seus resultados um respeito institucional quase sagrado fazem gato-sapato dos seus interlocutores. Desautorizam-nos. Ridicularizam-nos. Fintam-nos. E no fim gritam que é preciso negociar, dialogar, estabelecer pontes.

Dantes queriam fazer revoluções. Agora têm projectos. A diferença é que nas revoluções arranjavam portas a dentro o seu financiamento: nacionalizavam e confiscavam. Agora exigem ser patrocinados. Como se tudo não passasse de um filme.

Desculpem mas neste logro só cai quem quer. E cair uma vez vá que não vá. Duas já tem que se lhe diga e à terceira ou é masoquismo ou estupidez. Como aqui escrevi há algumas horas o referendo que decorreu na Grécia não teria sido considerado aceitável caso não tivesse sido convocado pelo Syriza, tão queriducho que ele é das redacções, dos activistas, das pessoas de causas e de toda aquele gente que vive de teorizar sobre aquilo que os outros devem fazer, dar, garantir… Imaginam o que não se teria dito e escrito caso, por exemplo, em Angola se convocasse um referendo com esta informalidade, para não lhe chamar outra coisa? Já imaginaram a senhora Marine Le Pen a querer referendar numa semaninha algumas daquelas ideias que lhe animam o encéfalo?

Não, não me vão dizer que há matérias que não são referendáveis. Desde esta semana na Europa referenda-se o que se quiser e nos moldes em que se quiser. Até por exemplo cessar a ajuda à Grécia. Por que hão-de países cujos cidadãos vivem pior que os gregos, pagam mais impostos que os gregos e se reformam mais tarde que os gregos ser «solidários» com os gregos que votam num governo que para cúmulo namora descaradamente com uma Rússia que é uma ameaça directa para segurança de alguns desses países?

Devíamos ter pensado nisso antes? Pois devíamos. Mas agora é tarde. O que conta é que o Syriza ganhou na Grécia. E é preciso que isso fique claro: ganhou na Grécia. E tem um mandato para governar a Grécia. Não o dinheiro dos contribuintes europeus e a UE.

É dramático a Grécia sair do euro? Para os gregos é, mas se calhar nem é tanto quanto ficar. E antes que estejamos a ver Pablo Iglesias e Marine Le Pen com os mesmos truques em Madrid, Paris e em Bruxelas convém que se esclareça que os votos nos radicais não valem mais que os outros.