quarta-feira, 2 de dezembro de 2015


Ainda o 25 de Novembro


Carta de Filipe Pinhal
ao presidente da Junta de Freguesia de Belém
sobre a placa comemorativa do evento.


Ex.mo Senhor Presidente da Junta de freguesia de Belém,

Uma vez que quem tinha a obrigação de assinalar a passagem do 40.º Aniversário do 25 de Novembro não teve coragem para o fazer, e porque a maioria dos deputados da Nação resolveu agravar a falta, oferecendo ao País um espectáculo inqualificável de pusilanimidade e covardia, apraz-me felicitar a Junta de Freguesia de Belém pela iniciativa do descerramento da placa alusiva à data.

Como português que viveu os acontecimentos, sei avaliar o significado da data e a importância da decisão da Junta.

Como lisboeta, orgulho-me de a minha cidade passar a ostentar um símbolo visível da memória do dia.

Por isso, agradeço à Junta de Freguesia de Belém o que fez para honrar o passado.

Permito-me dar conhecimento desta mensagem (em «blind copy») ao meu círculo de amigos, a quem convido a visitar o site da Junta e a ler a notícia desta oportuna celebração da História.

Apresento os meus cumprimentos,


                                                                                     Filipe Pinhal





domingo, 29 de novembro de 2015


Faz agora o que quiseres

mas depois não te queixes


Helena Matos, Observador, 29 de Novembro de 2015

Estou a ver-te à minha frente com aquele jeito algures entre a nevralgia e a dor ciática que te acompanha nas situações embaraçosas: foi um momento de esperança, se tivesse corrido bem tinha sido… Mas – e ao proferires este «mas» o tom auto-condescendente da tua voz dará lugar a uma ênfase acusatória – o pêcê lixou tudo.

É sempre assim: os teus sonhos de esquerda esbarram invariavelmente na ortodoxia do pêcê. Como quem acabou de ter uma epifania logo desatarás numa listagem das provas terrenas dessa tua descoberta ou melhor dizendo redescoberta. Ou será que desta vez vais culpar o BE, mais a Catarina porta-voz e as manas Mortágua?

Olha, antes que a conversa azede vamos já combinar uma coisa: faz agora o que quiseres mas depois não te queixes. E sobretudo não culpes os outros.

Sim. Não te faças desentendido. Quem? Tu, o gajo porreiro da esquerda, aquele com quem gostamos de ir de férias, de almoçar no trabalho, de conversar sobre cidades que talvez nunca conheçamos… Tu, esse mesmo que no momento em que se trata do poder político te tornas no nosso maior problema. Um problema muito maior que o representado pelos interesses que se agitam no CDS, pelo destrambelhamento congénito do PSD, pelo lobbie corporativo que é o PCP ou pelo folclore arruaceiro do BE. Porque tu, burguês blasée como ninguém, o gajo porreiro da esquerda que vota PS, ao contrário dos outros atrás citados, achas que o poder te é devido por isso mesmo, por seres um gajo porreiro. De esquerda, claro.

Aliás detalhar que és de esquerda é um pleonasmo porque, para ti, fora da esquerda só existe um mundo de trevas, interesses, hipocrisia, ignorância, atavismo… Excepções a esta regra: os mortos como Sá Carneiro ou os vivos que reconhecem o teu direito natural ao poder. Valha a verdade que nem pedes uma declaração muito formal dessa subserviência, apenas não se podem falhar aqueles pequenos detalhes: é essencial apoiar-te em cada um dos teus ódios momentâneos. Agora é o Correio da Manhã que te anima a veia da indignação instantânea porque, segundo o teu livro de estilo, é uma vitória da democracia e um sinal do progressismo de António Costa, uma cega e um cigano integrarem o novo governo mas o Correio da Manhã escrever «Costa chama cega e cigano para o Governo» é uma mostra vergonhosa de racismo e de intolerância. Amanhã, quiçá um juiz, um blogger ou o Governador do Banco de Portugal substituirão o Correio da Manhã nesse papel de alvo dos teus tiros.

Mas é nos ódios de sempre – e aí não há nenhum que ultrapasse aquele que votas a Cavaco Silva – que se faz a verdadeira prova entre a tua gente. Não aceitas, não toleras e não entendes que alguém não te acompanhe no fastio e na raiva que votas ao actual Presidente da República. Já viram esta do Cavaco? – dizes tu com ar de quem vai contar a última anedota. Esqueces que «o Cavaco» ganhou duas vezes as eleições para a Presidência da República e que quando se candidatou a primeiro-ministro ganhou-as com maioria absoluta, nunca lhe ocorrendo nem a ele nem milhões de portugueses que, para chefiar um governo, bastava somar os votos de todos os derrotados.

Como bem sabemos não é «o como decide» nem «o que decide» que te irrita em Cavaco. Aquilo que não perdoas a Cavaco é ele ter uma legitimidade que não advém do teu filtro e sobretudo o facto de para Cavaco Silva o funcionamento institucional do regime se sobrepor a tudo o mais. Ora para ti o regime e as suas instituições só fazem sentido e só merecem ser respeitadas se e quando o regime e as instituições forem tutelados por ti. A começar naturalmente pela Presidência da República e a acabar no Tribunal Constitucional que rapidamente passará de intocável bastião da República a escolho deste «histórico virar de página» caso os ocupantes do Palácio Ratton chumbem qualquer iniciativa deste governo nomeadamente alguma da resultante dessa espécie de PREC legislativo que tem tido lugar na Assembleia da República nos últimos dias.

Escusas de sorrir com esse ar mimado de quem se habituou a lamentar a posteriori não o que fez mas sim aquilo que os outros não fizeram para o impedir de errar: sei bem que por feitio é pouco provável que juízes do TC alguma vez se interponham entre ti e o teu sonho. Mas caso isso acontecesse logo os juízes seriam apeados do pedestal para onde os elevaste e acabariam nas ruas não da amargura mas sim da fúria das redes sociais e dos humoristas do regime. O problema de discordar dos gajos porreiros é que, exactamente por eles se acharem porreiros, tal discordância nunca é entendida como uma posição legítima mas sim como um ataque pessoal.

Dirás que nesta forma de reagir o PCP e o BE procedem exactamente do mesmo modo. É verdade mas como também sabes, eles, ao contrário de ti, não são porreiros. Como tu lhes lembras nos momentos da tua desilusão, eles são «ortodoxos», «paranóicos» e «totalitários». É claro que agora fazes de conta que nunca disseste tais coisas e até esperas que comunistas e bloquistas se ocupem nesse exercício arrebatador de ódio fulanizado e da engenharia social e te deixem a ti a decidir o País. Por estes dias na Assembleia da República aprovam-se a granel e em tropel diplomas sobre adopção, exames, procriação medicamente assistida (chegámos ao ridículo de esperar que ao menos o PCP coloque algum travão na legalização das mães de aluguer) enquanto baixam às comissões assuntos como a reversão das privatizações. Já agora quando haverá tempo e oportunidade para discutir a resposta ao pedido de ajuda lançado por Hollande?

Um país novo cheio de estímulos e multiplicadores precisa de um homem novo. Queres enganar-te como das outras vezes, não é? Lembras-te quando o Sócrates tinha lá as suas coisas mas era uma máquina? Resiste a tudo, declaravas indignado com as investigações policiais que puseste no patamar dos ataques pessoais. Os aumentos à função pública em 2009? Era preciso dinamizar o país. O TGV? Tínhamos que apostar nas infra-estruturas. Para tudo havia uma explicação. Com o tempo começaste a conceder que havia um novo-riquismo na casa da Rua Castilho, mais os estudos de filosofia em Paris e as férias de nababo russo mas era mais uma questão estética do que ética: a mãe era rica não era? E isso também não interessava nada. Havia sempre uma cabala. Também já tinha havido a cabala do Processo Casa Pia.

Depois veio 2011 e o pedido de ajuda externa. Mas o sobressalto não durou mais que umas breves semanas porque logo passaste a acusar os credores (sim exactamente aqueles a quem esse Governo que nunca enjeitaste tinha suplicado ajuda pouco antes) de quererem destruir o País: a austeridade não era o resultado da nossa falência mas sim a consequência de um pérfido plano da Merkel e da direita liberal.

Agora calaste perante o processo que colocou o PS e o país nas mãos da extrema-esquerda: é um tabu que se quebrou, um muro que se derrubou… e acabo aqui porque de rima em rima ainda vou buscar as «pombas assassinadas» e o «camarada, amigo, palhaço».

Depois quando a realidade se impuser logo vais arranjar uma desculpa para o falhanço. Tenho a certeza que vais reler esses patéticos acordos e descobrir neles sinistras intenções nos teus agora parceiros. Por mim, ficamos combinados: quando este teu sonho acabar no jeito do costume eu estou disposta a pagar ainda mais impostos, a ganhar ainda menos dinheiro mas ouvir-te culpar os outros é que não. Fala-me de livros, de quadros, de comida… Ou de fado. Porque agora já gostas de fado, não é? Mas nunca digas que foste enganado. Quiseste sim enganar-te a ti mesmo que é o mais perigoso dos enganos.

Faz agora o que quiseres, diz o que quiseres mas por favor depois não te queixes de ninguém a não ser de ti mesmo.

Aqui ninguém enganou ninguém.





sábado, 28 de novembro de 2015


De regresso ao subdesenvolvimento sem o percebermos?


José Gomes Ferreira, Diário Expresso, 20 de Novembro de 2015

Durante anos, receei que estivéssemos a caminho da Grécia. Por razões financeiras, orçamentais e fiscais. Continuo a recear, pelas mesmas razões.

A linha que separa o equilíbrio do roulement de dívida pública e privada, numa economia que cresce pouco, da impossibilidade súbita de não se conseguir pagar aos credores, é tão fina como um fio de navalha. Qualquer deslize imediatamente corta e faz sangrar.

Mas há um perigo maior. Um país a gangrenar de corrupção. Que estamos a redescobrir, mais uma vez.

Um ministro que faz lobby pela obtenção ilegal de devoluções de IVA de milhões de euros a favor de amigos;

Um ministro que discrimina a atribuição de visto gold a favor dos cidadãos estrangeiros que rendem mais para quem lhos concede;

Um ministro que faz parte de uma teia de favorecimento, prevaricação e tráfico de influências;

Um grupo de advogados e de altos funcionários da Administração Pública que ajudam essa tenebrosa rede a conseguir lucros de milhões;

Um primeiro-ministro que recebia dezenas de milhões de euros dos empresários e banqueiros que favorecia.

Um banqueiro-mor que recebia pagamentos de comissões de milhões de euros de empresários amigos;

Um banqueiro-mor que pagava a políticos, funcionários, gestores, decisores e partidos do regime para garantir a sua teia de fidelidades.

Um Governo que fazia aprovar Regimes Especiais de Regularização Tributária, RERT, que branqueavam o regresso ao país dos capitais escurecidos da corrupção e do compadrio.

Um Parlamento que aprovou estes RERT sem pestanejar, sem ponta de crítica.

Um grupo de deputados de esquerda e de direita que sabia exactamente o crime legislativo que estava a votar.

Um procurador e um juiz de instrução todos os dias ridicularizados em inúmeras situações, declarações, entrevistas, mensagens orquestradas para os denegrir e desmoralizar.

Um corajoso corpo de investigadores da Polícia Judiciária, da inspecção Tributária, do Ministério Público, dos Tribunais de Instrução Criminal, todos os dias a torcer as mãos de apreensão, com medo que o seu dedicado e minucioso trabalho seja reduzido a tiras de papel em qualquer máquina trituradora das instâncias de recurso dominadas por aventais, compassos e triângulos dotados de poderes mágicos para apagar o que a preto e branco vai sendo escrito.

Um banqueiro corrupto instalado no âmago do coração financeiro do Estado, a Caixa Geral de Depósitos, onde fazia passar empréstimos de baixo spread para amigos e financiamentos de favor para comparsas.

Um autarca que endividou a sua autarquia até ao tutano e que queria continuar no poder para fazer mais três pontes sobre o rio Douro, mas que tarda em ser devidamente investigado.

Um Parlamento de deputados ávidos de alterar legislação incómoda para os apanhados na rede.

Agentes da investigação criminal apanhados a chantagear suspeitos em proveito próprio;

Responsáveis de escolas e associações de escolas de condução a embolsar milhares de euros pela venda de cartas aos candidatos a condutores;

Médicos que empanturram doentes de medicamentos que lhes garantem, a eles médicos, faustosas viagens à Austrália e a reservas de caça da África profunda.

Médicos que empurram doentes aflitos em recurso para clínicas de capital detido por si próprio, familiares e amigos.

Funcionários, chefes de secção, directores de departamento que emperram projectos anos a fio para depois venderem facilidades através do poder afrodisíaco de pôr um carimbo de Estado num simples papel.

Lobbies de jogo de azar que pagam a partidos políticos e departamentos de fiscalização para não terem de entregar parte dos impostos de lei ao Estado.

Portugal vive alheadamente na mais profunda corrupção de leis e comportamentos públicos e privados. Pior, vive na mais profunda corrupção moral na gestão da causa pública. O Parlamento que aprovou as leis das negociatas das PPP, dos swap, das engenharias financeiras que engordaram banqueiros, grandes gestores, consultores e advogados à custa dos pequenos empresários e de todos os contribuintes; O Parlamento que aprovou os programas Polis que engordaram arquitectos, construtores, fornecedores e importadores de materiais à custa de todos os portugueses;

O Parlamento de todos os esquemas inventados por juristas para favorecer clientes, juristas que são os próprios deputados que aprovam as leis regulamentadoras destes esquemas.

Os portugueses redescobrem, mais uma vez, que Portugal é um país profundamente corrupto. E que não é esta legislatura que se vai acabar com este estado de tragédia moral e financeira.

Como disse o economista Joaquim Ventura Leite, ex-deputado do PS que já o não voltou a ser a partir de 2009, em litígio aberto com Sócrates e toda a tralha que o acompanhava, o actual Parlamento reproduz o mesmo regime de interesses que as versões anteriores. Com uma única excepção – o deputado do Partido dos Animais.

Um Portugal a gangrenar de corrupção. Que começa na casa da Democracia.

A divisão do país em duas partes – que é tanto ideológica como partidária e, nessa medida, geográfica: direita no Norte e na Madeira, esquerda no Sul e nos Açores – não ajuda, agrava esta situação de podridão.

Triste fado.

Merecemos melhor.

Somos capazes de fazer bem melhor.

Quem paga esta podridão são os pequenos e médios empresários cada vez mais asfixiados em taxas e alcavalas – e os grandes que não compactuam com os esquemas do regime.

São os cidadãos portugueses sob a forma de mais impostos, menos empregos e menos desenvolvimento económico.

Cortássemos nós o fio vital da Moeda Única, das suas regras, instituições e fiscalizações externas permanentes e já teríamos sido atirados há muito para a lista dos países subdesenvolvidos, eufemisticamente reclassificados de países em desenvolvimento para não ferir suscetibilidades politicamente correctas.






Então «o coordenador» Eanes não conseguiu proteger?


Da memória


Michael Seufert, Diário Expresso, 26 de Novembro de 2015

25 de Novembro de 1975, Mário Soares não jantou em casa. Nem sequer em Lisboa. Temendo pela vida, cito o site do Partido Socialista, foi com colegas da Comissão Permanente do PS pedir protecção ao brigadeiro Pires Veloso. No Norte, longe das mãos de Otelo Saraiva de Carvalho e de Mário Tomé, respirava-se uma calma que só chegaria à Região Militar de Lisboa depois da dissolução do COPCON e da prisão destes e de outros revolucionários que teimavam em não aceitar o jogo democrático. O Verão Quente terminaria e podia, finalmente, cumprir-se o mais importante desígnio do 25 de Abril: Democracia.

Que 40 anos depois seja o Partido Socialista, que indicaria o primeiro primeiro-ministro constitucional uns meses depois, a impedir que o Parlamento português – que exerce o seu mandato graças aos militares que impediram o golpe a 25 de Novembro de 1975 – assinale esse dia, é particularmente sintomático dos dias que vivemos. O país está de pernas para o ar e são o Partido Comunista e o Bloco a ditar o que o PS pode e o que o PS não pode fazer. Parece que está de facto instituído que são os menos votados a impor-se aos mais votados.

O que fica por saber é até onde aceitará o PS ir para não incomodar os seus novos parceiros. Renegou hoje um momento fundador da democracia e fundamental na história do PS (que dias depois, em 1975, deu uma violentíssima conferência de imprensa atacando Cunhal e o seu partido). Que renegará amanhã?

Mas será assim tão importante, tão fundamental, tão decisivo assinalar o 25 de Novembro? Provavelmente não. Mas é simbólico e talvez por ser pouco decisivo mostre ainda mais o labirinto em que Costa meteu o PS. Se a 25 de Novembro de 2015 o PS dá cobertura a Otelo por causa do PC e ao Major Tomé por causa do Bloco, o que fará nos próximos meses?

Não sei se a 25 de Novembro de 1975 Soares terá jantado tripas (espero que sim!). Em 2015, muitos camaradas seus terão comido um prato de lentilhas.





sexta-feira, 13 de novembro de 2015


O carácter anti-social do salário mínimo


José Miguel Pinto dos Santos, Observador, 9 de Novembro de 2015

Já Paul Samuelson (1915-2009) perguntava: «de que serve a um jovem saber que um empregador lhe pagará um salário mínimo elevado se esse salário mínimo lhe impede de obter emprego?»

O aumento do salário mínimo é uma medida apropriada para a promoção da exclusão social dos mais desfavorecidos. É o equivalente económico ao alongamento do espelho das escadas numa residência para a terceira idade: torna mais difícil aos mais fracos manterem-se ou tornarem-se autónomos. As únicas explicações para a sua implementação são ou ignorância da realidade económica ou o desejo político de cavar um fosso ainda maior entre os que conseguem rendimento pelo trabalho e os que o não conseguem. A sua implementação resultará no aumento do desemprego jovem e no de longa duração, assegurará a frustração pessoal de muitos, contribuirá para o défice do orçamento do Estado, e concorrerá para o empobrecimento económico nacional. Mas o mais importante é que tornará a nossa sociedade economicamente menos justa, menos equitativa e menos igualitária.

O salário mínimo não garante emprego a ninguém, apenas assegura que quem consegue emprego será pago, no mínimo, esse montante. O que pode esperar um jovem sem qualificações especiais quando procura o primeiro emprego? Para além de uma remuneração monetária, através da experiência laboral poderá ganhar um conjunto de competências técnicas, humanas e sociais que nenhuma escola lhe poderá transmitir. Será socializado, obterá alguma autonomia económica e encontrará a dignidade que o trabalho dá aos humanos.

O salário mínimo torna, na prática, tudo isto impossível para os que querem entrar no mercado de trabalho com menos educação, com menos competências, e com menos conexões sociais e familiares relevantes, que são precisamente aqueles que provêem de meios socioeconómicos mais desfavorecidos. O que acontece hoje a um jovem se proponha trabalhar por 400 euros e a se desenvolver pelo trabalho? Ser-lhe-á dito pelas empresas: «se fosse possível teríamos todo o gosto em o ter connosco nessas condições, mas é ilegal; portanto não o podemos contratar.» Por esta razão Paul Samuelson (1915-2009) perguntava: «de que serve a um jovem saber que um empregador lhe pagará um salário mínimo elevado se esse salário mínimo lhe impede de obter emprego?» E o que acontece hoje a quem estaria disposto a receber 400 acontecerá amanhã ao que estiver preparado a receber 500: o primeiro degrau a galgar é cada vez mais alto.

O que perde portanto o nosso jovem? Perde, primeiro, dinheiro. É obrigado, depois, a perder tempo no desemprego. E ao perder tempo no desemprego perde uma quantidade enorme de coisas boas: perde a oportunidade de aprender a lidar com um chefe, quando ainda é novo e flexível e capaz de o aprender, perde o ensejo de afinar as capacidades de trabalhar em equipa, de saber o que é aceitar responsabilidade, de ganhar experiência no fazer, de desenvolver independência no viver. Numa palavra perde a possibilidade de crescer como indivíduo social. E tudo isto que perde lhe seria útil para no futuro poder continuar a progredir profissional e socialmente, e fundamental para lhe permitir tornar-se um cidadão responsável, solidário e contributivo. Portanto não é só ele que perde: perde toda a sociedade.

Há mais argumentos contra o salário mínimo. Mas o seu carácter anti-social devia ser suficiente para levar à sua abolição.






O PS caiu na ratoeira


José António Saraiva, Sol, 11 de Novembro de 2015

Ao fim de cinco semanas de penosas negociações, a esquerda está exactamente no ponto em que estava no dia 5 de Outubro: o PCP e o BE comprometem-se a viabilizar um Governo do PS, mas não se comprometem com mais nada.

A trajectória destas cinco semanas permite antever o inferno que serão os tempos que aí vêm. Se durante o namoro já houve tantas dificuldades, o que será depois do casamento?

De facto:

Os três partidos, PS, PCP e BE (não falo de Os Verdes) não conseguiram chegar a um acordo comum, nem se sentaram uma só vez à mesma mesa;

Os três partidos não conseguiram chegar a uma moção de rejeição comum, antes apresentaram três;

– Os três partidos não chegaram a um programa de Governo comum, antes disseram que não rejeitarão o programa de Governo que o PS apresentar (que contempla abundantes cedências ao PCP e ao BE);

– Os três partidos não se aplaudiram uns aos outros nos discursos parlamentares, e mesmo no discurso do presumível futuro líder do Governo de esquerda houve uns que aplaudiram de pé e outros sentados;

– Os três partidos não se entenderam, sequer, para que as assinaturas dos acordos fossem públicas, e tudo se passou furtivamente num gabinete fechado.

Alguém pode acreditar numa coisa assim, feita de forma envergonhada e às escondidas?

A esquerda festiva celebra esta aliança «histórica».

Percebo que o PCP e o BE celebrem. De facto, a partir do momento em que o Governo seja viabilizado, o PCP e o BE, que tinham pouca relevância parlamentar, passam a ser os partidos mais importantes do Parlamento: a queda do Governo depende de qualquer um deles. O Governo passa a estar dependente de cada um deles. O Governo torna-se refém de ambos ao mesmo tempo.

Para o PCP e o BE, era importantíssimo que o PS «mordesse o queijo» e caísse na ratoeira. Só a partir do momento em que o PS decidisse formar Governo, sem exigir a presença nele dos líderes do PCP e do BE, estes ficariam com as mãos livres para fazer o que quisessem.

Depois da entrada em funções, António Costa vai ter de negociar medida a medida, lei a lei, com o PCP e o BE. Eles aceitarão o que quiserem e rejeitarão o que quiserem. O Governo estará amarrado de pés e mãos e não poderá fazer nada.

Mesmo para o primeiro Orçamento vai ser necessário negociar tudo: porque o PCP e o BE recusaram-se a dar carta branca a António Costa, se comprometeram a aprovar esse Orçamento inicial.

O PS caiu na ratoeira. O PCP e o BE têm a partir de agora a palavra.

Perguntar-se-á: e Cavaco Silva? Não tem nada a dizer?

Penso que não pode fazer muito. Manter um Governo de gestão será impossível, um Governo de iniciativa presidencial também seria chumbado, e adiar muito uma solução não resolve nada.





quinta-feira, 12 de novembro de 2015


Voto Marcelo

se ele marcar eleições para Junho


Henrique Raposo, Expresso Diário, 10 de Novembro de 2015

Marcelo comete um erro se pensar que já fixou o eleitorado de direita que se sente justamente enganado com a golpada em curso

A fraude da «maioria de esquerda» prossegue o seu caminho. Costa é aquele gangster que nunca é preso devido a um pormenor risível, devido a uma tecnicidade de tribunal; toda a gente sabe que ele é culpado mas as regras não permitem a prisão. Neste caso, a regra que possibilita a fraude é a alínea que impede o Presidente de dissolver a Assembleia seis meses antes do fim do mandato. É só este detalhe técnico que tem mantido Costa ligado à máquina. Se Cavaco estivesse na posse de todos os seus poderes, a farsa já teria acabado com a convocação de eleições que clarificassem a situação. É isto que se exige ao novo Presidente. O país só voltará à serenidade depois de novas eleições.

A mudança sísmica em curso não pode nascer num golpe de secretaria. Em 40 anos de democracia, a aliança de esquerda foi um tabu insuperável. O ódio entre as esquerdas foi a norma. Em 40 anos de democracia, apenas um partido (Livre) propôs uma aliança de esquerda e, nestas eleições, obteve apenas 39 mil votos. O número fala por si. A aliança de esquerda é impossível porque nada de estrutural une as esquerdas. Por outras palavras, esta «maioria de esquerda» pós-eleitoral é uma fraude que resulta de três desesperos esquerdistas. Primeiro: o mau perder indecoroso de quem julgava que a direita ficaria reduzida a 25%; o espanto despeitado perante os 40% da Coligação explica a amizade súbita entre as esquerdas. Segundo: a estratégia de sobrevivência de António Costa, que ficará na História como o momento mais escatológico da III República. Terceiro: o desejo do PCP em travar mais concessões ou privatizações dos transportes. Se os transportes saíssem da esfera da CGTP, o PCP ficaria sem um dos seus braços.

Nada disto é estrutural, trabalhado, honesto. Tudo seria diferente se existisse um trabalho de fundo das esquerdas no sentido da construção desta alternativa. Mas, como se sabe, esse trabalho de aproximação nunca existiu nos últimos meses ou anos e a hipótese só surgiu depois da derrota de Costa. 40 anos de ódio não se resolvem num mês de negociações secretas. A mentira tem de ser sufragada. Gostam ou não os portugueses deste cozinhado revolucionário? Neste sentido, é importante que Marcelo Rebelo de Sousa compreenda que o eleitorado de direita, a sua base de partida e o maior bloco eleitoral do país, só votará num candidato que garanta a realização de eleições clarificadoras em meados do próximo ano. Será ele capaz de assumir isto? Duvido. O «Professor» foi, é e será um político cobarde, será sempre um ser viperino, disforme e incapaz de tomar posições claras.

Os tempos não estão para cortesãos dubitativos, os tempos exigem um módico de coragem.





quarta-feira, 11 de novembro de 2015


Cavaco e o pessoal das papeletas


João Gonçalves, Jornal de Notícias, 11 de Novembro de 2015

Uns papéis assinados à pressa numa sala vazia do Parlamento, longe dos olhares da Comunicação Social e do país, determinaram ontem a queda do XX Governo constitucional. Só foi «histórico» porque conta uma história que só lá mais para diante se entenderá. E, se for plenamente consumada, em piores condições do que aquelas em que os contratantes, e os destinatários involuntários da peripécia inaudita, a redigiram. O sentido do voto de 4 de Outubro está, pois, eliminado pelas circunstâncias e apenas novas eleições legislativas poderão repor o espírito da democracia representativa. As papeletas subscritas pelo PS, PC e Bloco constituem agora a «base» da vida política nacional das próximas semanas ou meses. Esteve bem o vice-primeiro-ministro demissionário quando afirmou que os autores das papeletas, em particular o PS, não contam com os 107 deputados da coligação para os percalços. Nas próximas semanas ou meses a «estabilidade» fica a cargo do Comité Central do PC e da Mesa do Bloco. O PS é meramente instrumental apesar de aparentemente liderante da aventura. Porque não emerge diante dos seus parceiros como o primeiro legitimado nas urnas, ao contrário do que sucedeu até ontem em situações minoritárias, mas como uma espécie de cavalinho de Troia que eles tencionam empurrar e conduzir até ao limite das respectivas vontades. Dos bonzos do comentadorismo aos apagados candidatos presidenciais – estes foram submersos pela nova «acção nacional popular m-l» e, em geral, circunstancialmente coniventes com ela –, todos parecem convergir na fatalidade de o chefe de Estado ter de empossar o pessoal das papeletas. Não obstante a crença e o desejo, felizmente não é a este mandarinato que compete interpretar o papel do PR num sistema semipresidencial. Para citar a generalidade dos perplexos candidatos presidenciais, depois do «tempo dos partidos» regressa o «tempo do presidente» de que eles apreciam fugir como de gato a bofe. É Cavaco Silva quem tem de apreciar as condições de governabilidade «estável, credível, coerente e duradoura» inscritas no atomismo panfletário das papeletas antes de um eventual programa de Governo ser de novo apresentado à Assembleia. Não estou a defender que o presidente as deva recusar. Confio no seu julgamento político e, também, nas suas contas independentemente do que decidir. Pelo menos sabemos que o sufrágio que o mandatou não foi rasurado.





quarta-feira, 4 de novembro de 2015


Hijra — O Cavalo de Tróia moderno


T´Chingange

E se fosse realmente como suspeitamos?

É precisamente a pergunta que eu faço a mim próprio... Eu não consigo pôr um euro de lado, nem ao menos para passear por aqui perto. Pergunto-me: como é que, então, um refugiado que tem que pagar US$ 3 000,00 a um passador, sabendo este que ele precisa de vários anos para chegar a ter US$ 1 000,00?

Além disso, quando eles são enviados de volta, alguns regressam de imediato. Então, eu penso que serão, provavelmente, terroristas misturados com refugiados «pobres».

Em teoria, não é tão improvável quanto isso! De onde vem este dinheiro todo?
Hijra: Um «cavalo de Tróia» moderno... ou a doutrina islâmica de imigração? A estratégia de reconquista... com 14 séculos de idade?

Quem são os migrantes que aportaram à Itália, à Grécia e a mais países europeus?

Dizem-se «refugiados» que perderam tudo. Os relatórios seguem, uns a seguir aos outros, para descrever as suas condições de vida terríveis. Eles têm, apenas, o suficiente para comer, mas, assim que chegam, logo vemos pegarem nos telemóveis e falarem... para quem? Reclamam que não têm Internet e wi-fi...

Metade dos 22 milhões de Sírios vivem com menos de US$ 2,00 por dia, desde há mais de 2 anos, devido à guerra.

Então, como arranjam entre US$ 3 000,00 a US$ 5 000,00 para pagarem aos contrabandistas?

E, se alguém estiver a financiar a viagem a jihadistas disfarçados de refugiados?

Quem são os mais perseguidos na  Síria e no Iraque? São cristãos, yezidis, mulheres, velhos, crianças.

Há algum cristão em navios de carga que chegam às costas italiana e grega?

Não! São, essencialmente, muçulmanos.


Crianças, idosos, mulheres? Não muitos, só os necessários para o espectáculo, a grande maioria são homens solteiros.

Calais é testemunha.

A ONU fala de um milhão de crianças sem um cobertor para enfrentarem o Inverno, enquanto que os «traficantes» têm 2 ou 3 milhões de dólares para comprarem cargueiros e depois abandoná-los, como acontece regularmente.

E esses contrabandistas passaram a ser marinheiros, capitães, mecânicos. Eles teriam aprendido a navegar navios de carga que depois abandonam?

Sabe-se que o Estado Islâmico tem enormes recursos financeiros, bancos e poços de petróleo.

Todo o mundo sabe essa história, que foi o episódio final da Guerra de Tróia, e como terminou.

Como não podem retornar de forma anónima à Europa, depois de lutar pelo Estado Islâmico, os guerreiros muçulmanos entram disfarçados como refugiados e escondidos em navios que navegam no Mediterrâneo.

Chegam às costas italiana ou grega e foram (e são) recebidos como um presente dos deuses: Eles ofereceram uma nova oportunidade aos europeus para repararem os seus crimes coloniais «abjectos», abrindo os braços para os mais desfavorecidos.

Este estratagema pretende provocar a queda do «império».

Qual o politico a quem o jornalista tem a coragem de fazer esta pergunta?

Mas, perguntem à CIA se têm dúvidas! Os milicianos do Estado Islâmico vêm para a Europa disfarçados de refugiados, segundo fontes da inteligência dos EUA.

Se a invasão muçulmana da Europa continua ao ritmo actual, em poucas décadas os cemitérios são os únicos lugares onde cristãos, judeus e outros... serão a maioria.

O Qatar é um dos países muçulmanos mais extremistas... Isto é bem conhecido, assim como a Arábia Saudita.

E porque será que os países árabes não acolhem os seus irmãos?

Toda a Europa se preocupa em acolher os «migrantes» (!), mas nenhum país islâmico se prontificou a recebê-los. Não seria isso natural? Não estariam eles todos bem melhor em países muçulmanos?

Para aqueles que ainda não sabem, a embaixada do Qatar, numa das mais bonitas avenidas de Bruxelas (Avenue Franklin Roosevelt) tem previsto o financiamento da construção de uma mesquita para 6 000 pessoas!

No entanto, o Ministério das Relações Exteriores não só se recusou a aprovar este financiamento, mas, também, respondeu ao Centro de Tawfiq islâmica «...que seria paradoxal aceitar esse tipo de financiamento proveniente de um país que não aceita nenhuma liberdade religiosa».

O ministro das Relações Exteriores da Noruega, Jonas Gahr Støre, disse, ao jornal VG, a propósito do pedido da Arábia Saudita para a construção de uma mesquita: «Podemos, apenas, dizer NÃO. O Ministério não aprova, mas aproveitou a oportunidade para acrescentar que a aprovação seria paradoxal, sabendo que tentar estabelecer uma comunidade cristã na Arábia Saudita será considerado um crime punível por decapitação».

Porque será que os media ocidentais não difundem estas notícias?

Mas há países europeus (e são muitos) que (consciente ou inconscientemente) estão a preparar o seu suicídio.


NOTA:

Outra mesquita está em construção no Court Saint-Étienne.

Eles têm o direito de destruir tudo o que é diferente do Islão (cristãos, coptas, judeus, budistas e, até mesmo, secular, etc., por exemplo: Palmira), mas invadem países ocidentais com as suas mesquitas e minaretes.


NOTAS:

1. Por que razão recusam caixas com comida e medicamentos, somente porque têm o símbolo da Cruz Vermelha impresso na caixa?

2. Por que razão não vão para os países árabes?

3. Onde vão eles buscar os EUR 3 000,00, por pessoa, para pagarem aos traficantes? Só para a travessia do Mediterrâneo (estamos a falar em cerca de 3 000 migrantes, por dia, a EUR 3 000,00 cada um!) Isto dá, nada mais nada menos, EUR 9 000 000,00 (nove milhões de euros por dia, pagos pelos «pobres» povos sírio e árabe, para atravessarem o Mediterrâneo).

4. Além destes EUR 3 000,00, por pessoa, ainda têm de ter reservas para pagarem comboios, autocarros e outros transportes para atravessarem todos os países, até chegarem à Alemanha, à França e à Inglaterra. Eles (os solteiros) não querem outros países.

5. Qualquer país fora da Síria seria bom para ficarem em paz e segurança! Não... eles (os solteiros) só querem Alemanha, França e Inglaterra. Para os outros países (como Portugal, Espanha, Itália, etc.) vão as famílias. Porquê?! A maior parte dessas famílias mostram ter menos de 25 anos.

6. DÁ QUE PENSAR, NÃO É?

  • EUROPEUS... Abram os olhos e vejam em que se estão a meter...
  • Quem estará a suportar estas DESPESAS? (Cerca de EUR 9 milhões, por dia)... Isto é exagerado, especialmente para famílias que vivem com menos de US$ 2,00 por dia!





A gargalhada de Álvaro Cunhal


Rui Ramos, Observador, 30 de Outubro de 2015

Eis que, após quarenta anos, o PCP pode regressar ao poder com as ideias e os métodos de sempre. Se ouvirem por estes dias uma grande gargalhada, é de Álvaro Cunhal. Esta é a sua vitória póstuma.

Durante quarenta anos, acreditámos em Portugal que um governo participado ou apoiado pelo PCP ou pelo BE só poderia significar duas coisas: ou eles tinham mudado, ou o regime ia mudar. Mas eis que chega António Costa e nos anuncia que o PCP e o BE não mudaram, e que o regime também não vai mudar com a ascensão deles ao poder. Vale a pena pensar nisto.

De que o PCP e o BE não mudaram, não há dúvida: esta semana, votaram em Bruxelas contra o Tratado Orçamental, enquanto em Lisboa o PCP mandava a CGTP cercar a Assembleia da República no dia da apresentação do programa de governo. A mão dada ao PS também não é surpresa. Há quarenta anos que o PCP tenta arrastar o PS para uma «maioria de esquerda» (expressão inventada pelo PCP), e nunca como agora o PCP e o BE precisaram tanto do poder: o PCP, para conservar os seus sindicalistas, ameaçados pela concessão dos transportes públicos; e o BE para tentar fixar, com os recursos do Estado, uma base de apoio volátil. Mesmo assim, o BE insiste nas suas «condições» e o PCP tem-se recusado a ir além da proposta de Álvaro Cunhal no relatório ao VIII Congresso do PCP em 1976: o PCP apoiará todas as medidas que forem favoráveis aos «trabalhadores», e rejeitará todas as outras. Porquê? Porque o PS, por conveniências pessoais do seu secretário-geral, está disposto a tudo, o que pela primeira vez permitiu ao PCP e ao BE imporem os seus termos.

Desse ponto de vista, estamos perante a vitória póstuma de Álvaro Cunhal. Durante décadas, todos os sábios deste mundo e do outro lhe recomendaram que imitasse os chamados «eurocomunistas» de Itália, Espanha e França. Cunhal ignorou essa amável sabedoria e conservou-se fiel à ditadura soviética, não apenas até ao fim, mas depois do fim. E eis que, após quarenta anos, o PCP pode regressar ao poder com as ideias e os métodos de sempre. Se em Portugal soar por estes dias uma grande gargalhada, é de Cunhal.

Muito bem, dir-me-ão: mas não é isto sinal de uma democracia madura, reconciliada, quarenta anos depois do PREC? De facto, não estamos em 1975. Mas em 1976, também já não estávamos em 1975. A partir de 1976, o objectivo do PCP não era repor Vasco Gonçalves no governo, mas manter as suas «conquistas». Acontece que Mário Soares, o PSD e o CDS, com mais ou menos zelo, decidiram adaptar o País aos padrões ocidentais. A integração europeia representou essa vontade e esse esforço. Foi esse projecto de mudança – e não apenas os «compromissos internacionais» — que o PCP e o BE sempre recusaram. Um governo do PS nas mãos do PCP e do BE agravará despesas e impostos até onde contribuintes e credores do Estado aguentarem, mas suspenderá as reformas no país. É essa a questão.

O problema português é que demasiada gente (empresas, corporações, classes profissionais, etc.) vive de «rendas», isto é, de rendimentos que dependem unicamente do poder político. São estas as clientelas com que os oligarcas contam para exercer influência ou para ganhar eleições. O ajustamento de 2011-2014 abalou o sistema. Caíram grupos financeiros, o sindicalismo do sector público viu-se ameaçado, e a justiça expôs a promiscuidade político-empresarial. A eventual «maioria de esquerda» será, no fundo, o último e desesperado esforço de sobrevivência daquele regime que, antes da crise, era encarnado por Ricardo Salgado, a CGTP e José Sócrates. Para oxigenar o velho sistema, os oligarcas confiam no BCE, nos fundos estruturais e na máquina fiscal. E para impedirem reformas, confiam no PCP e no BE: em 1975, eles foram uma ameaça aos poderes então dominantes; agora, pelo contrário, são a sua garantia.





segunda-feira, 2 de novembro de 2015


O dia em que o jovem António Costa

fugiu de casa


António Delicado, Sol, 27 de Outubro de 2015

Recordo-me bem. Foi há 20 anos. Todos os que tínhamos consciência política em 2015 nos lembramos do que se passou naquele final de ano após umas eleições legislativas que o centro-direita ganhou.

António Costa, revoltado com o voto do povo e perante a vertigem da derrota, decidiu na altura transformar em oportunidade de ouro a posição de pivot que tinha adquirido nessas eleições. Ao invés de assumir o desaire, abalançou-se então a líder de uma frente cujos denominadores comuns eram poucos e que muito demoraram a cimentar. Daí não existirem escritos que permitam escrever esta história com maior critério científico.

Naquelas eleições uma grande maioria silenciosa de mais de 70% dos eleitores tinha votado em projectos com traves mestras comuns, como os do respeito pelos compromissos assumidos na Europa e na NATO, a manutenção da moeda única e de um défice público abaixo de 3%, para não falar agora na identidade existente em matéria de democracia de cariz europeu ocidental, algo que já não se podia dizer dos partidos que na altura quiseram alinhar com António Costa e que pretenderam ficar com ele na mão.

Para que o alinhamento frentista fosse possível, era necessário fugir a uma série de convenções assentes no quadro da nossa democracia, como a de que quem ganha as eleições deve governar, ou a de que cabia ao partido ou coligação de partidos mais votada assumir o cargo de Presidente da Assembleia da República (PAR).

António Costa quis fugir de casa, largar as amarras, escapar das regras. E logo também o novo PAR seguiu a linha de conduta agora imposta, inaugurando o seu mandato com um hostil e triste discurso que tardou em ser esquecido.

Tudo isto teve um preço. Um preço elevado, nomeadamente pela imprevisibilidade que veio criar no sistema político português e por todas as suas consequências. Consequências políticas ao nível da confiança dos cidadãos e das empresas num sistema político em que se tornaram muito mais difíceis as soluções estáveis e duradouras. Projecções económicas, com a retracção do investimento nacional e estrangeiro no País e, consequentemente, do emprego. E tantas outras.

Mas agora é tempo de nos limitarmos a deixar aguçado o interesse daqueles que estudam a história.

Os cidadãos que se sentiam defraudados, e eram muitos, fizeram chegar ao sistema político a mensagem de que exigiam que fossem geradas soluções e que se respeitassem as eleições.

E António Costa sentiu então o apelo para encontrar de novo o caminho para uma casa de onde achou que, afinal, não devia ter saído. Conduzir de novo o seu partido a um papel sólido e central na democracia portuguesa possibilitaria começar a afastar as nuvens cinzentas que iam cobrindo o País, reconciliar o partido com a sua genética e com uma história de décadas, assim como com o seu eleitorado, e, acima de tudo, respeitar a decisão expressa em urnas.

Estava, naquela altura, perante uma das decisões mais importantes da sua vida política. Enveredaria pela procura de soluções de estabilidade para o País, aproveitando a oportunidade histórica de ser exigido um consenso que podia ser um tónico reformador de largo e perene alcance protagonizado pelos partidos que garantiam a governabilidade e os valores de Abril na democracia portuguesa? Ou, com graves custos para o País e para o seu partido, aliar-se-ia àqueles que só lhe podiam oferecer uma glória breve, do tipo fogo-fátuo?

Como findou a carreira política de António Costa… é uma história que contaremos. Mas o seu nome não ficou esquecido.