quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
A morte não é direito
Henrique Raposo, Jornal Expresso, 13 de Fevereiro de 2016
Cresci numa cultura que promove o suicídio. No Alentejo, a eutanásia não é um debate, é uma forma de convívio. «Atão não se houvera de matar!». O suicida até é glorificado pelos alentejanos, o que acabou por cavar um abismo entre mim e os meus antepassados. Uma cultura que aceita o suicídio e a eutanásia está no caminho errado. Querem um exemplo? Muitos alentejanos matam-se porque «estão a dar trabalho» à família por causa da doença. Ora, devem dar trabalho. O fim da vida não é a perfeição biológica. A doença e a velhice fazem parte do pacote. É claro que os velhos e os doentes dão trabalho às famílias, às comunidades, ao Estado. É nosso dever tratar deles, é nosso dever retirar qualquer tipo de legitimidade ao desabafo «mato-me para não dar trabalho». Uma lei que legaliza a eutanásia directa faz o contrário, legitima este desespero e traz o Alentejo para o resto do país. Lamento, mas temos de fazer o contrário. Há que trazer o resto do país para o Alentejo. O suicídio não pode ser um acto social e colectivo.
Lamento, mas nada disto faz sentido. É tudo demasiado desconcertante. É desconcertante ver como a atmosfera intelectual obcecada com a vida animal é a mesmíssima atmosfera que aceita activa ou passivamente a morte de seres humanos (na fase intra-uterina e na velhice). De igual forma, é desconcertante assistir ao estertor do progressismo, que nas últimas décadas elevou a morte à condição de direito fundamental. Lamento interromper o coro da unanimidade já cozinhada, mas a morte não pode entrar no arsenal legislativo de um Estado que preza a vida e o livre arbítrio. Não há mortes beneméritas, misericordiosas ou úteis. A morte não leva adjectivo. Em consequência, um Estado civilizado não pode aceitar a pena de morte como punição aceitável, não pode aceitar o aborto como método contraceptivo, não pode aceitar a legitimação da eutanásia directa — a morte a pedido. Uma coisa é a família em articulação com os médicos decidir desligar a máquina que suporta um homem inconsciente; outra coisa é uma pessoa escolher a morte no cardápio do hospital. A primeira é orgânica, indirecta e nasce numa decisão colegial. A segunda é directa e parte de uma decisão desesperada que não pode ser legitimada pela lei. Um acamado que pede para morrer já não é um homem dotado de livre arbítrio, é apenas um homem reduzido à condição de animal acossado pela biologia. O nosso dever é evitar essa queda na condição animal.
E aqui entra a questão da medicina e da retórica da «guerra contra o cancro». Qual é o problema desta narrativa? É desistirmos de quem não consegue ganhar a tal «guerra». E, de facto, a medicina desiste de quem «perde». Por outras palavras, este debate só será sério quando existir entre nós uma rede de cuidados paliativos que resgate os doentes daquela queda animal provocada pela dor. Os cuidados paliativos não podem continuar a ser o parente pobre da medicina. Os frágeis e «derrotados» não podem ser esquecidos. Pelo contrário, os «derrotados» devem ter prioridade na fila do respeito. Respeito da família, respeito da medicina, respeito de um Estado que não pode aceitar a morte com bonomia.
EUTANÁSIA
Morrer
Cristina Líbano Monteiro,
professora da Faculdade de Direito de Coimbra
Gostava de morrer quando morrer. Receio dar ordens
à morte. E se ela se enganar? E se eu me enganar? E se me faltar tempo? E se
cortando a relação com todos ainda me faltar dizer alguma coisa a alguém?
Gostava de morrer como vivi. Com a mesma liberdade,
com a mesma teimosia, com a mesma gratidão a quem cuidou de mim.
Gostava de morrer com a mesma liberdade (ou falta
dela) com que nasci. Dizem que então chorei e que foi bom tê-lo feito. Dizem
que também sofri, pois talvez tendesse a viver para sempre no ambiente fechado
em que até então cresci.
Gostava de morrer como nasci. Rodeada do mesmo
cuidado. Do mesmo carinho. Como vivi. Procurando beijar as mãos de que tantas
vezes dependi. As mãos, os olhos, a atitude dos que, estando perto, me
transmitiam certeza, segurança. Me repetiam e me repetem: é bom que existas; é
bom que estejas aqui.
Gostava de morrer quando morrer. Receio dar ordens
à morte. E se ela se enganar? E se eu me enganar? E se me faltar tempo?
Liberdade? E se cortando assim a relação com os outros, com toda a gente, ainda
me faltasse dizer alguma coisa a alguém: um pedido, umas palavras de amor, de
perdão…? E se rompendo assim a relação comigo própria, não chegasse a encontrar
o sentido de tudo isto, da minha vida e da minha morte?
Gostava de morrer quando morrer. Não quero
programar o dia em que hão-de chorar por mim. E se não chorarem? E se chorarem
pelo abandono a que os votei, não por mim? E as lágrimas forem de quem se
dispunha a cuidar-me, tornando-se mais pessoa, mais capaz de sentir o que a une
aos outros?
Agarro com as duas mãos, com senhorio, o meu ser em
dor. Peço à minha liberdade que me acompanhe até ao fim. Auto-determino-me a
morrer quando a morte vier. Quem disse que a dignidade é incompatível com
sofrer?
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Um país, dois sistemas
Helena Matos, Observador, 7 de Fevereiro de 2016
Na prática temos dois países. E o que no país Estado muitas vezes se chama arrojo e ambição no mundo do não Estado designa-se como trafulhice ou, numa versão mais bondosa, erro grosseiro.
Enquanto andamos entretidos com a oposição direita-esquerda aumenta sim a fractura entre os dois países: o primeiro país, o do Estado, que vive no Estado e ganha do Estado. E o outro país, o das empresas, dos trabalhadores por conta própria e por conta doutrem.
Dir-me-ão que nenhum destes países é melhor que o outro. Ao que eu até acrescento que não se conhece uma democracia em que estes dois países não coexistam. Pois, mas nós temos um problema: o país do Estado cresceu de tal forma, tornou-se de tal forma voraz na sua procura de recursos e está de tal forma blindado nos seus garantismos que compromete todos os equilíbrios em que o regime assenta.
O endividamento é apenas uma das faces dessa desmesura de um Estado cujas corporações não só legislaram e legislam em proveito próprio como fazem acreditar que basta legislar para que a realidade aconteça. Que basta declarar uma despesa como não tendo impacto orçamental para que ela desapareça. Que se o primeiro-ministro anunciar que se vai «virar a página da austeridade» o dinheiro aparece.
Aliás por trás do próprio conceito de austeridade o que temos tido é sobretudo um clamor dos mais privilegiados da máquina estatal contra a tentativa de lhe cortarem rendimentos, poder e privilégios. Não só no sector privado os cortes chegaram muito antes da austeridade se ter tornado notícia – estavam os funcionários públicos a ser aumentados 2,9 em 2009 e já no sector privado se baixavam vencimentos e cortava nas despesas – como o tão apregoado slogan do ataque aos serviços públicos nada tem a ver com o acesso dos utentes a esses serviços mas sim com os vencimentos e garantismos de quem lá trabalha.
Assim, durante o mediaticamente apregoado ataque ao SNS pelas medidas de austeridade, não diminuiu o acesso dos utentes às consultas. Já essa alínea do virar da página da austeridade que implica a reposição das 35 horas na função pública levará a que tenham de se desviar verbas no orçamento da saúde para pagar horas extraordinárias. Mas claro que na retórica das corporações do sector isso não é um ataque ao SNS. É sim defendê-lo.
Na prática temos dois países. E o que no país Estado muitas vezes se chama arrojo e ambição no mundo do não Estado designa-se como trafulhice ou, numa versão mais bondosa, erro grosseiro.
Veja-se, por exemplo, esse pilar do regime a que as empresas e os trabalhadores entregam uma parte dos seus rendimentos. Falo da Segurança Social, naturalmente. As contas da sustentabilidade da Segurança Social apoiam-se em cenários de crescimento da economia (logo crescimento também das receitas) invariavelmente destruídos pela realidade. Mas mesmo que esses radiosos cenários se cumprissem seriam manifestamente insuficientes por causa da demografia: cada vez há menos activos (contribuintes) e mais pensionistas (recebedores).
Em conclusão, se a Segurança Social fosse privada falia e com mais ou menos estrondo alguns dos que afiançaram pela saúde das suas contas acabariam em tribunal. Como é estatal vai falindo. Em silêncio, obviamente. Por outras palavras vão-se aumentando os impostos para a financiar e vão-se avisando as gerações futuras que as suas reformas serão pouco mais que simbólicas. No outro mundo, o do não Estado, a isto chama-se fraude, não é?
Mas entretanto, claro, há que continuar a descontar, porque nessa matéria – a da captação de receitas – o país do Estado não só é inflexível como se rege por legislação que não se admite em qualquer outro sector. Por exemplo, a colocação de câmaras de vigilância para prevenção de assaltos levanta as maiores reservas à Comissão Nacional de Protecção de Dados. Contudo não suscitou qualquer problema à mesma comissão a criação de listas de devedores ao fisco e à segurança social. Mais, essas listas, se o credor for o Estado, são não só legais como valorizadas como instrumentos de combate à evasão fiscal. Já no outro país, o do não Estado, a existência de uma lista de devedores – por exemplo a muito referida lista de inquilinos incumpridores reincidentes – é vista como um grave atentado aos direitos dos cidadãos.
Esta duplicidade de critérios tem vindo a crescer e tudo indica que crescerá na exacta medida em que o Estado, na sua ânsia de dinheiro, vier a aumentar o seu intervencionismo nas empresas. Assim, no mesmo país que não admite a figura do agente provocador nas operações policiais, nomeadamente nas de combate à droga (porque o agente provocador incentiva ele mesmo uma situação ilícita com toda a ambiguidade ética que tal implica), veio agora a Autoridade para as Condições do Trabalho reivindicar a colocação de inspectores camuflados nas entrevistas de emprego. Objectivo: detectar os casos em que as entidades empregadoras não respeitam a lei. Enfim entre perseguir traficantes ou empregadores o país Estado não hesita.
Aliás tudo o que permita seguir o rasto do dinheiro permite desbloquear rapidamente legislação. E assim chegamos ao paradoxo de Portugal, cujos serviços de informações não podem fazer escutas e nem sequer ter acesso a dados de internet (donde a prevenção do terrorismo ser entre nós uma história de encantar!), se apressar a adoptar as medidas necessárias para que sejam fiscalizadas as transferências bancárias superiores a mil euros.
Portanto rezemos aos céus para que os terroristas em Portugal transfiram 1 001 € para as contas uns dos outros porque se se limitarem a combinar pelo telefone todos os detalhes da colocação de bombas ninguém os incomodará.
Nada disto começou com este governo mas este governo é a expressão já sem qualquer pudor ou filtro de tudo o que a corporação Estado está disposta a fazer para manter os seus privilégios, aumentar o seu poder e fazer crescer os seus territórios.
Medidas aparentemente sem qualquer racionalidade tornam-se claras quando enquadradas nesta estratégia. Desde as mudanças na Educação à reversão dos processos de privatização das empresas públicas de transportes estamos sempre perante o mesmo objectivo: reforçar, proteger e blindar as corporações do sector Estado.
O próximo passo será fazer crescer ainda mais as diversas camadas da administração. Como? Avançando com a regionalização na secretaria. É certo que os portugueses chumbaram a regionalização em referendo mas isso não é obstáculo. A regionalização permite a criação de várias estruturas intermédias de poder, território de expansão e implantação por excelência das nomenclaturas partidárias e corporativas.
Sob a retórica de «a descentralização ser a base da reforma do Estado», o Governo pretende que os eleitores das áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa elejam os respectivos presidentes. Depois claro haverá que alargar essa iniciativa a todo o país, depois aprofundá-la, depois…. está feito.
A pressão para que o outro país assegure as receitas indispensáveis ao funcionamento do país Estado vai levar necessariamente ao agigantar das contas de somar e imaginar sobre o muito dinheiro que os muito ricos não pagam ao fisco. Vamos ter também os arroubos patrioteiros contra os mesmos a quem se pede cada vez mais dinheiro ou mais tempo para pagar o que se deve que é o mesmo que pedir mais dinheiro. E claro vamos tentar sobreviver no populismo inerente à concepção do acto de governar com a de um grande arrecadador-distribuidor, imagem sempre eficaz na hora de ganhar votos.
Moral da História: para o primeiro país, o do Estado, não há meios que cheguem. Já para o segundo restam cada vez mais apenas duas alternativas: conseguir anichar-se no Estado ou ludibriá-lo.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Sobre a eutanásia
Se não há nada a fazer, mata-me!
Laurinda Alves
O debate sobre a eutanásia promete ser aceso, mas não pode passar ao lado de uma realidade ainda mais urgente e fracturante: se todos temos cuidados ao nascer, também temos que ter cuidados ao morrer
Primeiro, alguns factos incontornáveis e indesmentíveis: há muitos doentes crónicos e incuráveis, em fase avançada da doença, que são maltratados pelo sistema nacional de saúde. Uns porque sofrem em casa, sem assistência, outros porque não têm dinheiro para medicamentos e tratamentos, outros ainda porque desesperam em salas de espera e enfermarias dos hospitais por terem sido dados como «casos perdidos». Pessoas em quem ninguém investe.
Muitos sofrem sozinhos, outros acompanhados por familiares e amigos
tantas vezes impotentes perante o seu sofrimento. É difícil estar à cabeceira
de quem sofre. É terrível não ter o poder de curar. E deve ser brutal saber que
os profissionais de saúde desistiram de nós. A frase «não há nada a fazer» é
assassina. Quem a ouve morre logo ali. Devia ser proibida com urgência. E devia
haver multas pesadas, pesadíssimas, para quem se atrevesse a proferi-la em
contexto clínico. Dizer a um doente e à sua família que não há nada a fazer, é
matar toda e qualquer esperança. Não é preciso ser especialista em coisa
nenhuma para saber que há sempre muito a fazer por quem está vivo!
Neste
enquadramento de sofrimentos em cúmulo, de dores em excesso, parece a muitos que
a única saída é a eutanásia ou o suicídio assistido. Percebo que pareça e
respeito quem assim pensa, mas gostava de acrescentar ao debate nacional sobre
a eutanásia a minha perspectiva, partilhando aqui a minha experiência de 3 anos
à cabeceira de doentes terminais, numa unidade de Cuidados Paliativos, mais um
par de anos vividos à cabeceira de três doentes adolescentes que me eram muito
queridos. Dois deles morreram, mas uma sobreviveu. Foram anos duros, muito
duros, mas ensinaram-me muito. E fizeram de mim uma paliativista radical.
Explico porquê.
Em
três anos de voluntariado de cabeceira com toda a espécie de doentes, de todas
as idades, estive muito próxima de pessoas mais e menos desesperadas. Conheci
jovens revoltados que entraram na unidade a pedir a eutanásia mas desistiram
quando começaram a sentir os benefícios dos cuidados paliativos; estive de mãos
dadas com mães suspensas da última respiração dos seus filhos; abracei
raparigas novas que morreram antes de chegar a casar; partilhei silêncios demorados
com mulheres que se despediam dos maridos e dos filhos pequenos; segurei no
colo essas mesmas crianças que diariamente visitavam a mãe sem compreenderem
bem o que as esperava; li livros em voz alta para avós de muitos netos;
conversei longamente com engenheiros e professoras universitárias, músicos e
matemáticos, filósofos e artistas que morreram cedo demais. Com uns aprendi o
valor da aceitação da morte e a pacificação em vida, com outros aprendi o
respeito pelas suas zangas e revoltas. Com todos percebi a extensão do
sofrimento terminal e a importância de terem ou não terem cuidados paliativos.
E é aqui que tudo muda. E é este o debate essencial que devemos cultivar e
alimentar antes de avançarmos para votações e novas legislações sobre o mítico «direito
a morrer com dignidade».
Felizmente
os paliativistas cuidam do direito a viver com dignidade até ao fim. Sabem que
uma equipa pluridisciplinar associada a um cocktail de químicos sabiamente
doseado, minimiza os sofrimentos físicos e atenua os sofrimentos morais e
emocionais. Até eu sei isso, e nunca estudei Medicina. Sei porque vi, porque
conheci dezenas de pessoas que pensaram que a única saída que tinham era a
morte assistida, a eutanásia, e quando começaram a beneficiar de cuidados
paliativos abandonaram a ideia. Naturalmente, sem pressões, note-se. E viveram
com dignidade até ao fim, sem dores insuportáveis, sem sentirem necessidade de
pedir a alguém para os matar.
Não posso nem quero citar nomes e muito menos contar as histórias de
cada um dos doentes que entraram no hospital (ou chamaram os médicos a casa) a
pedir a eutanásia. Uns gritavam, outros suplicavam, outros impunham a sua
derradeira vontade num silêncio devastador, mas todos queriam acima de tudo
ver-se livres do sofrimento. Não queriam viver porque não conseguiam sofrer
mais. As famílias sentiam o mesmo, e a morte assistida parecia-lhes a única
saída. Não era, felizmente. Graças aos cuidados paliativos, muitos deles
tiveram oportunidade de voltar a viajar, de realizar sonhos, de voltar a casa,
de viver sem dores e de recuperar a dignidade tantas vezes perdida quando nos
reduzem à expressão mínima. Quando alguém deixa de ter nome e passa a ser
apenas mais um doente, não dói apenas o corpo. Também dói a alma.
Os cuidados paliativos também são preventivos. Previnem sintomas e
sofrimentos. Fazem com que as dores não cheguem a ser insuportáveis. E com que
as pessoas não queiram desistir de viver. Tal como as doses de antibiótico têm
que ser avaliadas caso a caso, também a casuística se aplica nos cuidados
paliativos. Não há receitas padrão. Cada pessoa é uma pessoa. Os cuidados
paliativos são mundialmente reconhecidos como uma prática médica de excelência
e revelam sempre uma forma de medicina humanizada. E todos sabemos como uma
medicina des-humanizada pode levar a pedidos dramáticos e definitivos para
morrer, de forma a acabar com o sofrimento…
Fazer a diferença à cabeceira de um doente não passa por dar mais mimos ou ter mais cuidados afectivos. Também passa por isso, certamente, mas não se tratam doentes graves só com mimos. Desenganem-se os que acham que os paliativistas são médicos mais queridos e dedicados aos seus doentes porque apostam mais na ternura e proximidade do que na ciência, pois não é possível tratar derrames, vómitos, dispneias, convulsões e outros sintomas que tais com mimos, a dar a mão ou a fazer festinhas na testa. Os cuidados paliativos são uma especialidade clínica avançada, da linha da frente, que exige equipas multidisciplinares com capacidade para fazerem uma intervenção na dor e no sofrimento dos doentes.
Não
abandonar um doente que não se pode curar é vital. Sei de um cirurgião
português, contemporâneo, que durante anos a fio operou a desoras, quase
clandestinamente, doentes que tinham sido dados por perdidos. Esperava pelas
madrugadas ou contava com as horas tardias em que os blocos operatórios estavam
livres e com todas as condições de assepsia asseguradas, para operar homens e
mulheres com mais de 80 anos que estavam desfigurados por terem um cancro na
zona da cabeça e pescoço. Eram doentes de quem os próprios familiares desistiam
ou fugiam por não saberem como lidar com a fealdade, com os cheiros e toda a
escatologia própria desta doença demolidora. Este médico tinha uma equipa que
colaborava com ele e, juntos, fizeram centenas de cirurgias a «velhos» que só
esperavam a morte (e pediam a morte!). Alguns destes doentes viveram ainda mais
de uma década e eu própria li as cartas que escreveram a agradecer terem sido
operados. E também conheci filhos destes «velhos» que foram ter com o médico a
dizer que voltaram a conseguir estar com os seus pais.
Podem
dizer que o exemplo deste médico não tem nada a ver com paliativos e realmente
não tem, mas tem a ver com a eutanásia na medida em que revela a humanidade dos
médicos que sabem que há sempre alguma coisa a fazer por quem está vivo. Não se
trata de encarniçamento médico, nem de obstinação terapêutica, note-se, pois
nunca se tratou de obrigar os doentes a fazer mais e mais tratamentos
dolorosos, mas de minimizar sofrimentos e devolver dignidade. Nisso, este
médico agiu como agem os que mesmo sabendo que nada podem fazer para curar,
podem tentar tudo para dar qualidade de vida até ao último dia.
A
discussão sobre a eutanásia promete ser acesa e cheia de controvérsia, mas
gostava que não passasse ao lado de uma realidade ainda mais urgente e
fracturante na nossa sociedade: se todos temos cuidados específicos ao nascer,
também todos temos que ter cuidados específicos ao morrer! Os cuidados paliativos
não podem ser só para uma elite ou um conjunto de eleitos. Têm que ser para
todos. Só quando tivermos esta realidade assegurada teremos verdadeira
liberdade de escolha e aí sim, será mais legítimo falar de eutanásia e
suicídio assistido. Antes disso, perdoem-me os que pensam diferente, mas
a minha convicção profunda (e faz de mim uma paliativista radical) é que a
maioria das pessoas que pede a eutanásia, não a pediria se tivesse a certeza de
que deixaria de sofrer. Se tivesse garantias de que poderia libertar-se do
sofrimento, sem ter que acabar com a vida.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Eu, traidor, me confesso
João Miguel Tavares, Público, 4 de Fevereiro de 2016
É na esquerda portuguesa que as forças mais conservadoras instalaram o seu bivaque.
Anteontem descobri que sou um traidor à pátria. Eis o meu crime: criticar o governo socialista pela contabilidade criativa inscrita no seu primeiro esboço de orçamento e pelas consequências para o país dessa postura pouco séria. Até há bem pouco tempo, a isto chamava-se uma «opinião». Entretanto, passou a chamar-se «traição». No ano da graça de 2016, dizer que António Costa está a dar cabo da pátria é antipatriótico.
Porfírio Silva, que está para António Costa como o professor Manuel Sérgio estava para Jorge Jesus, colocou nas redes sociais uma imagem da famosa defenestração de 1640 com o seguinte comentário: «Miguel de Vasconcelos. Os de hoje devem ser tratados com mais civilidade, claro. Mas nunca deixam de ser o que são, essa é que é essa.» João Galamba, numa das suas divertidas conferências de imprensa, declarou: «A negociação em curso é um processo normal, que já se verificou com outros países. Ao contrário do que sucede em Portugal, não consta que nesses países a oposição faça claque contra os interesses dos seus povos, tentando limitar a margem de manobra negocial dos respectivos governos.» E Ana Sá Lopes, que leio sempre com prazer, lembrou-se de ir buscar o fantasma da Quinta Coluna, afirmando: “Portugal dispõe hoje de uma quinta coluna bastante disponível para prejudicar os interesses nacionais em favor dos interesses dos países mais fortes da UE. São muitos, vivem de cara destapada, multiplicam-se pelas televisões (às vezes parecem omnipresentes) e desejam que Portugal seja derrotado, os portugueses sejam levados para mais cortes, as agências de rating rebentem com o país e os juros da dívida subam à velocidade dos balões.»
Lá está: para Porfírio Silva, João Galamba ou Ana Sá Lopes (a lista poderia continuar) eu não posso simplesmente acreditar que a receita keynesiana aplicada desta forma a Portugal é um desastre que vai enterrar ainda mais o país. Não – se eu acredito nisso, então só posso ser um antipatriota, um membro da «claque» derrotista, um cúmplice dos mercados, um privilegiado com vida de rico, um voluntário da quinta coluna empenhado em «prejudicar os interesses nacionais» e em celebrar a derrota de Portugal. Boa parte da esquerda é incapaz de olhar para a direita e simplesmente argumentar que ela está enganada. Não. Nós, os da direita, temos de ser maus. Temos de ser vendidos. Temos de ser traidores. Temos de ser Miguéis de Vasconcelos.
Há duas formas de olhar para isto. Se quisermos ver o copo meio cheio, podemos sempre saudar o facto de o insulto «fascista!» estar a perder força. Até há bem pouco tempo, a esquerda não resistia a gritar «fascista!», tal como o Dr. Strangelove não resistia a erguer o braço. Mas se quisermos ver o copo meio vazio, podemos justamente temer que o antipatriota seja o novo fascista. Ou seja, quem não alinhar na retórica «Para Portugal e em força» e se atrever a criticar os denodados esforços do regoverno de António Costa, corre o risco de ser publicamente desqualificado como perigosos colaboracionista e capanga de Wolfgang Schäuble. Todos sabemos que a extrema-esquerda não se contenta em ter apenas adversários – ela precisa de inimigos. Este novo inimigo tem, ao menos, a vantagem de mostrar o óbvio: é na esquerda portuguesa que as forças mais conservadoras instalaram o seu bivaque. Com sorte, talvez a direita ainda possa vir a acusar o PS de ser salazarento, nesta sua nova mistura de «deixem-me trabalhar» com «orgulhosamente sós».
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
O superior interesse dos adultos
e a discriminação das crianças
Rita Lobo Xavier,
Público, 17 de Julho de 2013
Na exposição de motivos do projeto recentemente
apresentado na Assembleia da República sob a falsa designação de «coadoção»,
ficciona-se uma situação para ilustrar a crueldade supostamente originada pelo
vazio legal que se pretende preencher com essa iniciativa. Imagina-se uma
criança que até aos dez anos de idade foi educada pelo seu pai e pelo seu
companheiro a ser arrancada dos braços deste último pela família do pai
subitamente falecido.
A solução legal para este dramático caso académico
é simples: basta que o pai, no seu testamento, nomeie o companheiro como tutor;
mesmo não o tendo feito, o companheiro sobrevivo poderá ser nomeado tutor por
se tratar de pessoa que de facto cuidou do filho do falecido; e, finalmente,
poderá vir a adotar a criança. Passo a descrever uma situação que não é
inventada. Uma criança nasceu sem que os pais estivessem casados, ficou a viver
com a mãe e, a partir dos cinco anos de idade, também com a companheira desta.
Tendo o rapaz dez anos de idade, esta última pretende adotá-lo, requerendo que
não seja tida em conta a oposição do pai da criança, com quem mantém contatos
regulares.
Tal é, resumidamente, a situação real subjacente à
famigerada decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que condenou a
Áustria no pagamento de uma indemnização. Aliás, esta decisão tem vindo a ser
abusivamente invocada em Portugal como suporte à tese da necessidade de
proteção das crianças por via da extensão da titularidade das responsabilidades
parentais ao cônjuge ou companheiro do mesmo sexo de um seus progenitores. Com
efeito, não existem em Portugal normas semelhantes às que foram consideradas
por aquele tribunal como envolvendo discriminação em função da orientação
sexual.
A verdade é que aquela decisão não põe em causa nem
substitui a dos tribunais austríacos. Estes não poderiam acolher a pretensão
daquelas duas mulheres sem criar uma situação mais atroz do que todas as que
possam ser congeminadas para tentar justificar a adoção do filho do cônjuge ou
do companheiro do mesmo sexo. E, se o fizessem, dariam origem a uma
discriminação entre aquela criança, a quem seria retirado o direito a
constituir relações jurídicas de paternidade e de maternidade, e as crianças a
quem esse direito é assegurado.
Privar a criança da relação de paternidade… eis o
que afinal era solicitado, por opção da mãe e no interesse dos adultos, a
pretexto da necessidade de proteção da criança. Mas a proteção da criança não o
exige nem tão-pouco o aconselha. Não é manifestamente do interesse de uma
criança a extinção das relações com o seu pai e restante família do lado
paterno e a sua substituição pela companheira atual da mãe. Corresponderá ao
desejo de duas mulheres adultas de fingirem que têm em comum o filho que a
natureza lhes nega. Este desejo não pode ser satisfeito à custa dos direitos da
criança. É que o paradigma é sempre o da filiação natural, mesmo para as
pessoas do mesmo sexo que pretendem adotar.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Quem se lixa é sempre o mexilhão
Paulo Baldaia, Diário de Notícias, 31 de Janeiro de 2016
Também não há paciência para o Bloco de Esquerda, que espalha cartazes pelo país contra as soluções que foram encontradas para o Novo Banco e o Banif. Julgarão, por certo, que os seus eleitores nunca vão perceber que as medidas que eles contestam só existem porque eles apoiam o governo que as concretiza. Não há paciência igualmente para o PCP, que apoia o governo para ter ganhos na função pública e no sector empresarial do Estado, com destaque para os transportes, mas que a cada conquista põe os sindicatos da CGTP a ameaçar com uma nova greve para ganhar mais um pouco de terreno.
E não há paciência para a eterna divisão entre portugueses de primeira e portugueses de segunda. Sendo certo que os de segunda eram, para o anterior governo, os que trabalham na função pública e a quem tentaram roubar os subsídios de férias e de Natal, mas que para o actual governo passam a ser de primeira com menos carga horária e menos anos de desconto para uma reforma antecipada que pode chegar cinco anos mais cedo do que a dos privados.
Nos primeiros meses de vida de um novo governo, tanta gente finge não ver os disparates. É o estado de graça, em que o governo anterior ainda é culpado por tudo o que de mau nos acontece. Mas não é preciso ser antipatriota para criticar os malabarismos contabilísticos de Mário Centeno e António Costa. Nem ser de direita nem a favor das agências de rating ou do directório de Bruxelas. Basta ser pelo bem comum.
Negociar não é tentar convencer alguém a aceitar artificialidades, como se elas não tivessem peso na contabilidade final, como se um eventual erro do passado pudesse ser resolvido com outro no presente. Isto não é sério. Há razões para acreditar que, no fim, prevalecerá o bom senso, mas pode correr mal. E para que isso não aconteça é preciso que os artífices percebam que já não há paciência para governos que, com os olhos postos na eleição seguinte, fazem de conta que a realidade não é o que é. E a realidade é que são sempre os trabalhadores que pagam a factura. Sejam esses trabalhadores de esquerda ou de direita, esteja quem estiver no poder.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
(Obra da tonta da ministra laranja Teresa Morais)
Fábrica de intolerantes
Helena Matos
O guia para «Acolhimento de refugiados» agora editado
pela Direcção-Geral da Saúde é um prémio para os fundamentalistas. Nem as
consultas só com mulheres lá faltam.
«Por imperativos de ordem cultural e religiosa, deve
ter-se em atenção a escolha dos profissionais e mediadores no relacionamento
com certos grupos. Por exemplo, poderão existir restrições de género
consubstanciadas na recusa de mulheres serem observadas ou cuidadas por
profissionais do sexo masculino. É de extrema importância que estas limitações
sejam esclarecidas e respeitadas, para que o apoio tenha a maior qualidade
possível.» – Não, não é engano, estamos mesmo a ler: «É de extrema
importância que estas limitações sejam esclarecidas e respeitadas, para que o
apoio tenha a maior qualidade possível.» E voltemos ao que aqui se
designa como «limitações»: «recusa de mulheres serem observadas ou cuidadas
por profissionais do sexo masculino».
Em que remoto país serão dadas estas instruções? Que
estranho mundo será esse em que as mulheres (ou os homens por elas) podem
recusar ser «observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino»? E em
que a essa atitude (que nós sem sombra de dúvida classificamos como
discriminação atávica ou intolerável exigência) é aqui docemente colocada ao
nível da «restrição» e da «limitação»?
Claro que isto não pode ser Portugal. Pois não pode mas
é. E é Portugal agora, em 2015, e não há um século. Estes conselhos fazem parte
do recentemente publicado «Acolhimento de refugiados: Alimentação e necessidades nutricionais em situações de emergência», editado pela Direcção-Geral da Saúde, no âmbito do
Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS).
Este guia, anunciado há dias com pompa e circunstância
mediáticas, apresenta-se a si mesmo como um «documento inovador a nível
nacional». Do carácter inovador não duvido sequer um segundo pois nem nos mais
vetustos documentos editados pelas autoridades de saúde deste país se previa
que as mulheres recusassem ser «observadas ou cuidadas por profissionais do
sexo masculino». Nem nos nossos maiores delírios imaginámos que algum dia
teriamos de organizar os serviços de saúde de modo a prever a «recusa de
mulheres serem observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino.»
A inovação chega assim anexa a algo que sempre vimos como
sinal de atraso e de falta de respeito pelos serviços e técnicos de saúde. Não
se percebe aliás se estas «restrições de género» se prendem apenas com os
cuidados de saúde mais básicos ou se também serão extensíveis às diversas
especialidades médicas. O que no limite nos levará ao paradoxo de além de
discutirmos se o hospital A deve ter neurocirurgião e o centro de saúde B
psiquiatra termos também de fazer essas escolhas em função do sexo dos profissionais
de saúde (na era APC – Antes do Politicamente Correcto – isto chamava-se
discriminação não era?).
Curiosamente, ou talvez não, este manual recomenda a quem
lida com os refugiados: «Fique atento aos seus próprios preconceitos e
preferências e coloque-os de lado». Pois, está a contradição desfeita: o que é
preconceito é acharmos preconceituoso o comportamento da mulher (ou do seu
marido) que rejeitam que ela seja observada por um médico. Complicado? Só na
aparência.
Aos ingénuos que neste momento se interrogam sobre a
razão de ser deste tipo de recomendações num guia de alimentação, no caso para
refugiados, recordo que os totalitarismos sempre tiveram como veículos
privilegiados dos seus ditames as recomendações e a legislação produzidas pelas
autoridades sanitárias, logo a começar por essa espécie de estrutura ancestral
do progressismo totalitário que foi o Comité da Saúde Pública ao qual se devem
muitas medidas que instauraram o Terror na Revolução Francesa. E na verdade
este manual de «Acolhimento de refugiados: Alimentação e necessidades
nutricionais em situações de emergência» vai
muito além das questões alimentares e nutricionais propriamente ditas, como bem
percebem aqueles que o consultam.
Mas mesmo que este guia tivesse ficado pelas páginas dedicadas
à alimentação as suas recomendações colocam questões muito sérias sobre o que
se entende por acolher ou receber refugiados, sobretudo quando esses refugiados
são muçulmanos.
Primeiro temos as observações óbvias: interdição de
bebidas alcoólicas (que também estão presentes, como lembra o guia, em
«tempero, em caldos, marinadas e sobremesas») e da carne de porco e seus
derivados, a saber fiambre, salsichas, chouriço, presunto, mortadela, paio,
salpicão, farinheira, morcela, tripas, fígado, pulmão, banha… (digamos que o
porco e seus derivados estão mais ou menos presentes em tudo que nos apetece
comprar nesta altura do ano).
Em seguida, lembram-nos os zelosos autores deste guia que
também se devem evitar as gelatinas de origem animal e os alimentos com
extracto de baunilha por utilizarem álcool na sua composição ou no processo de
produção.
Digamos que até aqui será possível atender a tantas
restrições, embora os refugiados devessem ser esclarecidos que não sendo
Portugal um país muçulmano muitos dos alimentos aqui comercializados contêm
gorduras animais ou álcool: uma simples fatia de bolo com passas transforma-se
nesta perspectiva num problema de intolerância religiosa caso as passas tenham
estado a ganhar sabor em vinho do Porto.
Enfim, uma coisa será não servir entrecosto no churrasco
aos refugiados outra bem diversa passa por ter de encontrar bolachas sem
baunilha.
Mas passemos adiante porque outros e bem mais sérios
problemas são colocados neste guia pelo item dedicado à contaminação cruzada,
conceito que no caso nada tem de sanitário mas sim de religioso: «Para a
manipulação de produtos de origem suína nas instituições que fornecem e/ou
preparam alimentos para os cidadãos deslocados, devem-se aplicar os mesmos
processos de segurança alimentar de modo a evitar a contaminação cruzada, ou
seja, os equipamentos, superfícies e utensílios que entrem em contacto com
produtos de porco devem ser convenientemente lavados e higienizados.»
Face à logística inerente a lavar e higienizar a cada
refeição «os equipamentos, superfícies e utensílios que entrem em contacto com
produtos de porco» cabe perguntar como se procederá caso nessas instituições
estejam também refugiados para quem o porco seja a base da sua alimentação?
Não se pense que com as outras carnes os problemas são
menores: «Relativamente a outros tipos de carne, em algumas culturas e
seguindo determinadas correntes do Islão, poderão haver reservas sobre a forma
como o animal é abatido, havendo especificidades rituais próprias que terão que
ser cumpridas.»
Terão que ser cumpridas? Sempre? Para todos? E alguém
interrrogou os refugiados sobre estes assuntos?
Não deixa de ser irónico que fugindo os refugiados sírios
de uma guerra causada pelos fundamentalistas islâmicos, aqui chegados esses
mesmos refugiados se confrontem com serviços de acolhimento dispostos a
satisfazer as exigências das suas correntes radicais. Aliás o mesmo raciocínio
tem sido aplicado na questão das caricaturas de Maomé em que de repente o
Ocidente dá como verdadeiro que todo o Islão considera ofensiva a representação
do profeta, o que é manifestamente falso pois durante séculos e séculos os
muçulmanos representaram Maomé.
Ironias e patetices de lado, o que encontramos em muita
da linguagem e das estruturas de acolhimento a refugiados e emigrantes são as
teses do relativismo, teses essas que exponenciaram os problemas de integração.
E que por exemplo, levam regularmente à anulação em França de várias festas escolares
pois já não basta haver recipientes separados para alimentos com carne de porco
e sem carne de porco: há o problema da partilha das mesas, dos frigoríficos e
do espaço (o conceito de contaminação cruzada é uma espécie de caixa de
Pandora!) Que levam também a agressões recorrentes nos hospitais porque estes
não estão dotados de equipas exclusivamente femininas. Que
obrigam a alterações nas aulas de natação…
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Conferência
A Associação Cristóvão Colon apresenta a
Conferência
«Colon, dito Colombo – foi um Português que
descobriu a América?»
sábado, 2 de janeiro de 2016
Lusofobia
Viriato Soromenho Marques, Diário de Notícias, 30 de Dezembro de 2015
Lula da Silva escolheu a Espanha para reactivar um dos tiques culturais de alguma elite brasileira contra o colonizador português. Culpou Portugal pelo facto de a primeira universidade brasileira ter sido fundada apenas em 1922. Para além de ignorar as iniciativas lusas em matéria de ensino superior, em 1792, no Rio de Janeiro (Ciências Militares), e em 1808, na Bahia (Medicina), Lula fez cair para cima da herança lusa um século de independência brasileira (1822-1922). Como Pedro Calafate tem escrito, a procura de um paradigma não português para inspiração cultural alternativa atravessa todo o século XIX do país irmão. Não só o positivismo francês, imortalizado na bandeira nacional adoptada em 1889, como um germanismo mítico, com Tobias Barreto, ou um indigenismo romântico em Gonçalves de Magalhães e Oswald de Andrade (tupi or not to be...).
Contudo, Lula ignora os grandes vultos contemporâneos da Academia brasileira. Não só o luso tropicalismo de Gilberto Freyre, como os trabalhos monumentais de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Darcy Ribeiro. Lula ignora que em 1815 o Brasil ganhou o estatuto de reino. E que a história de Pedro I, imperador do Brasil, que foi também Pedro IV de Portugal, é uma singularidade irrepetível na história universal. Ignora que a Universidade de Coimbra (depois do fecho da de Évora) foi a única para todo um império pobre. Contudo, foi esse espírito coimbrão, que unia a elite brasileira, coeva de José Bonifácio, aliado à sábia estrutura administrativa portuguesa, que garantiu – em contraste com a total fragmentação da América Espanhola – a unidade do Brasil. Os pobres portugueses asseguraram a integridade desse chão que fará do Brasil uma das grandes potências mundiais do século XXI. Basta que o seu grande povo escolha líderes capazes de cultivar a história, em vez de a tratarem com os pés.
NOTA: (Ilustrações da nossa redacção)
Cinco razões porque Paulo Portas
sair da liderança do CDS é uma boa notícia
Tiago Cavaco, Voz do Deserto
[Aqui há uns dias explicava da tragédia que é ler alguns pastores espalharem-se ao comprido em comentários políticos descuidados. Espero não fazer o mesmo agora. Mas, precisamente por Paulo Portas estar na área política onde o meu voto tem acontecido, julgo pertinente este comentário.]
1. Porque Paulo Portas nunca foi conservador
A explicação mais erudita deste ponto entrego-a ao Henrique Raposo, que assim bem explicou no Expresso online: «a própria fonte de Portas era pós-moderna, imprecisa, escorregadia. No fundo, ele foi um jovem do seu tempo. Apesar de leituras conservadoras do baú francês, Portas foi varrido pela ‘dispositivo pós-moderno’, isto é, pela fuga às grandes narrativas, pela recusa ideológica da coerência, pela desistência da busca da verdade (quer no sentido objectivo, quer no sentido moral).»
2. Porque Paulo Portas significa continuar a confundir conservadorismo
com o fenómeno MEC
Este ponto é consequente do primeiro, bem explicado pelo Henrique. Aquilo que passou pela suposta nova direita nos últimos trinta anos é uma salganhada burguesa coquete que foi tolerada ao Miguel Esteves Cardoso porque eticamente não se distingue da esquerda niilista (a cartilha coca, cópula e calão). Para ser conservador não chega gostar de comprar roupa em Londres ou citar os Smiths em vez dos Clash.
3. Porque Paulo Portas mostrou-se um homem sem palavra
Decidi não votar mais CDS desde a crise do «irrevogável». Um homem não pode voltar atrás e explicar que mudou de ideias? Certamente que sim. Mas Paulo Portas nunca voltou atrás e explicou que mudou de ideias, simplesmente saltou para a frente como se a sua palavra não valesse nada. Num partido conservador a palavra dada tem de valer a própria vida. Para desconstruções semânticas temos a esquerda.
4. Porque Paulo Portas é demasiado talentoso no seu jogo
para conseguir deixar substituto à altura
Não há nenhum beto mais novo que Portas capaz de disfarçar cinismo em conservadorismo com o talento dele. Digamos que é uma excelente desvantagem da geração de noventa. A geração de noventa sabe ser cínica, claro. Mas já não passou por nenhum fenómeno anglo-pop que a fizesse enamorar-se de aparências conservadoras (o britpop dos Oasis e dos Blur é demasiado classe média comparado com o genuíno snobismo da década anterior).
5. Porque vai fazer com que os que sejam realmente conservadores
no CDS tenham de começar a trabalhar a sério
Eu não tenho problemas pelo CDS ser um partido de betos. Eu tenho problemas pelo CDS ser um partido sem coragem. As vozes tidas por esclarecidas são as que pedem para ir à casa de banho sempre que o assunto exige clareza moral. Divórcio, aborto, o chamado casamento homossexual, adopção por ditos casais homossexuais, e podia continuar. Ou o CDS começa a querer conservar alguma coisa concreta ou restringe ao nosso capitalismo coxo a sua única causa — mas para isso já temos o PSD.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Os saudáveis populistas
Helena Matos, Observador, 27 de Dezembro de 2015
Marcelo Rebelo de Sousa: «Pode-se poupar em muita coisa, mas poupar na saúde dos portugueses não é um bom princípio para quem quer afirmar a justiça social e construir um Estado democrático mais justo», declarou aos jornalistas, no início de uma visita ao Hospital de São José, em Lisboa.
Maria de Belém: «Tesouraria» não pode estar à frente «da defesa do valor da vida».
Marisa Matias, considera que a morte de um homem no São José é uma consequência da austeridade imposta pelo anterior Governo. «Foi uma política que matou gente. Foi denunciado em devido tempo que esta política de austeridade e este ciclo de empobrecimento que estava a ser posta em prática pelo Governo de direita levaria mesmo a muitas vidas que se perderam».
Perante este tipo de considerandos, sobretudo os provenientes de Marcelo Rebelo de Sousa e de Maria de Belém, apetece perguntar: pensam estes candidatos à Presidência da República recorrer ao SNS quando tiverem problemas de saúde? Caso respondam afirmativamente, estimam viver quantos anos mais? É que para falar deste modo, como se não houvesse amanhã, tem de se estar dotado da forte convicção (eu diria antes fé) de que se vai gozar de uma saúde de ferro até àquele derradeiro momento em que a bondade de uma morte súbita porá fim a vida tão saudável. (De caminho também é indispensável estar disposto a descer moralmente muito para subir um pouco mais nas sondagens, mas esse é outro assunto.) Afinal a quem não sabe que morte o espera e de que doenças vai sofrer resta apenas uma pragmática certeza: todos podemos acabar num hospital. Que este se organize em função dos doentes ou das questões contratuais do seu pessoal não é a mesma coisa.
Mas vamos ao que suscitou esta sucessão de declarações dos candidatos à Presidência da República: a morte a 14 de Dezembro de um homem de 29 anos, no Hospital de São José, depois de ter sido internado no dia 11. No momento do internamento foi-lhe diagnosticada uma hemorragia cerebral provocada por um aneurisma o que obrigava a uma intervenção cirúrgica rápida. A intervenção nunca aconteceu porque dia 11 era sexta-feira e no Hospital de São José ao fim-de-semana (a sexta-feira à tarde já entra no conceito de fim-de-semana?), não se encontravam equipas de neurocirurgia. E porque não se encontravam equipas de neurocirurgia em São José? Pela mesma razão porque os tratamentos mais rigorosos são interrompidos com a maior das naturalidades ao fim-de-semana e feriados: porque no país em que oficialmente a saúde não tem preço nem se discute quanto nos custa e como funciona o que não tem preço, florescem os mais fantásticos negócios e crescem destravados privilégios à conta desses dogmas.
Tanto quanto se sabe – e sabe-se pouco porque em geral nestas discussões sobre os serviços públicos ditos gratuitos evita-se dar números enfatizado sim a questão abstracta dos «meios», dos «cortes», dos «recursos» que ora existem ora são cortados… – em 2013, os enfermeiros do Hospital de São José, declararam-se indisponíveis para fazerem turnos extraordinários aos sábados e domingos. Médicos e radiologistas secundaram-nos. Segundo o Expresso esta recusa deveu-se a uma redução de aproximadamente 50 por cento dos valores que médicos e enfermeiros então cobravam por cada dia de prevenção (sem presença física no hospital) durante o fim-de-semana. Ou seja os médicos passariam de 500 para 250 euros e os enfermeiros de 260 para 130 (valores aproximados).
Não estou a dizer que seja muito ou pouco. Bem ou mal pago. Mas para uma saúde que não tem preço digamos que é um preço muito alto para estar de prevenção. À conta da saúde que não tem preço, do «na saúde não se poupa» e da imagem cara a Maria de Belém da tesouraria versus o valor da vida acabámos a criar um monstro de duas faces. De um lado, resguardadas na opacidade da saúde dita gratuita estão as corporações a aumentarem os seus privilégios e os seus ganhos (neste caso concreto é dificílimo perceber quanto se pagava às equipas de neurocirurgia antes de 2013, quanto se pagou em 2014 e 2015 e quanto se vai pagar agora que foi anunciado um novo acordo). Na outra face estão os políticos a dizerem às pessoas aquilo que eles, políticos, acham que os eleitores querem ouvir. E nenhuma destas faces está interessada em discutir a sobrevivência do SNS ou a sua qualidade. O que lhes interessa é a sua sobrevivência pessoal dentro do SNS (caso das ordens, sindicatos, interesses na área do medicamento) ou, no caso dos políticos, evitar ser destruído pelas corporações do SNS como aconteceu com Leonor Beleza ou acabar discreto mas firmemente afastado por elas, como sucedeu com Correia de Campos.
Contudo, e para lá do que dizem e sobretudo do que calam as duas faces, Portugal gasta muito com o SNS, gasta comparativamente mais que outros países mais ricos – mesmo com os cortes, os gastos totais com a Saúde em Portugal mantiveram-se acima da média da UE – e tanto Marcelo Rebelo de Sousa como Maria de Belém sabem-no. Quanto a Marisa Matias não sei se sabe ou se tal como Marcelo e Maria de Belém faz de conta que não sabe mas espero que o mais rapidamente possível apresente dados, números e casos da «tanta gente» que no seu dizer morreu em consequência dos «cortes na saúde». E de caminho pode precisar quanta gente cabe em «tanta gente»?
Dos restantes candidatos já nem me apeteceu procurar o que disseram. Aliás, digam eles o que disserem, ou se poupa nos gastos da Saúde ou dentro em pouco, para espanto da dra. Maria de Belém, não há tesouraria que suporte os cada vez mais caros tratamentos médicos e os também cada vez mais longos e mais dispendiosos cuidados de saúde de uma população envelhecida. E para surpresa de Marcelo, constataremos demasiado tarde não só que os recursos da saúde são finitos como que, bem mais grave, estão cativos das corporações do sector. Até lá o populismo continua a ser um tónico muito recomendado e de provas dadas. Pode usar-se sem moderação até porque os efeitos secundários são sempre sofridos pelos outros.
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