sábado, 16 de abril de 2016
O problema do cartão
Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 16 de Abril de 2016
O país está calmo. Um ministro sem gravata passa em revista as tropas; um general demite-se de chefe do Estado-Maior do Exército indiferente à gravata do ministro; um secretário de Estado demite-se porque outro ministro metia-se na vida dele; outro ministro (não o da gravata) também se demite porque ameaçou dar duas ou mais bofetadas a dois cronistas, desprezando todos os outros cronistas, e porque quer continuar a ameaçar; o primeiro-ministro convida-nos a não andar de carro e convida um amigo para trabalhar de graça – por isso, não é bem trabalhar. Entretanto, a economia pula e avança, a austeridade acaba, as crianças não vão para a escola sem comer, os idosos são bem tratados nas urgências e o aeroporto de Beja está impecável. Tanta serenidade que podíamos erradamente pensar que está tudo bem. Mas não está. E é para denunciar o que está mal que temos um partido como o BE: o nome «cartão do cidadão» é discriminatório. Gravíssimo. Em minha casa passou-se uma situação semelhante. No outro dia, quando cheguei parecia estar tudo bem. Apenas dois filhos estavam à luta mas sem razão: «Eu só lhe entalei a cabeça entre as pernas e dei-lhe um murro, mas foi a brincar.» Nem uma bofetada. A cozinha também estava arrumada, apesar de o bebé ter entornado cereais pelo chão e de andar a morder maçãs para escolher a melhor. Ninguém tinha feito os trabalhos de casa. Respirava-se harmonia apesar de os quartos parecerem campos de batalha e de o jantar estar por fazer. Um dos miúdos vomitava na casa de banho e percebi que me tinha esquecido de comprar pão para o dia seguinte. E leite. Tudo perfeito e normal, podíamos pensar. Mas não era verdade, e só percebi que vivia numa paz ilusória quando um dos meus filhos, denunciando o mal tal como o BE, gritou: «As minhas meias estão na gaveta do mano!» Obrigada, meu filho, obrigada, BE: o vosso discernimento é a nossa salvação.
A «reinvenção» de Passos Coelho
Maria de Fátima Bonifácio, Observador, 14 de
Abril de 2016
Votei em Passos Coelho porque o achava talhado para
padrinho de um casamento a meu ver feliz e necessário. Espero que ele não se
reinvente. À sua volta, quase só vejo anões.
Desde o Congresso do PSD, tão morno e tão maçador que foi
qualificado de «anestésico», correm as lamúrias sobre a «fragilidade» e o
«isolamento» de Passos Coelho, de quem o povo laranja teria esperado que se
reinventasse, mas que, para grande decepção dos adeptos, se apresentou ao
conclave igualzinho a si mesmo. Ainda por cima, disse – e repetiu – com toda a
clareza que o PSD não voltaria ao poder na semana seguinte, nem ainda no mês de
Maio do ano em curso, o máximo de espera suportável. Que não: que a actual
maioria, legal e legítima, se revelara mais sólida do que se julgara; que era
impossível assinar-lhe uma longevidade certa e definida; e que, por
conseguinte, o PSD teria pela frente uma longa, indeterminável fase de
oposição. Passos, portanto, não tinha nada de verdadeiramente empolgante para
oferecer. Ganhara as eleições de 2015, é certo; operara o milagre de conseguir
que Portugal tivesse uma «saída limpa» do programa de assistência da Troika, é
também certo; mas o seu tempo acabara. E só não teria acabado se ele tivesse
demonstrado uma acrobática habilidade para se «reinventar» a si mesmo, o que
infelizmente não se verificara. De Passos se poderia dizer que não aprendera
nada, nem esquecera nada.
Não me tinha ocorrido a ideia de que as grandes
qualidades de Pedro Passos Coelho, que estiveram na origem do seu sucesso
político e governativo, só tivessem, afinal, validade cíclica. Julgava que o
realismo, o pragmatismo, a exigência, a resiliência, a coragem, a força de
carácter, a integridade política eram trunfos para todas as estações. Pelos
vistos, não são. E não são certamente os atributos requeridos, necessários ou
sequer desejáveis para um «novo ciclo político». Quais serão eles?
Pesquei à linha nas declarações dos seus opositores.
Desde logo, claro, capacidade afectiva e vocação sentimental. Capacidade para
se condoer, de forma que seja bem visível e audível, com os pensionistas mais
pobres, por exemplo. Depois, claro, um módico de «maleabilidade», que no
dicionário dos seus críticos dentro do PSD significa predisposição para começar
por recapitular erros, e acabar num mea culpa; ou seja, renegar
tudo o que fez dele o líder e candidato a primeiro-ministro mais votado nas
eleições de Outubro de 2015. E significa ainda, no dicionário dos seus
adversários mais ressabiados, «abertura» a um «diálogo» com António Costa que
vá evoluindo para uma compreensão mútua que, por sua vez, acabe por desaguar
numa colaboração afável, franca e prestimosa. Seria uma maneira elegante de o
presidente do PSD romper o seu alegado isolamento. Quer dizer, uma maneira de
os pequenos e os grandíssimos boys do
PSD — os «mais magoados» e os «mais ansiosos» — não fazerem a travessia da
oposição em regime de absoluta «abstinência».
Para inaugurar tão virtuosa «abertura», não basta
declarar (como Passos declarou num surpreendente momento de fraqueza) — «Social-democracia
sempre!». Não. É preciso mais. É preciso expurgar todo o seu discurso do mais
ténue vestígio da danosa ideologia liberal ou neoliberal que, durante o seu
mandato como primeiro-ministro, pespegou no Partido Social Democrata uma nódoa
diabólica. E ainda não chega. José Eduardo Martins, um crítico que já ascendeu
a herói pela extraordinária coragem de ter comparecido em Espinho, queixou-se
no Diário de Notícias de que «No passado recente […] escasseou
a sensibilidade social, foram muitos os momentos de deriva ideológica em que a
matriz social-democrata foi esquecida.» Será que o aspirante a futuro
presidente do PSD ignora que a social-democracia é cara demais para um país que
Passos tirou da bancarrota, um feito que ele próprio reconhece no mesmo texto?!
Pouco importa: houve «deriva ideológica», ponto. Como
revela o jornalista Vítor Matos, «Não basta falar de desigualdades para se
tornar mais social-democrata.» Passos que não venha agora com essa. É velha;
está gasta. Em Espinho, Passos «não levou ao país nem ao partido nada de novo».
Não forneceu uma só pista que permitisse diferenciar o PSD «do que fez nas
últimas legislativas». Mais: nada disse «sobre aquilo que é hoje essencial para
o centro-direita»; apresentou-se o mesmo Passos, «com o mesmo tom, a mesma
estratégia, a mesma resiliência, a mesma frieza, a mesma teimosia». Mais grave
ainda: «Em tempo de afectos na política», nem ao menos se emocionou ou teve
«uma palavra de afecto para os pensionistas e Marcelo ganhou assim». E Vítor
Matos conclui muito logicamente: «Parece que não aprendeu a lição.»
Qual lição? A de ter vencido as eleições com esta carrada de defeitos? Relapso
e contumaz, Passos «manteve as ideias que trazia da campanha eleitoral». Nada
me parece mais acertado. Apesar de todo o foguetório e de todos os malabarismos
para impressionar incautos, a verdade é que estamos perante «péssimas notícias»
no horizonte económico-financeiro, considerando Graça Franco (4.4.16) que o que se perspectiva «é
mau demais para continuar a fingir que não se passa nada».
Alguém me explique por que haveria de mudar aquelas
ideias. Passos apresentou-se em campanha com um programa de governo para o novo
ciclo pós-Troika. Ganhou as eleições, mas o Parlamento recusou-o para
primeiro-ministro. Deveria, por isso, deitar as suas ideias borda fora e
improvisar um programa diferente pelo motivo de ter passado à oposição? A
táctica oposicionista, essa, suponho que seja diferente do estilo e modo de
estar no poder. Mas o que em campanha era julgado bom e necessário para o País,
transforma-se em mau e desnecessário só porque se transitou para a bancada do
combate contra o governo? E, já agora, «o que é hoje o essencial para o
centro-direita»? Ser o mais social-democrata possível? Ter um discurso idêntico
ao do partido costista e adjacentes? Por outras palavras: competir com a
esquerda radical para ver quem gasta ou promete gastar mais?! Como conclui muito acertadamente João Miguel
Tavares (Público, 5.4.16), se a «geringonça», por milagre, resultar, no que
também eu não acredito, «o tempo será sempre de António Costa, e nunca
dos sociais-democratas do PSD».
Esta verdade, porém, não entra nas cabecinhas dos «mais
magoados» e dos «mais ansiosos» (Vítor Matos), que pedem a auto-reinvenção de
Passos, o exortam a ser mais social-democrata e lhe exigem «novidades».
Pedem-lhe, em suma, o poder de volta o mais rápido possível e a qualquer preço.
Estou em crer que Passos não se deixará empurrar pela esquerda do partido para
uma derrota anunciada. Sinal disso foi a promoção de Maria Luís. Tenho grande
apreço pela ex-ministra. Apreço e simpatia: gosto de pessoas inteligentes,
convictas, intrépidas, e dispenso expansões públicas de emoções e sentimentos.
Embora não tenha a certeza de que fosse preciso um sinal tão forte, a roçar a
provocação, o sinal confirma que Passos Coelho não faz a menor tenção de se
reinventar.
E ainda bem. Porque se algo é preciso reinventar – e ele
é o homem certo para isso – é a própria social-democracia. Porquê? Porque,
historicamente, esta já venceu: o que começou a erguer sobre os escombros da
Segunda Guerra enraizou-se, vingou, desenvolveu-se e generalizou-se. É hoje, no
Ocidente europeu, um património civilizacional tanto da esquerda como da
direita. O que falta para sair do impasse actual e arrombar portas que lhe
permitam continuar a viver? Falta remover os obstáculos, fruto de ideologias e
doutrinas obsoletas, que entravam o progresso do capitalismo.
Sim, do capitalismo. Porquê? Porque o capitalismo,
assente na propriedade privada e na concorrência, é historicamente o regime que
mais riqueza e prosperidade gerou até hoje, e que retirou centenas de milhões
de pessoas da miséria extrema. E é também, em toda a História, o regime
económico que mais liberdade, individual e colectiva, concede às sociedades.
Num mundo globalizado e que já não dorme, a estatização da economia (e portanto
da sociedade), as planificações económicas e os proteccionismos de outrora não
são possíveis, nem desejáveis. A social-democracia de cariz keynesiano está
esgotada. E a sua urgente reinvenção terá de provir, e só pode provir de um
casamento harmonioso com o liberalismo económico. Não é uma contradição e ainda
menos um paradoxo. Quem tem medo da palavra «liberal»?
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Carta aberta ao senhor MDN
Garcia Leandro, Diário de Notícias, 12 de Abril de 2016
Senhor ministro,
Gostaria de escrever uma carta aberta a elogiá-lo e tive esperanças no início das suas funções com o cuidado que teve nas suas declarações, bem como com o conhecimento que demonstrou de algumas situações macro. Infelizmente o processo que terminou com a saída do general chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) foi de uma total infelicidade.
Durante este período fui contactado por todas as cadeias de TV para fazer comentários sobre o tema e a todas recusei para evitar ser injusto ou por não conhecer tudo, mas agora a situação é diferente.
Vamos por partes:
- o artigo do Observador é bom e as declarações do subdiretor do Colégio Militar (CM) não envolvem qualquer ilícito, embora tenha entrado em detalhes desnecessários;
- a partir daqui, e sem qualquer razão, surgem acusações de declarações e procedimentos inconstitucionais que não aconteceram e deturpa-se a realidade. Eu explico porquê:
- quando se citam as Forças Armadas e os militares como base de comparação comete-se um erro de grande ignorância; os alunos do CM não são militares, cadetes ou soldados, são apenas estudantes (crianças e adolescentes) integrados numa instituição com dupla ligação (ao Ministério da Educação em tudo quanto diz respeito à componente académica e ao Estado-Maior do Exército/Ministério da Defesa Nacional nas suas outras componentes, institucionais, desportivas e militares);
- Estes alunos não são adultos e obviamente que estão ainda em formação física, intelectual, comportamental e de carácter; aquilo que a Constituição declara sobre comportamento sexual de qualquer cidadão não se pode aplicar de modo cego para estas idades. Daí que o CM tenha procedimentos de acompanhamento que são de elogiar e principalmente apreciados ao longo dos anos pelos pais; estes procedimentos protegem cada caso individual e o funcionamento institucional.
Acontece que V. Ex.ª se assustou, sem qualquer razão, com as declarações do BE, tratou do assunto nos OCS órgãos de comunicação social e pressionou o general CEME para tomar decisões em área da sua exclusiva responsabilidade; claro que qualquer general sério e que mereça tal designação, sendo ainda o n.º 1 do seu ramo, teria tomado a mesma decisão que o general Carlos Jerónimo, que saiu engrandecido de toda esta triste novela.
Termino, propondo que tire as devidas lições, pois se voltar a repetir este procedimento com outros CEM chefes de Estado-Maior, é provável que saia o ministro em vez do CEM em causa.
Lamento ter tido a necessidade de escrever este texto, mas havia a necessidade de colocar tudo no seu devido lugar.
Tenente-general (R)
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Petição
Caros Amigos,
Acabei de ler e assinar a petição: «Preservação do Património Ferroviário de Portugal» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT80672
Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.
Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.
Obrigado.
Maria Helena Costa
Esta mensagem foi-lhe enviada por Maria Helena Costa (helenarua@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT80672
Gratuito?
Não acredite porque alguém vai pagar a factura
Paulo Ferreira,
Observador, 8 de Abril de 2016
O «espírito SCUT» está vivo e, aqui e ali,
reaparece travestido de várias formas. Ele reencarnou nos manuais escolares
«gratuitos» e nos mega-descontos da CP, por exemplo.
Lembram-se das SCUT? Eram as auto-estradas «sem
custo para o utilizador». Não tinham portagens, não se pagava nada para lá
circular. Mas como não há milagres, embora muitos governantes gostem de fazer
passes de mágica, a factura era paga por alguém. Neste caso, pelo contribuinte.
Funcionava assim, através das famosas parcerias público-privadas: o Governo
lançava o concurso, os privados construíam e suportavam esse investimento e
depois ficavam com a concessão da estrada a troca de umas centenas ou milhares
de milhões de euros anuais durante esse período de concessão que durava cerca
de 30 anos. Passassem por ali dois mil ou apenas dois carros por hora os
privados tinham a sua confortável rentabilidade assegurada. Sem risco, porque o
Estado cobria a falta de procura. E ainda pagava a manutenção.
Foi assim que enchemos o país de «AA qualquer
coisa», depois da fantástica descoberta do modelo no governo de António
Guterres.
Eram, portanto, sem custos para o utilizador mas
com muitos custos para o contribuinte. Tantos que quando as contas do Estado se
tornaram insuportáveis de sustentar não houve outro remédio senão instalar
pórticos de portagem, passando os automobilistas a pagar o que até então era um
encargo de todos os contribuintes, tivessem carro ou não, circulassem por ali
ou não.
Não aprendemos grande coisa com isso. O «espírito
SCUT» está vivo e, aqui e ali, reaparece travestido de várias formas.
Dizem-nos que os manuais escolares vão passar a ser
gratuitos para todos os alunos do 1.º ano já no arranque do próximo ano
lectivo.
Que os livros sejam suportados pela Acção Social
Escolar para todos os que, comprovadamente, não os podem comprar é
inquestionável. Ninguém pode deixar de ter as condições mínimas de estudo por
questões económicas e se o Estado Social serve para alguma coisa esta está no
topo das prioridades. Isso já acontece, colocando manuais escolares à
disposição dos beneficiários.
Também é inquestionável que uma das prioridades é
acabar com a renda que as editoras recebem à custa das famílias, obrigando-as a
comprar manuais e livros de actividades novos em cada ano lectivo, num negócio
que conta com a cumplicidade de quem decide e aprova os manuais para cada ano –
sobre isto é obrigatório ler este texto de António Araújo.
Mas não é isso que vai ser feito. Os manuais passam
a ser «gratuitos» para quem os utiliza mas são pagos pelo Estado, portanto por
todos os contribuintes, às editoras, que mantêm o seu negócio. Como a medida
vai ser universal, as famílias mais abastadas serão tão beneficiadas como as
mais carenciadas. É o mesmo truque de magia das SCUT. Neste caso a factura não
é paga na livraria mas sim na repartição de finanças.
Outro exemplo. Há semanas, no meio da «guerra»
comercial das ligações aéreas Lisboa-Porto – sobretudo depois dos preços de
saldo que a Ryanair e a Easyjet começaram a cobrar nessa rota – a CP decidiu
entrar na liça. Anunciou descontos de 65% nos bilhetes comprados com uma semana
de antecedência que, no caso da classe turística do Alfa, passam de 30,30 euros
para 11 euros. É óptimo que a CP tenha uma forte dinâmica comercial, que
melhore os seus serviços e tente cativar passageiros. Mas há aqui um pequeno
detalhe: a CP é uma empresa pública, historicamente deficiária e com uma dívida
monstruosa. Adivinhem, portanto, quem paga as perdas de receita que não sejam
compensadas com corte equivalente de custos: se respondeu «o contribuinte»,
acertou.
Em 2014 (as contas do ano passado ainda não estão
disponíveis) a CP teve prejuízos de 161 milhões de euros, fechou com uma dívida
acumulada de 4,5 mil milhões de euros e manteve-se tecnicamente falida, com
capitais próprios negativos de 3,6 mil milhões de euros — isto quer dizer,
grosso modo, que se a empresa tivesse sido fechada nessa altura a factura que
sobrava para os contribuintes era essa, de 3,6 mil milhões de euros.
Ou seja, os descontos de que os passageiros
beneficiam na CP não serão pagos por mais ninguém senão os contribuintes.
Eu, que não hesito em preferir o comboio sempre que
vou ao Porto — é tão rápido e mais barato do que o automóvel, é cómodo, permite
que se vá a trabalhar durante a viagem com a rede wifi disponível e deixa-nos
nos centros das cidades — agradeço a amabilidade e o desconto, que aproveitarei
com prazer. Duvido é que o meu vizinho da frente, que nunca precisa de viajar
no Alfa, sinta o mesmo prazer por pagar uma parte substancial do meu bilhete de
comboio quando desconta o IRS e paga o IVA no supermercado para suportar as
promoções de uma empresa pública cronicamente deficitária.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Uma excelente análise
sobre o «aborto ortográfico»
«Insegurança ortográfica»
«Uma excelente análise, por Acílio
Estanqueiro Rocha, Professor Emérito da Universidade do Minho, Departamento
de Filosofia, Instituto de Letras e Ciências Humanas, sobre a Insegurança
Ortográfica que o AO/90 gerou entre aqueles que aceitaram, sem
pestanejar, a imposição ilegal e inconstitucional deste monumental engano.»
Acílio Estanqueiro Rocha
1 — Já afirmámos que o Acordo Ortográfico veio
criar enorme «insegurança ortográfica», onde esta antes não
existia; subestimaram-se vários pareceres solicitados que alertavam para isso
mesmo. Aliás, no ano passado, o Parlamento recomendou ao Governo a constituição
de um grupo de trabalho para acompanhar o processo de aplicação do AO, com elaboração
de relatório; que se saiba, nem grupo nem relatório.
Mostrámos já que a obsessão pela unificação
ortográfica criou, em vez das duas, três grafias, patente em exemplos simples
(portuguesa/brasileira):
aspeto/aspecto,
detetar/detectar,
receção/recepção,
conceção/concepção,
deceção/decepção,
perceção/percepção,
espetador/espectador,
perentório/peremptório,
tática/táctica,
espetro/espectro,
cato/cacto,
perspetiva/perspectiva,
interceção/intercepção, etc.
Assim se pretende que se escreva agora (em
Portugal) «aspeto», «conceção», «perspetiva», que antes se
escrevia (Portugal e Brasil) «aspecto», «concepção», «perspectiva»,
e que continua a ser «aspecto», «concepção», «perspectiva» (Brasil).
Não entendo tamanha estultícia! Se eu escrever, por
ex., a «receção do texto» em vez de «recepção do texto»,
como evitar que o leitor não pense em «recessão», se é isso que ouve a toda a
hora e sofre no seu vencimento ou pensão? Um brasileiro, ao ler «receção»,
não entende…
Como sabemos, a aprendizagem da ortografia não se
faz só na escola: é um processo quotidiano, multímodo, que envolve a memória
visual; escrever «Egito» causa calafrios: é um triste
espectáculo, que já não tem espectadores mas «espetadores» (a
primeira vez que li, pensei em «espeto»). Aliás, como é sabido, as
grandes diferenças que separam as variantes portuguesa e brasileira da língua
não são ortográficas, mas são lexicais, semânticas e morfossintácticas.
2 — Sobre as consoantes não pronunciadas, importaria
evitar a homografia, por ex., «acto»/«ato» (verbo), «corrector»/«corretor» (da
bolsa), «óptico» (relativo à vista)/«ótico» (relativo ao ouvido),
sendo que, no Brasil, continua a escrever-se «óptico»; seria também
imprescindível evitar a homofonia (por ex., «intersecção» e «intercessão»),
como é necessário ainda evitar o fechamento vocálico («acção», «aspecto»,
«baptismo», «lectivo», etc.). Note-se que o português europeu está a tornar-se,
por vezes, dificilmente inteligível na oralidade, dada a tendência para fechar
as vogais. Já um linguista advertiu que «adoção» (de «adoptar»)
poderia conduzir à pronúncia de «adução» (de «aduzir»); este
é um problema grave: as próximas gerações tenderão a ler «setor», «receção»,
«deceção», etc., sem abrirem as vogais.
As consequências gravosas do AO saltam à vista: ao
contrário de outras alterações ortográficas do século XX, este AO atinge
aspectos estruturais da Língua Portuguesa. Todo este processo tem sido, pois,
arrogante e autoritário.
3 — A sanha em simplificar (complicando) o
português europeu, acaba por o desfigurar como património que opera a comunhão
entre gerações, reduzindo a língua a um mero veículo de comunicação, a um
artefacto instrumental, não atendendo ao carácter consuetudinário e à
estabilidade ortográfica que são dimensões valiosas de identificação. A
simplificação a todo o custo, a redução à pura fonética, como se de uma
experiência laboratorial se tratasse, é uma das consequências mais nocivas do
AO: é assim, por ex., que «acto» se torna «ato»; se, no
artigo anterior, demos o exemplo de «directo», veja-se, entre outros, por ex.,
«acção», do latim «actio», «action» (em inglês), «action» (francês),
«Aktion» (alemão), «acción» (espanhol), «actiune» (romeno).
Tal afasta o Português europeu dessas línguas
europeias românicas e germânicas (incluindo o inglês). Por isso, o AO
vai dificultar que alunos portugueses aprendam (sem erros) línguas estrangeiras
e que estudantes de países europeus aprendam (sem erros) o Português.
Note-se que na língua inglesa abundam palavras com
consoantes e vogais não pronunciadas, as «silent letters» – «dou(b)t»,
«forei(g)n», «ni(gh)t», «thou(gh)t»,
etc.
Ao pretender-se que a grafia coincida com a
«pronúncia», esquece-se que esta é contingencial, variando de país para país,
de região para região, de pessoa para pessoa. Aliás, se nos orientássemos
apenas por critérios fonéticos, deveríamos escrever, por ex., «úmido» (como
no Brasil), o que seria por demais ridículo.
Não conheço nenhum AO em nenhuma outra língua.
Quem se preocupa com a unificação do inglês? E há, pelo menos, dezassete
variantes do inglês, meia dúzia do alemão, quinze do francês e vinte do espanhol.
Trata-se de mais uma originalidade da política
portuguesa, própria de políticos modernaços mas ignaros, pós-modernos, que não
sabem o que é um livro; se citam versos de um poema, é só ao jeito de tique
decorativo.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Um problema chamado Passos Coelho
Rui Ramos, Observador, 6 de Abril de 2016
O PSD é, neste regime, a grande alternativa ao PS, ou então não é nada: quem é que precisa de uma «equipa B» do PS? O PSD está, por isso, destinado a gerar ideias contrárias à actual governação.
No fim do congresso do PSD, as televisões cercaram o representante do PCP. O comentário saiu como deve ter sido ensaiado no comité central: «o PSD não aprendeu nada com a derrota de 4 de Outubro». Resume perfeitamente o problema: é que o PSD, para azar de todos, não perdeu a 4 de Outubro. Perdeu a 10 de Novembro, o que é muito diferente, e aprendeu então tudo o que tinha a aprender.
Tudo isto faz muita confusão à oligarquia. Ainda não percebeu porque é que Passos Coelho, depois de quatro anos de ajustamento, só perdeu a maioria, mas não as eleições. E também ainda não percebeu o que, depois de ganhar as eleições, mas perder o governo, ele pode fazer na oposição. Por isso, a nova maioria trata-o como o espectro no banquete de Macbeth. Gostaria que ele se fosse embora. Inventa-lhe rivais, escolhe-lhe sucessores. Os oligarcas têm medo. Como explicar que o PS não tenha ganho as eleições, que o BE e o PCP tenham tido em 2015 menos votos do que em 2009, e que as sondagens não pareçam estar a premiar o «fim da austeridade»? Estará a opinião pública, depois da bancarrota de 2011, menos susceptível ao velho «modelo» do consumo, tanto mais que, sob a vigilância europeia e com o presente nível de endividamento, são improváveis os extremos do passado? E nesse caso, que poderá acontecer se as coisas correrem mal, ou simplesmente não correrem brilhantemente?
Passos não é um demagogo, um espalha-brasas. No seu discurso de encerramento do congresso, desconvocou qualquer «querela constitucional», e até tirou o chapéu aos «senhores doutores juízes». Gastou imenso tempo com as autárquicas e com os Açores, em homenagem aos mandachuvas locais do partido. Mas Passos não tem escolha, tal como nenhum outro líder do PSD teria: vai ser obrigado a produzir uma alternativa à maioria social-comunista.
Por isso, a discussão sobre a «social-democracia» do PSD é ridícula. Politicamente, o PSD é, com o CDS, a alternativa ao PS e à esquerda, ou então não é nada: quem é que precisa de uma «equipa B» do PS? O PSD está, por isso, condenado a desenvolver ideias contrárias à actual governação. No momento actual, é a ideia de que a melhor estratégia é criar confiança para atrair investimento, e diminuir a carga fiscal e burocrática do Estado, «como forma de libertar o potencial de crescimento da economia portuguesa». A questão é se saberá dar-lhe o devido protagonismo e eloquência.
Intermitentemente, o PSD e o CDS também significaram outra coisa: um desafio aos interesses instalados. Foi assim no fim da década de 1970, nos tempos da reforma agrária, das nacionalizações e do conselho da revolução. E poderá ser assim também agora, quando o equivalente das terras e das fábricas ocupadas são as escolas e os transportes públicos entregues pelo governo PS aos sindicatos comunistas. Por enquanto, o dinheiro do BCE mantém os mercados à distância e viabiliza o modelo do consumo e o apaziguamento do PCP. Mas até quando?
Um rei forte não faz forte a fraca gente. Mesmo no tempo de Sá Carneiro, uma grande parte da liderança do PSD não se entusiasmou com o papel de desmancha-prazeres. Sim, talvez fosse mais cómodo chegar-se ao PS, ajudar a melhorar a gestão do que existe. O lugar de suplente da actual maioria, para votar o que o BE e o PCP não quiserem, está disponível. Mas todas as lideranças que submeteram o PSD à estratégia do PS acabaram por falhar: Sousa Franco em 1978, ou Mota Pinto em 1983-1985. Com ou sem Passos, o PSD não pode escapar ao seu destino. A menos que decida desaparecer.
NOTA DA REDACÇÃO DO PORTUGAL LARANJA:
Tudo certo excepto no útimo parágrafo, quando coloca o exemplo do PSD com Mota Pinto a subordinar-se ao PS em 1983-1985. Estando a teoria de Rui Ramos certa — o que nos parece —, a prova como Mota Pinto não se subordinou ao PS é que o PSD ganhou as eleições seguintes, em 1985...
Rui Ramos não conhece os factos e as circunstâncias da coligação PS-PSD nesse período. Só assim se pode compreender a sua afirmação.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Islamofascismo
Paulo de Almeida Sande, Observador, 29 de Março de 2016
Como nos guetos de Hitler, nunca o mal foi tão banal. É pois o sistema que devemos visar, sem deixar de perseguir e condenar os perpetradores, homens ditos humanos que desistiram de pensar.
Por cinco rupias, as crianças de Lahore, no Punjab, quase todas oriundas do miserável bairro cristão de Youhanabad, puderam brincar no parque de Gulshan-e-Iqbal, a pouco mais de 15 km, com as suas diversões de feira e barracas de comes e bebes. Seria um domingo de Páscoa inesquecível para os miúdos, acompanhados ou não das mães.
A bomba repleta de pregos e fragmentos de metal, detonada por um suicida de 28 anos, matou para sempre a diversão e os sonhos de dezenas de crianças, entre as mais de 71 vítimas mortais, o dobro dos atentados de Bruxelas da semana passada. O crime foi reivindicado por um grupo talibã criado há 2 anos, designado Jammat-ul-Ahrar, dissidente do já extremista movimento Deobandi, escola islâmica do norte do subcontinente indiano que professa uma interpretação austera e literal do Islão, hostil às influências ocidentais. Dizem fontes geralmente bem informadas que, com este atentado e as ameaças proferidas, Jammat-ul-Ahrar visa tornar-se o mais radical entre os radicais grupos islamitas.
Crianças? Irrelevante. Mulheres? Ainda mais. Muçulmanos misturados na multidão, dezenas entre as centenas de vítimas (mais de 200 feridos)? Danos colaterais.
Nada disso impressiona as criaturas ditas humanas que creem levar a cabo uma guerra pelo verdadeiro Deus, sangrenta, impiedosa. Uma guerra com fé: o islamismo, nas suas interpretações mais estritas e literais; uma guerra com visão estratégica: a «administração da selvajaria» para espalhar o caos antes da recuperação do poder (o Califado, terceira e última fase da reconquista); e uma guerra com planeamento militar: «Líderes do EI reuniram para planear ataques na Europa» (artigo publicado neste jornal).
O terrorismo é cada vez mais, pela sua amplitude e impacto, global. Reportemo-nos ao EI, aka ISIS, aka Daesh: o estado islâmico foi responsável por 750 ataques coordenados, a maioria em 2013 e 2014. O atentado de Lahore ocorreu no dia de Páscoa e terá tido por isso mais repercussão do que o habitual no Ocidente. Mais decerto do que o atentado em Iskanderiya uns dias antes, a 40 km de Bagdad, em que um outro suicida associado ao ISIS explodiu durante um jogo de futebol local fazendo 32 mortos, boa parte crianças e adolescentes. Quantos ocidentais deram sequer por isso? E contudo, reporta o consórcio START, mais de metade dos ataques ocorreram no Iraque, Paquistão, Índia, Nigéria e Afeganistão. As vítimas? Cristãos indianos, paquistaneses, árabes, mas também muçulmanos, hindus, animistas. Todos seres humanos, vítimas de criaturas ditas humanas em nome de um Deus que as não reconhece.
Hannah Arendt encontraria neste cenário de desolação, em que os alvos são tanto mais apetecíveis quanto numerosos e inofensivos, matéria para um novo capítulo da «banalidade do mal»: espreitamos as imagens dos (futuros) terroristas antes da sua «radicalização» e encontramos – também nas palavras de vizinhos e amigos – jovens como os outros, que se divertem, sensatos ou, simplesmente, estouvados. Tal como em Eichmann, não vemos nos jihadistas antes das jihad assassinos monstruosos, apenas seres banais envolvidos por uma teia com nome: religião extremada, fanatismo, crença acrítica nos dogmas brutais veiculados por outros homens. Cegos pela luz emanada desse sistema de normas «superiores», que banaliza o mal, abdicam de reflectir, desistem de si próprios, cumprem ordens «de cima». Dizem-se seres humanos mas recusam-se a ser pessoas, não pensam – desistem de pensar. Não fazem juízos morais. Nenhum acto é para si cruel, nada os faz hesitar, porque a distinção profundamente humana entre o bem e o mal lhes foi sonegada. Ou sonegaram-na a si mesmos.
Como nos guetos de Hitler, nunca o mal foi tão desesperadamente banal.
É pois o sistema que devemos visar, sem deixar de perseguir e condenar os perpetradores, homens ditos humanos que desistiram de pensar. Ao sistema foi já dado um nome, controvertido: islamofascismo. Primeiramente usado em 1990, tem sido defendido, com crescente aceitação, por filósofos, cientistas políticos e publicistas vários: trata-se de equiparar as tácticas e objectivos dos jihadistas islâmicos aos regimes fascistas totalitários. Alguns argumentos: «Fascismo, nazismo, como o islamismo radical, exaltam a morte e a destruição e desprezam a vida da mente… ambos são hostis à modernidade e nostálgicos de impérios passados e glórias perdidas. Ambas têm uma obsessão por «humilhações» reais ou imaginadas e sede de vingança e estão infectados (…) pela toxina da paranoia anti-judaica… Ambos endeusam um líder e afirmam o poder exclusivo de um grande livro. Ambos têm um compromisso com a repressão sexual e a subordinação das fêmeas – o desprezo pelo feminino. Ambos desprezam a arte e a literatura como sintomas de degeneração, queimam livros e destroem museus e tesouros». Antes de se comprometer com infiéis, de ceder à tentação das facilidades do modo de vida ocidental, o islamofascismo prefere até a sua própria destruição.
Francisco, o Papa amado, fala com frequência de uma 3.ª Guerra em capítulos. E afirmou que os atentados de Paris são um capítulo dessa guerra. Mas o Papa disse mais. Neste ponto, muitos leitores gritarão uma vez mais contra o politicamente correcto (nas minhas crónicas), falarão de um discurso mole e desistente, de cedência «à Chamberlain» perante a ameaça islamofascista. Estão enganados mas não tentarei dissuadi-los. Francisco falou contra a rejeição dos refugiados e dos migrantes, em nome da dignidade da pessoa humana, deles e nossa, homens dotados de verdadeira Humanidade. E apelou em simultâneo à protecção dos crentes de Cristo, pedindo às autoridades do Paquistão protecção para a minoria cristã na sequência do atentado «execrável» de domingo de Páscoa. Amor… e segurança.
Mas como o discurso humanitário, de paz entre culturas e religiões, pode não ser suficiente para satisfazer o afã securitário de muitos falcões de sofá, recordo o objectivo expressamente assumido pelo Daesh, como antes pela Al Qaeda. Consta de um livro que já referi neste jornal, com o nome assustador de «The Management of Savagery», do xeque Abu Bakr Naji:
«Por polarização, aqui, falo de arrastar as massas para a batalha, de tal modo que haja polarização entre todos, na população. Assim, um grupo deles ficará ao lado do povo da verdade, outro grupo ficará ao lado do povo da mentira e um terceiro grupo permanecerá neutro – esperando que a batalha se decida, para aliar-se ao vencedor. Temos de atrair a simpatia desse último grupo e fazê-lo desejar a vitória do povo da fé, especialmente porque esse grupo tem papel decisivo nos estágios posteriores da actual batalha. Arrastar as massas para a batalha exige mais acções que inflamem a oposição, que façam o povo entrar na batalha, querendo ou não, de tal modo que cada indivíduo irá para o lado que apoia. Temos de fazer essa batalha muito violenta, de tal modo que a morte esteja sempre a um passo, para que os grupos se dêem conta de que entrar na batalha levará muito frequentemente à morte. Esse será poderoso motivo para que os indivíduos escolham combater nas fileiras do povo da verdade, para morrer bem, o que é melhor que morrer em falsidade e perder os dois mundos, este e o próximo».
Como escrevi na crónica anterior, como tenho escrito deste sempre e continuarei a escrever até que a mão me doa, temos de evitar fazer do grupo dos neutros, dos que esperam o acolhimento habitual da terra de asilo europeia, inimigos, banais servidores do Mal islamofascista.
Francisco, a terminar, permitam-me a manifestação cristã que não imponho a ninguém: «a primeira pedra a fazer rolar para o lado é esta: a falta de esperança, que nos fecha em nós mesmos. O Senhor nos livre desta terrível armadilha: sermos cristãos sem esperança, que vivem como se Ele não tivesse ressuscitado e o centro da vida fossem os nossos problemas».
Afinal, quem é que ganhou as presidendiais?
Luís Lemos
A TVI foi buscar para comentadora aquela gaja do Bloco de sorrisinho a apelar aos afectos e que teve 10% dos votos nas eleições presidenciais. Então põe-se agora a dar conselhos de política a quem ganhou com 52% na primeira volta.
Não é só a gaja que está em causa. Está igualmente o director de informação do canal, em engenheiro político: Sérgio Figueiredo.
segunda-feira, 28 de março de 2016
População sueca está a abandonar Malmoe
Para todos aqueles que ainda não entendem o que se está a passar debaixo dos seus narizes, vejam os dois anexos. Se depois de o fazerem ainda teimarem que está tudo bem e que não é preciso fazer nada urgentemente, merecem o que lhes vai suceder, a cada um e aos seus descendentes. Continuem a preocupar-se apenas em serem politicamente correctos de acordo com uma certa esquerda pacifista bem representada nos media, ou a preocuparem-se apenas com os negócios, e qualquer dia, tal como em Oslo, Bruxelas, Amsterdão, Londres ou Paris vão passar a viver de acordo com a jihad!
A maior cidade da Suécia está a ser abandonada pelas autoridades e pelos habitantes. Com 30% de população imigrante, os suecos sentem-se agora estrangeiros no seu próprio país e estão a abandonar a cidade. Nas ruas vigora a lei dos gangs jihadistas com intimidações, espancamentos e violações.
Quando há uns anos o Papa Bento XVI dizia que o islão é a religião com o Corão numa mão e a espada na outra, foi condenado por não ser «politicamente correcto»...
A verdade aí está! A civilização europeia, que custou 1000 anos a construir-se, vê-se perante a situação de a médio prazo retroceder 1500 anos!
E a Europa que faz? À luz dos direitos humanos e da liberdade de expressão e de religião (o que não acontece nos países islâmicos, em que os cristãos são perseguidos e massacrados), não faz nada...
Quando acordarem, que não seja demasiado tarde, em que todos os cristãos serão os infiéis!
Onde é que eles são felizes? Na Europa, está claro! Onde mordem a mão de quem lhes dá de comer...
http://www.jihadwatch.org/2004/09/muslims-rule-major-swedish-city.html
http://www.cbn.com/tv/embedplayer.aspx?bcid=1509282970001
sexta-feira, 25 de março de 2016
Je suis já nem sei o quê
Maria João Marques, Observador, 23 de Março de 2016
Enquanto diligentemente não afirmarmos com contundência que os valores europeus são incompatíveis com o estatuto das mulheres no islão, estaremos a apimentar o caldo onde se desenvolve o terrorismo.
Em 2009 fui a Bruxelas numa viagem de bloggers. Num dos dias almoçamos com Maria da Graça Carvalho, então conselheira de Durão Barroso. Perguntei-lhe que respostas, se algumas, tinha a Comissão Europeia para os abusos dos direitos humanos que as mulheres muçulmanas residentes na União Europeia sofriam nas suas comunidades. (Sim, já nessa altura estes assuntos me agitavam.)
Os casamentos forçados enquanto adolescente com homens desconhecidos dos países de origem dos pais. A violência doméstica sobre mulheres (que quantas vezes nem sabem falar e escrever na língua do país de acolhimento) e filhas e irmãs caso estas não se cubram como deviam e não fujam dos hábitos namoradeiros das devassas raparigas ocidentais. Os crimes ditos de honra sobre as mulheres – que não estão só nas zonas tribais do Paquistão. A adopção de quadros legais como a sharia no meio dos supostamente igualitários países europeus. A proibição de mulheres e filhas e irmãs de estudarem e trabalharem, privando-as assim da possibilidade de obter um trabalho que lhes garanta uma alternativa de sobrevivência – e de escape à opressão familiar. E… e… e…
A nossa interlocutora deixou a questão para o fim, reputou-a de muito difícil e muito importante, mas reconheceu a impotência. Recebi dias depois umas informações da Comissão sobre ajudas a vítimas de violência doméstica, nada sobre o que eu havia inquirido. De resto percebeu-se que não havia resposta nem, sequer, um esboço de tentativa. O que havia era a esperança que este caldo periclitante não explodisse depressa, que a UE nunca tivesse de confrontar a realidade feia que as comunidades islâmicas cá residentes criaram – com a conivência dos fracos políticos europeus que morrem de medo de usar um discurso a que os excitadinhos irresponsáveis possam dar o epíteto de xenófobo e islamofóbico.
Mas o caldo explodiu e agora de poucos meses em poucos meses temos de regressar ao assunto. Por mim, confesso que estou muito saturada do mantra que, paradoxalmente, se instalou depois de 2011 e que reza que o islão é uma religião de paz, nada a ver com atentados terroristas (apesar do número considerável de clérigos islâmicos que na Europa e no resto do mundo usam a sua influência e poder para radicalizarem os jovens muçulmanos e os encaminharem para os meandros terroristas), enfim, que o islão é só flores e bombons de gente que nunca pensaria usar a violência para com outros. O atroz tratamento que os islâmicos oferecem às mulheres é invenção de mal intencionados e xenófobos (comigo aos saltinhos na primeira fila), mas felizmente as provocações desta má rés são ignoradas pela gente de bem e esclarecida que dedica ao assunto o que ele merece: silêncio.
Confesso que tenho saudades de poder falar destes assuntos quando as mentes tolerantes não dedicavam maior ferocidade a quem aponta as evidentes falhas do islão, e o seu apoio oficial ou oficioso ao terrorismo, do que aos que festejam cada atentado terrorista. Ou, como nos últimos meses, aos que protegem o cérebro dos atentados de Paris no meio de um bairro de Bruxelas e nada de o denunciar à polícia ou aos serviços de informações. São escolhas e eu não respeito essa escolha.
Há muitos anos o filme Not Without My Daughter, com Sally Field, contava a história real de uma mulher americana que casou com um iraniano. O marido era atencioso e normal enquanto viveram nos Estados Unidos, mas quando se mudaram para o Irão tornou-se violento e despótico. A mulher fugiu com a filha, abandonando o marido brutal no Irão. Ora este filme, de 1991, actualmente já não seria realizado. Lembremos a chuva de escândalo que caiu em cima de Dom José Policarpo quando afirmou que muitas mulheres que casavam com muçulmanos se viam de seguida com graves problemas conjugais. Já não se faz criticar o islão. Não se aceita nos salões cosmopolitas. É de mau tom.
Dizer que o desrespeito pelas mulheres é norma para o muçulmano médio é um desvario a raiar o racismo do KKK. Chamar a atenção que para os muçulmanos uma mulher que não use lenço na cabeça é, no mínimo, invisível e, no máximo, merece ser violada porque não se deu ao respeito é uma heresia. Afirmar que é um tremendo risco ter uma parte crescente da população europeia com estas ideias encantadoras sobre a condição feminina é ousadia que deve ser recompensada com insultos sonoros.
Mas esta desculpabilização do islão vem com um preço: damos rédea livre para que o pior do islão decorra no meio das cidades europeias. Há uns tempos li um texto muito curioso da Vogue sobre as raparigas britânicas que fogem da família para casarem com combatentes do ISIS. Geralmente vêm de famílias muçulmanas conservadoras, com todos os passos controlados, sem contacto com rapazes e com interacção limitada com amigas, sem experiência de vida que não a vida familiar, cobertas desde antes da adolescência. A fuga para o ISIS é uma libertação e a possibilidade de aventura que lhes é negada pela draconiana moral familiar.
Os rapazes, como é sabido, vêem com enlevo tornarem-se terroristas. Mesmo aqueles perfeitamente integrados nas comunidades (como em Londres) ou bons alunos de escolas católicas (como em Paris, versão de Novembro). Ou que usaram dos benefícios dos generosos estados sociais europeus mas continuam a reclamar.
Não tenho soluções para o terrorismo. Mas sei que enquanto diligentemente fizermos por ignorar este mal sob o Sol que cresce nas comunidades muçulmanas residentes na Europa, enquanto não afirmarmos com contundência (inclusive judicial e penal) que os valores europeus são incompatíveis com o estatuto das mulheres no islão (um exemplo), estaremos a apimentar o caldo periclitante. O primeiro passo para resolver um problema costuma ser perceber onde está e qual é.
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