sexta-feira, 22 de abril de 2016


O Presidente da Polónia

sobre relação Igreja-Estado


Andrzej Duda

No discurso à Assembleia Nacional
por ocasião dos 1 050 anos de baptismo da Polónia

É um momento comovente e extraordinariamente sublime este, em que estamos aqui 1 050 anos depois dos dias em que, provavelmente num ambiente solene, o soberano destas terras, na altura o conde Mieszko, recebeu o baptismo.

O cronista Gall escreveu mais tarde que a luz iluminou estas terras. A luz iluminou a Polónia. Porque este baptismo, início da realidade da nossa história polaca, teve duas dimensões. Teve uma dimensão espiritual extraordinária, pois trouxe para cá uma nova religião. Uma religião na qual a maioria dos polacos permanece até hoje. Porque deu os fundamentos para a criação de um estado moderno. Certamente moderno para aqueles tempos, pois trouxe algo completamente novo. Mas trouxe uma modernidade que tem um carácter permanente, um carácter universal.

Estes dois elementos, o espiritual e o estatal, entrelaçaram-se e permanecem. Permanecem apesar de ter havido momentos na história em que este elemento estatal desapareceu. Desapareceu como consequência da raiva, desapareceu como consequência da guerra, desapareceu como consequência da agressão que veio para a terra da Polónia, que afectou os polacos. Mas foi precisamente graças àquilo que o baptismo trouxe às almas, às almas das pessoas que aqui vivem, que as gerações não permitiram que lhes fosse arrebatado o ser polacos. Nunca permitiram que lhes tirassem aquilo com que construíram a tradição, a cultura, a comunidade.

E mesmo quando a Polónia desapareceu do mapa, voltou. Voltou pela força dos polacos e voltou pela força do espírito que recebiam da fé e do baptismo, e que os ajudou a proteger a Igreja. E por isso estou imensamente grato a vossas eminências e vossas excelências por podermos iniciar estas comemorações dos 1 050 anos do baptismo da minha pátria justamente com este elemento espiritual. Começar com oração, começar dando graças a Deus por 1 050 anos de cuidado pela nação polaca. Agradecer pelos santos que surgiram durante estes 1 050 anos da nossa nação.

E, ao inclinar a cabeça aqui em Gniezno, no ninho da nossa nação e da nossa pátria, na terra que foi em tempos pisada por Mieszko e depois pelo seu filho, o primeiro rei polaco Bolesław Chrobry, prestar homenagem a todos aqueles que ao longo destes séculos ganharam a nossa pátria.

Prestar homenagem àqueles que morreram com o grito «Viva a Polónia» nos lábios. E agradecer a Deus pelo cuidado com a nossa pátria. E pedir a Sto. Adalberto, aqui, aos pés da sua conversão, onde estão as suas relíquias, pedir a S. Estanislau de Szczepanowo, bispo da minha cidade natal, pedir a Sto. André Bobola, meu padroeiro e padroeiro da nossa pátria, e pedir a Sta. Faustina, apóstola da Misericórdia divina, a bênção e a intercessão junto de Deus pela nossa pátria, pela nossa nação e por tudo aquilo que é importante para nós.

Para que permaneçamos na tradição dos antepassados, na fé, em tudo aquilo que sempre fez e faz com que sejamos fortes. Que o Senhor abençoe a minha pátria, que o Senhor abençoe os polacos, que o Senhor abençoe a Igreja.


(Tradução: Mariana Biela)





segunda-feira, 18 de abril de 2016


Azeredo Lopes, a agenda LGBT

e o desrespeito pelas Forças Armadas


André Azevedo Alves, Observador, 16 de Abril de 2016

Azeredo Lopes pouparia um importante embaraço a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa se apresentasse a sua demissão, colocando assim um ponto final na triste novela que ele próprio desencadeou

Os mais recentes esforços para impor a agenda LGBT no Colégio Militar poderiam ser apenas mais um episódio relativamente marginal de actuação infeliz da «geringonça» e dos seus aliados mas, infelizmente, a intervenção absolutamente desastrosa e gravemente desrespeitosa do ministro da Defesa Azeredo Lopes fez com que a situação transcendesse em muito esse patamar. De facto, Azeredo Lopes conseguiu o feito (de duvidoso mérito) de transformar um episódio de excitação mediática propiciado por uma das recorrentes indignações do influente lobby LGBT numa lamentável novela que conduziu à demissão do general Carlos Jerónimo de CEME e afectou de forma gravosa as Forças Armadas. A gravidade da conduta de Azeredo Lopes foi bem resumida numa contida – mas afirmativa – carta aberta dirigida pelo tenente-general Garcia Leandro ao ministro da Defesa:

«Acontece que V. Ex.ª se assustou, sem qualquer razão, com as declarações do BE, tratou do assunto nos OCS [órgãos de comunicação social] e pressionou o general CEME para tomar decisões em área da sua exclusiva responsabilidade; claro que qualquer general sério e que mereça tal designação, sendo ainda o n.º 1 do seu ramo, teria tomado a mesma decisão que o general Carlos Jerónimo, que saiu engrandecido de toda esta triste novela

Tenha sido impulsionada por medo das pressões do Bloco de Esquerda ou motivada por convicções pessoais profundamente enraizadas, a verdade é que esta actuação de Azeredo Lopes foi profundamente infeliz e reveladora de um inaceitável desrespeito pelas Forças Armadas. O comportamento ofensivo de Azeredo Lopes contraria aliás uma longa tradição estabelecida no PS de respeito pelas Forças Armadas, levantando a possibilidade de, também nesta área, estarmos a assistir a um nefasto efeito «geringonça».

Em sua defesa, Azeredo Lopes estará porventura habituado a exercer impunemente o tipo de conduta agora manifestado (basta recordar, a título de exemplo, a forma como actuou na ERC), mas ao transpor esse padrão para o relacionamento com as Forças Armadas deixou de ter condições para exercer de forma eficaz o cargo de ministro da Defesa.

As demissões recentes do ministro da Cultura e do secretário de Estado da Juventude e Desporto – juntamente com a possibilidade de ser visto pelo Bloco de Esquerda como um valioso ponta de lança para o avanço da agenda LGBT nas Forças Armadas – funcionarão neste momento como factores de sustentação de Azeredo Lopes no cargo mas o actual ministro da Defesa pouparia um importante embaraço a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa se apresentasse a sua demissão, colocando assim um ponto final na triste novela que ele próprio desencadeou.

Face à gravidade das ofensas e desconsiderações a que Azeredo Lopes os sujeitou, é de louvar a extraordinária contenção nas reacções públicas dos militares. Essa contenção constitui em si mesma uma elevada prova de respeito institucional e de sentido de serviço a Portugal. Resta esperar que os responsáveis políticos que transitoriamente ocupam cargos no executivo não cometam o grave erro de confundir essas virtudes com mansidão ou cobardia.





sábado, 16 de abril de 2016


O problema do cartão


Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 16 de Abril de 2016

O país está calmo. Um ministro sem gravata passa em revista as tropas; um general demite-se de chefe do Estado-Maior do Exército indiferente à gravata do ministro; um secretário de Estado demite-se porque outro ministro metia-se na vida dele; outro ministro (não o da gravata) também se demite porque ameaçou dar duas ou mais bofetadas a dois cronistas, desprezando todos os outros cronistas, e porque quer continuar a ameaçar; o primeiro-ministro convida-nos a não andar de carro e convida um amigo para trabalhar de graça – por isso, não é bem trabalhar. Entretanto, a economia pula e avança, a austeridade acaba, as crianças não vão para a escola sem comer, os idosos são bem tratados nas urgências e o aeroporto de Beja está impecável. Tanta serenidade que podíamos erradamente pensar que está tudo bem. Mas não está. E é para denunciar o que está mal que temos um partido como o BE: o nome «cartão do cidadão» é discriminatório. Gravíssimo. Em minha casa passou-se uma situação semelhante. No outro dia, quando cheguei parecia estar tudo bem. Apenas dois filhos estavam à luta mas sem razão: «Eu só lhe entalei a cabeça entre as pernas e dei-lhe um murro, mas foi a brincar.» Nem uma bofetada. A cozinha também estava arrumada, apesar de o bebé ter entornado cereais pelo chão e de andar a morder maçãs para escolher a melhor. Ninguém tinha feito os trabalhos de casa. Respirava-se harmonia apesar de os quartos parecerem campos de batalha e de o jantar estar por fazer. Um dos miúdos vomitava na casa de banho e percebi que me tinha esquecido de comprar pão para o dia seguinte. E leite. Tudo perfeito e normal, podíamos pensar. Mas não era verdade, e só percebi que vivia numa paz ilusória quando um dos meus filhos, denunciando o mal tal como o BE, gritou: «As minhas meias estão na gaveta do mano!» Obrigada, meu filho, obrigada, BE: o vosso discernimento é a nossa salvação.






CONVITE








A «reinvenção» de Passos Coelho


Maria de Fátima Bonifácio, Observador, 14 de Abril de 2016

Votei em Passos Coelho porque o achava talhado para padrinho de um casamento a meu ver feliz e necessário. Espero que ele não se reinvente. À sua volta, quase só vejo anões.

Desde o Congresso do PSD, tão morno e tão maçador que foi qualificado de «anestésico», correm as lamúrias sobre a «fragilidade» e o «isolamento» de Passos Coelho, de quem o povo laranja teria esperado que se reinventasse, mas que, para grande decepção dos adeptos, se apresentou ao conclave igualzinho a si mesmo. Ainda por cima, disse – e repetiu – com toda a clareza que o PSD não voltaria ao poder na semana seguinte, nem ainda no mês de Maio do ano em curso, o máximo de espera suportável. Que não: que a actual maioria, legal e legítima, se revelara mais sólida do que se julgara; que era impossível assinar-lhe uma longevidade certa e definida; e que, por conseguinte, o PSD teria pela frente uma longa, indeterminável fase de oposição. Passos, portanto, não tinha nada de verdadeiramente empolgante para oferecer. Ganhara as eleições de 2015, é certo; operara o milagre de conseguir que Portugal tivesse uma «saída limpa» do programa de assistência da Troika, é também certo; mas o seu tempo acabara. E só não teria acabado se ele tivesse demonstrado uma acrobática habilidade para se «reinventar» a si mesmo, o que infelizmente não se verificara. De Passos se poderia dizer que não aprendera nada, nem esquecera nada.

Não me tinha ocorrido a ideia de que as grandes qualidades de Pedro Passos Coelho, que estiveram na origem do seu sucesso político e governativo, só tivessem, afinal, validade cíclica. Julgava que o realismo, o pragmatismo, a exigência, a resiliência, a coragem, a força de carácter, a integridade política eram trunfos para todas as estações. Pelos vistos, não são. E não são certamente os atributos requeridos, necessários ou sequer desejáveis para um «novo ciclo político». Quais serão eles?

Pesquei à linha nas declarações dos seus opositores. Desde logo, claro, capacidade afectiva e vocação sentimental. Capacidade para se condoer, de forma que seja bem visível e audível, com os pensionistas mais pobres, por exemplo. Depois, claro, um módico de «maleabilidade», que no dicionário dos seus críticos dentro do PSD significa predisposição para começar por recapitular erros, e acabar num mea culpa; ou seja, renegar tudo o que fez dele o líder e candidato a primeiro-ministro mais votado nas eleições de Outubro de 2015. E significa ainda, no dicionário dos seus adversários mais ressabiados, «abertura» a um «diálogo» com António Costa que vá evoluindo para uma compreensão mútua que, por sua vez, acabe por desaguar numa colaboração afável, franca e prestimosa. Seria uma maneira elegante de o presidente do PSD romper o seu alegado isolamento. Quer dizer, uma maneira de os pequenos e os grandíssimos boys do PSD — os «mais magoados» e os «mais ansiosos» — não fazerem a travessia da oposição em regime de absoluta «abstinência».

Para inaugurar tão virtuosa «abertura», não basta declarar (como Passos declarou num surpreendente momento de fraqueza)  «Social-democracia sempre!». Não. É preciso mais. É preciso expurgar todo o seu discurso do mais ténue vestígio da danosa ideologia liberal ou neoliberal que, durante o seu mandato como primeiro-ministro, pespegou no Partido Social Democrata uma nódoa diabólica. E ainda não chega. José Eduardo Martins, um crítico que já ascendeu a herói pela extraordinária coragem de ter comparecido em Espinho, queixou-se no Diário de Notícias de que «No passado recente […] escasseou a sensibilidade social, foram muitos os momentos de deriva ideológica em que a matriz social-democrata foi esquecida.» Será que o aspirante a futuro presidente do PSD ignora que a social-democracia é cara demais para um país que Passos tirou da bancarrota, um feito que ele próprio reconhece no mesmo texto?!

Pouco importa: houve «deriva ideológica», ponto. Como revela o jornalista Vítor Matos, «Não basta falar de desigualdades para se tornar mais social-democrata.» Passos que não venha agora com essa. É velha; está gasta. Em Espinho, Passos «não levou ao país nem ao partido nada de novo». Não forneceu uma só pista que permitisse diferenciar o PSD «do que fez nas últimas legislativas». Mais: nada disse «sobre aquilo que é hoje essencial para o centro-direita»; apresentou-se o mesmo Passos, «com o mesmo tom, a mesma estratégia, a mesma resiliência, a mesma frieza, a mesma teimosia». Mais grave ainda: «Em tempo de afectos na política», nem ao menos se emocionou ou teve «uma palavra de afecto para os pensionistas e Marcelo ganhou assim». E Vítor Matos conclui muito logicamente: «Parece que não aprendeu a lição.» Qual lição? A de ter vencido as eleições com esta carrada de defeitos? Relapso e contumaz, Passos «manteve as ideias que trazia da campanha eleitoral». Nada me parece mais acertado. Apesar de todo o foguetório e de todos os malabarismos para impressionar incautos, a verdade é que estamos perante «péssimas notícias» no horizonte económico-financeiro, considerando Graça Franco (4.4.16) que o que se perspectiva «é mau demais para continuar a fingir que não se passa nada».

Alguém me explique por que haveria de mudar aquelas ideias. Passos apresentou-se em campanha com um programa de governo para o novo ciclo pós-Troika. Ganhou as eleições, mas o Parlamento recusou-o para primeiro-ministro. Deveria, por isso, deitar as suas ideias borda fora e improvisar um programa diferente pelo motivo de ter passado à oposição? A táctica oposicionista, essa, suponho que seja diferente do estilo e modo de estar no poder. Mas o que em campanha era julgado bom e necessário para o País, transforma-se em mau e desnecessário só porque se transitou para a bancada do combate contra o governo? E, já agora, «o que é hoje o essencial para o centro-direita»? Ser o mais social-democrata possível? Ter um discurso idêntico ao do partido costista e adjacentes? Por outras palavras: competir com a esquerda radical para ver quem gasta ou promete gastar mais?! Como conclui muito acertadamente João Miguel Tavares (Público, 5.4.16), se a «geringonça», por milagre, resultar, no que também eu não acredito, «o tempo será sempre de António Costa, e nunca dos sociais-democratas do PSD».

Esta verdade, porém, não entra nas cabecinhas dos «mais magoados» e dos «mais ansiosos» (Vítor Matos), que pedem a auto-reinvenção de Passos, o exortam a ser mais social-democrata e lhe exigem «novidades». Pedem-lhe, em suma, o poder de volta o mais rápido possível e a qualquer preço. Estou em crer que Passos não se deixará empurrar pela esquerda do partido para uma derrota anunciada. Sinal disso foi a promoção de Maria Luís. Tenho grande apreço pela ex-ministra. Apreço e simpatia: gosto de pessoas inteligentes, convictas, intrépidas, e dispenso expansões públicas de emoções e sentimentos. Embora não tenha a certeza de que fosse preciso um sinal tão forte, a roçar a provocação, o sinal confirma que Passos Coelho não faz a menor tenção de se reinventar.

E ainda bem. Porque se algo é preciso reinventar – e ele é o homem certo para isso – é a própria social-democracia. Porquê? Porque, historicamente, esta já venceu: o que começou a erguer sobre os escombros da Segunda Guerra enraizou-se, vingou, desenvolveu-se e generalizou-se. É hoje, no Ocidente europeu, um património civilizacional tanto da esquerda como da direita. O que falta para sair do impasse actual e arrombar portas que lhe permitam continuar a viver? Falta remover os obstáculos, fruto de ideologias e doutrinas obsoletas, que entravam o progresso do capitalismo.

Sim, do capitalismo. Porquê? Porque o capitalismo, assente na propriedade privada e na concorrência, é historicamente o regime que mais riqueza e prosperidade gerou até hoje, e que retirou centenas de milhões de pessoas da miséria extrema. E é também, em toda a História, o regime económico que mais liberdade, individual e colectiva, concede às sociedades. Num mundo globalizado e que já não dorme, a estatização da economia (e portanto da sociedade), as planificações económicas e os proteccionismos de outrora não são possíveis, nem desejáveis. A social-democracia de cariz keynesiano está esgotada. E a sua urgente reinvenção terá de provir, e só pode provir de um casamento harmonioso com o liberalismo económico. Não é uma contradição e ainda menos um paradoxo. Quem tem medo da palavra «liberal»?

Muito boa gente. Paulo Rangel, por exemplo, num artigo sobre «Mobilidade Social» (Público, 5.4.16), esmera-se a explicar o distinguo fundamental: «O PSD tem um ímpeto liberalizador – que não é o mesmo que um ímpeto liberal.» Deus nos livre! «Numa economia altamente estatizada [como a nossa, supõe-se], liberalizar não é naturalmente ser liberal.» Confesso que a subtileza da nuance me escapa. Muitos social-democratas estão erradamente convencidos de que a social-democracia de cariz keynesiano resolve os problemas da desigualdade e do Estado Social com mais doses de social-democracia keynesiana – ainda mais Estado, ainda mais impostos. Do meu ponto de vista, resolvem-se liberalizando-a, porque esses problemas radicam essencialmente na insuficiência de riqueza. Votei em Passos Coelho porque o achava talhado para padrinho de um casamento a meu ver feliz e necessário. Espero que ele não se reinvente. À sua volta, quase só vejo anões.





sexta-feira, 15 de abril de 2016


Carta aberta ao senhor MDN


Garcia Leandro, Diário de Notícias, 12 de Abril de 2016

Senhor ministro,

Gostaria de escrever uma carta aberta a elogiá-lo e tive esperanças no início das suas funções com o cuidado que teve nas suas declarações, bem como com o conhecimento que demonstrou de algumas situações macro. Infelizmente o processo que terminou com a saída do general chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) foi de uma total infelicidade.

Durante este período fui contactado por todas as cadeias de TV para fazer comentários sobre o tema e a todas recusei para evitar ser injusto ou por não conhecer tudo, mas agora a situação é diferente.

Vamos por partes:

  • o artigo do Observador é bom e as declarações do subdiretor do Colégio Militar (CM) não envolvem qualquer ilícito, embora tenha entrado em detalhes desnecessários;
  • a partir daqui, e sem qualquer razão, surgem acusações de declarações e procedimentos inconstitucionais que não aconteceram e deturpa-se a realidade. Eu explico porquê:
  • quando se citam as Forças Armadas e os militares como base de comparação comete-se um erro de grande ignorância; os alunos do CM não são militares, cadetes ou soldados, são apenas estudantes (crianças e adolescentes) integrados numa instituição com dupla ligação (ao Ministério da Educação em tudo quanto diz respeito à componente académica e ao Estado-Maior do Exército/Ministério da Defesa Nacional nas suas outras componentes, institucionais, desportivas e militares);
  • Estes alunos não são adultos e obviamente que estão ainda em formação física, intelectual, comportamental e de carácter; aquilo que a Constituição declara sobre comportamento sexual de qualquer cidadão não se pode aplicar de modo cego para estas idades. Daí que o CM tenha procedimentos de acompanhamento que são de elogiar e principalmente apreciados ao longo dos anos pelos pais; estes procedimentos protegem cada caso individual e o funcionamento institucional.

Durante estes dias falei com vários pais e todos apoiam o procedimento do CM, tendo a respectiva associação feito uma declaração de que ali não existe qualquer discriminação; por aqui estamos clarificados.


Acontece que V. Ex.ª se assustou, sem qualquer razão, com as declarações do BE, tratou do assunto nos OCS órgãos de comunicação social e pressionou o general CEME para tomar decisões em área da sua exclusiva responsabilidade; claro que qualquer general sério e que mereça tal designação, sendo ainda o n.º 1 do seu ramo, teria tomado a mesma decisão que o general Carlos Jerónimo, que saiu engrandecido de toda esta triste novela.

Termino, propondo que tire as devidas lições, pois se voltar a repetir este procedimento com outros CEM chefes de Estado-Maior, é provável que saia o ministro em vez do CEM em causa.

Lamento ter tido a necessidade de escrever este texto, mas havia a necessidade de colocar tudo no seu devido lugar.


Tenente-general (R)





quinta-feira, 14 de abril de 2016


Petição




Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «Preservação do Património Ferroviário de Portugal» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT80672

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.

Obrigado.

Maria Helena Costa


Esta mensagem foi-lhe enviada por Maria Helena Costa (helenarua@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT80672





Gratuito?

Não acredite porque alguém vai pagar a factura


Paulo Ferreira, Observador, 8 de Abril de 2016

O «espírito SCUT» está vivo e, aqui e ali, reaparece travestido de várias formas. Ele reencarnou nos manuais escolares «gratuitos» e nos mega-descontos da CP, por exemplo.

Lembram-se das SCUT? Eram as auto-estradas «sem custo para o utilizador». Não tinham portagens, não se pagava nada para lá circular. Mas como não há milagres, embora muitos governantes gostem de fazer passes de mágica, a factura era paga por alguém. Neste caso, pelo contribuinte. Funcionava assim, através das famosas parcerias público-privadas: o Governo lançava o concurso, os privados construíam e suportavam esse investimento e depois ficavam com a concessão da estrada a troca de umas centenas ou milhares de milhões de euros anuais durante esse período de concessão que durava cerca de 30 anos. Passassem por ali dois mil ou apenas dois carros por hora os privados tinham a sua confortável rentabilidade assegurada. Sem risco, porque o Estado cobria a falta de procura. E ainda pagava a manutenção.

Foi assim que enchemos o país de «AA qualquer coisa», depois da fantástica descoberta do modelo no governo de António Guterres.

Eram, portanto, sem custos para o utilizador mas com muitos custos para o contribuinte. Tantos que quando as contas do Estado se tornaram insuportáveis de sustentar não houve outro remédio senão instalar pórticos de portagem, passando os automobilistas a pagar o que até então era um encargo de todos os contribuintes, tivessem carro ou não, circulassem por ali ou não.

Não aprendemos grande coisa com isso. O «espírito SCUT» está vivo e, aqui e ali, reaparece travestido de várias formas.

Dizem-nos que os manuais escolares vão passar a ser gratuitos para todos os alunos do 1.º ano já no arranque do próximo ano lectivo.

Que os livros sejam suportados pela Acção Social Escolar para todos os que, comprovadamente, não os podem comprar é inquestionável. Ninguém pode deixar de ter as condições mínimas de estudo por questões económicas e se o Estado Social serve para alguma coisa esta está no topo das prioridades. Isso já acontece, colocando manuais escolares à disposição dos beneficiários.

Também é inquestionável que uma das prioridades é acabar com a renda que as editoras recebem à custa das famílias, obrigando-as a comprar manuais e livros de actividades novos em cada ano lectivo, num negócio que conta com a cumplicidade de quem decide e aprova os manuais para cada ano – sobre isto é obrigatório ler este texto de António Araújo.

Mas não é isso que vai ser feito. Os manuais passam a ser «gratuitos» para quem os utiliza mas são pagos pelo Estado, portanto por todos os contribuintes, às editoras, que mantêm o seu negócio. Como a medida vai ser universal, as famílias mais abastadas serão tão beneficiadas como as mais carenciadas. É o mesmo truque de magia das SCUT. Neste caso a factura não é paga na livraria mas sim na repartição de finanças.

Outro exemplo. Há semanas, no meio da «guerra» comercial das ligações aéreas Lisboa-Porto – sobretudo depois dos preços de saldo que a Ryanair e a Easyjet começaram a cobrar nessa rota – a CP decidiu entrar na liça. Anunciou descontos de 65% nos bilhetes comprados com uma semana de antecedência que, no caso da classe turística do Alfa, passam de 30,30 euros para 11 euros. É óptimo que a CP tenha uma forte dinâmica comercial, que melhore os seus serviços e tente cativar passageiros. Mas há aqui um pequeno detalhe: a CP é uma empresa pública, historicamente deficiária e com uma dívida monstruosa. Adivinhem, portanto, quem paga as perdas de receita que não sejam compensadas com corte equivalente de custos: se respondeu «o contribuinte», acertou.

Em 2014 (as contas do ano passado ainda não estão disponíveis) a CP teve prejuízos de 161 milhões de euros, fechou com uma dívida acumulada de 4,5 mil milhões de euros e manteve-se tecnicamente falida, com capitais próprios negativos de 3,6 mil milhões de euros — isto quer dizer, grosso modo, que se a empresa tivesse sido fechada nessa altura a factura que sobrava para os contribuintes era essa, de 3,6 mil milhões de euros.

Ou seja, os descontos de que os passageiros beneficiam na CP não serão pagos por mais ninguém senão os contribuintes.

Eu, que não hesito em preferir o comboio sempre que vou ao Porto — é tão rápido e mais barato do que o automóvel, é cómodo, permite que se vá a trabalhar durante a viagem com a rede wifi disponível e deixa-nos nos centros das cidades — agradeço a amabilidade e o desconto, que aproveitarei com prazer. Duvido é que o meu vizinho da frente, que nunca precisa de viajar no Alfa, sinta o mesmo prazer por pagar uma parte substancial do meu bilhete de comboio quando desconta o IRS e paga o IVA no supermercado para suportar as promoções de uma empresa pública cronicamente deficitária.

Nestas coisas, há um princípio de que nunca devemos abdicar: nunca acreditar quando um governante ou um decisor do Estado diz que alguma coisa vai ser gratuita ou mais barata. O que ele está a querer dizer é que a factura vai ser camuflada e paga por outros. Os contribuintes, obviamente.





sexta-feira, 8 de abril de 2016


Uma excelente análise

sobre o «aborto ortográfico»


«Insegurança ortográfica»

«Uma excelente análise, por Acílio Estanqueiro Rocha, Professor Emérito da Universidade do Minho, Departamento de Filosofia, Instituto de Letras e Ciências Humanas, sobre a Insegurança Ortográfica que o AO/90 gerou entre aqueles que aceitaram, sem pestanejar, a imposição ilegal e inconstitucional deste monumental engano

Acílio Estanqueiro Rocha

1 — Já afirmámos que o Acordo Ortográfico veio criar enorme «insegurança ortográfica», onde esta antes não existia; subestimaram-se vários pareceres solicitados que alertavam para isso mesmo. Aliás, no ano passado, o Parlamento recomendou ao Governo a constituição de um grupo de trabalho para acompanhar o processo de aplicação do AO, com elaboração de relatório; que se saiba, nem grupo nem relatório.

Mostrámos já que a obsessão pela unificação ortográfica criou, em vez das duas, três grafias, patente em exemplos simples (portuguesa/brasileira):

aspeto/aspecto,
detetar/detectar,
receção/recepção,
conceção/concepção,
deceção/decepção,
perceção/percepção,
espetador/espectador,
perentório/peremptório,
tática/táctica,
espetro/espectro,
cato/cacto,
perspetiva/perspectiva,
interceção/intercepção, etc.

Assim se pretende que se escreva agora (em Portugal) «aspeto», «conceção», «perspetiva», que antes se escrevia (Portugal e Brasil) «aspecto», «concepção», «perspectiva», e que continua a ser «aspecto», «concepção», «perspectiva» (Brasil).

Não entendo tamanha estultícia! Se eu escrever, por ex., a «receção do texto» em vez de «recepção do texto», como evitar que o leitor não pense em «recessão», se é isso que ouve a toda a hora e sofre no seu vencimento ou pensão? Um brasileiro, ao ler «receção», não entende…

Como sabemos, a aprendizagem da ortografia não se faz só na escola: é um processo quotidiano, multímodo, que envolve a memória visual; escrever «Egito» causa calafrios: é um triste espectáculo, que já não tem espectadores mas «espetadores» (a primeira vez que li, pensei em «espeto»). Aliás, como é sabido, as grandes diferenças que separam as variantes portuguesa e brasileira da língua não são ortográficas, mas são lexicais, semânticas e morfossintácticas.

2 — Sobre as consoantes não pronunciadas, importaria evitar a homografia, por ex., «acto»/«ato» (verbo), «corrector»/«corretor» (da bolsa), «óptico» (relativo à vista)/«ótico» (relativo ao ouvido), sendo que, no Brasil, continua a escrever-se «óptico»; seria também imprescindível evitar a homofonia (por ex., «intersecção» e «intercessão»), como é necessário ainda evitar o fechamento vocálico («acção», «aspecto», «baptismo», «lectivo», etc.). Note-se que o português europeu está a tornar-se, por vezes, dificilmente inteligível na oralidade, dada a tendência para fechar as vogais. Já um linguista advertiu que «adoção» (de «adoptar») poderia conduzir à pronúncia de «adução» (de «aduzir»); este é um problema grave: as próximas gerações tenderão a ler «setor», «receção», «deceção», etc., sem abrirem as vogais.

As consequências gravosas do AO saltam à vista: ao contrário de outras alterações ortográficas do século XX, este AO atinge aspectos estruturais da Língua Portuguesa. Todo este processo tem sido, pois, arrogante e autoritário.

3 — A sanha em simplificar (complicando) o português europeu, acaba por o desfigurar como património que opera a comunhão entre gerações, reduzindo a língua a um mero veículo de comunicação, a um artefacto instrumental, não atendendo ao carácter consuetudinário e à estabilidade ortográfica que são dimensões valiosas de identificação. A simplificação a todo o custo, a redução à pura fonética, como se de uma experiência laboratorial se tratasse, é uma das consequências mais nocivas do AO: é assim, por ex., que «acto» se torna «ato»; se, no artigo anterior, demos o exemplo de «directo», veja-se, entre outros, por ex., «acção», do latim «actio», «action» (em inglês), «action» (francês), «Aktion» (alemão), «acción» (espanhol), «actiune» (romeno).

Tal afasta o Português europeu dessas línguas europeias românicas e germânicas (incluindo o inglês). Por isso, o AO vai dificultar que alunos portugueses aprendam (sem erros) línguas estrangeiras e que estudantes de países europeus aprendam (sem erros) o Português.

Note-se que na língua inglesa abundam palavras com consoantes e vogais não pronunciadas, as «silent letters» – «dou(b)t», «forei(g)n», «ni(gh), «thou(gh)t», etc.

Ao pretender-se que a grafia coincida com a «pronúncia», esquece-se que esta é contingencial, variando de país para país, de região para região, de pessoa para pessoa. Aliás, se nos orientássemos apenas por critérios fonéticos, deveríamos escrever, por ex., «úmido» (como no Brasil), o que seria por demais ridículo.

Não conheço nenhum AO em nenhuma outra língua. Quem se preocupa com a unificação do inglês? E há, pelo menos, dezassete variantes do inglês, meia dúzia do alemão, quinze do francês e vinte do espanhol.

Trata-se de mais uma originalidade da política portuguesa, própria de políticos modernaços mas ignaros, pós-modernos, que não sabem o que é um livro; se citam versos de um poema, é só ao jeito de tique decorativo.

Naturalmente são indiferentes à estabilidade ortográfica – essencial na Língua –, como a qualquer estabilidade (legislativa, fiscal, etc.), quando esta é apanágio de um povo desenvolvido.





quinta-feira, 7 de abril de 2016


Um problema chamado Passos Coelho


Rui Ramos, Observador, 6 de Abril de 2016

O PSD é, neste regime, a grande alternativa ao PS, ou então não é nada: quem é que precisa de uma «equipa B» do PS? O PSD está, por isso, destinado a gerar ideias contrárias à actual governação.

No fim do congresso do PSD, as televisões cercaram o representante do PCP. O comentário saiu como deve ter sido ensaiado no comité central: «o PSD não aprendeu nada com a derrota de 4 de Outubro». Resume perfeitamente o problema: é que o PSD, para azar de todos, não perdeu a 4 de Outubro. Perdeu a 10 de Novembro, o que é muito diferente, e aprendeu então tudo o que tinha a aprender.

Tudo isto faz muita confusão à oligarquia. Ainda não percebeu porque é que Passos Coelho, depois de quatro anos de ajustamento, só perdeu a maioria, mas não as eleições. E também ainda não percebeu o que, depois de ganhar as eleições, mas perder o governo, ele pode fazer na oposição. Por isso, a nova maioria trata-o como o espectro no banquete de Macbeth. Gostaria que ele se fosse embora. Inventa-lhe rivais, escolhe-lhe sucessores. Os oligarcas têm medo. Como explicar que o PS não tenha ganho as eleições, que o BE e o PCP tenham tido em 2015 menos votos do que em 2009, e que as sondagens não pareçam estar a premiar o «fim da austeridade»? Estará a opinião pública, depois da bancarrota de 2011, menos susceptível ao velho «modelo» do consumo, tanto mais que, sob a vigilância europeia e com o presente nível de endividamento, são improváveis os extremos do passado? E nesse caso, que poderá acontecer se as coisas correrem mal, ou simplesmente não correrem brilhantemente?

Passos não é um demagogo, um espalha-brasas. No seu discurso de encerramento do congresso, desconvocou qualquer «querela constitucional», e até tirou o chapéu aos «senhores doutores juízes». Gastou imenso tempo com as autárquicas e com os Açores, em homenagem aos mandachuvas locais do partido. Mas Passos não tem escolha, tal como nenhum outro líder do PSD teria: vai ser obrigado a produzir uma alternativa à maioria social-comunista.

Por isso, a discussão sobre a «social-democracia» do PSD é ridícula. Politicamente, o PSD é, com o CDS, a alternativa ao PS e à esquerda, ou então não é nada: quem é que precisa de uma «equipa B» do PS? O PSD está, por isso, condenado a desenvolver ideias contrárias à actual governação. No momento actual, é a ideia de que a melhor estratégia é criar confiança para atrair investimento, e diminuir a carga fiscal e burocrática do Estado, «como forma de libertar o potencial de crescimento da economia portuguesa». A questão é se saberá dar-lhe o devido protagonismo e eloquência.

Intermitentemente, o PSD e o CDS também significaram outra coisa: um desafio aos interesses instalados. Foi assim no fim da década de 1970, nos tempos da reforma agrária, das nacionalizações e do conselho da revolução. E poderá ser assim também agora, quando o equivalente das terras e das fábricas ocupadas são as escolas e os transportes públicos entregues pelo governo PS aos sindicatos comunistas. Por enquanto, o dinheiro do BCE mantém os mercados à distância e viabiliza o modelo do consumo e o apaziguamento do PCP. Mas até quando?

Um rei forte não faz forte a fraca gente. Mesmo no tempo de Sá Carneiro, uma grande parte da liderança do PSD não se entusiasmou com o papel de desmancha-prazeres. Sim, talvez fosse mais cómodo chegar-se ao PS, ajudar a melhorar a gestão do que existe. O lugar de suplente da actual maioria, para votar o que o BE e o PCP não quiserem, está disponível. Mas todas as lideranças que submeteram o PSD à estratégia do PS acabaram por falhar: Sousa Franco em 1978, ou Mota Pinto em 1983-1985. Com ou sem Passos, o PSD não pode escapar ao seu destino. A menos que decida desaparecer.

NOTA DA REDACÇÃO DO PORTUGAL LARANJA:
Tudo certo excepto no útimo parágrafo, quando coloca o exemplo do PSD com Mota Pinto a subordinar-se ao PS em 1983-1985. Estando a teoria de Rui Ramos certa — o que nos parece —, a prova como Mota Pinto não se subordinou ao PS é que o PSD ganhou as eleições seguintes, em 1985...

Rui Ramos não conhece os factos e as circunstâncias da coligação PS-PSD nesse período. Só assim se pode compreender a sua afirmação.





segunda-feira, 4 de abril de 2016


Islamofascismo


Paulo de Almeida Sande, Observador, 29 de Março de 2016

Como nos guetos de Hitler, nunca o mal foi tão banal. É pois o sistema que devemos visar, sem deixar de perseguir e condenar os perpetradores, homens ditos humanos que desistiram de pensar.

Por cinco rupias, as crianças de Lahore, no Punjab, quase todas oriundas do miserável bairro cristão de Youhanabad, puderam brincar no parque de Gulshan-e-Iqbal, a pouco mais de 15 km, com as suas diversões de feira e barracas de comes e bebes. Seria um domingo de Páscoa inesquecível para os miúdos, acompanhados ou não das mães.

A bomba repleta de pregos e fragmentos de metal, detonada por um suicida de 28 anos, matou para sempre a diversão e os sonhos de dezenas de crianças, entre as mais de 71 vítimas mortais, o dobro dos atentados de Bruxelas da semana passada. O crime foi reivindicado por um grupo talibã criado há 2 anos, designado Jammat-ul-Ahrar, dissidente do já extremista movimento Deobandi, escola islâmica do norte do subcontinente indiano que professa uma interpretação austera e literal do Islão, hostil às influências ocidentais. Dizem fontes geralmente bem informadas que, com este atentado e as ameaças proferidas, Jammat-ul-Ahrar visa tornar-se o mais radical entre os radicais grupos islamitas.

Crianças? Irrelevante. Mulheres? Ainda mais. Muçulmanos misturados na multidão, dezenas entre as centenas de vítimas (mais de 200 feridos)? Danos colaterais.

Nada disso impressiona as criaturas ditas humanas que creem levar a cabo uma guerra pelo verdadeiro Deus, sangrenta, impiedosa. Uma guerra com fé: o islamismo, nas suas interpretações mais estritas e literais; uma guerra com visão estratégica: a «administração da selvajaria» para espalhar o caos antes da recuperação do poder (o Califado, terceira e última fase da reconquista); e uma guerra com planeamento militar: «Líderes do EI reuniram para planear ataques na Europa» (artigo publicado neste jornal).

O terrorismo é cada vez mais, pela sua amplitude e impacto, global. Reportemo-nos ao EI, aka ISIS, aka Daesh: o estado islâmico foi responsável por 750 ataques coordenados, a maioria em 2013 e 2014. O atentado de Lahore ocorreu no dia de Páscoa e terá tido por isso mais repercussão do que o habitual no Ocidente. Mais decerto do que o atentado em Iskanderiya uns dias antes, a 40 km de Bagdad, em que um outro suicida associado ao ISIS explodiu durante um jogo de futebol local fazendo 32 mortos, boa parte crianças e adolescentes. Quantos ocidentais deram sequer por isso? E contudo, reporta o consórcio START, mais de metade dos ataques ocorreram no Iraque, Paquistão, Índia, Nigéria e Afeganistão. As vítimas? Cristãos indianos, paquistaneses, árabes, mas também muçulmanos, hindus, animistas. Todos seres humanos, vítimas de criaturas ditas humanas em nome de um Deus que as não reconhece.

Hannah Arendt encontraria neste cenário de desolação, em que os alvos são tanto mais apetecíveis quanto numerosos e inofensivos, matéria para um novo capítulo da «banalidade do mal»: espreitamos as imagens dos (futuros) terroristas antes da sua «radicalização» e encontramos – também nas palavras de vizinhos e amigos – jovens como os outros, que se divertem, sensatos ou, simplesmente, estouvados. Tal como em Eichmann, não vemos nos jihadistas antes das jihad assassinos monstruosos, apenas seres banais envolvidos por uma teia com nome: religião extremada, fanatismo, crença acrítica nos dogmas brutais veiculados por outros homens. Cegos pela luz emanada desse sistema de normas «superiores», que banaliza o mal, abdicam de reflectir, desistem de si próprios, cumprem ordens «de cima». Dizem-se seres humanos mas recusam-se a ser pessoas, não pensam – desistem de pensar. Não fazem juízos morais. Nenhum acto é para si cruel, nada os faz hesitar, porque a distinção profundamente humana entre o bem e o mal lhes foi sonegada. Ou sonegaram-na a si mesmos.

Como nos guetos de Hitler, nunca o mal foi tão desesperadamente banal.

É pois o sistema que devemos visar, sem deixar de perseguir e condenar os perpetradores, homens ditos humanos que desistiram de pensar. Ao sistema foi já dado um nome, controvertido: islamofascismo. Primeiramente usado em 1990, tem sido defendido, com crescente aceitação, por filósofos, cientistas políticos e publicistas vários: trata-se de equiparar as tácticas e objectivos dos jihadistas islâmicos aos regimes fascistas totalitários. Alguns argumentos: «Fascismo, nazismo, como o islamismo radical, exaltam a morte e a destruição e desprezam a vida da mente… ambos são hostis à modernidade e nostálgicos de impérios passados e glórias perdidas. Ambas têm uma obsessão por «humilhações» reais ou imaginadas e sede de vingança e estão infectados (…) pela toxina da paranoia anti-judaica… Ambos endeusam um líder e afirmam o poder exclusivo de um grande livro. Ambos têm um compromisso com a repressão sexual e a subordinação das fêmeas – o desprezo pelo feminino. Ambos desprezam a arte e a literatura como sintomas de degeneração, queimam livros e destroem museus e tesouros». Antes de se comprometer com infiéis, de ceder à tentação das facilidades do modo de vida ocidental, o islamofascismo prefere até a sua própria destruição.

Francisco, o Papa amado, fala com frequência de uma 3.ª Guerra em capítulos. E afirmou que os atentados de Paris são um capítulo dessa guerra. Mas o Papa disse mais. Neste ponto, muitos leitores gritarão uma vez mais contra o politicamente correcto (nas minhas crónicas), falarão de um discurso mole e desistente, de cedência «à Chamberlain» perante a ameaça islamofascista. Estão enganados mas não tentarei dissuadi-los. Francisco falou contra a rejeição dos refugiados e dos migrantes, em nome da dignidade da pessoa humana, deles e nossa, homens dotados de verdadeira Humanidade. E apelou em simultâneo à protecção dos crentes de Cristo, pedindo às autoridades do Paquistão protecção para a minoria cristã na sequência do atentado «execrável» de domingo de Páscoa. Amor… e segurança.

Mas como o discurso humanitário, de paz entre culturas e religiões, pode não ser suficiente para satisfazer o afã securitário de muitos falcões de sofá, recordo o objectivo expressamente assumido pelo Daesh, como antes pela Al Qaeda. Consta de um livro que já referi neste jornal, com o nome assustador de «The Management of Savagery», do xeque Abu Bakr Naji:

«Por polarização, aqui, falo de arrastar as massas para a batalha, de tal modo que haja polarização entre todos, na população. Assim, um grupo deles ficará ao lado do povo da verdade, outro grupo ficará ao lado do povo da mentira e um terceiro grupo permanecerá neutro – esperando que a batalha se decida, para aliar-se ao vencedor. Temos de atrair a simpatia desse último grupo e fazê-lo desejar a vitória do povo da fé, especialmente porque esse grupo tem papel decisivo nos estágios posteriores da actual batalha. Arrastar as massas para a batalha exige mais acções que inflamem a oposição, que façam o povo entrar na batalha, querendo ou não, de tal modo que cada indivíduo irá para o lado que apoia. Temos de fazer essa batalha muito violenta, de tal modo que a morte esteja sempre a um passo, para que os grupos se dêem conta de que entrar na batalha levará muito frequentemente à morte. Esse será poderoso motivo para que os indivíduos escolham combater nas fileiras do povo da verdade, para morrer bem, o que é melhor que morrer em falsidade e perder os dois mundos, este e o próximo».

Como escrevi na crónica anterior, como tenho escrito deste sempre e continuarei a escrever até que a mão me doa, temos de evitar fazer do grupo dos neutros, dos que esperam o acolhimento habitual da terra de asilo europeia, inimigos, banais servidores do Mal islamofascista.

Francisco, a terminar, permitam-me a manifestação cristã que não imponho a ninguém: «a primeira pedra a fazer rolar para o lado é esta: a falta de esperança, que nos fecha em nós mesmos. O Senhor nos livre desta terrível armadilha: sermos cristãos sem esperança, que vivem como se Ele não tivesse ressuscitado e o centro da vida fossem os nossos problemas».






Afinal, quem é que ganhou as presidendiais?


Luís Lemos

A TVI foi buscar para comentadora aquela gaja do Bloco de sorrisinho a apelar aos afectos e que teve 10% dos votos nas eleições presidenciais. Então põe-se agora a dar conselhos de política a quem ganhou com 52% na primeira volta.

Não é só a gaja que está em causa. Está igualmente o director de informação do canal, em engenheiro político: Sérgio Figueiredo.






segunda-feira, 28 de março de 2016


População sueca está a abandonar Malmoe



Para todos aqueles que ainda não entendem o que se está a passar debaixo dos seus narizes, vejam os dois anexos. Se depois de o fazerem ainda teimarem que está tudo bem e que não é preciso fazer nada urgentemente, merecem o que lhes vai suceder, a cada um e aos seus descendentes. Continuem a preocupar-se apenas em serem politicamente correctos de acordo com uma certa esquerda pacifista bem representada nos media, ou a preocuparem-se apenas com os negócios, e qualquer dia, tal como em Oslo, Bruxelas, Amsterdão, Londres ou Paris vão passar a viver de acordo com a jihad!

A maior cidade da Suécia está a ser abandonada pelas autoridades e pelos habitantes. Com 30% de população imigrante, os suecos sentem-se agora estrangeiros no seu próprio país e estão a abandonar a cidade. Nas ruas vigora a lei dos gangs jihadistas com intimidações, espancamentos e violações.

Quando há uns anos o Papa Bento XVI dizia que o islão é a religião com o Corão numa mão e a espada na outra, foi condenado por não ser «politicamente correcto»...

A verdade aí está! A civilização europeia, que custou 1000 anos a construir-se, vê-se perante a situação de a médio prazo retroceder 1500 anos!

E a Europa que faz? À luz dos direitos humanos e da liberdade de expressão e de religião (o que não acontece nos países islâmicos, em que os cristãos são perseguidos e massacrados), não faz nada...

Quando acordarem, que não seja demasiado tarde, em que todos os cristãos serão os infiéis!

Onde é que eles são felizes? Na Europa, está claro! Onde mordem a mão de quem lhes dá de comer...

http://www.jihadwatch.org/2004/09/muslims-rule-major-swedish-city.html

http://www.cbn.com/tv/embedplayer.aspx?bcid=1509282970001