segunda-feira, 6 de junho de 2016
O animal spirits e a vaca voadora
Pedro Sousa Carvallho, Público, 2 de Junho de 2016
Uma economia que dependa excessivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar.
Quando chegou, António Costa prometeu um tempo novo. «Um tempo novo que traga crescimento e prosperidade, um tempo novo para as famílias e um tempo novo também para as empresas.» Esta semana começaram a chegar as primeiras estatísticas do INE sobre o «tempo novo» e não é que esse «tempo novo» é muito parecido com o tempo antigo?
As estatísticas do INE mostram a economia a desacelerar nos primeiros três meses do ano, com o PIB a crescer 0,9%, o que constitui um abrandamento face aos 1,3% registados no quarto trimestre de 2015. O que explica esta travagem? Portugal está a perder investimento a um ritmo expressivo. Este indicador, que no quarto trimestre de 2015 tinha registado uma variação homóloga de 4,4%, apresentou agora uma queda de 0,6%. Nos últimos 30 meses, o investimento aumentou sempre.
Sem investimento não há economia que aguente. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, costuma comparar a economia a um avião com quatro motores: as exportações, o consumo público, o investimento e o consumo privado. As exportações, ainda segundo o INE, abrandaram no arranque do ano para 2,8%, quando há um ano as vendas para o exterior cresciam 7,1%. O consumo público há muito estagnou e o investimento está a desaparecer. O consumo privado, graças à reposição de rendimentos, é o único que vai aguentando o avião no ar. É fácil perceber que com tantos problemas nos motores este avião não há-de suster-se muito tempo no ar.
Claro que há muitos que não percebem esta analogia dos aviões. Por isso falemos de vacas voadoras. Uma vaca voadora tem duas asas para se suster no ar. De um lado a procura externa (exportações – importações) e do outro lado a procura interna (consumo + investimento). Como as exportações estão a crescer pouco (2,8%) e menos do que as importações (4,6%), a asa direita da vaca voadora começa a tremelicar. E como a quebra do investimento, com o tempo, vai provocando uma erosão no consumo, a asa do lado esquerdo já começa a tremer. E quem acredita que existem vacas voadoras também tem de acreditar que há vacas que caem do céu.
Uma economia que dependa excessivamente ou quase exclusivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar com o passar do tempo. O consumo privado só estimula a economia no curto prazo e, quando não é acompanhado de investimento (que gera emprego e rendimento), rapidamente descamba em mais endividamento, no aumento das importações (que vai desequilibrar mais a balança comercial) e numa reduzida taxa de poupança que retira capacidade às famílias para ajudar a financiar as empresas (o que vai aumentar o défice externo). A taxa de poupança em Portugal ronda hoje os 4%, contra uma média de 12,4% na zona euro.
Com estes números, a previsão do Governo para um crescimento da economia de 1,8% já começa a parecer desajustada. É o próprio Mário Centeno que esta semana veio dizer que a concretização desse valor «está dependente da retoma do investimento». Já se percebeu que será uma questão de semanas até termos um orçamento rectificativo.
O Banco de Portugal também está a antecipar uma travagem a fundo do investimento este ano, cuja previsão passou de 4,1% para 0,7%. A OCDE é ainda mais pessimista, já que em Novembro previa que o investimento em Portugal crescesse 3% em 2016 e esta semana veio dizer que antecipa uma quebra de 1,5%. Os números do Governo apontam para um crescimento de 4,9%.
E por que razão é que os investidores deixaram de querer investir em Portugal? Quer os neoclássicos, quer a teoria keynesiana fazem depender o nível de investimento do produto marginal do capital e da taxa de juro. John Maynard Keynes, no seu livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, acrescenta um outro factor que influencia e de que maneira as decisões de investir dos empresários – o chamado «animal spirits», ou seja, um impulso psicológico que está para além da análise quantitativa dos juros e da rentabilidade do capital que faz com que um empresário decida não investir num determinado momento. Essa decisão faz travar o emprego e a procura, conduzindo a um ciclo de recessão. Ao contrário dos neoclássicos que acreditavam na auto-regulação dos mercados, os keynesianos defendem a intervenção do Estado na economia, através do aumento dos gastos públicos, para inverter o ciclo.
Este «animal spirits» («estados de ânimo») não tem nada que ver com vacas voadoras. É Keynes a introduzir na equação do investimento uma componente emocional ou de impulso que pode determinar ciclos económicos e gerar incertezas na evolução da economia. Por isso é que o economista e ex-governador do Banco de Portugal Jacinto Nunes descrevia a economia de Keynes como «a economia da incerteza».
É a incerteza que afasta o investimento. Ainda esta semana a OCDE veio dizer que «o investimento caiu de forma brusca e continua a ser um entrave para o crescimento, devido ao elevado endividamento das empresas, aos balanços frágeis dos bancos, à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto na execução de reformas». Em relação aos dois primeiros pontos, os problemas não são de agora e são de difícil resolução – apesar de os bancos continuarem a dizer que têm dinheiro para emprestar aos bons projectos.
Já quanto à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto nas reformas depende de o Governo desfazer essa imagem que tanto assusta os empresários e prejudica a economia. A OCDE não deixa de criticar, por exemplo, a suspensão da descida do IRC que «poderia dar um empurrão ao investimento e ao crescimento», uma suspensão à revelia de um acordo alargado feito no passado recente entre PS, PSD e CDS. António Costa veio esta semana, perante uma plateia de empresários, pedir-lhes o seu envolvimento para a construção de «uma imagem e uma percepção de um país moderno, de um país de confiança. Só com confiança se conseguirá atrair mais investimento». Mas a confiança não se decreta. Constrói-se.
Pedro Barroso confessa
não conseguir ser «gay»
e penitencia-se...
O CERCO
Venho aqui pedir desculpa
de não ser evoluído,
apesar destas campanhas
na rádio, na televisão,
em toda a parte, insistindo
na urgência do assunto…
Eu não consigo gostar;
– não consigo mesmo, pronto.
Sei que pertence ser gay,
toda a gente deve ser.
Mas eu, lamentavelmente
não sou como toda a gente;
Como aconteceu... não sei,
peço desculpa por isso,
mas confesso: sou… diferente.
Sei que vos pode ofender
esta minha enfermidade,
pois um gajo que assim pensa
hoje em dia, não tem nexo;
deveria ser banido,
expulso da comunidade.
É uma vergonha indecente
Gostar de mulher, ter filhos
Casar, afagar, perder-se
Com pessoa doutro sexo!
Uma nojeira repelente;
Dar-lhe, até, beijos na boca
em público! E declarar
Esta sua preferência
Que eu nem sei classificar!
Tenho uma vergonha louca
E desejo penitência
por tal desconformidade,
retardamento, machismo,
doença, fatalidade!
Já tentei tudo: – inscrevi-me
em saunas, aulas de dança
cursos de perfumaria
origami, greco romana,
ioga – para ter ousadia
boxe – p’ra ganhar confiança...
Mas quando chega o momento
De optar… sou… decadente,
Recorrente e insistente.
Opróbrio raro e demente,
Ver uma mulher seduz-me,
Faz-me vibrar, deslumbro.
Vê-la falar, elegante;
Vê-la deslizar, sensual
Como vestal, deslumbrante
Seu peito assim, saltitante
Sua graça embriagante
olho com gosto, caramba,
lamento ser tão ...normal.
Mas eu confesso que sinto
– neste corpo tão cansado
Que da vida já viu tanto...
Ainda sinto um desejo
Que m’ envergonha bastante
Por ser já tão deslocado
tão antigo, assim tão fora
do mais moderno critério.
Valia mais estar calado
Mas amigos, já agora
Assumo completamente:
– Tenho esse problema sério.
Nunca integrarei partidos
Onde não sou desejado.
No planeta das tais cores
não tenho dia aprazado,
nem bandeira, nem veado,
nem «orgulho» especial!
Sou mesmo do «outro lado»
dito «heterossexual»
e já me chateia um bocado
Ter que dizer, embaçado,
que me atrai o feminino
e sou apenas «normal»!
– e, portanto, avariado.
Mas… mesmo assim, – saudosista,
imensamente atrasado,
terrivelmente cercado,
conservador nesse ponto,
foleiro, desajustado...
perdoai-me tal pecado
– Não me
sinto ...assim tão mal!segunda-feira, 30 de maio de 2016
Ponto da situação relativamente ao «processo»
Manuel Alegre vs Brandão Ferreira
João José Brandão Ferreira,
Oficial Piloto Aviador
No dia 17 de Maio fui surpreendido pela notícia de
um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, com a data de 12 do mesmo mês, em
que me condena a pagar uma multa de 1 800 euros ao Estado, e 25 000 euros de
indeminização ao cidadão Manuel Alegre (assistente no processo crime contra a
minha pessoa) por, na versão dos venerandos juízes Antero Luís e João Abrunhosa
de Carvalho, o ter difamado.
A origem da queixa de difamação recorda-se,
baseia-se na imputação de que no artigo intitulado «Manuel Alegre, combatente
por quem?», publicado no Jornal «O Diabo», em 3/5/2010, o ter apelidado de
traidor à Pátria.
Nesse mesmo dia (17/5), saiu um artigo no jornal «O
Público», eivado de alguns erros e incorrecções, que dava conta do sucedido ao
mesmo tempo que entrevistava o aparente ganhador da causa.
Acontece, porém, que este não foi o 1.º acórdão do
mesmo Tribunal da Relação, sobre o mesmo caso, e sem que qualquer alteração
tenha ocorrido relativamente ao processo já apreciado.
A coisa conta-se em poucas palavras e compreenderão
que haja «pormenores» que ainda não devam ser revelados.
Por douta sentença do Tribunal de 1.ª instância,
datada de 12 de Setembro de 2014, a meritíssima juíza Ana Paula Figueiredo,
absolveu-me do crime de difamação e do pagamento de qualquer indeminização
cível (por improcedente), em processo instaurado pelo supracitado vate e
acompanhado pelo Ministério Público.
Não conformado com tal decisão o queixoso,
naturalmente, recorreu.
O processo subiu ao Tribunal da Relação de Lisboa
(15/12/2014), tendo calhado por sorteio, aos juízes desembargadores Carlos
Benido (relator) e Francisco Caramelo (adjunto), da 9.ª secção, cujo chefe é o
venerando juiz Trigo Mesquita.
O processo seguiu os seus trâmites e, em pouco
tempo, conheceu decisão. Deste modo a 26/02/2015, os venerandos acima
referidos, confirmavam o acerto da sentença da 1ª instância e negaram o
provimento dos recursos interpostos pelo assistente e Ministério Público.
Desta decisão foi dado conhecimento ao arguido.
A questão estaria definitivamente encerrada, dado a
moldura penal do eventual crime em questão não permitir recurso para instância
superior, restando apenas levar o caso, eventualmente, ao Tribunal dos Direitos
do Homem, em Bruxelas.
No entretanto, porém, o assistente mudou de
advogado e para o lugar do Dr. Nuno Godinho de Matos foi o Dr. Afonso Duarte,
por acaso filho do assistente, que já tinha patrocinado o pai antes do processo
ter chegado à fase de julgamento.
Ora por aparente erro burocrático (a que, juro, sou
alheio) um parecer do procurador-geral da República, junto ao Tribunal da
Relação de Lisboa, em vez de ir parar ao novel advogado, foi parar ao anterior,
o que deu origem a que aquele reclamasse do facto.
Havendo esta «irregularidade» (que não nulidade), o
processo não transitou em julgado tendo voltado às mãos do desembargador
Benido, o qual por alturas de Maio/Junho, revogou o seu despacho; sendo que o
normal nestas circunstâncias é corrigir-se a irregularidade e prosseguir-se com
as formalidades.
Acontece que, entretanto, o juiz C. Benido entrou
de férias e quando regressou em Setembro, jubilou-se.
Em data não apurada o processo foi redistribuído
(não por sorteio) a dois novos desembargadores, os já referidos, venerandos
Antero Luís e João Abrunhosa de Carvalho, tendo sido afastado do processo o
desembargador Francisco Caramelo, que era o juiz natural do processo e mais
antigo do que os escolhidos!
Destas substituições não foi o arguido (eu) informado.
Mesmo assim – dizem-me profissionais do mesmo
ofício – o habitual é a nova equipa confirmar tudo o que vem do anterior, não
só por razões do foro deontológico, mas sobretudo por se tratar de juízes da
mesma secção e não ter havido nada que pudesse ter carreado algo de novo para o
processo, além do que já foi apontado atrás.
Ora não foi nada disto o que o novel desembargador
Dr. Antero Luís fez. O que fez foi, numa espécie de passe de mágica virar, 16
meses depois, o primitivo acórdão do avesso.
Com a curiosidade acrescida do advogado do
assistente Manuel Alegre continuar a não ter sido informado do tal parecer do
Procurador, que deu origem a esta «trapalhada» toda…
(E eu juro, que não tenho culpa nenhuma nisso!).
Face a este, algo «kafkiano» acontecimento, o Dr.
Alexandre Lafayette – que como militar honrou os seus deveres para com a
Pátria, e estando na reserva territorial há muitos anos, nunca deixou de
combater o bom combate – interpôs tempestivamente (apesar de ter um prazo de
apenas três dias para o fazer…) um «requerimento de nulidade» para o Tribunal
da Relação de Lisboa, representando-me.
Este requerimento tem efeitos suspensivos da pena.
E, como dizem os espanhóis, «assy estamos».[1]
![]() |
O Alegre que se queixava da censura no Estado
Novo,
apanhando-se em Secretário
de Estado da Comunicação Social,
armou-se ele próprio em
censor. |
segunda-feira, 23 de maio de 2016
E se fosse connosco?
Alberto Gonçalves, Diário
de Notícias, 22 de Maio de 2016
Parece que a SIC exibe regularmente um programa
chamado E Se Fosse Consigo?, que segundo os autores «testa a
capacidade de intervenção dos portugueses na defesa do outro, a partir de
situações ficcionadas». O problema é que nem todas as situações até agora
ficcionadas exigem intervenção alheia, de portugueses ou de quem calha. Que eu
visse — e não vi tudo dado passar imenso tempo à procura do «outro»
para defender —não há simulação de terramotos, guerras, terrorismo
islâmico, Rock in Rio ou calamidades afins. Há, ao que pude espreitar no site
da estação, o tipo de comportamentos patetas que inspiram as almas sensíveis a
fomentar a denúncia ao Estado, o Estado a produzir leis, as leis a legitimar um
observatório e duas comissões de protecção (ou metade de um ministério).
Trata-se, claro, da «agenda» própria da época, que
segrega bem segregadinhos os «oprimidos» (mulheres, gays, minorias étnicas,
pobres, obesos, etc.) e os «opressores» (machos brancos, de preferência
endinheirados) por categorias rígidas, num processo de simplificação que oscila
entre o atraso mental e o puro preconceito. E, algures no meio, os tiros nos
pés: parafraseando a Helena Matos, quantas apresentadoras da SIC são gordas,
aborígenes, lésbicas e habitam um T2 de renda técnica em Chelas?
Num dos «casos» transmitidos, sobre o (atenção:
aproximação de linguagem «especializada») bullying, três crianças aliviam a
mochila de uma quarta e, enquanto lhe chamam «princesa», atiram-lhe os cadernos
ao chão. Desde Treblinka que não se via semelhante drama humano. A SIC, porém,
entende que tamanha irrelevância é de uma gravidade extrema, ou pelo menos a
suficiente para que cada transeunte «consciente» (os restantes são uns
bandalhos) ajude a vítima, a qual, se não for completamente choninhas, acabará
ainda mais enxovalhada. Noutro «caso», uma senhora reclama, sem grande
convicção (os «actores» não foram exactamente recrutados na Julliard), das
intimidades de um casal homossexual na paragem de autocarro.
Mas o episódio de que se fala tenta exemplificar,
evidentemente sem o conseguir, a violência no namoro. Num parque, um casal
heterossexual (os homossexuais não têm desavenças) discute a propósito de um
telemóvel. O rapaz encarrega-se do berreiro (as raparigas nunca levantam a voz)
e das agressões, cujo alvo é um banco de jardim. A cena é tão ridícula e mal
interpretada (?) que, naturalmente, leva quase todos os transeuntes a passar ao
largo, com receio de interferirem nas filmagens de Morangos com Açúcar. Uma
senhora, porém, atira-se de cabeça para o vórtice da discussão: coincidência
das coincidências, é a dona Catarina do Bloco de Esquerda, que oferece ajuda à
rapariga (o banco só se salvaria pela nacionalização imediata) e descarrega um
sermão em cima do rapaz. O rapaz, com auricular e vontade de rir, olha para a dona
Catarina. A dona Catarina olha para a câmara e dá o aval à coisa. A SIC
exibe-a. O país descobre uma heroína.
Não pretendo insinuar que a SIC manipula o
entretenimento de modo a favorecer políticos da sua simpatia, e que a dona
Catarina participou na encenação. Pela seriedade com que engole as cabeludas
patranhas que lhe põem à frente, apenas verifico que a credulidade dela em
matérias políticas, económicas e sociais se estende aos pormenores do
quotidiano. Subiu na minha consideração, perdão, comiseração.
sábado, 14 de maio de 2016
Entre dois terrorismos
Pe. Vasco Pinto de Magalhães, Observador,
14 de Maio de 2016
Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra
nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês,
pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica.
A Europa está entalada entre dois terrorismos. Está
entre dois fogos, que parecem de sinal contrário mas que se excitam um ao
outro. Ciclicamente, na história do Ocidente, esses ataques marcam tempos de
crise sociocultural e política.
Que ataques são esses? Há um terrorismo que vem de
fora e actualmente aparece sob a bandeira do «Estado Islâmico». Surge como
força ideológica («religiosa») violenta pretendendo dominar (e eliminar) uma
europa que acusa de estar doente, vendida à democracia, sem valores, opressora
e imoral, tradicionalmente seguidora de uma cultura religiosa adulterada, a
cristã. O Ocidente é um mundo de infiéis – mas ricos! – que os puros, os
verdadeiros islâmicos, não podem suportar, em nome da sua crença num islão
original (radical e primitivo). Ameaças, ataques suicidas, destruição à bomba (até
de outros muçulmanos que assim não pensem), são meios justificados pela sua
«nobre» causa. A história ensina que um fanatismo cego, radical, fechado a
qualquer diálogo, orgulhoso e ressentido, tem os dias contados; mas, entretanto
vai seguindo, embriagado e iludido pelo sangue que vai deixando pelo caminho.
Por outro lado, paradoxalmente, enquanto os próprios islâmicos críticos e
lúcidos não forem capazes de se afirmar, este terrorismo vai vivendo, também, à
custa do próprio Ocidente que, nas suas cegueiras economicistas, não desiste de
lhes comprar o petróleo e, depois, lhes vender as armas.
Há um outro terrorismo que vem de dentro. É também
uma doença social e cultural apoiada em políticas ditas «libertadoras», que se
assumem como radicais e modernas mas resvalam orgulhosamente para um fanatismo
cego, pronto, por todos os meios, a erradicar aquilo que pensam ser o grande
mal do ocidente: a sua matriz cristã e a cultura e valores éticos
personalistas, que vêem como inimigos de um admirável futuro: o das liberdades
individuais sem restrição. O atraso e o inimigo a abater está consubstanciado
na Igreja católica. A bandeira deste terrorismo não é a laicidade; é o laicismo
anticlerical. E o seu paradigma de felicidade é uma justiça burguesa,
consumista, ao sabor de um liberalismo «emotivista», endeusando o indivíduo,
que já não é homem e mulher, mas um género à escolha. Aliás, apresenta-se como
sendo uma ideologia de esquerda, quando, dos ideais sociais da Esquerda, quase
nada tem.
Este terrorismo também mata e é guerrilheiro,
sobretudo quando conquista algum poder. Assim foi acontecendo nos vários países
europeus, submetidos ao terror nas épocas em que esses movimentos chegaram ao
poder. É uma realidade actual na Europa. Em Portugal também. E não precisamos de
ir mais longe para aprender e apreender o que representam esses fanatismos,
bastando trazer à memória Joaquim António de Aguiar (o Mata Frades), presidente
do Conselho de Ministros, com a sua Lei de extinção das ordens religiosas em
1834; e, numa segunda onda, com a revolução republicana de 1910, onde a
carbonária, apoiada na franco-maçonaria, levou ao poder Afonso Costa (o grande
paladino da luta anticlerical), que prometia erradicar o catolicismo de
Portugal em duas gerações.
Hoje a situação é bastante semelhante no seguidismo
do laicismo francês. Não afirma a nossa «esquerda burguesa» que é preciso
«descristianizar» a nossa cultura e erradicar das consciências «a culpa
católica»? Em nome da liberdade e do progresso, claro! A história ensina o
suficiente: em nome da «Liberté» os génios da Revolução Francesa chegaram até
ao genocídio de Vendeia, por exemplo, a pequena região católica que se lhes
opunha. «Gloriosamente» assassinaram algumas centenas de milhares de pessoas:
«Vendeia morreu sob os sabres da nossa liberdade!». Foi em 1793. Mas de novo,
em 1902, o governo de Émile Combes, apoiando os ideais radicais do Bloco das
Esquerdas (onde terão ido os nossos bloquistas buscar o nome?) e com o auxílio
da Loja maçónica do Grande Oriente de França, lança a grande ofensiva
anti-católica: fecha 3 000 escolas, rompe as relações com Roma, expulsa os
católicos dos cargos públicos, confisca os bens das ordens religiosas. Numa
palavra, promove o Terror fracturante de tudo o que lhe parecesse cultura do
passado e, «evidentemente» católica.
O laicismo francês, tal como o belga e o holandês,
está de novo em alta e aparece como novo paradigma da modernidade a imitar.
Começa por atacar nas questões éticas a fim de eliminar tudo o que possa ser
resquício da moral cristã que «se opõe ao futuro» e que, em nome da «liberdade»
e da «igualdade», o individualismo e o pragmatismo tecnocrático não suportam.
Primeiro é preciso erradicar os sinais sagrados, quer seja a cruz na sala de
aula, quer seja aquela que se traz ao peito. Depois, vem a fúria da legalização
das mais variadas fantasias sobre a vida humana desde a eutanásia às barrigas
de aluguer. E apoiando-se em ideologias sem base na realidade e ignorando (e
rejeitando) qualquer antropologia, pretende-se construir a sociedade moderna,
livre e sem limites. O caso mais típico é o da chamada «ideologia de género»
que haverá de impor, desde o início da escola, com actos e textos de verdadeiro
terrorismo. Essa luta assumida como libertária, contra a cultura e a religião,
serve-se de todos os meios, em especial das redes sociais e da publicidade,
usando, sobretudo contra a religião, a humilhação e o sarcasmo, sob a bandeira
do dogma Liberdade de expressão sem limites, tal como o fazia, exemplarmente, a
Revista Charlie Hebdo.
Nem sempre nos damos logo conta de que o
fracturante é facturante!
Por cá vai-se tentando seguir a cartilha. Faz
impressão ver que o movimento ideológico do Bloco de Esquerda, nem se deu ao
trabalho de branquear o nome. Assim é mais claro em que águas se move. Não é
fácil encontrar nas suas figuras e pensamento os ideais sociais da esquerda.
Mas a pressa em se lançar no terrorismo laicista é bem visível. Salta à vista a
fúria de legalizar (sem escuta dos outros, com publicidade de mau gosto e
fracturando culturalmente o povo) todas as liberdades, não como escolhas de
bens respeitadores da consciência ética personalizante desse povo, mas como
exaltação do orgulho individualista que se arroga o direito de fazer à vida o
que lhe parecer e o que for mais rápido e eficaz, mesmo passando por cima do
sereno debate sobre os valores humanos, considerados «pobres dogmas da
consciência antiquada e clerical». Assim se tenta impor (a votos de maiorias
instaladas e sem discussão ponderada e generalizada) as barrigas de aluguer, a
eutanásia, a igualdade dos pares homossexuais ao casal homem-mulher, etc.
Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra
nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês,
pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica,
afirmando-se como luz (ingénua) portadora de um mundo novo. Apresenta-se com
algum fascínio nos vários países europeus cansados e tristemente desgastados
pela corrupção, como uma alternativa pós moderna. Mas… sem base nem pensamento
credível, arrebanha os desiludidos da vida. É o fogo-fátuo do «Podemos»
espanhol, por exemplo, que ostenta nos seus programas acabar com tudo o que
sejam manifestações religiosas. Em nome da «liberdade», da «autonomia» e da
«dignidade», termos que entendem de modo infantil, dogmático e subjectivo. E
assim oferecem o seu paraíso, o seu século das luzes: descartando tudo o que é
velho, doente, deficiente, não rentável, tudo o que exige gastos «inúteis»,
tudo o que, além disso, pode vir a pedir-nos responsabilidades.
Não deveria esta pequena burguesia olhar para a
história, desenvolver algum pensamento crítico e tornar-se realmente «de
esquerda»? «De esquerda» no sentido de: ocupada com o bem comum, com a justiça
social e fraterna, integradora dos que estão nas margens da sociedade de
consumo, promotora de uma educação realista, mais atenta aos frutos de
humanização que aos resultados de cursos feitos à pressa, capaz de dar tempo a
uma reflexão antropológica… Capaz de abrir os olhos para a realidade e para a história
das culturas que mostram bem como só o amor (respeito pela verdade) é fonte de
futuro, enquanto as ideologias (como a de género) são suicidas!
O caso do cão maltratado
e a exaltação do sadomasoquismo
Pedro Afonso, médico psiquiatra, Observador, 11 de Maio de 2016
É uma incoerência lutar contra os maus tratos a animais, ficando ao mesmo tempo indiferente face a uma cultura que promove a crueldade obscena entre seres humanos, sob inspiração das «sombras de Grey»
O caso do jovem que filmou um vídeo a maltratar um cachorro incendiou as redes sociais, motivou declarações inflamadas de diversas individualidades públicas e quase deu origem a um linchamento popular. Não está em causa repudiar os maus tratos sobre os animais, mas é necessário referir que actualmente a sociedade tem algumas contradições relativamente ao tema da violência que importa debater.
Um dos filmes mais vistos em Portugal no ano passado foi «As cinquenta sombras de Grey», adaptado do romance da autora britânica E. L. James, que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Na sinopse da obra pode ler-se: «Anastasia vê-se envolvida nos prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objecto de desejo do sádico Grey. No entanto, apesar de se deixar levar pelas sensações, ela continua a sua busca do amor verdadeiro…»
A sociedade, que se ergue de forma enérgica contra a violência sobre os animais, é a mesma que assiste, numa aparente indolência acéfala, a um filme que promove a violência perversa de um homem sobre uma mulher. Esta exaltação do sadomasoquismo — que é considerado um desvio do comportamento sexual —, foi inclusivamente incorporada numa estratégia de marketing para divulgação do filme, como uma forma de celebração do dia dos namorados. Um dos cartazes promotores do filme referia: «Perca o controlo». Dito de outro modo, «estimule a sua agressividade, bata-lhe com força, pois esse é um comportamento socialmente aceitável e recomendável». Apesar dos chicotes terem esgotado em várias sex shops britânicas após a estreia do filme, praticamente não se ouviu uma voz de repúdio ou de indignação. A coisa é suspeita. Mas, tal como referiu Ortega y Gasset, as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser nas coisas um pouco velhacas ou um pouco malucas.
Estranhamente, também não se tem procurado relacionar esta autêntica promoção social do sadomasoquismo e o aumento do número de casos de violência no namoro. Por exemplo, as queixas na PSP relacionadas com situações de violência no namoro têm vindo a aumentar. Em 2015 registaram-se 1 680 participações de violência entre casais de namorados, mais 130 face ao ano anterior.
Mas o tema é sério, e foi justamente abordado, através de um artigo publicado em 2013, na revista Journal Womens Health, por um conjunto de investigadores (Bonomi et al.) da Universidade de Ohio. Nesse artigo, intitulado «Double crap!» abuse and harmed identity in Fifty Shades of Grey, os autores referem que a obra revelou a existência de padrões de violência íntima disseminada para com o parceiro seja masculino ou feminino, considerando como um dos maiores problemas dos nossos tempos. Além disso, salientam a existência de um aumento de conteúdos literários com padrões de violência perigosa, que está a ser perpetuada na cultura popular.
Os jovens e os adultos têm de ser alertados para o risco de estarem a ser sub-repticiamente manipulados. Obviamente que não se trata de censurar a criação literária sobre este tema, mas é necessário ter sentido crítico sobre o mesmo. Não se devem promover comportamentos egocêntricos, desviantes e perigosos (todos os anos morrem indivíduos através da prática do sadomasoquismo, principalmente por sufocação) sob o pretexto de um hedonismo ilusório. A violência ofende a dignidade da pessoa humana, pelo que não será através da sua promoção, com publicações de conteúdo erótico, que esta situação se altera.
O sadismo implica a obtenção de satisfação perante um acto real (não simulado) do qual resulta sofrimento físico, psicológico, incluindo humilhação para a vítima. Está associado à perturbação anti-social da personalidade, também conhecida como psicopatia. Nesta perturbação da personalidade existe uma incapacidade para a conformação com as normas sociais, no que diz respeito a comportamentos legais, e habitualmente um longo historial de violação dos direitos dos outros. Podem começar por se expressar antes dos 15 anos, através de atitudes de violência para com as outras crianças e adolescentes — designadamente no namoro — ou para com os animais.
Embora os factores etiológicos sobre a personalidade anti-social sejam complexos, é fundamental que haja censura social sobre quaisquer comportamentos que envolvam violência (inclusive sexual) para se poder prevenir os abusos. As vítimas de violência não são apenas os animais, mas também as pessoas, e principalmente as mulheres. A sociedade não se pode transformar numa incubadora de mentes perversas. É, obviamente, uma incoerência lutar contra os maus tratos aos animais, ficando ao mesmo tempo indiferente perante uma cultura que promove a crueldade obscena entre seres humanos, aceitando que um indivíduo possa aproveitar-se de outro, tratando-o como mero objecto de prazer sexual.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
A desfaçatez intelectual de Pacheco Pereira
Francisco Mendes da Silva, Jornal
de Negócios, 4 de Maio de 2016
No caso de Pacheco, o que hoje orienta as suas
opções políticas é um ressentimento pessoalíssimo contra a geração de Passos
Coelho no PSD.
Numa recente deambulação pelas livrarias de Madrid,
chamou-me a atenção «La Desfachatez Intelectual», uma invectiva do sociólogo
Ignacio Sánchez-Cuenca contra a prepotência e leviandade com que muitos
intelectuais, com prestígio noutras paragens (na literatura, na academia),
comentam a actualidade política. O livro atira sobre gente que aprecio (Vargas
Llosa, Javier Cercas), mas acerta no alvo: às vezes parece que o brilhantismo
literário e o rigor escolástico são fonte de legitimidade para uma espécie de desanuviamento
lúdico e relaxamento das regras da honestidade no ofício menor da análise
política.
No passado sábado, Pacheco Pereira publicou um
artigo que encaixa perfeitamente nesta tese («Para a nossa direita radical o
Papa é do MRPP», Público, 30/04/2016). Segundo Pacheco, os partidos da direita
portuguesa estão sob resgate de uma ideologia radical – o liberalismo
antiestatista – e esse radicalismo é demonstrado pela forma como os apoiantes
do PSD e do CDS se manifestam nas redes sociais, habitualmente entre a infâmia
dos comentadores heterodoxos à direita (Pacheco incluído) e o insulto racista
dirigido a António Costa.
O artigo é um monumento à desonestidade. Desde
logo, não nomeia um único caso de «apoiante» que ilustre a teoria. Aliás, quem
conhece as tais redes sociais percebe que Pacheco alude apenas a duas ou três
pessoas que nem sequer integram qualquer nomenclatura – restrita ou lata – dos
partidos do centro-direita. A ideia é deixar tudo sob uma névoa impressionista
para poder ligar o estilo de uns poucos à estratégia institucional do PSD e do
CDS. E isto enquanto expressamente se absolve a esquerda das mesmas práticas.
Logo a esquerda, que tantas vezes faz política partindo da desonra moral do
adversário (a direita nunca está simplesmente enganada – está sempre a soldo de
interesses obscuros).
O pior da desonestidade do artigo está, porém, na
forma como Pacheco deixa entender que vê a «ideologia» que enjeita. O
radicalismo como arma de arremesso corrente e indiscriminado contra adversários
gera um relativismo perigoso, uma falta de critério que nos deixa desarmados
contra os verdadeiros radicalismos. Pacheco sabe que o liberalismo – a teoria
das liberdades, da economia de mercado e da limitação do poder – está na origem
da emancipação e progresso dos povos. Tem cultura para isso. Tem cultura e tem
passado. Pacheco já foi um falcão neoliberal, um defensor da destruição
criativa do capitalismo. Como as «redes» vieram lembrar, Pacheco já lutou
contra «o socialismo em que vivemos impregnados, e que hoje se chama
'estado-providência', ou 'modelo social europeu', que nos condena à
mediocridade». Pacheco já achou que precisávamos de «mais liberalismo»: sem
mais «crise» (da de que falava Schumpeter) e sem mais «boa» insegurança, não
somos capazes de mudar. O Estado faz tudo para nos poupar a essa insegurança,
e, como toda a Europa, afundamo-nos, pouco a pouco, na manutenção,
geracionalmente egoísta, de modelo social insustentável (Sábado, Outubro de
2005).
O socratismo sem Sócrates?
Rui Ramos,
Observador, 4 de Maio de 2016
O PCP e o BE aprovaram o seu primeiro PEC. Para
Bruxelas, não chega. Virão aí outros PEC, numa escalada semelhante à de
2010-2011? Seria o socratismo sem Sócrates, mas com Jerónimo e Catarina.
A «geringonça» funciona, diz o primeiro-ministro.
Talvez. Mas a que custo? Começámos a descobrir ontem: segundo a Comissão
Europeia, o Estado português não vai, este ano, conseguir dar aos seus credores
provas de que está a evoluir na direcção de finanças sustentáveis, isto é, de
que não precisará de continuar a abusar do crédito para pagar salários, pensões
e serviços. Há quem esteja convencido de que este caminho de previsões
formidáveis, derrapagem na despesa e medidas adicionais só pode culminar num desastre,
sob a forma apocalíptica de um novo resgate, como em 2011.
Talvez convenha admitir que não. O governo parece
esperar que a União Europeia, carregando mais ou menos na «austeridade», nunca
deixará cair Portugal, como ainda não deixou cair a Grécia. Tudo seria,
portanto, uma questão de malabarismo. E há condições para esse malabarismo. Na
última sexta-feira, na Assembleia da República, com cinco anos de atraso, o PCP
e o BE aprovaram finalmente o PEC 4 – através do expediente de impedir que
houvesse votação. Em Março de 2011, comunistas e bloquistas abraçaram-se com a
direita para derrubar o PS; agora, escolheram o governo e os seus PEC. António
Costa pode assim reatar com o tipo de governação que José Sócrates iniciou em
2010: uma escalada de Programas de Estabilidade (entre 2010 e 2011, foram
quatro em pouco mais de um ano), enquanto ao mesmo tempo anuncia
«qualificações» e «investimentos». Vai ser o socratismo sem Sócrates, mas com
Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.
Em 2011, com os mercados à solta, a maré dos juros
subiu e houve que deitar mão à boia da Troika. Mas este ano, com os mercados a
dormir o sono do BCE, o ambiente é mais propício. Agora, quando as obrigações a
10 anos sobem «vertiginosamente», andam nos 3%; em 2011, a média foi de 13%.
Nestes números, está tudo o que é preciso saber sobre o funcionamento da
geringonça: há a folga que faltou em 2011 para maquilhar a austeridade.
As facturas vão aparecendo, como a do imposto sobre
os produtos petrolíferos. Mas por enquanto, chega a cuidadosa separação entre o
que se diz em público em Portugal e o que se diz em segredo na Europa. Já foi a
estratégia de Sócrates em 2010-2011. E quando se tornar óbvio que o crescimento
económico nunca será mais do que uma previsão estival e for necessário largar
as repartições de finanças às canelas do país? Que se faz então? Faz-se o que
tem feito o Syriza: um confronto arrastado com a Europa, sem rupturas mas com
muita atitude, de modo a trespassar as responsabilidades para Bruxelas e a
empurrar todos os críticos para a esquina vergonhosa da traição à pátria. A
certa altura, a população cansar-se-á. Mas cansar-se-á com todos, e não apenas
com o governo, o que dará à geringonça margem para persistir, como o Syriza na
Grécia.
terça-feira, 3 de maio de 2016
Parabéns, António
João Pereira Coutinho, Correio da Manhã, 30 de Abril de 2016
António Costa ficará para a história: BE e PCP já são europeístas
António Costa ficará para a história. Para começar, conseguiu fazer um governo com o apoio do Bloco e, Deus meu, do PC. Mas isto, que é notável, não se compara ao milagre de ontem: a esquerda radical, que andou dias e dias a rejeitar o Programa de Estabilidade, acabou por apoiá-lo contra o projecto de resolução do CDS. É verdade: Costa conseguiu fazer do PC e do Bloco dois partidos europeístas, que acatam as «ingerências» de Bruxelas com a mansidão própria dos partidos «burgueses». Comentários? Apenas dois. O primeiro é que os princípios dos comunistas, por mais rígidos que sejam, transformam-se em pó quando o ódio à «direita» fala mais alto. O segundo é que, daqui em diante, quando os portugueses apanharem com mais «austeridade», não será possível escutar os gemidos de Jerónimo ou Catarina com cara séria. Parabéns, António. Contra todas as previsões, foste tu que os comeste.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Offshores, a última conquista de Abril
Helena Matos, Observador, 1 de Maio de 2016
Ironias de Abril, em 1974, nem empresários nem políticos tinham dinheiro fora de Portugal. Hoje as elites não acreditam no país quanto baste para lhe entregar o seu dinheiro.
Quem ouvisse a conferência de imprensa dada pelos ministros Mário Centeno e Eduardo Cabrita esta quinta-feira acreditaria que os offshores são um assunto da maior relevância para a saúde das finanças públicas portuguesas. Compromissos com Bruxelas acerca do deficit, detalhe das medidas avançadas no Plano de Reformas e no Programa de Estabilidade, quais impostos vão aumentar… nada disso importou. O que havia para anunciar era uma série de medidas para combater os offshores.
Neste Abril de 2016 partimos literalmente falando à conquista dos offshores.
Convenhamos que a técnica não é nova: face às más notícias ou à necessidade de criar uma barreira protectora em torno dos governantes criam-se ou sobredimensionam-se factos que cumprem o papel de inimigos úteis. Rapidamente se instala um ambiente de cruzada. Como se todos os problemas do país estivessem concentrados nos offshores. Mas os offshores são apenas um capítulo – o mais recente – numa longa lista de inimigos úteis que, uma vez derrotados, permitiriam ao país seguir em frente.
Quem não se recorda do problema das multinacionais? As multinacionais eram «a face mais negra do capitalismo». Apedrejar as instalações das multinacionais – para mais muitas delas com ligações à CIA – quando não fazer-lhes explodir uns escritórios era um acto legítimo de resistência. Quase uma questão estética. Ninguém de bom senso defendia as multinacionais. Estas apenas vinham para o nosso país – e para os demais – explorar o povo, as riquezas nacionais e mandar nos governos.
Depois, quando já ninguém as contestava, as multinacionais, verdadeiros espíritos de contradição, começaram a ir-se embora. Aí nasceu a indignação com a deslocalização. Então as multinacionais iam-se embora? Não podia ser. Tanto mais que, oh cúmulo do horror!, as empresas nacionais iam-lhes no encalço.
A deslocalização das empresa protagonizava agora «a face mais negra do capitalismo». A mesma face que até há pouco era representada pelas mesmas empresas quando se tinham resolvido localizar naqueles países de que agora deslocalizavam. Mais uma vez houve um consenso: a deslocalização era um crime e os países deviam criar mecanismos para combater a deslocalização, explicavam os mesmos que anos antes demonstravam as vantagens de nos vermos livres das multinacionais e de se estancar a sua vinda. Aliás, se houvesse uma verdadeira coordenação europeia – afirmavam – as empresas não deslocalizariam porque seriam penalizadas por isso. Tal como no passado deviam ter sido impedidas de se instalar aqui. Complicado? Então preparem-se para essa saga nacional que foi a luta contra os intermediários, os grandes grupos económicos, a ausência de grandes grupos económicos e as empresas de vão de escada.
Comecemos pelos intermediários. Nos anos 70, acabar com os intermediários era um desígnio nacional, um verdadeiro consenso, uma necessidade absoluta. Os jornais enchiam-se com artigos que comparavam os preços pagos aos produtores versus os preços por que eram vendidos os produtos e, indignadas, as forças vivas do país concluíam que os lucros iam para os intermediários, logo havia que eliminar os intermediários. Houvesse a coragem de acabar com os intermediários e o povo passaria a viver muito melhor.
Para a oposição a Marcello Caetano o intermediário era mais um exemplo da perversão do regime. Para o regime, o intermediário era um símbolo de cupidez pouco compatível com o Estado Social que Marcello Caetano lançara. E assim, em Abril de 1973, em pleno choque petrolífero, a inflação em Portugal nascia, segundo as almas bem pensantes e de bom coração, não de qualquer crise nos combustíveis mas sim da maldade dessa figura que se acoitava algures entre o bom produtor e o comerciante.
Para contrariar a inflação dos bens alimentares, a Junta Nacional das Frutas não só tabelou os preços dos legumes e das frutas como criou uma rede – os postos da Junta – onde, livres de intermediários, se passaram a vender legumes e frutas. Infelizmente não houve maneira de convencer as mulheres portuguesas (quem na época fazia as compras) a trocar as mercearias, os mercados e os novos e apelativos supermercados por aquelas barraquinhas de folha onde, na falta de compradoras, os legumes murchavam e as frutas definhavam.
Vieram as chuvas e os postos da Junta foram-se enchendo de ferrugem. Caiu o regime que os viu nascer, foi extinta a Junta Nacional das Frutas, acabou o PREC e os postos lá se mantinham de pé. Sem frutas nem legumes mas com muita ferrugem e muitos ratos. Vários anos depois ainda andavam os executivos municipais a decidir o que fazer com os velhos postos. Como na época não havia o conceito de loja histórica os postos da Junta foram sendo retirados. Tal como desapareceram também os postos da UCAL que, para quem não saiba o que era, se tratava de umas lojas altamente históricas destinadas a vender, livres de intermediários, leite e manteiga. Sendo que manteiga às vezes havia e o leite invariavelmente faltava. Mas o desaparecimento dos postos da Junta Nacional das Frutas e da UCAL foi uma perda irreparável. Nem sei como não os ressuscitam!
Mas descansem as almas inquietas com a exploração do povo: o país não tinha desistido de combater os intermediários. Apenas se tinha dotado de mecanismos mais eficazes e estruturas mais organizadas para esse combate. Ou seja, o país apostava agora nas cooperativas de consumo. A dado momento tornou-se mesmo um frenesi: havia cooperativas para todos os gostos e até socialmente diferenciadas: ter o cartão da cooperativa dos bancários era quase um emblema de pertença à nova classe média. Já frequentar as cantinas da PSP funcionava como uma introdução à Roménia de Ceausescu!
Como se sabe as cooperativas feneceram porque não aguentaram a concorrência com os grandes supermercados e hipermercados, nomeadamente com os do senhor Belmiro de Azevedo, onde qualquer pessoa desejosa de parecer bem e com vários cartões de várias cooperativas jurava que nunca entraria. Com tanta mudança os intermediários foram esquecidos como ódio de estimação. De certo modo o ódio, tal como o casamento, para ser eficaz deve ser monogâmico. E assim os intermediários foram substituídos pelas empresas de vão de escada, como flagelo nacional a que sobre todos os outros havia que pôr fim.
Portugal não se desenvolvia porque estava cheio de empresas de vão de escada. Para mais as empresas de vão de escada eram invariavelmente propriedade dos empresários mais ignorantes e estúpidos do mundo. Para a determinação do grau da estupidez dos empresários portugueses concorria, segundo os abalizados especialistas em «vaõdescadologia» que povoavam os jornais e a televisão, o facto de os empresários por serem estúpidos não arriscarem e não investirem em tecnologia e mão-de-obra qualificada.
Estavam as coisas neste ponto do diagnóstico sobre os malefícios do vão de escada, quando se detecta outro fantasma pairando sobre o país. Era ele protagonizado pelas empresas que fazendo grandes investimentos em tecnologia recorrem a pouca mão-de-obra. Logo os mesmos sábios pedem legislação que penalize estas últimas empresas que não contribuem como deviam para a Segurança Social porque, recorrendo a muita tecnologia, usam pouca mão-de-obra.
Note-se que este combate às empresas de vão de escada que recorrem a muita mão-de-obra (mal paga) a que se seguiu o combate às empresas que incorporam muita tecnologia e pouca mão-de-obra (melhor paga), fora precedido pela batalha fundadora contra os grandes grupos económicos.
Em 1974 o nosso problema eram os grandes grupos económicos. Havia que nacionalizar os grupos económicos, donos de Portugal. Os seus fabulosos lucros pertenciam ao povo e ao povo deviam ser devolvidos. Os grandes grupos económicos (e também os grupos médios, os pequenos e até lavandarias, barbearias e sapatarias) foram nacionalizados. Infelizmente para o povo os lucros fabulosos ou mesmos só os lucros pequenos ou até residuais é que nem vê-los pois logo se transformaram em gigantescos prejuízos.
Em resumo, Portugal, que primeiro não se desenvolvia por causa dos grandes grupos económicos e das multinacionais passou a não se desenvolver por causa da deslocalização das multinacionais e de não termos grandes grupos económicos e apenas empresas de vão de escada. Depois passámos a não nos desenvolver porque as empresas que já não eram grandes grupos económicos nem de vão de escada passaram a investir mais em tecnologia e menos em mão-de-obra barata, pelo caminho os intermediários devem ter ido à vida deles felizes por mais ninguém os culpar de coisa alguma.
Convenhamos que todos estes combates se inseriam num combate maior: o que visava extinguir a exploração do homem pelo homem. Acabar com os patrões ou seja com os exploradores era o meio mais que certo para acabar com a exploração do homem pelo homem. Boa parte da massa cinzenta deste rectângulo ocupou-se durante anos de questões relevantíssimas como: serão todos os patrões exploradores? Serão exploradores os patrões que apenas têm um ou dois empregados e até trabalham ao seu lado? Não serão esses patrões também umas vítimas do sistema? Qual sistema? O da exploração…
Apesar do consenso a exploração do homem pelo homem não só não terminou como foi esquecida. Hoje ninguém se preocupa com a exploração porque agora o que conta é que o explorador pague impostos. A fuga ao fisco (ou a simples expressão do desejo de pagar menos impostos) tornou-se a fonte de todos os problemas, não apenas do país, não apenas da Europa, não apenas do hemisférios norte mas sim de todo o mundo. Até o facto de haver pessoas que procuram legalmente pagar menos impostos se tornou um crime. E assim, neste Abril de 2016, partimos para mais um combate. A saber o da luta contra os offshores. Outros se seguirão. Tanto mais que cada vez teremos de ir buscar o dinheiro mais longe: ironias de Abril, há quarenta e dois anos, em 1974, nem empresários nem políticos tinham dinheiro fora de Portugal. Hoje os portugueses confiam no regime que têm mas as suas elites não acreditam no país q.b. para lhe entregar o seu dinheiro. E a avaliar pelos dados revelados pelo Ministério das Finanças neste final de Abril é bem provável que mais dinheiro esteja já a sair: de 2010 a 2014, mais de 10.200 milhões de euros saíram de Portugal para serem aplicados em sociedades offshore. Mas esse dinheiro não saiu regularmente: o maior volume de transferências aconteceu em 2011, com mais de 4.600 milhões de euros. E o mais baixo volume de transferência aconteceu em 2014, ano em que apenas cerca de 373 milhões de euros foram transferidos para offshores. Percebido?
Moral da História: o dinheiro a sair dos países é o primeiro sinal da crise que está a vir. Não admira portanto que se tenha falado de offshores na estrambólica conferência de imprensa dada por Mário Centeno após esse dia surreal em que o parlamento aprovou o Programa de Estabilidade. E ainda menos admira que precisemos de um inimigo para nos distrair da realidade. Mais do que fugir dos impostos em Portugal o dinheiro foge das crises. E Mário Centeno sabe-o.
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