quarta-feira, 28 de setembro de 2016


As ideias de Trump


Jaime Nogueira Pinto, Diário de Notícias, 26 de Setembro de 2016

Ao contrário dos conservadores do establishment que não se atrevem a pegar nas questões nacionais e a falar aos deplorables, Trump conseguiu chegar aos homens comuns, em guerra com as elites, que os abandonaram.

Segunda-feira, 26 de Setembro, pelas 09:00 da noite (duas da manhã do dia 27, hora de Lisboa), vai dar-se o já chamado «debate do século»: Hillary Clinton versus Donald Trump. O duelo de 90 minutos vai ser moderado por Lester Holt, do NBC Nightly News.

Continuidade e ruptura

O centro da campanha eleitoral é a política interna mas a política externa conta sempre e Hillary procurará levar a conversa para aí — e daí para a alegada ignorância e inexperiência de Trump e para o facto de alguns dos mandarins do establishment republicano e conservador da Defesa, dos Negócios Estrangeiros e da Intelligence o criticarem ao ponto de admitirem cruzar a linha da lealdade partidária. É o que farão o general Brent Scowcroft, ex-NSC de George H. Bush, e Richard Armitage. Também Chester Crocker e Eliot Cohen, sem que tivessem apoiado Clinton, exprimiram já reservas quanto à capacidade geopolítica de Trump.

A política exterior de Hillary será uma política de continuidade, na linha do internacionalismo liberal: business as usual em relação aos seus predecessores — Obama mas também George W. Bush, que, com toda a família, tem combatido Trump. E os Bush contam na Florida, onde Hillary e Trump estão empatados.

Mas terá Trump uma política externa além das invectivas anti-islâmicas e antilatinas? Será Trump apenas um retórico básico, que ameaça tudo e todos com muros e fronteiras, que combate o livre comércio e proíbe os muçulmanos de entrarem nos Estados Unidos?

Joshua Mitchell, politólogo de Georgetown, publicou no Politico Magazine um texto intitulado «Donald Trump does have ideas — and we’d better pay attention to them».

O regresso da fronteira

Começando por citar Tocqueville — «na América as ideias são uma espécie de poeira mental» —, Mitchell enumera os programas políticos reduzidos a slogans das sucessivas administrações: New Deal (Roosevelt), Containment (Truman), New Frontier (Kennedy) War on Poverty (Johnson), Silent Majority (Nixon), Star Wars (Reagan). Para Mitchell, Trump tem de facto ideias, só que são ideias fora ou contra o sistema: contra a globalização, as «identidades», a political correctness e o consenso bipartidário em política externa. Mitchell resume assim o ideário de Trump:

1. As fronteiras e a política de imigração têm importância.

2. Os interesses nacionais devem passar à frente dos chamados interesses globais.

3. O empreendedorismo e a descentralização são essenciais.

4. O discurso politicamente correcto é hipócrita e irrealista e deve ser repudiado.

Depois da vitória na Convenção republicana, Trump teve um péssimo mês de Agosto, causado pelos seus desmandos retóricos contra grupos étnicos, americanos e estrangeiros e pelo seu pronto aproveitamento pelos media.

Hillary ultrapassou-o, assumindo uma liderança confortável, entre oito e dez pontos, mas a partir da mudança da equipa de conselheiros e estrategas, do encontro com o presidente Peña Nieto do México e de uma maior cautela na comunicação, Trump recuperou: não só no confronto nacional, onde está colado a Hillary, como, e mais importante, em swing states, como a Florida, o Ohio e a Carolina do Norte.

Porque é que Trump, apesar de Trump ou pour cause, conta, e porque é que o seu discurso é eficaz? Primeiro porque as fronteiras contam para a identidade política, para a soberania e para a segurança e depois porque a desregulação teve efeitos trágicos na economia e na sociedade americanas, desertificando cidades e regiões industriais. Trump e Saunders pegaram no tema e até Clinton passou a anunciar medidas punitivas para os deslocalizadores e a deixar passar um certo cepticismo quanto aos tratados projectados de comércio livre.

Da imigração

Os Estados Unidos — e o resto das Américas — foram feitos por imigrantes, pelas dezenas de milhões de emigrantes europeus que ali aportaram, entre o fim das guerras napoleónicas e a Grande Guerra de 1914-1918. Michael Cimino, o realizador de The Deer Hunter e de Heaven’s Gate, defendia essa teoria — os americanos eram os imigrantes, melhor, os filhos dos imigrantes. Só que uma coisa foi a chegada às terras grandes e vazias do continente de famílias de europeus cristãos, trabalhadores, cheios de esperança e de vontade de vencer; outra, é a imigração de hoje, tantas vezes controlada por máfias criminosas de passadores e explorada por empresários sem escrúpulos que alimentam o sistema dos ilegais que lhes baixam os custos do trabalho.

O controlo da imigração não é xenofobia é um direito do Estado e os imigrantes já não são aquilo que talvez nunca tivessem sido mas que, ainda assim, ainda era passível de idealização: a bela fraternidade eslava do Deer Hunter, a caçar veados nas frias manhãs da Pensilvânia, em vésperas de partir para o Vietname.

Trump argumenta que a elite bipartidária internacionalista – políticos, banqueiros, jornalistas – redireccionou interesseiramente as lealdades políticas para uma suposta humanidade ou uma vaga consciência universal em vez do que para ele devia estar no vértice da lealdade política: a nação próxima e concreta, a humanidade possível.

Heresia económica

Puxando pelos seus galões (para alguns discutíveis) de empresário de sucesso, Trump sustenta que uma baixa radical dos impostos trará de volta à América capital emigrado para as periferias baratas ou aparcado em paraísos fiscais. Grande parte da sua agenda económico-social contradiz a ortodoxia do GOP, que preza a liberdade de comércio e as virtudes da globalização. Ao defender uma economia regulada, que proteja as indústrias e os empregos americanos na América, Trump sabe que está a incorrer em pecado mortal; sabe também que reincide nas ofensas graves ao mercado livre quando propõe a subida dos salários, a segurança social e a assistência médica, embora com privatização parcial.

Tudo isto lhe valeu a desconfiança de grandes doadores republicanos, como os irmãos Koch. No fim de Agosto, Hillary tinha reunido 542 milhões de dólares e Trump 402 milhões.

Mas além da questão nacional, o ponto em que Trump mais se distingue de Hillary é na guerra à correcção política. Nesse sentido, Trump é muitas vezes o inimigo número um de Trump. Não se pode — sobretudo quando se tem a inimizade de 80% dos media norte-americanos e de 90% dos internacionais — desqualificar um juiz americano porque é de origem mexicana; ou falar em proibir de entrar no país um quarto da humanidade (em que se incluem alguns dos grandes investidores e aliados dos EUA) só porque é muçulmana.

Embora a correctíssima Hillary não se tenha inibido de insultar outros muitos milhões de patrícios seus num círculo de progressistas chiques de Nova Iorque, chamando «deplorables» e racistas aos partidários de Trump, há que considerar o desconto de que beneficia entre os comunicadores, sempre benevolentes para com estes e outros «pecadilhos» da candidata democrata, como as histórias confusas dos e-mails do State Department e da Fundação Clinton.

De um modo rude, às vezes brutal, às vezes errático, Trump pegou na outra realidade política. Os Estados Unidos e a Europa são orientados intelectualmente por um pensamento único, que soube e sabe apresentar os seus preconceitos ideológicos como princípios nobres e verdades universais. A Realpolitik que voltou a regular o mundo é tabu no Ocidente. Daí a revolta das classes médias e trabalhadoras.

O candidato Trump tem ares e modos de spoiled child, de filho de pai rico, arrogante, extravagante e solipsista. Hillary é de outro género – uma mulher fria, determinada e ambiciosa, uma Lady Macbeth que joga todas as cartas, até a feminista. Qualquer um dos dois tem mais inimigos do que amigos entre os eleitores.

No entanto, ao contrário dos conservadores do establishment que não se atrevem a pegar nas questões nacionais e a falar aos deplorables, Donald Trump conseguiu chegar aos homens comuns, em guerra com as elites, que os abandonaram. Até talvez por ser um filho pródigo dessas mesmas elites, um outcast aventureiro, um extraterrestre a quem tudo é censurado mas logo depois também desculpado. A 9 de Novembro saberemos o fim desta história.






Que PS vamos ter?


João Marques de Almeida, Observador, 25 de Setembro de 2016

Enquanto o PS não se reformar, e deixar de ser o partido moldado por Sócrates e por Costa para estar no poder a todo o custo, será um problema, e não uma solução, para Portugal.

Esta é, para mim, a questão central da política portuguesa. Bem sei que a Mariana Mortágua excita muita gente, como se viu na semana que passou (e, especialmente, os meus e as minhas camaradas de escrita do Observador). Mas, e espero que a Mariana não leve a mal, as suas intervenções públicas recentes foram irrelevantes. O apelo ao fim do capitalismo apenas confirmou o que muitos de nós, no Observador, temos escrito nos últimos meses. O Bloco de Esquerda é um partido marxista. É natural que uma política do BE defenda o fim do capitalismo. Alguma surpresa? Não o sabíamos? Ficaria admirado com o contrário. Se um dia a Mariana Mortágua defender a City e os grandes bancos, isso seria notícia. Admito que o PM se tenha interrogado se afinal o BE saltou o Muro. Quanto ao resto, nada de novo.

Se o apelo ao fim do capitalismo não constitui qualquer novidade, o anúncio de um novo imposto imobiliário é irrelevante. Como bem disseram vários dirigentes socialistas, é ao governo que compete definir a política fiscal. Se o executivo de Costa não quiser, não haverá novos impostos. Isso é que conta.

Chegamos assim às questões relevantes: que partido é o PS hoje? O que quer para o país? Todos sabem o que é o PCP e o que quer. No outro lado do sistema politico, também se sabe o que o PSD e o CDS pensam e o que querem para Portugal. Mas sobre o PS, não se sabe. Fez campanha eleitoral contra o aumento da dívida pública, mas esta não pára de subir desde que Costa chegou a São Bento. O PS passou quatro anos a atacar a obsessão com o défice do anterior governo, mas mostra agora a mesma preocupação. Afirmou que a economia cresceria com o consume interno, mas agora mostra gráficos para dizer que é o campeão das exportações. O PS continuará a ser um partido europeísta empenhado no respeito pelas regras do Euro? Ou será um partido aliado do Syriza nas pretensões de mudar as regras da zona Euro? Não é possível estar com todos durante muito tempo. Mais tarde ou mais cedo, estas contradições terão custos políticos elevados, para o PS e para Portugal.

Mas os problemas do e com o PS não começaram com a geringonça. Convém não culpar a aliança com o BE e com o PCP por tudo o que de negativo existe com os socialistas. O PS começou a mudar com os consulados de José Sócrates. A identidade ideológica tornou-se secundária, senão mesmo irrelevante, e o partido tornou-se essencialmente uma força de poder. Sócrates não é um político de direita, nem de esquerda; é um homem de poder. A sua popularidade no PS resulta mais do seu lado tribal do que de uma dimensão ideológica socialista ou social-democrata, que nunca teve e jamais terá. E, como mostraram os últimos dias, depois de Costa, Sócrates ainda é a segunda figura com mais poder no PS.

Costa continuou o projecto socrático. O seu PS é acima de tudo uma força política de poder. A formação da geringonça não resultou de uma viragem para a esquerda, mas da necessidade absoluta de regressar ao poder, custasse o que custasse. Entre 1995 e 2011 (16 anos), o PS só esteve fora do governo durante dois anos. O partido de 2011 não tem nada a ver com o partido de 1995. Ninguém sabe o que aconteceria ao PS se estivesse oito anos seguidos fora do poder. Mas foi claro em Outubro passado que essa hipótese aterrorizou os socialistas e resolveram fazer a única coisa que poderia ser feita para voltarem ao governo. Não foi apenas Costa que quis ser PM, o partido quis ser governo com a mesma vontade desesperada do seu líder. Se um dia Passos Coelho deixar de ser líder do PSD, se o PS for o maior partido e a nova liderança do PSD estiver disponível, Costa fará um bloco central com a mesma naturalidade com que se aliou ao PCP e ao BE. A geringonça é uma aliança de poder, não é uma coligação ideológica.

Se aparentemente o PS parece estar a aproximar-se do esquerdismo do BE, na verdade o Bloco é que está a caminho de se tornar num partido de poder, deixando de ser apenas uma força de protesto. O embrulho tem tons ideológicos, mas a substância é o poder. O discurso ideológico do BE apenas esconde a sua transformação em partido de poder. E não haja dúvidas. Estarão dispostos a aceitar qualquer exigência de Bruxelas em relação ao Orçamento para continuarem no poder. A Mariana foi pedir ao PS para se transformar, mas no fim o PS é que mudará a Mariana, como ela bem sabe. Eles ainda não saltaram o Muro mas Costa é capaz de acabar por ter razão. Um dia vão mesmo saltar.

A redução do PS a partido de poder tem duas consequências nefastas para o país. Só abandona o governo quando chega o desastre. Foi assim com o «pântano» de Guterres em 2002 e com o resgate de Sócrates em 2011. Costa sairá quando ocorrer um novo desastre. E costuma ser repentino. Em segundo lugar, e mais grave, o PS tornou-se num partido anti-reformista, quando o país precisa de reformas com urgência. É o partido do status quo e uma força política profundamente conservadora. O PS quer estar no poder para manter tudo como está. O PS é tudo ao mesmo tempo, capitalista e anti-capitalista, nacionalista e europeísta, aliado de Tsipras e de Merkel, e tudo fará para estar no governo. Enquanto o PS não se reformar, e deixar de ser o partido moldado por Sócrates e por Costa para estar no poder a todo o custo, será um problema, e não uma solução, para Portugal. Nem depois do que aconteceu entre 2009 e 2011, o PS foi capaz de mudar. Este é o problema dramático da política portuguesa. Esqueçam os discursos da Catarina e da Mariana. São exercícios irrelevantes.





segunda-feira, 26 de setembro de 2016


A bloquização do PS


André Azevedo Alves, Observador, 24 de Setembro de 2016

O PS está a atirar para o caixote do lixo o seu legado na construção do actual regime democrático, feita contra a mesma extrema-esquerda revolucionária de que passou a depender para se manter no poder

À medida que a realidade diverge cada vez mais das previsões e promessas do PS e que o descarrilamento das contas públicas face aos objectivos traçados para o défice e para a dívida se torna cada vez mais evidente, não surpreende que a discussão sobre o agravamento de impostos esteja na ordem do dia. É verdade que esse agravamento de impostos viola também o que o PS prometeu aos eleitores mas desde o início de funções do actual governo se percebeu que a inversão das políticas anteriores e a distribuição de benefícios pelos grupos e interesses favoritos da «geringonça» implicaria o agravamento da factura apresentada aos contribuintes. Nada de novo ou particularmente surpreendente nesta frente, portanto.

Aquilo em que a exibição de Mariana Mortágua numa conferência promovida pelo PS constituiu novidade foi a forma como a discussão sobre o aumento da carga fiscal que se perspectiva foi colocada. Com retórica mais própria de um assaltante à mão armada do que de um parlamentar numa democracia liberal, a deputada Mortágua não podia ter sido mais clara nas instruções que deu à sua audiência socialista: «a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro».

Não é uma declaração irrelevante porque o Bloco de Esquerda já não é apenas um partido de protesto que integra vários movimentos de extrema-esquerda. Não é irrelevante porque com a «geringonça» o BE – tal como o PCP – passou a ser um partido com influência directa sobre a governação do país. Não é irrelevante porque a retórica inflamada e revolucionária de Mariana Mortágua foi aplaudida pela audiência presente na conferência organizada pelo PS e porque a liderança desse mesmo PS não se demarcou de imediato dessas declarações (ainda que, honra lhes seja feita, ainda resistem algumas vozes dentro do PS que o fizeram).

Mas Mariana Mortágua foi ainda mais longe: proclamou bem alto a necessidade de uma alternativa ao capitalismo e explicou que a causa da pobreza é a existência dos «ricos». Queixou-se de que as suas declarações foram distorcidas uma vez que taxar riqueza acumulada não seria a mesma coisa que taxar poupança. Em sentido estrito, trata-se de uma afirmação verdadeira: se a riqueza acumulada em causa for resultado de um crime – por exemplo, de um assalto a um banco – não estamos perante poupança. Mas, no contexto das actividades económicas lícitas, a acumulação de riqueza dá-se precisamente por via da poupança.

O ataque de Mariana Mortágua contra a poupança esconde por isso um outro julgamento: o de que a generalidade da actividade económica no contexto dum sistema capitalista é intrinsecamente ilegítima. Só isso justifica a condenação generalizada da acumulação da riqueza. Juntem-se as declarações de Mortágua à afirmação por parte de Catarina Martins de que comprar casa não é investimento e aos planos para dar acesso ao fisco aos dados de quem tenha contas bancárias que superem os 50 mil euros e ficamos com uma ideia mais clara das intenções e objectivos da «geringonça» neste domínio.

Sinalizar que se pretende, em última instância, expropriar por via fiscal as poupanças acumuladas pelas famílias (sejam sob a forma de depósitos bancários, casas ou outras) não é apenas economicamente irracional e financeiramente suicidário para o Estado português na situação actual. É também sintomático do movimento de radicalização da esquerda que a «geringonça» colocou em marcha. Já não se trata «apenas» de uma questão de maximizar o saque fiscal no contexto de uma economia de mercado com pesada intervenção do Estado. Com a «geringonça» a discussão está gradualmente a mover-se para campos progressivamente mais radicais: trata-se agora de colocar na ordem do dia da governação as ambições revolucionárias de longa data da extrema-esquerda.

Em 2009, o socialista João Galamba ainda se demarcava claramente das ideias, propostas e métodos da extrema-esquerda: «É uma fantasia achar que se resolve o problema da pobreza e das desigualdades criando um escalão de 45% de IRS e um imposto sobre as grandes fortunas. Os nossos problemas também não se resolvem nacionalizando a banca, os seguros e o sector energético — e muitos menos se resolvem introduzindo mecanismos de controlo administrativo e burocrático dos juros. Em tudo o que cheire a economia a solução do BE é sempre a mesma: estatismo e penalização da iniciativa privada.»

Em 2016, o primeiro-ministro António Costa já não tem qualquer pudor – Mariana Mortágua certamente terá aplaudido a falta de vergonha – em descrever o seu modelo de sociedade usando deliberadamente terminologia marxista e o PS parece estar num processo de bloquização acelerada. Pelo caminho, o PS atira para o caixote do lixo o seu próprio legado na construção do actual regime democrático contra a mesma extrema-esquerda revolucionária de que passou a depender para se manter no poder. Um caminho que pode arrastar Portugal para um desfecho bem mais grave do que um segundo resgate.

https://www.youtube.com/watch?v=kNUB3yp3Gfk






sábado, 24 de setembro de 2016


Costa usa definição de comunismo

para descrever a sua sociedade ideal


António Costa definiu no debate quinzenal no Parlamento um modelo de «sociedade decente» que é o mesmo definido por Karl Marx como sendo o do estádio supremo do comunismo. Quase palavra por palavra.



José Manuel Fernandes, Observador, 23 de Setembro de 2016

Foi na resposta à última pergunta de Assunção Cristas durante o debate quinzenal desta quinta-feira. A certa altura António Costa quis definir o que, para ele, era uma «sociedade decente». E fê-lo nos seguintes termos: «é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades».

A frase, contudo, não é original: é de Karl Marx e foi escrita em 1875 num dos seus panfletos mais influentes, a Crítica ao Programa de Gotha. Aí ele também define a sociedade que deseja: «De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades».

Pormenor importante: a sociedade a que Marx se referia não era a sociedade socialista, mas sim a utópica sociedade comunista.

Vale a pena ler (e comparar) não apenas aqueles dois extractos, mas as frases inteiras, começando por António Costa, 22 de Setembro de 2016:

Entender que é absolutamente essencial trabalhar, é essencial investir, que é importante poupar, que é boa uma sociedade de iniciativa, mas também quero uma sociedade que seja decente e uma sociedade decente é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades. E que a prosperidade gerada por todos possa ser justamente partilhada por todos. Foi esta sociedade que eu aprendi na minha casa a acreditar».

E agora Karl Marx, no Crítica ao Programa de Gotha, 1875:

Quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza colectiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.»

Este texto do autor do Manifesto do Partido Comunista e de O Capital tem um significado especial pois o Programa de Gotha a que se refere é o programa que seria aprovado no congresso que daria origem ao Partido Social-Democrata alemão. Marx considerava, na sua crítica violenta aos socialistas alemães, que esse programa não correspondia a uma plataforma revolucionária, antes a um compromisso reformista baseado no «revisionismo» dos fundamentos essenciais do marxismo. Mais: para Marx era necessário, para chegar ao socialismo e ao comunismo, passar por uma fase que designou como «ditadura do proletariado», conceito que, de resto, desenvolve nessa sua obra.

Vivíamos uma época em que o movimento socialista se começava a dividir: de um lado, os revolucionários que seguiriam a linha mais ortodoxa defendida por Marx na sua crítica à plataforma dos social-democratas alemães; do outro lado, os socialistas reformistas que preconizavam mudanças graduais, favoráveis aos trabalhadores, no quadro de regimes democráticos. Os primeiros dariam origem aos partidos comunistas, os segundos aos partidos socialistas e social-democratas que seriam centrais nas reformas que levariam aos modernos Estados Providência.

Para Marx, na sua Crítica ao Programa de Gotha, uma sociedade que funcionasse de acordo com o princípio «de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades» corresponderia ao estádio supremo do comunismo, tendo mais tarde Lenine, o fundador da União Soviética, popularizado essa definição. Fê-lo, nomeadamente, numa das suas obras mais conhecidas, O Estado e a Revolução, onde cita aquela passagem do livro de Marx antes de explicar que, para chegar a essa sociedade ideal, era necessário passar por várias fases, nomeadamente a «expropriação dos capitalistas» e o controlo pelo Estado de todas as forças produtivas.

Já o socialismo, mesmo sendo visto como uma fase de transição para o comunismo, caracterizar-se-ia antes por ser aquela sociedade onde cada um receberia de acordo com a sua contribuição. A concretização desse princípio não supunha – o que mereceu a crítica de Marx – a superação daquilo que designava como a «ordem burguesa».

Refira-se ainda que a intervenção de António Costa surgiu depois de Assunção Cristas lhe ter pedido para se diferenciar dos que, na esquerda radical, acham que «para acabar com a pobreza é preciso acabar com a riqueza».

Quanto à referência ao que aprendeu «em casa», recorde-se que António Costa é filho de Orlando Costa, escritor e militante do Partido Comunista, e de Maria Antónia Palla, jornalista que sempre foi próxima do PS.





segunda-feira, 19 de setembro de 2016


VOLTA, LULA!


O actor Marcelo Madureira publicou

o que segue sobre o Lula.


Não deixem de ler e compartilhar!!


Muita gente está pedindo: Volta, Lula!(?)

Volta, Lula! e traga de volta as duas refinarias que você doou à Bolívia!

Volta, Lula! e traga de volta os 1,2 mil milhões de dólares que você «emprestou» a Hugo Chávez!

Volta, Lula! e traga de volta os mil milhões de dólares que você mandou para Cuba, Haiti e outros, porque aqui também há crianças morrendo de anemia;

Volta, Lula! e traga de volta os 10,6 bilhões de reais que você emprestou para o Eike Batista (seu testa de ferro) e que agora está em situação pré-falimentar!

Volta, Lula! e traga de volta os 25 milhões de euros que você levou com a Rose para Portugal;

Volta, Lula, e explica o Mensalão, que você planeou e que tinha o «Quartel General» ao lado da sua sala...

Volta, Lula, e explica o fenómeno «Rose»;

Volta, Lula, e explica os 6 000 médicos cubanos;

Volta, Lula, e explica a falência do SUS;

Volta, Lula e explica onde foi parar a reabilitação da indústria naval brasileira;

Volta, Lula e explica os 4,8 mil milhões gastos na transposição do Rio São Francisco e que hoje está tudo abandonado...

Volta, Lula, e explica os 0,20 centavos mais caros do planeta;

Volta, Lula e explica os 39 ministérios;

Volta, Lula, e explica a falência da Petrobras;

Volta, Lula e explica os 20% de inadimplência do programa eleitoral «minha casa minha vida», que os brasileiros que trabalham terão que pagar. Observe também que a taxa de inadimplência de 16% gerou a crise imobiliária de 2007 dos Estados Unidos.

Volta, Lula e explica o que aconteceu com o óleo de mamona que ia ser a independência energética do Brasil;

Volta, Lula, e explica, o PRE-SAL;

Volta, Lula, e explica essa sua criação, o poste «DILMA» que você plantou em Brasilia...

Volta Lula e explica porque o ministro do supremo Roberto Barroso passou a semana passada tentando explicar o contrato milionário que o governo por meio da Eletronorte, concedeu recentemente sem licitação, a seu escritório de advocacia do Rio de Janeiro.

Milhões de brasileiros estão decepcionados: O Lula está mudo!

Todos sabem que, se o Lula se explicar, o PT e os aliados serão trancafiados!

Volta logo e vá pra cadeia também!!!!!!

Peço maciça divultação!

Começou a rodada de pizza. Tenha coragem e encaminhe esta mensagem para cada contato seu. Não podemos deixar essa situação acontecer e enfraquecer o Juiz Sergio Moro. Vamos provar para os ladrões que o povo brasileiro está do lado do Sr Dr Sergio Moro e não vamos aceitar e presenciar mais está pizza e ficar calados. Seja patriota e proteste enviando esta mensagem para conhecimento de todos. Vamos reagir povo. Por favor, vamos dar uma resposta para esses ladrões. Vamos salvar nossas futuras gerações. Repassem... 🇧🇷🇧🇷🇧🇷

Não fique chateado se essa mensagem chegar a você mais de uma vez... Isso significa que está surtindo efeito....

Vamos compartilhar!!!

Quanto mais melhor!!!!!






As perseguições mafiosas

ao juiz Carlos Alexandre


António José Vilela e Fernando EstevesSábado, 26 de Março de 2015


O juiz de instrução Carlos Alexandre não tem tido uma vida fácil. Nos últimos 10 anos, já o ameaçaram, invadiram-lhe a casa, tentaram atropelar-lhe a mulher e agora envenenaram-lhe o cão.

O animal de nome Bart, que lhe tinha sido oferecido pelo procurador João de Melo, morreu envenenado com remédio dos ratos. Durante semanas, o cão agonizou e acabou por morrer na semana passada. Suspeita-se que alguém tenha atirado para o quintal da casa do juiz um alimento misturado com veneno para ratos.

Estes casos já não são estranhos para o magistrado judicial que há mais de 10 anos lida com os processos mais complexos relacionados com criminalidade violenta e económico financeira. Quando estava colocado na Polícia Judiciária Militar, Carlos Alexandre chegou a ser ameaçado e temeu até ser agredido dentro das instalações daquela força policial que dependia hierarquicamente do ministro da Defesa Nacional. Na altura, Paulo Portas era o titular do cargo e o juiz tinha ordenado que o seu chefe de gabinete fosse colocado sob escuta por causa de um alegado negócio de compra de material militar.

Mais tarde, já colocado no Tribunal Central de Instrução Criminal,  invadiram-lhe a residência e deixaram-lhe uma velha pistola à vista que estava guardada numa gaveta. O juiz achou que se tratava de um aviso. Apesar de ter segurança 24 horas por dia, outros dois acontecimentos viriam a deixá-lo bastante preocupado, sobretudo porque em causa esteve a mulher Felisbela, que terá sido objecto de duas tentativas de atropelamento quando passava numa passadeira para peões.

Agora foi a vez do cão da família.






PETIÇÃO



Rogério de Moura enviou-lhe a seguinte Petição.

Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «APOIO AO JUIZ CARLOS ALEXANDRE » no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT82973

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.

Obrigado.

Rogério de Moura

Esta mensagem foi-lhe enviada por Rogério de Moura (rdemoura007@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT82973







Carlos Alexandre incomoda


A folha de serviço


Eduardo Dâmaso, Sábado, 15 de Setembro de 2016

O juiz Carlos Alexandre já foi alvo de denúncias anónimas sobre contactos com jornalistas que nunca teve. Foi obrigado a um striptease salarial e a relatar a inspectores judiciais todos os rendimentos da família. Foi vasculhado por causa de um empréstimo de 4 mil euros num programa de TV dirigido por Sandra Felgueiras, filha da famosa arguida Fátima Felgueiras, que fez outro programa onde explorava alegadas «coincidências» entre as decisões do juiz e as notícias de um jornalista.

Foi «aconselhado», por superiores, a suavizar decisões sobre o crime de branqueamento em processos relacionados com Angola. Viu processos de obras em casa espiolhados e decisões suas achincalhadas por desembargadores da Relação de Lisboa que passaram mais de uma década em comissões de serviço nomeados pelos amigos políticos, com base em opiniões e não em argumentação jurídica. Viu os filhos ameaçados com pistolas deixadas em cima das respectivas fotografias.

Nunca teve uma repreensão do Conselho Superior de Magistratura. Tem quase trinta anos de serviço público, centenas de decisões acolhidas pelo direito e uma folha de serviço impecável. Tudo isso é indiferente aos pregadores evangélicos como Louçã e a outros que o macaqueiam, que reduzem tudo ao interesse indisfarçável que prosseguem e que não é outro senão safar Sócrates, mesmo que isso leve Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e Duarte Lima na mesma água do mesmo banho a deitar fora. Todos vítimas do malandro Carlos Alexandre e do iníquo Estado de direito em que vivemos… Grandes democratas!






O «caso» Carlos Alexandre


Elogio dos vermes


José Mendonça da CruzCorta-Fitas, 14 de Setembro de 2016


O juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista em que explicou quem era, e tudo o que disse de si está solidamente comprovado pela sua vida, a sua carreira, e o testemunho de quem o conhece ou com ele trabalhou. Mas o juiz Carlos Alexandre cometeu um erro grosseiro de avaliação: avaliou mal o país e o tempo em que vive, incomensuravelmente mais rascas do que julga ou desejaria. Compreende-se, pois, que logo lhe tenham caído em cima os barões do país pardo e da corrupção, obviamente acolhidos e aclamados na comunicação social avençada, e inevitavelmente acompanhados daqueles idiotas úteis que seguem qualquer carroça de pruridos politicamente correctos, na ilusão de mostrar equilíbrio e equidistância.

O juiz Carlos Alexandre avaliou mal.

Declarou-se católico praticante, e disse que a fé o estrutura e fortalece. Ofendeu o credo «laico» da redutora acepção socialista, menosprezou jacobinos e maçons.

Contou com alegria que tem uma família sólida e tradicional, com a qual se sente feliz. Desconsiderou, pois, as virtudes fracturantes.

Revelou serenamente que trabalha muito, ganha pouco, e vive uma vida de austeridade e contenção. Mostrou-se, portanto, displicente com uma governação que virou a página da austeridade, que defende a redução do horário de expediente para os trabalhadores (desde que do sector público), e celebra o fausto, (desde que reservado a quem tem políticas para as pessoas). E, pior, desprezou as nobres carreiras daqueles defensores da coisa pública que, à força do seu dinâmico optimismo, saltaram do Clio para o Mercedes S, do apartamento para o palacete e a casa de férias, da mediania para o enriquecimento sem causa ou explicação, do anonimato para a gloriosa inutilidade de algum observatório ou fundação.

O juiz Carlos Alexandre apresentou-se, em resumo, (e a sua vida e carreira, repete-se, parecem confirmar que é assim) como um homem sério e bom, incorruptível, estranho ao deslumbramento das mordomias, do dinheiro a rodos, dos pied à terre em Paris. Mais grave ainda: o juiz pareceu manifestar uma inabalável fé na Justiça, mesmo naqueles casos a que o programa do PS chama perseguição a políticos (seus).

Eis, pois, em pormenor e por extenso, o mais álacre manifesto contra o tempo novo português.

Que juiz deve servir, então, se Carlos Alexandre, que vai tão ao arrepio do miasma, não serve?

É fácil. Algum magistrado fiel como Santos Silva ou Silva Pereira; impoluto como Rocha Andrade; sensato, contido e escrupuloso como Costa; intocável como Ferro Rodrigues; polido como Galamba; sério como César; equidistante como Rangel; insuspeito como Nascimento; trabalhador como Nogueira; crível como Centeno; e que, no entanto, fosse frugal... como Sócrates.





sábado, 17 de setembro de 2016

segunda-feira, 8 de agosto de 2016


Os amorais


João Gonçalves, Jornal de Notícias, 8 de Agosto de 2016

Costa move-se sempre no limiar do delito político. Começou por derrubar Seguro depois de este ter dado duas vitórias ao partido. A seguir, recuperou algum pessoal do «socratismo», desprezando ostensivamente Sócrates, quando percebeu que a «teoria do poucochinho» se ia virar contra si. O poucochinho das legislativas levou-o a arranjar comparsas que lhe dessem o que faltava. Começou, aliás, a tratar disso mal leu o destino na opinião pública. Arranjou uma maioria parlamentar, esquadrinhada em três ou quatro papeletas bilaterais, que lhe permitiu um Governo minoritário, um programa, um Orçamento falacioso e outras bizarrias que vão saindo no «Diário da República». Os comparsas do Bloco e do PC não se preocupam excessivamente com detalhes. O que ainda há menos de um ano seria alvo de intensa berraria e «luta», agora faz-se de conta que não existe. Para estes beneméritos, não há aumento directo ou encapotado de impostos, não há caciquismo PS e não existem reclamações acerca do estado geral da nação. A ausência da «direita» do poder basta a estas almas hipócritas como consolo. A tolerância destes novos beatos, sobretudo os invertebrados e laicos do Bloco, para com o Governo de Costa também se nota em coisas como as que envolveram o ministério do dr. Brandão e três secretários de Estado por causa da bola e de uma empresa privada. Do primeiro, veio a «fonte» que induziu este jornal a um título, desmentido adequadamente na edição seguinte, sobre um juiz que alegadamente seria «interessado» numa sentença desfavorável ao ministério. Este episódio induzido deu azo a um artigo repelente do «Público» que mais parecia um relatório pidesco sobre a vida privada do juiz. O assunto, não encerrado, dos secretários de Estado seria simplesmente grotesco e irrelevante, se as reacções oficiais não tivessem sido o absurdo que foram, revelando uma falta de escrúpulos pela inteligência do comum dos cidadãos. Não existem «usos e costumes» que desculpem atitudes, activas ou passivas, que anulam qualquer tipo de autoridade política ou administrativa e que desprestigiam o Estado. Tudo e todos somados, parece estarmos entregues a amorais simples, ou seja, a políticos que ignoram o imperativo categórico da interiorização, da vinculação absoluta e da espontaneidade dos deveres éticos. É o Portugal contemporâneo de que Oliveira Martins narrou, como ninguém, o «exemplo singular de desordem moral», das «podridões do egoísmo» e dos «defeitos próprios de aventureiros».





segunda-feira, 25 de julho de 2016


Cantão suíço de Ticino

Burqa proibida e sujeita a pesada multa



O parlamento do Cantão de Ticino, na Suíça, aprovou uma lei que pune as mulheres que usem burqa ou niqab com multas que variam entre os 92 e os nove mil euros.

A decisão foi tomada depois de um referendo ter provado que a proibição de cobrir a cara em espaços públicos é defendida por dois em cada três eleitores.

A lei, que entra em vigor nas próximas semanas, aplica-se também a turistas, pelo que a informação vai ser difundida em estações rodoviárias e ferroviárias e em aeroportos.

Desta forma – inspirada na lei francesa – pretende-se promover a integração social naquela região da Suíça, onde 2% dos 350 mil emigrantes é muçulmano.






quinta-feira, 21 de julho de 2016


ATENTADO EM NICE


Mas queremos mesmo isto na Europa?




Maria João Marques, Observador, 20 de Julho de 2016

A culpa é dos indivíduos que escolhem matar e violar, bem como da religião e da ideologia que a tal os inspira. Mas têm cúmplices, que os tratam como crianças inimputáveis e ainda dão lições de moral.

É daquelas pessoas que dá palmadinhas compadecidas nas costas do muçulmano que violou a rapariga ocidental de minissaia, afinal veio de uma cultural onde é normal maltratar mulheres, e por cá está desempregado? Acha, como Ana Gomes, que a culpa dos atentados terroristas na Europa é da austeridade? Defende que os pobres diabos, sejam violadores ou terroristas, têm de ser compreendidos, assimilados, receber muito dinheiro dos estados sociais europeus e, sobretudo, desculpados? Considera que os vilões verdadeiros são os que denunciam que os costumes islâmicos são aberrantes, concretamente para a condição feminina, e não podem ser tolerados na Europa? De cada vez que há denúncia de vilanias islâmicas, prefere escrutinar o mensageiro para tentar repudiar a mensagem? Vê como de uma lógica cristalina clamar contra o patriarcado e o heteropatriarcado e, simultaneamente, recusar aceitar que as comunidades islâmicas na Europa têm propensão para violar e brutalizar mulheres, e acumular com defesa de regimes que enforcam ou afogam gays? Repete vinte vezes por dia o mantra «o islão é uma religião de paz»?

Pois bem, é conveniente reconhecer que as pessoas iluminadas que responderam sim a dez por cento destas questões são cúmplices do caldo culpabilizante das vítimas que propicia os crimes dos islâmicos. Duvido que o à vontade criminal fosse tão grande se não notassem a solidariedade dos iluminados. Se não desconfiassem que a sua origem os vai livrar de investigações ou acusações mal um idiota útil grite xenofobia. Se não percebessem que a sociedade europeia se deixa vitimizar.

Vamos rever a matéria. O mais importante religioso muçulmano de Portugal é acusado pela mulher (que aparece com a cara ensanguentada em fotografias – certamente foi contra uma porta, como é costume) de violência doméstica. O que sucede? Os jornais param rapidamente de falar sobre o assunto e o Presidente da República dos afectos escolhe fazer na mesquita do acusado uma cerimónia no início do seu mandato.

Na Suécia, as violações por imigrantes de primeira e segunda geração, sobretudo de origem islâmica, são de tal ordem que o país já é conhecido por «capital de violações do Ocidente». Mas as autoridades escondem tanto quanto podem a origem dos violadores e chegam a culpar as mulheres por serem violadas: é que as desmioladas adoptam comportamentos não tradicionais ao papel do género feminino. Há até uma política sueca de esquerda – Barbro Sorman, em gritante necessidade de transplante cerebral – que defendeu no twitter que uma violação feita por um sueco é mais grave do que outra cometida por um imigrante. Afinal é «normal os refugiados quererem violar mulheres» e que aos suecos se exige que cumpram «standards mais altos que os imigrantes».

Deixemos de lado o tom colonialista deste discurso: são uns selvagens que não cabem nos altos padrões da civilização Ocidental. Iluminemos antes uma política de esquerda de um país europeu que vê como menos grave um imigrante não querer cumprir o articulado legal para crimes violentos do país que o acolhe – e os jornalistas que não incomodem mais os violadores muçulmanos.

Na Alemanha os abusos sexuais na passagem de ano foram abafados tanto quanto se pôde: os números, a origem dos abusadores, a existência dos crimes. No norte de Inglaterra a polícia preferiu conviver com adolescentes abusadas e prostituídas a investigar homens de origem paquistanesa.

Estamos nisto. Os atentados terroristas são culpa de George W. Bush e Tony Blair e Durão Barroso e da invasão do Iraque – esta é a tese desse equívoco parlamentar do PS que se chama Tiago Barbosa Ribeiro. Que França seja particularmente visada pelos terroristas, quando de forma ostensiva criticou e se distanciou e não participou da invasão do Iraque, não atormenta estas almas intelectualmente desafiadas. (Que se lembre que o 11 de Setembro de 2001 venha antes da dita invasão em 2003 também só se pode atribuir a picuinhice de gente islamofóbica da minha extracção.)

As violações e os abusos sexuais são culpa das mulheres, claro, que não se tapam nem facilitam nesta tarefa de permitir aos homens islâmicos lidar com as mulheres na Europa da maneira como estavam acostumados nos países de origem das suas famílias. Não somos acomodatícias e é bem feito que sejamos punidas por isso.

Um muçulmano que batia na mulher mata dezenas com um camião na Promenade des Anglais em Nice. Não teve nada a ver com ser islâmico: o pobre coitado devia sofrer com o patrão e tinha objecção de consciência ao fogo de artifício. Um refugiado afegão de 17 anos mata uns tantos num comboio na Alemanha. Apesar da surpreendente coincidência de ser islâmico (ninguém estava à espera), aposto que não foi religiosamente motivado, devia enjoar quando anda de comboio, ou o maquinista não o deixou visitar a locomotiva ou outra razão semelhante. E já temos um muçulmano (hein? quem diria?) a esfaquear uma mulher e meninas porque estavam com roupa escassa. Mas – novamente – não houve motivações religiosas nenhumas, ora essa, deve ter sido algum caso de bikinifobia.

A culpa, evidentemente, é dos indivíduos que escolhem matar e violar, bem como da religião e da ideologia que a tal os inspira. Mas têm cúmplices, que os tratam como crianças inimputáveis e ainda dão lições de moral. Pessoalmente não estou acima de sugerir a atribuição vitalícia de bolsas compulsivas para estudarem pinguins de Humboldt (nas ilhas de guano) a quem me periga a segurança e os direitos elementares com a apologia do islão na Europa.





quinta-feira, 14 de julho de 2016


A nova parábola dos talentos


Laurinda Alves, Observador, 12 de Julho de 2016

Mesmo os cépticos militantes e os cínicos mais incorrigíveis sabem que nestes momentos há uma matemática infalível: a da confiança que gera sempre mais confiança. Foi essa a lição de Fernando Santos.

E agora, que já todos conseguimos dormir umas horas seguidas, e os 23 rapazes mais o seu Mister também já voltaram a pousar a cabeça nas suas almofadas, depois de tocarem o céu e atravessarem oceanos de multidões dentro e fora dos estádios, agora sim, estamos em condições de retomar certas rotinas com mais alegria e confiança.

A vitória da Selecção não resolve nenhum dos nossos problemas, é certo, mas ajuda-nos a viver. Nem sabemos exactamente de que forma nos ajuda a enfrentar a vida, só sabemos que esta grande vitória nos resgata para o dia-a-dia tantas vezes previsível e chato. Faz-nos mais leves e torna-nos mais unidos, mesmo que a união seja efémera, e ao fim do dia cada um vá para seu lado. Acredito que hoje todos voltamos a ser quem éramos, excepto na alegria. E numa certa leveza.

Falo do alívio que resulta de não termos perdido perante adversários tão arrogantes e territoriais como os franceses. É impossível ser insensível à absurda presunção de superioridade de comentadores obliterados pelos nervos das vésperas da grande final. O alívio também nasce da certeza de que a vida nem sempre é justa e raras vezes evolui numa lógica de merecimento. Merecíamos ganhar, mas podia não ter acontecido. A bola podia não ter batido na trave. Mais, podíamos ter quebrado quando Payet tentou e conseguiu derrubar Ronaldo. Podíamos ter ficado derrotados logo ali, podíamos ter-nos revoltado, redobrado a agressividade ou, até, termos ficado para sempre desorganizados. Aquilo que aparentemente nos fragilizaria, foi o que nos tornou mais fortes.

Sei, e sabemos todos, de equipas inteiras que não teriam sobrevivido a uma baixa tão colossal como a saída do Cristiano Ronaldo, a pouco mais de vinte minutos de jogo. O alívio que gera leveza, emoções transbordantes e certezas crescentes é este mesmo, de sabermos tudo o que nos podia ter acontecido por sucessivos cúmulos de azar, mas felizmente não aconteceu. Tudo graças a uma incrível união que gerou uma incrível força. E, claro, porque felizmente o Éder estava lá e tinha a crença de que faria o golo. E tal como disse Pepe, «man of the match», na sua entrevista final: «Deus só dá grandes batalhas aos grandes soldados».

A Taça é nossa e foi inteiramente merecida. Desejada e sonhada, foi ganha com lucidez e garra, esforço e sacrifício, inteligência e humildade. Nunca será demais sublinhar a humildade inteligente dos jogadores e do Selecionador, aliás. A mim enche-me de orgulho esta atitude de uns e outros, pois detestaria torcer por uma selecção que não soubesse estar à altura dos acontecimentos. Custa sempre ver uma falta grave não assinalada, especialmente quando arruma com um grande jogador prévia e oficialmente proclamado como «alvo a abater». Mas custar-me-ia ainda mais se os nossos jogadores tivessem optado por retaliar, se tivessem desatado a jogar numa lógica «olho-por-olho» ou tivessem perdido a cabeça, pois na verdade perderam o seu maior general na batalha mais decisiva da campanha.

Gosto de gente de coração inteligente. Nunca ninguém nos pediu nem pedirá para sermos bons e parvos, muito pelo contrário! Do outro lado do campo havia jogadores apostados em derrubar a qualquer preço, mas deste lado todos se aguentaram nos embates e todos tiveram tamanho para os adversários. Dá gosto perceber a estatura moral dos homens, quando são postos à prova. E Ronaldo foi atingido no joelho mas não na alma. Assim como Éder, o novo herói galáctico, também não se deixou vencer por comentários daninhos e alcunhas feias. Ou Fernando Santos não perdeu o nervo nem deixou de defender cada um dos seus jogadores do primeiro ao último dia. E por aí adiante, porque cada jogador deu realmente o seu melhor e foi isso que festejamos torrencialmente na noite de domingo, foi isso que continuamos a celebrar massivamente durante todo o dia de ontem e é isso que mantém o nosso coração em festa hoje.

Fernando Santos impressiona pela fortaleza de carácter e pela convicção de aço. Lúcido e discernido, manteve a palavra até ao fim. Livre, muito livre na sua fé, não desperdiçou nem um segundo a disparar argumentos ou tácticas contra trincheiras inimigas. Fez o seu silêncio interior diário de reflexão, oração e comunhão para poder focar no seu círculo (ou perímetro, como tanto gostam de dizer os comentadores desportivos), mantendo-se firme na aposta de multiplicar os talentos dos homens que escolheu. Assim como o fiel jardineiro dobra os joelhos sobre a terra para a cuidar e adubar, também Fernando Santos cultivou pacientemente nos seus rapazes a confiança, a coesão e a união.

Presumo que mesmo os cépticos militantes e os cínicos mais incorrigíveis sabem que nestes momentos há uma matemática infalível: a da confiança que gera sempre mais confiança. Foi essa a lição de Fernando Santos, o homem que sabe que o fundamental não é cada homem acreditar em Deus, mas cair na conta de que Deus acredita em cada homem. Santos esforçou-se por traduzir esta verdade bíblica à letra e conseguiu. Não fingiu ser Deus, mas agiu à maneira de Deus: acreditou profunda e radicalmente em cada um dos seus eleitos. E transformou o tempo do Europeu num tempo de oportunidades. Sem queixas nem lamentos, sem acusações nem censuras, juntou as pedras que outros foram atirando e colocou-as longe do caminho.

O tempo do Europeu não era apenas um tempo de competição e rivalidades. Fernando Santos sabia isso e agiu em conformidade. Tratava-se de trabalhar muitas outras coisas ao mesmo tempo na equipa, mas também nos portugueses: projectar confiança, trabalhar a competência, conter os excessos da agressividade, combater o negativismo, elevar o moral de uma nação inteira, reforçar a união e… fazer a força. Na terminologia cristã, tão cara a Fernando Santos, este tempo serviu para juntar pedras e fazê-las desaparecer, pois foram lançadas pedras suficientes e este era, para ele, o tempo de nos aproximarmos, de criarmos união e proximidade.

Numa era de excessos e provocações, num mundo de «irracionalismo, relativismo pós-modernista e fundamentalismo religioso», para usar as palavras de Bento XVI, na célebre conferência de Regensburg, não é fácil ser cristão e começar um discurso final, transmitido à escala planetária, por agradecer a Deus. Fernando Santos começou e acabou a falar de um Deus que lhe pede para pôr os seus talentos a render ao serviço dos outros, mas também para multiplicar os talentos dos que estão à sua volta. E deu a entender que é a centralidade de Deus na sua vida que gera nele a urgência de fazer mais e melhor. A sua missão foi conduzir a Selecção (e todos os portugueses!) à vitória, mas não se esgota aqui. Fernando Santos trouxe muito mais que uma Taça para casa. Encheu-nos de certezas sobre as nossas capacidades, fez-nos transbordar de emoção e orgulho, mas também nos deixa agora a responsabilidade individual de não deixarmos que outros nos derrubem. Ou pior, que nos tornem duros como pedras por frustrações, desavenças, desilusões mútuas ou ofensas não perdoadas.

O rastilho da alegria que explodiu no domingo e mantém o País em festa desde o fabuloso petardo de Éder, não se pode apagar. Cabe a cada um de nós tentar manter a chama acesa, pois graças a esta vitória milhões de portugueses espalhados pelo mundo acordam e adormecem mais felizes e, acima de tudo, mais confiantes nas suas capacidades. E muitos milhares de emigrantes chegam aos seus empregos mais orgulhosos da sua identidade.

No final da campanha, podemos dizer deste Fernando o que o seu homónimo poeta escreveu na Mensagem:

     Cheio de Deus, não temo o que virá,
     Pois, venha o que vier, nunca será
     Maior do que a minha alma