domingo, 16 de novembro de 2014


Menezes: acusação e defesa



Menezes chama quintal a quinta de meio milhão

Menezes diz que está a ser perseguido.

Património não bate com rendimento.



Tânia Laranjo

Um Luís Filipe Menezes aparentemente seguro e ao ataque. É assim que o ex-presidente da Câmara de Gaia regressa aos grandes palcos, numa entrevista ao Porto Canal que prometeu ser apenas a primeira que irá conceder às televisões. «Agora, ninguém me cala», garante o conselheiro de Estado, que fala depois numa mega conspiração contra si: onde cabem os jornalistas – designadamente do CM – e os adversários no PS, que «inventam polémicas que não existem».

O ex-autarca, cujo património está a ser investigado pela Polícia Judiciária (PJ) do Porto por suspeita de branqueamento de capitais, vai mais longe e garante que a quinta de Baião – que na permuta realizada em nome dos pais estava avaliado em meio milhão de euros e que o próprio tornou pública numa revista – não passa de «um quintal no Douro». Não explica, porém, como é que os pais a adquiriram, falando apenas em património que é anterior ao seu mandato autárquico.

Na entrevista ao Porto Canal, onde foi comentador e para onde assume querer voltar, Menezes revelou que o ordenado, em Gaia, era inferior a 2 300 euros por mês. Mas não conseguiu responder como é que conseguiu adquirir um T5 de meio milhão, na Foz do Douro, num edifício premiado. E como negociou tal valor, já que áreas idênticas na mesma zona custam, pelo menos, 750 mil euros.

O CM sabe que a investigação continua. Menezes não foi interrogado por estarem a ser reunidas provas pela PJ. O facto de ser conselheiro de Estado obriga a regras especiais.



A DEFESA DE MENEZES

Respondeu Menezes na referida entrevista que não tem de fazer streap tease a explicar-se publicamente a jornalistas, mas sim «às autoridades do meu país».

Como cidadão, que é, tem todo o direito a não fazer o streap tease. Mas não se esqueça de que, como membro da classe política, tem toda a obrigação de explicar tudo bem explicadinho «às autoridades do meu país», as quais, por sua vez, terão de falar verdade. Mesmo que fiquem a parecer sulistas e elitistas.

Ao mesmo tempo, do ponto de vista político, os eleitores poderão interrogar-se sobre as suas virtudes morais. E se ainda pretende propor-se a defensor do povo nesta também sua «república de putas» (a expressão é do académico republicano Unamuno), certamente terá de se explicar aos seus eleitores.

Salientamos aqui apenas a questão em causa e não as repetidas patetices políticas de que Menezes foi protagonista, sendo uma das mais graves a sua tara regionalizacionista, fruto da sua tara antilisboa e do seu caciquismo  local.


Heduíno Gomes (que não é de Lisboa e ainda por cima alentejano – mas sem complexos em relação aos gajos de Lisbaua!)





sábado, 15 de novembro de 2014


O dependentismo


Helena Matos

O legislador, na senda iluminista de levar ao povo a revolução que não escolheu, criou o dependentismo, com programa em 3 pontos: Para mim, deveres poucos ou nenhuns. Direitos todos. Amanhã logo se vê.

Nem liberalismo, nem socialismo. A ideologia mais popular na Europa actualmente é o dependentismo. O que é o dependentismo?

Antes de explicar o que é o dependentismo deixem-me que lhes conte a história de Sandra. Ou de Sabrina. Ou de Sofia. Nomes falsos por que a história verdadeira de uma jovem espanhola chegou recentemente aos jornais: de cima dos seus quase trinta aninhos, a nossa jovem acabou de conseguir que um tribunal obrigue o seu pai a pagar-lhe uma bem simpática mesada durante mais dois anos. Com a possibilidade de esse período ser alargado caso a dita jovem não consiga terminar até lá a licenciatura em psicologia que iniciou há largo tempo. A nossa jovem, ou melhor dizendo a nossa adulta que se recusa a deixar de ter vida de adolescente, é saudável, nasceu na classe média e nada a não ser a sua vontade ou falta dela a impediu de terminar o curso em seu devido tempo. Mas o tribunal que julgou a sua acção contra o pai considera que hoje em dia é penosa a integração dos jovens no mercado de trabalho.

Qual Podemos de Pablo Iglesias ou Frente Nacional de Marine Le Pen, o nosso verdadeiro terramoto político está nas mãos destes cidadãos nascidos nos anos 80 e 90 do século passado. Ao contrário das gerações anteriores que queriam ser independentes, estes jovens que há alguns anos seriam adultos lutam para ser materialmente dependentes. Por agora exigem aos pais que os sustentem. Amanhã exigirão a mesada a quem? Não são doentes e a avaliar pelas mesadas que reivindicam em tribunal não provêm de meios pobres. São oficialmente estudantes embora da maior parte não se possa dizer que estuda de forma regular. Alegam que não conseguem encontrar trabalho compatível com as habilitações de que se acham munidos e enquanto não cair do céu o lugar para que se acham dotados consideram que os pais têm de os sustentar nessa condição de estudantes mesmo que ocasionais.

A isto junta-se que a lei é omissa no que respeita ao limite de idade para se viver de uma mesada paterna pelo que não é de estranhar que dentro de alguns anos tenhamos quarentões neste grupo de indignados.

Quase sem darmos por isso, o legislador imaginou-se «grande educador» e instalou-se na relação que pais e filhos mantêm. E agora os tribunais sentem-se competentes para dizer a um pai que tem de sustentar um filho que é maior para tudo menos para trabalhar. Criámos leis e direitos contraditórios entre si e sem qualquer adesão à realidade: os mesmos pais a quem os tribunais, sobretudo em Espanha, criam a responsabilidade de continuar a sustentar filhos de 30 anos, apesar de estes serem saudáveis, são os mesmos pais a quem esses filhos já não ajudaram nas mais prosaicas tarefas domésticas porque havia o risco de tal ser considerado trabalho infantil.

A desautorização das famílias criou monstros legais como a britânica Cinderella Law que visa criminalizar a falta de manifestações de afecto dos pais para com os filhos, o que permite todo o tipo de arbítrios e subjectividades. Ou as chamadas «leis da palmada» que, visando combater os maus tratos às crianças, optam não por prevenir esses maus tratos, nomeadamente através de um acompanhamento mais eficaz das crianças que se suspeita poderem ser vítimas deles, mas sim por transformar a mais simples repreensão num caso de polícia.

Toda esta parafernália legislativa dos últimos anos, em que o Estado se assume como um bom educador por oposição às famílias, sempre vistas como ignorantes, não protegeu mais as crianças que precisavam de ser protegidas daqueles pais que excepcionalmente as maltratam. Mas acabou claramente a desautorizar a generalidade dos pais, ou seja, aqueles que se esforçam por tratar o melhor possível os seus filhos.

Há algo de disfuncional na relação que se criou com esta geração que em vários países europeus vai ao médico pediatra até aos 18 anos, mas que pode abortar a partir dos 16 sem que os seus pais sejam sequer informados. Mas se isto é válido para a perspectiva dos pais, ou se quisermos das gerações mais velhas, do ponto de vista dos filhos o resultado é bem mais complexo: criados numa concepção de direito a isto e àquilo, foram imbuídos de que o simples acto de nascer os revestia de vários direitos materiais.

Quanto a deveres, a simples enunciação desta palavra podia causar-lhes traumas vários. Enfim, desde que não se drogassem e fossem cumprindo as etapas da vida escolar já reuniam os requisitos básicos para serem considerados exemplares. Agora muitos já nem esse mínimo se sentem obrigados a cumprir e, quando se esperaria que, pelo menos uma vez adultos, trabalhassem, antes pelo contrário seguem para tribunal reivindicando que os pais os continuem a sustentar. E o legislador, sempre na senda iluminista de levar por força de lei o povo a viver a revolução que não escolheu, vai avalizando os argumentos do dependentismo.

O dependentismo, ou seja a convicção de que os nossos direitos materiais têm de ser garantidos independentemente da possibilidade de serem custeados ou de representarem um abuso sobre aqueles que têm de os custear, é hoje a ideologia mais popular na Europa.

Visto assim sob a perspectiva de uns meninos quase trintões que querem continuar no seu viver de estudante – se fosse agora, as tias do Vasquinho acabavam condenadas em tribunal e ele nunca dissertaria sobre o mastoideu no exame de Anatomia – é fácil caricaturizar o dependentismo. Mas pensemos na recente greve dos pilotos da Air France, na resistência às reformas empreendidas pelos governos italiano e belga, na língua de pau do Tribunal Constitucional em Portugal e confrontamo-nos com versões institucionais do dependentismo, essa ideologia cujo programa se resume a três pontos: «Para mim, deveres poucos ou nenhuns. Direitos todos. Amanhã logo se vê.»

Parece uma coisa de crianças e em parte é. Afinal o dependentismo infantilizou os europeus. Estes, sempre tão disponíveis para se deixarem enlevar por tudo aquilo que lhe parecesse uma vaga alternativa às suas democracias, não ficaram mais realistas após a queda do Muro de Berlim. Antes pelo contrário, os vendedores de utopias que por aí andam agora nem têm de se confrontar com o falhanço dos modelos alternativos.Valha a verdade eles também não defendem propriamente modelos alternativos de sociedade ou quando os defendem escondem-nos o suficiente porque sabem que ninguém quereria viver em tal inferno.

O que os infantilizados eleitores europeus querem não se distingue muito das exigências de mais mesada dos trintões espanhóis: afinal todos querem mais algum tempo de recreio. Se pudessem diziam como as crianças quando dantes brincavam na rua e as chamavam para ir jantar: «Já vou. Só mais um bocadinho!»






Cordão Humano pela defesa do Instituto de Odivelas



Ex.mo S.r Presidente da Republica, S.r D.r Aníbal Cavaco Silva,

Ex.mo S.r Primeiro Ministro, D.r Pedro Passos Coelho,

Ex.mas S.ras e S.res Deputados,

Ex.mas Amigas e Amigos do Instituto de Odivelas,

Ex.mas Meninas de Odivelas,


Vai realizar-se o Cordão Humano pela defesa da manutenção do Instituto de Odivelas.

O Cordão Humano terá terá início no Largo D. Dinis, no próximo dia 15 de Novembro a partir das 15.00h.

O Instituto de Odivelas, fundado em 1900, faz parte integrante da história, da cultura e da identidade da Cidade de Odivelas, proporcionando uma educação de excelência e contribuindo, ainda, para a coesão social e desenvolvimento económico local.

O Instituto de Odivelas, enquanto estabelecimento de ensino público, adquiriu uma dimensão e reconhecimento a nível nacional pela excelência do ensino e da formação que tem prestado ao longo dos seus 114 anos de vida.

Evitar a extinção do Instituto de Odivelas é mais do que uma questão local, é uma causa nacional, pelo que, apelamos à participação de todos.

Faça parte do Cordão Humano.

Junte-se a esta causa.

Um acto de cidadania.


Cumprimentos.


                                                                 Maria Teresa Magalhães


https://www.facebook.com/events/865042763520552/?ref=22&source=1





sexta-feira, 14 de novembro de 2014


A nova Brigada do Reumático


João Miguel TavaresPúblico, 11 de Novembro de 2014

Miguel Veiga deu ontem uma entrevista a este jornal a defender a subida ao poder de Rui Rio, para que faça «uma limpeza desejável no PSD». Luís Mira Amaral deu uma entrevista no sábado ao DN a desancar de cima a baixo Moreira da Silva, a quem chamou «ministro do CO2» e a quem acusou de ter «um discurso de talibãs verdes» por se atrever a taxar as gasolineiras. José Miguel Júdice tem-se desdobrado em entrevistas para demonstrar o seu apoio a António Costa segundo ele, «o político mais dotado da sua geração» e «a pessoa mais indicada para liderar o País nesta conjuntura».

A lista de sexagenários e septuagenários que são ou já foram da área do PSD e que dizem de Pedro Passos Coelho o que Maomé não disse do toucinho é impressionante. Uns sonham com Rui Rio (Miguel Veiga), outros com António Costa (José Miguel Júdice), outros nem com um, nem com outro (Mira Amaral), mas todos eles têm em comum uma profunda aversão a Passos Coelho e ao seu Governo.

Só que a aversão deles não é igual à aversão do desempregado, do operário, do funcionário público, do reformado, nem sequer à aversão de Pacheco Pereira – a sua aversão deriva da maior dificuldade que certos privilegiados hoje têm em aceder e em influenciar o poder político.

Aquilo que os incomoda não é o destino dos pobres. Aquilo que os incomoda é a crise, pela primeira vez, ter chegado aos ricos.

O embate de Moreira da Silva com o poderosíssimo sector das petrolíferas, o famoso «não» de Maria Luís Albuquerque a Ricardo Salgado ou a actual recusa do Governo em actuar na PT são das poucas decisões realmente decentes que o Governo de Pedro Passos Coelho tomou – critiquem-no por tudo e um par de botas, mas não por isso. Infelizmente, os privilegiados do regime fazem outras contas. Luís Mira Amaral está à frente do BIC de Isabel dos Santos e a gerir as ruínas do BPN, compradas ao preço da chuva.

Miguel Veiga é um «fundador» do PSD que há dois meses teceu inacreditáveis loas a Ricardo Salgado («um homem com mão de ferro em luva de veludo») numa vergonhosa «reportagem» da RTP, criticando de caminho Carlos Costa por ter acusado Salgado de forma «tendenciosa, prematura e injustificada».

José Miguel Júdice, claro está, é José Miguel Júdice, só comparável à forma como Daniel Proença de Carvalho é Daniel Proença de Carvalho. Quando questionado pelo jornal i acerca da natureza dos problemas do Grupo Espírito Santo, Júdice respondeu assim: «A maior parte dos problemas do Grupo Espírito Santo resulta de a família não ter sido devidamente paga depois de expropriada.» É isso mesmo. A culpa de milhares de milhões a voar é sobretudo da injustiça das indemnizações há um quarto de século. Ah, já agora: segundo José Miguel Júdice, «Zeinal Bava, Henrique Granadeiro ou Ricardo Salgado são excelentes profissionais em qualquer parte do mundo.» Em qualquer parte do mundo, excepto em Portugal.

Receio bem que esta nova Brigada do Reumático, tal como a antiga, tenha uma enorme tendência para confundir os interesses de Portugal com os seus próprios interesses e a manutenção dos seus privilégios.

É por isso que convém separar os campos da crítica ao Governo com a precisão de um bisturi: a classe média tem mil e uma razões para se queixar de Passos Coelho, mas as suas razões não são as razões das classes altas representadas por Júdice, Veiga ou Mira Amaral. Os primeiros sonham com melhores políticos. Os segundos só sonham com políticos do antigamente. E eu, para esse peditório, já dei.





quinta-feira, 13 de novembro de 2014

sábado, 8 de novembro de 2014


Piropo: problema de gente sem problemas


Maria João Marques

Do que vejo, as raparigas e as mulheres têm medo de assaltos e de violações, mas não conheço uma única que tenha os seus movimentos constrangidos por correr o risco de levar com um piropo.

Além da morte e dos impostos há mais uma coisa certa na nossa vida: podemos contar com a esquerda para nos entreter de tempos a tempos com a sua alienação dos problemas dos portugueses, inventando supostos dramas que os ingratos cidadãos teimam em não sofrer.

Como a inquietação sobre o sexo dos anjos já é banal, o PS nas últimas semanas tem procurado responder às mais viscerais preocupações do indivíduo lusitano. Deixo uma: corrigir a enorme injustiça de Sócrates, depois de ter assinado o memorando com a troika para o qual trabalhou afincadamente seis anos, não ter sido condecorado pelo Presidente da República. Eu estou com o PS. Tenho notado em todos os meus amigos e conhecidos um incansável desgosto por esta injustiça. Eu, arredada dos problemas dos meus concidadãos, pensava até agora que era fúria pela carga fiscal que o despesismo alucinado de Sócrates e a falência que inevitavelmente se lhe seguiu nos impuseram. Ou angústia pela incerteza do futuro dos empregos ou desilusão por não mais se conseguir dar aos filhos o que antes era possível. Mas não: afinal é tudo solidariedade com a não condecoração de Sócrates.

E o Bloco de Esquerda, essa bênção dos céus para nos alegrar na chegada do Outono, lá voltou à carga com a criminalização do piropo de rua, que considera ser uma forma de assédio sexual.

Eu aqui tenho de fazer um parêntesis e pedir desculpa. É que não me lembro do primeiro piropo de rua que me foi dirigido. Nem dos seguintes – a minha memória está ocupada com informações para mim mais relevantes. E cresci numa família desnaturada em que aquela frase que agora leio das mulheres sérias não terem ouvidos nunca me foi dita pela minha mãe; de facto, dos conselhos que a minha mãe me deu não houve nenhum para esse não problema do piropo.

Mais: nas conversas intermináveis das amigas quando se juntam sobre os pormenores da vida (porventura o maior passatempo das adolescentes), nunca discuti essa enorme calamidade do piropo de rua. Do que vejo, as raparigas e as mulheres têm medo de assaltos e de violações, mas não conheço uma única que tenha os seus movimentos constrangidos por correr o risco de levar com um piropo.

Tive, como se vê, uma vida estranha. Em boa verdade digo que já fui alvo de ditos bem mais agressivos do que qualquer piropo enquanto guiava nas ruas de Lisboa. Sendo que as injúrias e ameaças já são crime e tal não parece ter grande efeito dissuasor nos condutores malcriados.

Nesta questão do piropo de rua tenho vivido iludida. Pensava, vejam bem, que havia assuntos de igualdade de género bem mais importantes e merecedores da atenção dos nossos legisladores. É só ler algumas sentenças judiciais sobre abusos sexuais de menores e violações, ou de violência doméstica, para se perceber que as leis permitem falhas gritantes. Mas alterá-las não gera tanto folclore.

O piropo de rua é muitas vezes desagradável? É. Como são desagradáveis todas as faltas de educação e a antipatia. Como é ser empurrada na rua por quem vai com pressa ou atropelada pelos sacos das compras. E que dizer das pessoas que param à saída das escadas rolantes, pondo-se em perigo a si e aos outros? Ou dos que nos elevadores não dão prioridade a quem transporta carrinhos de bebé ou empurra cadeiras de rodas? Vamos ilegalizar a falta de simpatia e cortesia? É que se o piropo se torna ameaçador, violento ou injurioso, sanções já são previstas no Código Penal noutros crimes tipificados. Conseguimos resistir à tentação de não complicar o que bem pode permanecer simples?

Se geralmente falho em escandalizar-me excessivamente com o piropo de rua, já tenho maior exigência para situações de trabalho onde o meu interlocutor prefere olhar para o decote ou para as pernas em vez de para os meus olhos. Vamos criminalizar também olhares desagradáveis e objectivadores das mulheres? A senadora americana Kirsten Gillibrand contou há tempos em livro como os seus colegas do Senado se sentiam à vontade para comentar o seu excesso de peso depois da gravidez. (Tive experiência semelhante depois do nascimento dos meus filhos.). Vamos criminalizar a falta de gosto e de senso?

Por outro lado, recordo-me de elogios simpáticos de desconhecidos e que cabem na formulação de assédio sexual do BE. A bloquista Adriana Lopera, defensora da criminalização, considera ilegítimo que a opinião (mesmo que positiva) de um homem sobre uma mulher seja imposta a essa mulher (CM, 8/9/2013). Eu, que pratico a desconfiança sistemática face ao poder político, perante afirmações destas temo que a proposta de lei pretenda um controlo totalitário das relações entre as pessoas onde nem uma opinião bem intencionada cabe. (E quantas relações de amizade ou amorosas se forjaram através do oferecimento de opiniões elogiosas não solicitadas?)

O BE insurge-se contra o pérfido domínio patriarcal, mas eu termino acautelando uma eventual actividade criminosa da minha parte. E os elogios feitos pelas mulheres? Se não costumo ir pelas ruas comentado o aspecto de desconhecidos, já fui avistada elogiando de forma não solicitada homens e mulheres (e para este último caso poderia bem ser lésbica com intentos sexuais). Se reincidir no crime, deverei dirigir-me à esquadra mais próxima para confessar?





quinta-feira, 6 de novembro de 2014


Só agora é que deram conta dos aviões russos?


José Milhazes

Se alguém tem dúvidas das intenções do presidente russo preste atenção ao facto de 25% do Orçamento de Estado da Rússia ir para «fins secretos», ou seja, despesas militares.

Num comunicado ontem publicado pela Nato, esta organização alertou para as «manobras aéreas incomuns» e de «grande escala», mas Portugal só acordou para este problema quando dois bombardeiros russos se aproximaram das águas territoriais portuguesas. Se as notícias fossem apenas relativas a incidentes semelhantes nos mares Negro ou Báltico, que acontecem regularmente, talvez não merecessem destaque.

Mas ainda bem que isso aconteceu connosco, pois talvez só assim despertemos para o que realmente está a acontecer na Europa, e compreendamos que a «guerra fria» já é uma realidade pelo menos desde o segundo mandato presidencial de Vladimir Putin na Rússia (2004-2008). Desde então ficou claro que Moscovo iria passar das palavras aos actos para manter o seu poder de influência no chamado «estrangeiro próximo», ou seja, no antigo espaço soviético.

Quando da guerra entre a Rússia e a Geórgia (2008), esta perdeu parte significativa do seu território, mas a União Europeia não fez mais do que se apressar a congelar o problema, segundo o princípio: o fundamental é pôr fim aos combates e depois veremos o resto. Nicolas Sarkozy, então presidente de França, veio a Moscovo para acordar o cessar de fogo e estava com tanta pressa que se esqueceu de definir para onde iriam os observadores da OCSE. O Kremlin decidiu que eles só poderiam estar do lado georgiano da fronteira, Bruxelas protestou um pouco e calou-se.

Talvez os dirigentes da NATO e da UE tenham decidido que Vladimir Putin se ficaria por aí, mas enganaram-se. O dirigente russo, aproveitando-se de uma crise interna na Ucrânia, ocupou silenciosamente a Crimeia, justificando-se com o antecedente do Kosovo, o que não corresponde à verdade. O antecedente seria equivalente se a Crimeia passasse a ser formalmente independente como o Kosovo, mas o Kremlin deixou-se de cerimónias e simplesmente transformou esse território em mais uma república sua.


Logo a seguir ateou o fogo do separatismo no Leste da Ucrânia e a explicação também foi encontrada: se os EUA têm direito, porque é que nós não temos? Mas os dirigentes do Kremlin continuam a falar de respeito pelo direito internacional com uma superioridade tal como se fossem anjinhos. E aqui a história volta a repetir-se: quando os EUA enviavam tropas para algum território, isso significava invasão. A União Soviética fazia exactamente o mesmo mas chamava-lhe «internacionalismo proletário». Hoje, o Kremlin encontrou outra fórmula: «defesa do mundo russo», ou, como afirmou recentemente Vladimir Putin, «o urso não vai pedir autorização a ninguém» na defesa da sua taiga. É verdade que o dirigente russo prometeu que esse animal «não tenciona ir para outras zonas climatéricas», mas a Ucrânia já não é propriamente taiga.

E se alguém tem dúvidas das intenções do presidente Russo preste atenção ao facto de 25% do Orçamento de Estado da Rússia ir para «fins secretos», ou seja, despesas militares. Aliás, o Kremlin não faz muita questão de esconder que está a gastar enormes meios financeiros para modernizar as suas forças armadas.

Os países da NATO, até há bem pouco tempo, decidiram relaxar-se e poupar nos orçamentos militares talvez considerando que as boas relações com a Rússia se iriam prolongar eternamente e, agora, irão ter de fazer esforços que países como Portugal e outros não conseguirão fazer.

Além disso, e isto parece-me ser o mais importante, a UE e a NATO parecem não saber como travar a expansão russa no antigo espaço soviético, criando esse desconhecimento um clima de insegurança nas populações dos países que são vizinhos da Rússia. Se falarem com estónios, por exemplo, verão que a maioria está convencida de que o Kremlin irá criar problemas nos países do Báltico sem que a UE ou a NATO venham em sua defesa. Eles foram abandonados aos caprichos de Hitler e Estaline e a história, como é sabido, tende a repetir-se.

Posso estar a exagerar? Talvez, mas dentro em breve terá lugar ou não um acontecimento que responderá a essa pergunta. Dmitri Rogozin, vice-primeiro-ministro russo encarregado do sector militar-industrial, anunciou que a França irá entregar o primeiro porta-helicópteros «Mistral» ao seu país e começar a construir o segundo a 14 de Novembro. Paris diz não existirem condições para isso.

Vamos ver em que vai acabar este braço de ferro e o que vale a solidariedade europeia.





quarta-feira, 5 de novembro de 2014


Companhia de teatro (espanhola) distribui

pornografia para fugir ao IVA


Companhia passou a vender revistas pornográficas, que servem como bilhete para as peças, mas têm IVA de 4%.


A companhia de teatro espanhola Primas de Riesgo vai transformar-se numa distribuidora pornográfica para «fugir» aos impostos. A companhia vai vender revistas pornográficas, em vez de bilhetes para as peças. Assim, as suas vendas passam a estar sujeitas à taxa de IVA de 4% das revistas pornográficas, por oposição à taxa de 21% aplicada aos bilhetes para o teatro.

«Quando vimos que as revistas porno tinham um IVA muito baixo, pareceu-nos cómico e paradoxal», explicou ao jornal espanhol Publico a directora da companhia de teatro, Karina Garantiva. «Quisemos iniciar esta campanha porque nos pareceu uma boa maneira de transmitir à sociedade o debate sobre o IVA da cultura.»

De acordo com a directora da companhia, trata-se de uma adaptação «à proposta que faz o governo». As primeiras revistas, que funcionam como bilhetes para a peça, podem ser adquiridas no site da companhia, por telefone, ou num quiosque de Madrid, e estão limitadas a 300 pessoas, para experimentar o método.

«Não é só um intercâmbio comercial», continua Garantiva. «Essas pessoas vão ter de identificar-se e assinar um documento em que dizem que estão a realizar um donativo para uma campanha. Os resultados vão ser usados em estudos sociológicos para determinar como é possível que numa sociedade como a espanhola do século XXI, uma revista porno tenha um IVA mais reduzido do que uma peça de Calderón

Segundo o jornal espanhol, as revistas-bilhete podem ser adquiridas já a partir de hoje, para a peça El mágico prodigioso, de Calderón de la Barca, que estreia dia 25 de Novembro em Madrid.





quinta-feira, 30 de outubro de 2014


A incrível associação dos ex-deputados



Ex-deputados durante o colóquio sobre o interessantíssimo tema,
especialmente para os que aprovaram o chamado «casamento» dos invertidos,
«Como conviver com o corpo».

É isso mesmo, existe uma Associação de Ex-deputados da Assembleia da República (AEDAR) que, segundo o orçamento da Assembleia da República recebeu só este ano mais de 42 mil euros para a sua actividade. Se lhe parece muito, convém referir que sofreu um duro corte de 4,9 por cento face a 2011.

E o que faz a associação? A ver pela página no Facebook, com apenas 25 gostos, organiza passeios a Tomar e tertúlias com temas tão pertinentes como «Inovação Aprende-se». No blogue da associação o último post data de Julho e refere-se a outro colóquio, desta vez com o tema «Como conviver com o seu corpo», interessantíssimo tema, especialmente para os que aprovaram o chamado «casamento» dos invertidos. Certamente precisam deste apoio psiquiátrico.

Num exemplo de falta de transparência, o blogue da associação não explica como é gasto o dinheiro de todos nós. Fica-se apenas a saber que «o relatório, enviado a todos os associados da AEDAR, foi aprovado por maioria, tendo os participantes louvado a boa gestão e iniciativa da AEDAR».





segunda-feira, 27 de outubro de 2014


Zeinal Bava



(Chegou-nos anónima)

Atribuir o grau de doutor honoris causa ao Zeinal Bava nesta altura lembrou-me que pela mesma ordem de razões a Teresa Guilherme podia ser beatificada, por exemplo, ou a Manuela Moura Guedes podia ser coroada misse Portugal, ou o Paulo Portas podia ser graduado em almirante, ou o Miguel Relvas podia ser solista do Grândola, Vila Morena, ou o Mexia da EDP poderia ser o Thomas Edison da China e o ministro Crato poderia mesmo reencarnar num segundo Jesus Cristo depois de multiplicar, em vez de peixes e pães, o mesmo professor 95 vezes colocado com 104 horários.

Está a Universidade da Beira Interior de parabéns por esta justa e merecida distinção.

No chapelinho pode o novo doutor levar de recordação as belas cerejas da Cova da Beira, ou um queijinho da Serra.

Falta agora doutorar Henrique Granadeiro, talvez como clarim honoris causa... telegrafista por fios... emissor de mensagens por sinais de fumo... smoke mensages... O Granadeiro também merece um barretinho daqueles...





quarta-feira, 22 de outubro de 2014


Livro







domingo, 19 de outubro de 2014


Reparem bem nesta camisa…



Este modelo de camisa é produzido em grandes quantidades e vendido nas ruas de numerosos países muçulmanos, do Médio Oriente, na Indonésia, Paquistão e Índia. E estão na moda.

Celebram-se assim os atentados do 11 de Setembro sem se preocuparem com os milhares de mortos.

O racismo e as acusações de ofensas a outras raças e às suas convicções não se aplicam...

E depois pedem ajuda humanitária à mínima ocasião!





quarta-feira, 15 de outubro de 2014


Sócrates solidário


Sócrates não vê razões para terem detido Ricardo Salgado...





sexta-feira, 10 de outubro de 2014


Marinho Pinto diz que deputados ganham pouco



Publicado em 16 de Setembro de 2014 22:08

Marinho Pinto defende aumento do salário dos deputados (3 515 euros), para 4 800 euros, e que, ainda assim, não permite padrões de vida muito elevados em Lisboa

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Salário dos deputados «não é digno», diz Marinho Pinto, o eurodeputado que quer ser deputado, em entrevista à Renascença. Eis Marinho Pinto, o homem de esquerda que cita Thatcher.


Os deputados recebem pouco e não devem ganhar menos que os dez salários mínimos do bastonário da Ordem dos Advogados, 4 800 euros líquidos, que ainda assim «não permitem ter padrões de vida muito elevados em Lisboa», afirma Marinho Pinto, o eurodeputado que quer tornar-se deputado em Portugal.

Em entrevista à Renascença, diz ser um homem de esquerda, mas considera que essas distinções não existem hoje em Portugal. Cita mesmo Margaret Thatcher, figura pouco apreciada à esquerda.

Marinho denuncia que o Movimento Partido da Terra (MPT), pelo qual foi eleito eurodeputado, está ao serviço dos seus dirigentes e não tem a dimensão nacional de que precisa para concretizar as suas ideias. E diz ser «díficil» fazer «entendimentos políticos» com António Costa, responsável por um «tumulto no PS».

Mas não são só os deputados. Os órgãos de soberania em Portugal são mal remunerados, a começar no Presidente da República e a acabar nos juízes. Deveria haver essa cautela. E não há porque muitos políticos encontram formas, por vezes ilícitas, de suprirem essa deficiência.

Questionado sobre o que falhou com o MPT do qual se desvinculou, respondeu: «Não quero revelar publicamente as causas de uma separação. Sou advogado e sempre aconselhei os meus clientes que se divorciavam. Concluí que, por factos que não quero revelar publicamente a não ser que seja obrigado, não é possível realizar no MPT o projecto político que o País precisa para resolver os problemas nacionais».





quarta-feira, 8 de outubro de 2014


Centenas de milhar de manifestantes

que os media censuram...


No dia 5 de Outubro, tiveram lugar por toda a França manifestações, reunindo centenas de milhar de pessoas, a favor da família natural e contra o aborto, o chamado «casamento» entre indivíduos do mesmo sexo e os outros pontos da agenda das feministas e dos invertidos.


Alguém viu notícias nos nossos meios de comunicação, controlados pela esquerda e pelas estirpes visadas?

Eis algumas fotos.











Os donos da História e das palavras


Helena Matos

Portugal é um país em que o poder é naturalmente de esquerda e em que a não esquerda tem a função de, como oposição, mostrar que a esquerda é democrática

O propósito da deputada Rita Rato (a mesma que ainda não teve tempo para se informar sobre o gulag) de sanear os bustos de alguns presidentes da República veio recordar-nos que há em Portugal quem se considere dono da História. E que nessa qualidade não só se ache no direito de definir quem e o quê pode ou não ser recordado e em que estatuto mas que, não menos relevante, tem tido a capacidade de tornar normal o absurdo: no parlamento português, admiradores de Estaline passam por combatentes da liberdade e um partido que não se sabe quantos votos vale, os Verdes, tem um grupo parlamentar.

Isto para não nos alongarmos mais sobre a estranha patologia que leva a parte mais à esquerda do nosso hemiciclo a defender estrenuamente hoje aquilo que atacou violentamente ontem. E invariavelmente se a esquerda defende algo é porque lhe pode aplicar o termo «esquerda» e se ataca alguma coisa é porque essa coisa, facto, situação ou o que seja não é nesse momento de esquerda.

Veja-se o caso da homossexualidade sobre a qual o PCP tem hoje um entendimento oficial muito diferente do que tinha no ano de 1961 quando, para expulsar o seu dirigente Júlio Fogaça, invocou os seus comportamentos homossexuais. Dir-me-ão, quiçá a remoer interiormente que era escusado falar de tal coisa, que se estava em 1961. Pois estava e aí é que está o cerne da questão: os donos da História aplicam a todos os restantes mortais uma espécie de grelha revisionista que leva a que de D. Afonso Henriques aos participantes no Festival da Canção os protagonistas sejam avaliados positiva ou negativamente à luz do progressismo vigente: seria feminista? Praticava assédio? Pode dizer-se anticolonialista? Seria racista?… Acreditem: tivesse Fogaça sido ideologicamente próximo das bancadas à direita e o seu nome seria não só muito mais evocado nestes tempos como muita exigência de pedidos de desculpa se teria feito ouvir.

E aqui chegamos à outra zona de domínio da esquerda: a agenda e a respectiva linguagem. Só que nesta matéria, e ao contrário do que acontece na História, o absurdo está bem e recomenda-se. Por outras palavras, os desígnios censórios em relação ao passado do PCP, Verdes e BE, devidamente acolitados por alguns deputados do PS (com Jorge Lacão a destacar-se pelo radicalismo), já enfrentam resistência. Mas assim que se passa para o presente as palavras e os argumentos continuam como há quarenta anos: continua a discutir-se, ou melhor dizendo continua a ter de se confirmar como desfecho inevitável para qualquer mudança, o que a esquerda previa e cientificamente sabe que vai acontecer: antigamente era a sociedade sem classes, agora é a sociedade sem sexos. A criminalização do piropo é a mais recente conquista nessa luta pelo novo homem novo. (Fonte bem informada garante que o anterior homem novo morreu de síncope em Outubro de 1989 quando ouviu os manifestantes gritar em Leipzig para as autoridades comunistas «Nós somos o povo!» Mas há também quem diga que sobreviveu e morreu sim soterrado um mês depois em Berlim quando milhares de cidadãos da então RDA experimentaram passar para o outro lado do Muro de Berlim).

Obviamente continua a acreditar-se que os ricos podem pagar a crise, que são suficientemente ricos para isso e que tudo correria no melhor dos mundos se o fizessem. (Num sinal inequívoco do nosso empobrecimento, os ricos já não são os Mellos nem os Champalimaud mas sim a Alemanha.) Afirmar o contrário e questionar a razoabilidade de tal procedimento implica no mínimo ficar-se candidato a um prémio por impopularidade e alienar boa parte das hipóteses de fazer carreira política.

Mas é sobretudo quando chegamos às questões em que os direitos e o dinheiro para os garantir se cruzam que se torna mais evidente que o imaginário e o discurso vigentes continuam no mesmo sítio em que a esquerda os colocou há décadas: questionar a sustentabilidade da segurança social é estar a favor do lobby disto ou daquilo. Defender a racionalidade nos gastos do SNS que, note-se, serão sempre crescentes, dado o envelhecimento da população e a evolução da ciência médica, leva quase a acusações de tentativa de homicídio: oficialmente cada um de nós deveria viver a escassos metros de hospitais com todas as especialidades onde nos farão sempre todos exames e mais algum sem esquecer o acesso a medicamentos inovadores. Perguntar quanto tempo poderemos continuar a afectar recursos ao SNS sem discutir que se têm de fazer escolhas é algo que levará à crucificação mediática de qualquer político.

No caso do arrendamento, proteger os inquilinos é sinónimo não da existência no mercado livre de casas para arrendar mas sim de congelamento de rendas para os actuais inquilinos. Não importa que esta política tenha tido os desastrosos resultados de todos conhecidos: prédios de aluguer a cair no centro das cidades e periferias cheias de jovens endividados para comprar casa. Menos importa que inúmeros comércios pagassem rendas irrisórias em locais privilegiados. O que importa é repetir expressões como «proteger os inquilinos» e dizer que a loja A e o café B não podem desaparecer.

Considerar que o contribuinte não pode ser obrigado a pagar os concertos mais as performances que não sei quantos artistas querem fazer por esse país fora é estar a atacar a cultura. Mesmo afirmar o óbvio como fez Isabel Jonet quando declarou: «Pior inimigo dos desempregados são as redes sociais», «as pessoas ficam dias e dias inteiros agarradas ao Facebook, a jogos e a amigos que não existem e vivem uma vida que é uma total ilusão» leva a que logo os jornais escrevam «Isabel Jonet critica desempregados que passam o tempo agarrados ao Facebook». Escassos minutos depois já as tricoteuses do twitter e do facebook, que da luta contra a pobreza e a fome nada sabem, soltam as fúrias.

Podia continuar a dar exemplos mas na verdade eles levam-nos invariavelmente ao mesmo sítio: um país em que o poder é naturalmente de esquerda e em que a não esquerda tem a função de como oposição mostrar que a esquerda é democrática. Note-se que em Portugal ninguém se diz de direita. Logo aquilo que temos é uma definição do espaço político sobrante não por aquilo que é mas sim por não ser de esquerda, atitude que per si é vista como uma espécie de pecado original. Não admira portanto que ao não se ser de esquerda imediatamente se acabe classificado como fascista, capitalista, reacionário, neo-liberal… Afinal, da inteligência à honestidade., passando pela cultura e pela solidariedade, existe uma escala que coloca essas qualidades no topo à esquerda. Quanto mais para a direita se caminha mais ignorante e insensível se é. Se por acaso tal não sucede isso é a excepção que confirma esta regra.

O problema da não esquerda em Portugal é que não tem nome, não tem discurso, não marca a agenda e lá no fundo, no dia em que as contas o permitirem, gostava mesmo era de ser socialista.





domingo, 5 de outubro de 2014


Onde já vai no Brasil o «Aborto Hortográfico»

Jabuticaba no Senado



Ana Maria Machado

Não faz muito tempo, você comprou uma torradeira e, em casa, não conseguiu ligá-la. A legislação agora exige três pitocos nos plugues dos novos aparelhos, que não servem mais nos dois buracos da tomada de sempre. Foi preciso comprar um adaptador. Uma chatice, mas mais seguro. Progresso tecnológico. É para o bem de todos, o governo sabe o que faz. Mesmo quando o novo padrão é tão original quanto jabuticaba, que só tem no Brasil. Não serve para qualquer aparelho importado que por acaso você tivesse. E tome adaptador. Você acabou chamando um eletricista e trocando todas as tomadas da parede. Ufa!

Pois aí vem nova surpresa. Você nem imagina o que o Senado anda debatendo a sério, considerando a hipótese de mudar geral. Sem ao menos reparar no ridículo da esquisitice. Se for aprovado, vira lei. Só que, desta vez, não vai haver eletricista que dê jeito. Discute-se uma reforma ortográfica brasileira. Brasileiríssima, que nem jabuticaba. Ainda que sem as delícias da fruta.

«Mas não fizeram uma reforma ainda outro dia? Para que outra?», talvez você pergunte. Vamos esclarecer. O que se fez há pouco tempo (aliás, num processo que ainda não se encerrou) foi um acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não uma reforma. O objetivo foi que se escreva da mesma maneira o português falado em qualquer parte do mundo. Assim, passa-se a ter um padrão unificado em documentos internacionais que se queira redigir no idioma. E os leitores de todos os países lusófonos passam a se acostumar com a grafia única, que nos permitirá ler livros uns dos outros com menos estranheza (já bastam as do próprio vocabulário, por vezes tão diferente).

Precedido por outros acordos e protocolos em busca desse entendimento, o processo foi amplamente discutido durante 18 anos, em negociações entre filólogos e instituições responsáveis. Venceu impasses e divergências de todo tipo. Foi aprovado pelo legislativo dos países interessados. Foi assinado e promulgado pelos presidentes do Brasil e de Portugal em 2008. Entrou em vigor em janeiro de 2009, com prazo de adaptação estendido no Brasil até dezembro de 2012. Em Portugal, até 2016.

Sabe-se lá por que (ou por quem), na semana antes de terminar nosso prazo oficial, entre o Natal e o Ano Novo de 2012, a presidente Dilma resolveu prorrogá-lo. Não chegou a fazer nenhuma diferença prática. No Brasil, como já estávamos fazendo, continuamos todos usando a ortografia que segue o acordo — é como se escreve neste jornal e nos livros publicados no país e como se ensina nas escolas. Todo mundo entende. A experiência poderá, eventualmente, revelar a necessidade de pequenos ajustes. Mas não é disso que se trata agora.

A jabuticaba que está na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado é outra. É uma proposta de reforma ortográfica, para que se passe a escrever como se fala, «para simplificar e aperfeiçoar a ortografia», de modo a facilitar a alfabetização. Sem letras que não se pronunciam e sem duplicidade de grafia para o mesmo som. A justificativa populista é ajudar as crianças, ensinando-as a escrever, por exemplo, «O omen xora porqe qer caza para abitar» (sic).

Nem vale discutir os detalhes dessa ideia estapafúrdia. Questiona-se é a premissa, em nome de uma pretensa inclusão social.

Nada disso é necessário. O linguista Marcos Bagno lembra que as línguas mais faladas e escritas internacionalmente (como o inglês e o francês) têm ortografias complicadas e nem por isso deixaram de se difundir. Não precisaram de jabuticabas simplificadoras. Será que as crianças deles são mais capazes que as nossas?

O filólogo e acadêmico Evanildo Bechara insta a CE do Senado a não levar adiante a proposta de «simplificação», um equívoco talvez baseado em «amnésia ou ignorância». A professora Marília Ferreira, presidente da Associação Brasileira de Linguística, encaminhou aos senadores documento em que sublinha que o que dificulta o processo de alfabetização de crianças oriundas de segmentos sociais de pouca familiaridade e contato com a língua escrita não é a ortografia. É a falta de uma experiência letradora significativa anterior e paralela ao processo escolar.

Há casos em que essa vivência falta também a muitos professores, lembro eu. Sinal de melhora: gente vinda de um ambiente iletrado está chegando à alfabetização nas últimas décadas. Algo a se celebrar. Mas também sinal de alerta: a formação de nossos professores precisa ser de melhor nível, capaz de incorporar alternativas pedagógicas mais eficientes, de corrigir eventual falta de intimidade com a cultura escrita e de compensar desigualdades de origem. Precisa capacitá-los a alfabetizar.

Tomara que o Senado consiga perceber isso. Mais clareza nas prioridades, gente. O remédio é qualidade na educação. Não é jabuticaba.


Ana Maria Machado é escritora.
Originalmente publicado no Globo em 20 de Setembro de 2014.