segunda-feira, 2 de março de 2015
Ver ou não ver
Vasco Pulido Valente, Público, 27 de Novembro de 2015
Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.
Com as nossas preocupações domésticas, não nos sobra o tempo para pensar em coisas muito mais sérias como o expansionismo da Rússia.
Vem na Wikipédia, mas convém repetir, que a Rússia é uma federação de 22 repúblicas, 46 regiões autónomas (como a da Madeira) e nove territórios. Pior ainda, tem 160 etnias diferentes, 100 línguas diferentes, quatro grandes religiões diferentes (a ortodoxa, a islamita, a judaica e a budista) e uma enorme variedade de seitas, que constantemente varia e se multiplica. Tudo isto para uma população relativamente pequena de 140 milhões de habitantes. Qualquer pessoa de senso compreenderá que, segundo um velho hábito do século XVIII, chamamos Rússia a um Império que só pode ser governado autocraticamente e onde a democracia está para sempre condenada.
O autocrata de hoje já não é o czar Nicolau II, nem Lenine, nem Estaline, nem Khruschev, nem Brejnev. É um antigo membro da polícia secreta e, por consequência, um dissimulador, um mentiroso, um torcionário e um assassino, que dá pelo nome de Putin e que preside a uma cleptocracia, largamente caótica, a que só a violência e o seu arbítrio garantem uma vaga coesão e uma aparência de Estado. Além disso, na falta de uma legitimidade dinástica como a dos Romanov, ou ideológica como a URSS, Putin precisa, para se ir aguentando, de invocar a legitimidade imperial, principalmente depois da maior derrota que o Império sofreu desde 1613. O que não seria importante, se depois da implosão do comunismo a Rússia não permanecesse a segunda potência militar do mundo.
E se a Europa não se tivesse desarmado, como desarmou, para pagar o Estado social. A Inglaterra, por exemplo, gasta em defesa menos do que 2 por cento do PIB, no momento em que Putin (de resto, provocado pela França e pela Alemanha) embarcou numa política claramente agressiva e revanchista. A Crimeia foi o primeiro objectivo, como já o fora para Catarina, porque o Império fica fechado ao exterior sem um porto de água quente; e o segundo foi parte da bacia do Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do Império. Estaline e Hitler perceberam este ponto essencial. Putin também; e não há a sombra de uma dúvida de que não recuará. Como, tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Acabou-se o «conto de crianças»
Maria de Fátima Bonifácio
Em poucos dias desmoronou-se aquilo a que Passos
Coelho chamou, com toda a propriedade, «um conto de crianças». Não sei porquê,
a expressão causou por aí muita indignação e suscitou manifestações de um pudor
institucional inusitado: em suma, não era digna de um Estadista. A deslocada
sobranceria de Passos não oferecia mistério: era apenas um torpe subterfúgio
para ofuscar a cobardia do próprio governo, que como um servo obediente e agradecido
sacrificara desnecessariamente Portugal ao diktat da pérfida
Alemanha. O Syrisa daria ao Mundo o exemplo de como se arrasa um «tigre de
papel». Passos que olhasse e cobrisse a cara de vergonha.
Durante duas semanas, nós todos olhámos, lemos,
ouvimos. Ao que assistimos foi a um espectáculo de arrogância provocadora,
seguido, no dia 20 de Fevereiro, de uma sumária capitulação. Ninguém a resumiu
melhor do que Manolis Glezos, o lendário patriarca do Syrisa: «Rebaptizar a
troika de 'instituições', o memorando de entendimento de 'acordo' e os credores
de 'parceiros', em nada altera a situação prévia, tal como trocando o nome de
carne pelo de peixe.» O venerando eurodeputado pelo Syrisa declarou que as
concessões já feitas tinham passado além dos limites, pois que nem se obtivera
a «remoção da austeridade», nem «a abolição da troika e respectivas
consequências». Dito isto, pediu desculpa ao povo grego por ter contribuído
para a sua «ilusão».
(...)
O problema do Syrisa, e da dupla Tsipras/Varoufakis
em particular, é que a maioria dos que votaram neles não são revolucionários.
Mais de 70% dos gregos pronunciaram-se repetidamente a favor da permanência no
Euro, que lhes proporcionou desafogo, benesses e lazer como nunca tinham
gozado. Acreditaram no «conto de crianças» com que Tsipras deliberadamente os
enganou a fim de conquistar o poder. Fê-lo convencido, talvez, de que na época
pós-modernista (e, portanto, pós-marxista), quando a classe operária ou
desapareceu ou se aburguesou e o consumismo se converteu na única paixão
universal, a revolução teria de ser feita à revelia do «povo», cuja única e
provisória utilidade reside nos votos que concede a troco de promessas falsas e
até delirantes.
(...)
Varoufakis, depois das provocações e fanfarronadas
iniciais, percebeu que se defrontava com outros 17 países que nem se
impressionaram com a sua premeditada informalidade, nem se amedrontaram com a
sua variegada chantagem, nem estavam dispostos a contemporizar com as
extravagantes e exorbitantes exigências de Atenas (...) As exigências mais
lunáticas caíram ainda antes do início das negociações, como simplesmente «não
pagar» (lembram-se ?), ou no mínimo mais um perdão parcial da dívida, a pura e
simples eliminação da troika, o encerramento do programa de resgate em curso
sem prévia avaliação e aprovação pelas «Instituições», e o incondicional
«empréstimo-ponte», para aliviar o garrote financeiro e dar tempo a que o
governo se orientasse.
À segunda reunião do Eurogrupo, no dia 20, tudo
caiu por terra, permitindo que Schäuble tranquilizasse por carta o Bundestag:
«A Grécia compromete-se a colaborar com a União Europeia, com o Banco Central
Europeu e com o FMI», nomeadamente «nas reformas estruturais que promovam o
crescimento económico e a criação de emprego.» Mais: a Grécia «Não poderá
implementar unilateralmente qualquer medida que ponha em risco as metas
orçamentais definidas, a estabilidade financeira do país e a recuperação
económica».
(...)
Sobra a triste figura que nisto tudo fez, e
continua a fazer, a esquerda radical portuguesa. Com o seu habitual coração de
ouro, acusou o governo e a direita de falta de solidariedade para com a Grécia.
Mas que razões tínhamos nós para ser «solidários» em vez de simplesmente
colaborantes, como fomos, numa solução consensual que viesse a encontrar-se ? (...)
(...)
O que fez a Grécia que justificasse o tratamento
especial que exigia ? Quanto à solidariedade que lhe devemos, estamos
conversados: em Março de 1985, a Grécia pura e simplesmente vetou a adesão de
Portugal à CEE, com receio da concorrência que o nosso País lhe pudesse fazer
na repartição dos dinheiros europeus. E apenas retirou o veto quando obteve de
Bruxelas um financiamento adicional ao abrigo dos «Programas Integrados do
Mediterrâneo», como aliás já reclamara desde o ano anterior. Ou seja: Bruxelas
teve, literalmente, de comprar à Grécia a adesão de Portugal !
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Afinal a NATO teve razão ao alargar-se
ao Leste da Europa
José Milhazes
Até aqui, alguns (entre eles eu) consideravam ter sido um erro o alargamento da Aliança Atlântica ao Leste da Europa. Hoje há muitos motivos para pensar que foi o melhor que esses países fizeram.
A guerra da Ucrânia e o papel de Moscovo nela levam-nos a tirar pelo menos duas conclusões: os países do Leste da Europa tiveram uma decisão sábia ao aderirem à NATO e Kiev cometeu um erro ao entregar as armas nucleares à Rússia em 1994.
Até aqui, alguns (entre eles eu) consideravam ter sido um erro o alargamento da Aliança Atlântica ao Leste da Europa, pois pensavam não haver razões para recear o ressurgimento do imperialismo russo e soviético. Depois da queda da União Soviética, a Rússia estava numa situação económica, política e social tão degradada, que o mais sensato era esperar que os seus dirigentes se concentrassem na recuperação do seu país.
Mas tal não aconteceu. No lugar de modernizar as infraestruturas do país, utilizando os preços altos dos combustíveis nos mercados internacionais, Vladimir Putin, nos já mais de 15 anos em que se encontra no poder, apenas se pode «gabar» de ter um regime tanto ou mais corrupto do que o do seu antecessor, Boris Ieltsin, e ter organizado bem os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi.
O Kremlin não se cansa de falar da «amizade russo-chinesa», mas não lhe faria mal estudar as causas do milagre económico no país vizinho e aprender algo com ele.
Enveredou pela via tradicional, indo ao encontro dos mais baixos instintos de uma parte significativa da sociedade russa, que confunde o significado dos verbos «respeitar» e «ter medo». Quando os actuais dirigentes exigem que se respeite a Rússia, querem dizer que se deve ter medo dela. «Nós vamos mostrar-lhes…», soa o coro dos «patriotas».
Por isso, não há nada de extraordinário no facto de os antigos países do «campo socialista» se terem apressado a aderir à NATO. Segundo alguns analistas, o único erro da NATO foi não ter aberto as portas à Geórgia, Moldávia e Ucrânia.
Quanto à entrega das armas nucleares pela Ucrânia, Bielorrússia e o Cazaquistão à Rússia, se eles não tivessem feito isso, hoje Moscovo não teria a política que tem em relação a esses países. No caso da Ucrânia, as coisas teriam corrido de outra maneira. No que diz respeito ao Cazaquistão, a actual política externa do Kremlin faz tremer o actual dirigente cazaque, Nussultan Nazarbaiev. E até o Presidente bielorrusso, Alexandre Lukachenko, faz forte equilibrismo para se manter no poder.
Quanto aos que afirmam que a NATO está a cercar a Rússia com bases militares, a querer sufocar (tal como a anaconda na geopolítica clássica) o maior país do mundo, apenas os convidaria a olhar para o mapa e a pensar como será possível conseguir isso, tendo em conta, por exemplo, que a Rússia tem um dos maiores arsenais nucleares do mundo, mísseis balísticos intercontinentais, etc., etc.
E deixo ainda mais uma pergunta: haverá algum louco na Europa ou nos Estados Unidos que tencione conquistar a Rússia, como afirmam alguns dirigentes russos e seus aliados no estrangeiro? Como e para quê se, até agora, o chamado Ocidente tem recebido sem guerras aquilo de que precisa desse país: petróleo, gás e milionários?
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Não há coincidências?
José António Saraiva
Há pessoas que têm o terrível azar de serem constantemente vítimas de coincidências. Acontecem-lhes coisas na vida que, apesar de acidentais, acabam por lançar sobre elas suspeitas infundadas. O engenheiro José Sócrates é uma dessas pessoas.
Começa logo com o seu título de engenheiro. Por infeliz coincidência, um professor que lhe deu passagem em várias cadeiras do curso de engenharia na Universidade Independente, de nome António José Morais, era seu amigo, tendo ambos participado no polémico processo do aterro da Cova da Beira (em que Morais foi arguido). Se não fosse essa amizade com um dos professores mais influentes, não haveria tantas suspeitas à volta da sua licenciatura. É certo que ainda se deu neste caso outra coincidência chata, que ofereceu argumentos aos seus inimigos: o facto de o diploma ter sido passado a um domingo. Mas isso...
Os mamarrachos da Covilhã que Sócrates assinou constituem outro caso pleno de coincidências. Não está em causa a péssima qualidade arquitectónica dos edifícios, alguns assustadores, até porque Sócrates subscreveu-os mas não foi o seu autor. Como técnico da Câmara, não podia assinar projectos para o seu concelho – pelo que assinava-os para outro. Dava-se, entretanto, a azarada coincidência de um técnico desse outro concelho assinar projectos para a Câmara onde Sócrates trabalhava, sugerindo uma (obviamente inexistente) troca de favores.
Para pôr a sua assinatura nos ditos projectos, também era natural que Sócrates recebesse algum dinheiro, tal como os médicos que passam atestados se fazem pagar. Mas quem poderia provar que esses dinheiritos tivessem alguma relação com a assinatura dos projectos? Quem de boa-fé poderia afastar a hipótese de se tratar, apenas, de uma desagradável coincidência?
No Freeport, José Sócrates também só foi suspeito em virtude de uma sucessão de acasos. Doutro modo, ninguém se lembraria de lhe apontar o dedo.
Um deles foi a aprovação do outlet ter ocorrido nos derradeiros dias de vigência do Governo, quando este já estava em gestão. Outra coincidência aborrecida foi o aparecimento de um tio de Sócrates no caso, sabe-se lá porquê. E, já agora, haver um vídeo onde se falava de luvas para um ministro, que por coincidência era depois referido textualmente na gravação como «Sócrates». E de o montante dessas luvas, ainda segundo o vídeo, ter sido estipulado (num encontro num hotel) por um indivíduo que, por outra irritante coincidência, disse ser primo de Sócrates. Enfim, uma chatice!
A tentativa de compra da TVI pela PT, exactamente quando Sócrates andava a querer afastar Manuela Moura Guedes daquela estação televisiva, foi também um acaso bem aborrecido. Tal como a ida a Espanha, para fechar o negócio, de um quadro da PT chamado Rui Pedro Soares, que mais tarde apareceria ligado a uns negócios onde surgia associado o nome de Sócrates.
E que dizer da diligência feita pelo BCP para fechar o SOL, no período em que este investigava os casos Freeport e Face Oculta? E logo por coincidência quem coordenou a operação pelo lado do BCP foi – imagine-se – Armando Vara, vice-presidente daquele banco e velho amigo de Sócrates.
Outro negócio dessa época cheia de acasos fantásticos foi a venda, pela Portugal Telecom, da rede Vivo, que tinha um enorme valor, e a compra da Oi, que não valia nada. Este negócio teve como padrinho, por infelicidade, José Sócrates – e quem parece ter gostado bastante dele foi o seu amigo Lula, que, por coincidência, apresentaria anos depois em Lisboa o livro de Sócrates sobre a tortura. Outro efeito da venda da Vivo foi ter proporcionado a mais um amigo de Sócrates, Ricardo Salgado, uma autêntica fortuna, numa altura em que, por coincidência, o Grupo Espírito Santo estava a precisar loucamente de dinheiro.
E que dizer da incrível coincidência de Sócrates ter tomado um pequeno-almoço com Luís Figo, no Altis-Belém, nas vésperas das legislativas de 2009, no mesmo dia em que Luís Figo assinou um importante contracto com entidades públicas, que permitiu à sua fundação receber umas centenas de milhares de euros?
Foi também por acaso, como é óbvio, que a Octapharma, um laboratório que mantinha relações com o Estado português, contratou Sócrates depois de este sair do Governo.
Mas coincidência ainda maior, reconheça-se, foi o facto de o seu amigo Carlos Santos Silva ter estreitas ligações ao Grupo Lena – grupo que ganhara muitos concursos públicos no tempo em que Sócrates era primeiro-ministro. A propósito destas ligações, deram-se outros curiosos acasos, como Sócrates ter ido aos Estados Unidos na precisa altura em que lá foi o vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, e – pasme-se – uma delegação do Grupo Lena. E, por coincidência, encontraram-se todos no consulado de Angola em Nova Iorque!
Continuando a falar de acasos desagradáveis, não foi nada bom existir uma conta bancária em nome de Carlos Santos Silva que, por coincidência, só servia para pagar as despesas de Sócrates – fossem as relativas à sua vida corrente, fossem despesas maiores, como a compra de apartamentos ou propriedades (também, por coincidência, onde a família de Sócrates aparecia envolvida).
E como classificar a chatíssima coincidência de Carlos Santos Silva emprestar dinheiro a Sócrates sempre através de envelopes com dinheiro e nunca por transferência bancária, apesar das elevadas quantias envolvidas?
Infelicíssima coincidência foi ainda Carlos Santos Silva ter tentado criar um fundo imobiliário só com casas que se supunha serem de José Sócrates. E neste assunto ainda se verificou outro facto bizarro: Carlos Santos Silva não ter jeito nenhum para a decoração e pedir a Sócrates e à ex-mulher deste, Sofia Fava, que escolhessem diversos acabamentos para o seu andar em Paris. Andar no qual, por coincidência, Sócrates vivera uns tempos.
Mas os azares não se ficaram por aqui.
Nas vésperas de embarcar para Paris, quando já sabia estar na iminência de ser preso, Sócrates almoçou, por coincidência, com o ex-procurador-geral da República, Pinto Monteiro.
E depois, quando Sócrates já estava em Paris e soube que Carlos Santos Silva e o seu motorista João Perna tinham sido detidos, deu-se outro espantoso acaso: uma empregada de limpeza retirou o computador do seu apartamento e levou-o para outro. É difícil acreditar como coincidências destas acontecem. Mas acontecem!
A maior de todas ocorreu, porém, quando Sócrates, ainda primeiro-ministro, fez uma lei para facilitar o regresso de capitais ao país pagando um mínimo de imposto – lei de que ele próprio, perdão, o seu amigo Carlos Santos Silva, viria a beneficiar para trazer 20 milhões para Portugal! Esta foi mesmo uma coincidência… das Arábias!
Foram todas estas coincidências – e mais algumas que se venham a descobrir – que, agitadas por espíritos malévolos, perversos e doentios, lançaram infundadas suspeitas sobre o engenheiro José Sócrates, infernizando-lhe a vida.
A verdade, contudo, há-de vir ao de cima. E os algozes do ex-primeiro-ministro pagarão por isso – como justamente tem ameaçado o Dr. Mário Soares.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
A jangada de pedra do Syriza
Rui Ramos
A encenação de negociações serviria só para culpar os alemães, aliás já devidamente demonizados por todas as dificuldades futuras, tal como a ditadura plebiscitária da Venezuela culpa os americanos.
Há semanas que somos convidados a venerar a democracia na Grécia, como se a Grécia estivesse outra vez perante os Persas, e não perante os seus outros 18 parceiros do euro, onde os governos também são eleitos e os cidadãos manifestam livremente a sua vontade – nomeadamente a de não darem mais dinheiro à Grécia, como se viu nas eleições regionais de Hamburgo no passado fim de semana.
É tempo de perguntar quem é que põe em causa a democracia na Grécia? Os seus 18 parceiros da zona Euro, que requerem as garantias do programa de assistência para lhe emprestarem mais dinheiro, ou o Syriza e a extrema-direita, que estão a arrastar para fora da moeda única um país onde 81% da população quer o Euro e apenas 30% admite negociar até à ruptura?
Sim, a Grécia tem um regime democrático, a começar por um sistema eleitoral que produz resultados aceites como genuínos. Mas esses sistemas podem ser manipulados, sobretudo num ambiente como o gerado no Ocidente pela crise de 2008, que comprometeu expectativas e situações dadas por adquiridas. Na Grécia, tudo foi pior, porque a oligarquia política e as suas clientelas viviam de capturar fundos externos, os quais lhe permitiam poupar fiscalmente o resto da população. O ajustamento não limitou apenas a distribuição de rendas pelo Estado, mas forçou a oligarquia a enfrentar a necessidade de mudar. Não conseguiu, não quis. O Pasok desfez-se, a Nova Democracia falhou, e subitamente uma série de pequenos grupos de extrema-esquerda viram a porta aberta.
Sem a construção imprevidente da zona Euro e sem a irresponsabilidade dos velhos partidos de governo, a extrema-esquerda não teria tido a oportunidade que teve na Grécia. Mas a verdade é que também estava preparada para a agarrar. O facto de, ao contrário de Portugal, não haver um PCP, deu aos maoístas e trotskistas gregos uma margem de manobra que, por exemplo, o BE nunca teve. Puderam assim subir ao palco como uma nova classe de tecnocratas oriundos das universidades e dos media. Sem gravatas, mas com títulos académicos. A foto de grupo incluía até economistas, do género «banqueiro anarquista», como Varoufakis, marxista não-praticante. Falaram de um «novo consenso», e não de «revolução». Ofereceram soluções para a dívida e receitas para o crescimento, com as devidas fórmulas matemáticas e notas de rodapé. Por um lado, explicaram que não vinham para «alternar», mas para «mudar»; por outro, deram a entender que a «mudança» seria apenas a preservação do velho estatismo contra uma suposta agressão «neo-liberal». Assim tentaram e conseguirem participar e liderar uma maioria «anti-austeridade» e «anti-dívida». Entretanto, a imprensa ajudava lembrando o PT brasileiro como prova da disponibilidade da «esquerda radical» para substituir a corrupção da velha oligarquia pela corrupção de uma nova oligarquia.
O Syriza fez mais: persuadiu os eleitores de que seria possível arrancar ainda mais concessões à UE, devido ao medo que a todos inspiraria a reversibilidade da zona euro (a teoria do «castelo de cartas» de Varoufakis). Durante a campanha eleitoral, Tsipras chegou a insinuar na televisão que Merkel já teria aceite a ideia de um novo pacto de assistência, faltando apenas um sinal da Grécia. Muitos gregos acreditaram, e começaram logo a deixar de pagar impostos: em Janeiro, a perspectiva de vitória do Syriza inspirou uma queda de 40% da receita fiscal prevista. Outros, com menos fé, trataram de extrair o seu dinheiro da Grécia, num movimento de capitais equivalentes a 4% do PIB só em Dezembro.
O Syriza não tem mandato para tirar a Grécia do euro. Levará a chantagem até esse ponto? A questão é a de saber qual o verdadeiro projecto do Syriza. É substituir a social-democracia como parceiro de alternância num país da UE? Ou é provocar a saída do euro, num país em que ninguém quer sair? O «plano secreto» de abandono da moeda única foi um tema do debate eleitoral, inspirando negações veementes ao Syriza. Mas o Syriza também nunca mencionou a aliança com a extrema-direita, falando sempre de outras forças de esquerda como seus aliados preferenciais. É muito provável que nem toda a gente que votou ou que foi eleita pelo Syriza saiba ou perceba o que a extrema-esquerda, que constitui a única força organizada dentro do Syriza, verdadeiramente pretende.
Consideremos a hipótese de saída do euro. Significaria, como muita gente já explicou, desvalorização, inflação e falências. Para um Syriza que aspire a suceder ao Pasok como alternativa à Nova Democracia, seria um desastre e justificaria muitas concessões, embora o risco de descrédito fosse grande depois das promessas eleitorais. Mas para um Syriza determinado em fazer uma revolução na Grécia contra o «capitalismo» e a «democracia burguesa», faz todo o sentido: mesmo depois de todos os anos de austeridade, continuava a não haver sovietes na Grécia e quase toda a gente preferia continuar na zona Euro; terá sido, portanto, necessário envolver os gregos com propostas aparentemente «moderadas», mas apenas para, uma vez dentro das instituições, iniciar um processo de radicalização. O objectivo fundamental não seria isentar o poder em Atenas dos constrangimentos orçamentais europeus, mas romper com o enquadramento ocidental da Grécia. A encenação de negociações serviria apenas para culpar os alemães, aliás já devidamente demonizados, por todas as dificuldades futuras, tal como a ditadura plebiscitária da Venezuela culpa os americanos.
Na Europa do sul, especialmente nos países que emergiram de ditaduras na década de 1970, como Portugal, a Grécia e a Espanha, a democracia foi sempre pensada segundo os modelos da Europa ocidental e, enquanto tal, dependente da integração europeia. Os partidos democráticos de esquerda e de direita propuseram a integração europeia, e a extrema-esquerda e a extrema-direita sempre a contrariaram, por verem na integração europeia uma redução do leque das possibilidades políticas. Por isso, extrema-esquerda e extrema-direita sonharam sempre com «jangadas de pedra» (romance de José Saramago publicado no ano da adesão de Portugal à então CEE). A crise da Grécia na zona euro é, desse ponto de vista, uma ocasião única para a extrema-esquerda cortar as amarras europeias do país. Os 81% de gregos que querem o euro estão assim sujeitos a descobrir um destes dias que, ao serem convidados a rejeitar a «austeridade», foram afinal levados, sem saber, a renunciar a muito mais.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
O mito da austeridade grega
Daniel Gros, director do Centro de Estudos Políticos Europeus.
Desde a vitória do partido anti-austeridade Syriza nas eleições da Grécia que o «problema grego» está a preocupar, novamente, os mercados e os responsáveis políticos em toda a Europa. Alguns temem o regresso da incerteza que se viveu em 2012, quando muitos pensavam que estariam iminentes um «default» da Grécia e a saída da Zona Euro.
Naquela altura, como agora, muitos temiam que a crise da dívida grega pudesse desestabilizar – e até mesmo derrubar – a união monetária da Europa. Mas desta vez é realmente diferente.
Uma diferença fundamental reside nos fundamentos económicos. Ao longo dos últimos dois anos, outros países periféricos da Zona Euro têm provado a sua capacidade de ajustamento, ao reduzirem os seus défices orçamentais, aumentarem as exportações e registarem excedentes em conta corrente, negando, assim, a necessidade de financiamento. Na verdade, a Grécia é o único país que tem constantemente arrastado os pés sobre as reformas e registado um péssimo desempenho ao nível das exportações.
Fornecer uma blindagem adicional aos países periféricos é o plano do Banco Central Europeu para começar a comprar títulos soberanos. Embora o governo alemão não apoie oficialmente a flexibilização quantitativa, deveria estar grato ao BCE por acalmar os mercados financeiros. Agora, a Alemanha pode assumir uma posição intransigente perante as intenções do novo governo – perdão de dívida e fim da austeridade – sem temer o tipo de turbulência nos mercados financeiros que, em 2012, deixou a Zona Euro, com poucas alternativas a não ser socorrer a Grécia.
Na verdade, as exigências do governo grego baseiam-se num mal-entendido. Para começar, o Syriza e outros argumentam que a dívida pública da Grécia, de 170% do PIB, é insustentável e deve ser cortada. Dado que a dívida oficial do país constitui a maior parte da sua dívida pública global, o governo quer vê-la reduzida.
Contudo, os credores oficiais da Grécia concederam-lhe períodos de carência bastante longos e taxas de juros bastante baixas, pelo que o encargo é suportável. A Grécia gasta menos com o serviço da dívida do que a Itália ou a Irlanda, sendo que ambos os países têm rácios (brutos) da dívida em relação ao PIB muito mais baixos. Com os pagamentos da dívida externa da Grécia a representar apenas 1,5% do PIB, o serviço da dívida não é o problema do país.
O custo relativamente baixo do serviço da dívida também anula as justificações do Syriza para apelar ao fim da austeridade. O último programa de resgate da «troika» (Fundo Monetário Internacional, BCE e Comissão Europeia), iniciado em 2010, prevê um excedente primário (que exclui o pagamento de juros) de 4% do PIB este ano. Isso seria um pouco mais do que o necessário para cobrir os pagamentos de juros, o que permitiria à Grécia começar finalmente a reduzir a sua dívida.
O argumento do novo governo grego de que esta é uma meta excessiva não convence. Afinal de contas, quando confrontados com níveis excessivos de dívida, outros países europeus – incluindo a Bélgica (de 1995), a Irlanda (de 1991) e a Noruega (de 1999) – mantiveram excedentes semelhantes durante pelo menos dez anos, tipicamente na sequência de uma crise financeira.
É razoável argumentar que a austeridade na Zona Euro tem sido excessiva, e que os défices orçamentais deviam ter sido muito maiores para sustentar a procura. Mas só os governos que têm acesso ao financiamento do mercado podem usar uma política orçamental expansionista para impulsionar a procura. Para a Grécia, mais despesa teria de ser financiada por empréstimos de uma ou mais instituições oficiais.
Pela mesma razão, é falso afirmar que a troika obrigou a Grécia a uma austeridade excessiva. Se a Grécia não tivesse recebido apoio financeiro em 2010, teria de reduzir o seu défice orçamental de mais de 10% do PIB para zero imediatamente. Ao financiar défices continuados até 2013, a troika permitiu à Grécia atrasar a austeridade.
É claro que a Grécia não é o primeiro país a pedir financiamento de emergência para adiar cortes orçamentais, e depois queixar-se que os cortes são excessivos, quando o pior já passou. Isso normalmente acontece quando o governo tem um excedente primário. Quando o governo pode financiar os seus gastos correntes por meio de impostos – e até aumentar a despesa, se não tiver de pagar juros – a tentação de renegar a dívida intensifica-se.
Foi amplamente antecipado que a Grécia seria tentada a seguir este caminho, quando foi iniciado o programa troika. No ano passado, o novo ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, confirmou a previsão, argumentando que um excedente primário daria vantagem à Grécia em quaisquer negociações sobre reestruturação da dívida, porque o país poderia simplesmente suspender o reembolso à troika, sem incorrer em problemas de financiamento.
Essa abordagem seria um erro. O problema prático da Grécia neste momento não é a sustentabilidade de uma dívida que vence em 20-30 anos e que tem taxas de juros muito baixas; a verdadeira questão são os poucos pagamentos ao FMI e ao BCE que vencem este ano – os pagamentos que o novo governo prometeu fazer.
Mas, para cumprir esta promessa (e contratar mais funcionários), a Grécia vai precisar de mais apoio financeiro dos seus parceiros da Zona Euro. Além disso, o sistema financeiro do país vai precisar de apoio contínuo por parte do BCE.
Por outras palavras, o novo governo da Grécia deve agora tentar convencer os seus parceiros europeus que merece mais apoio financeiro, ao mesmo tempo que faz pressão no sentido de reduzir a dívida existente e resistir às políticas de austeridade a que os empréstimos anteriores foram condicionados. Para o Syriza e os seus eleitores, a lua-de-mel política poderá ser curta.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Filhos e enteados
Helena Matos
Um perdão como aquele que agora a Câmara de Lisboa se propõe conceder ao Benfica torna-se um insulto a todos aqueles que ao mesmo município pagaram o que tinham de pagar.
NOTA DA REDACÇÃO:
Se alguém souber de idêntica imoralidade em relação a qualquer outro clube, faz favor de nos comunicar.
Não tenho nada contra o Benfica nem contra qualquer clube de futebol, excepção feita a um das minhas imediações que insiste aos domingos em animar as redondezas com uma animação sonora que deve ter brotado da cabeça de algum sádico. Sei que é estranhíssimo dizê-lo e ainda mais escrevê-lo, mas se o futebol desaparecesse não lhe daria pela falta porque vivo em quase total alheamento do que por ali sucede. Mas, em abono da verdade, devo acrescentar que, se acaso pergunto quem está a ganhar e se dá o caso de o Benfica estar em campo, prefiro ouvir que o Benfica está a ganhar e, como sou espírito de contradição, neste tempo de treinadores que se vestem como os empregados bancários, sinto uma certa fraqueza pelo estilo de Jorge Jesus. E acaba aqui a minha declaração de (pouco) interesse pelo futebol.
O que pelo contrário me interessa muito é o tratamento fiscal muito favorável que o Estado português, através dos seus sucessivos governos e das suas autarquias, tem dado aos clubes de futebol. O perdão fiscal agora concedido ao Benfica pela Câmara Municipal de Lisboa levanta-me as maiores reservas, tanto mais que ele acontece num momento em que os cidadãos portugueses vivem sob uma tremendíssima carga fiscal. Nada lhes é perdoado. Quanto aos munícipes lisboetas creio que só andar a pé pela cidade não lhes é ainda taxado, como bem se percebe lendo as 22 páginas do Regulamento Geral de Taxas, Preços e outras receitas municipais, mais as três páginas dos Tarifários do Serviço de Saneamento e Águas Residuais Urbanas que também integra o incontornável Tarifário do Serviço de Gestão de Resíduos Urbanos , a inevitável Tabela de Taxas Municipais para 2015 (13 páginas) e, por fim, a extensa Tabela de Preços e Outras Receitas Municipais 2013 (25 páginas). E não, não estou enganada, estes documentos não se anulam entre si. Pelo contrário, cada um deles tem sempre umas taxas que os outros não contemplam.
Como é óbvio nem o frenesi fiscal do município e muito menos o tratamento fiscal light para com os clubes de futebol nasceram com António Costa. Mas os tempos mudaram. Em 2015 vivemos sob uma carga insuportável de impostos. Cada vez somos menos cidadãos e mais contribuintes. A obsessão com a cobrança de impostos leva a que o Governo (graças a Deus o mais liberal de sempre. O que seria se não fosse), que adia tanta coisa para um momento financeiramente mais adequado, não se tenha esquecido de criar uma carreira especial para os técnicos do Ministério das Finanças. Cada um de nós é tratado pelo seu Estado como um provável infractor fiscal. A nível municipal ainda recentemente a autarquia de Lisboa entendeu por bem taxar o simples facto de se aterrar ou desembarcar em Lisboa. Ora neste quadro parece-me injustificável avançar com um perdão fiscal (a que obviamente se seguirá, por parte dos outros clubes, a reivindicação de tratamento similar) para um clube a quem não faltam receitas, muito menos sócios, equipamentos e meios.
Os clubes de futebol têm sido alvo ao longo de décadas de um tratamento fiscal muito favorável: perdões fiscais, prescrições e fecho de processos, adiamento de pagamentos, regularizações especiais, renegociações de dívidas, aprovação de pagamento em prestações de dívidas que os clubes se tinham comprometido pagar a pronto… E não raras vezes, quando se supõe que todo este tratamento tão tolerante e solidário com os clubes de futebol levará a que estes arrepiem caminho, eis que se descobrem novas dívidas… Depois quando as coisas ficam outra vez difíceis fazem-se umas declarações espectaculares, acusa-se meio mundo e ameaça-se com a fúria e a mística da massa associativa. Qualquer semelhança com a estratégia dos actuais governantes gregos não é certamente coincidência: os chamados partidos anti-sistema estão a trazer para a política o estilo verbal e a atitude entre o displicente, o arrogante e o insultuoso que muitos dirigentes desportivos e suas entourages têm adoptado para não serem confrontados com os seus erros e desmandos.
Que o Benfica tenha construído, segundo revela o Público, a partir de 2004 (note-se que foi em 2004, no meio de Lisboa, não foi no Algarve dos anos 80, nem na Brandoa dos anos 70 do século passado), sem respeitar o alvará de loteamento, dois espaços comerciais, um equipamento desportivo, um balneário, duas bilheteiras e o edifício que alberga as piscinas, o pavilhão e o museu é por si mesmo espantoso. Tão espantoso que se aguardam esclarecimentos dos presidentes da CML durante esse período: Santana Lopes, Carmona Rodrigues e António Costa deverão explicar como foi isto possível.
Neste contexto e com este historial dos clubes de futebol um perdão como aquele que agora a CML se propõe conceder ao Benfica torna-se um insulto a todos aqueles que ao mesmo município pagaram o que tinham de pagar. Mas não só. Aqueles que viram recusados os seus pedidos de construção, alteração ou ampliação têm fortes razões para concluir que andaram a fazer figura de parvos.
Qual é o maior problema da Europa?
Rui Ramos
A guerra na Ucrânia pode mudar mais profundamente a nossa
vida do que a crise da Grécia: na Grécia, está em causa o Euro; na Ucrânia, o
Ocidente, isto é, tudo.
A crer no ruído noticioso e comentarista, é a Grécia.
Percebe-se porquê: é o caso que mais directamente podemos relacionar com o
nosso. Mas preparemo-nos para a possibilidade de, daqui a uns anos, os
historiadores darem menos importância à Grécia do que ao que se está a passar
na Ucrânia. Arriscamo-nos então a parecer muito distraídos. Enquanto estávamos
a olhar para a Grécia, perdemos a Ucrânia. E com a Ucrânia, podemos perder
muito mais do que imaginamos.
Neste momento, é preciso ser muito optimista para não
usar o pretérito ao falar da Ucrânia: tinha 46 milhões de habitantes e
era o Estado com maior superfície na Europa. A opção pró-russa do presidente
Yanukovytch em 2013 e a sublevação pró-europeia em Kiev em Fevereiro de 2014
dividiram o país e precipitaram a invasão russa. A situação é agora
reminiscente da Jugoslávia na década de 1990. A UE não sabe o que fazer:
conformou-se com a anexação da Crimeia, hesita em continuar as sanções à
Rússia, arranja todos os dias mais um bom argumento para não armar o governo de
Kiev, e aposta tudo em mais um acordo.
Há várias coisas, para além da nossa obsessão grega, a
impedir-nos de apreender a relevância do que se passa na Ucrânia. Uma é a
percepção da Ucrânia como um caso exótico. Há quem nem a considere um
verdadeiro país, por causa da sua diversidade interna. No entanto, todos os
grande Estados europeus são o resultado de «unificações» mais ou menos recentes
de elementos diversos e até opostos: a Espanha ou o Reino Unido, por exemplo,
mas também a Itália. A diferença é que a Itália, a Espanha ou o Reino Unido não
têm, nas suas fronteiras, uma grande potência militar a animar e a armar
rebeliões e a injectar tropas nos seus territórios. Se a Rússia fosse mais
perto, talvez a Espanha, no caso da Catalunha, não estivesse apenas a discutir
um referendo.
Chegamos aqui à questão da Rússia de Putin, e do que pode
representar para o Ocidente. A II Guerra Mundial e depois a Guerra Fria
convenceram-nos de que os grandes conflitos têm necessariamente raízes
doutrinárias. Sem o marxismo-leninismo, concluímos que a Rússia não nos deveria
preocupar. Acontece que nem sempre foram precisas divergências ideológicas para
haver rivalidades internacionais e guerras (a I Guerra Mundial é um
exemplo). A Rússia de Putin é uma autocracia pessoal a que a retracção
soviética deu uma causa (a recuperação do império) e a percepção do declínio e
da divisão ocidentais deu uma oportunidade. Putin pretende manifestamente
abalar a NATO e a UE, em que vê limites à sua influência na Europa. Podemos
diagnosticar muitas debilidades à Rússia, mas Angela Merkel, ao recusar qualquer solução
militar, reconheceu-lhe esta
força decisiva: a Rússia, na Europa de leste, empenhar-se-á sempre mais do que
os ocidentais. É uma admissão tremenda. Porque se a Ucrânia tombar por causa da
indisponibilidade ocidental para sustentar a sua opção europeísta, o que
passará pela cabeça de Putin em relação aos Estados bálticos, também com
minorias russas, mas já membros da UE?
A integração europeia pode estar muito mais em causa na
Ucrânia do que na Grécia. Na Grécia, a questão é a da irreversibilidade do
euro; nos países bálticos, depois de um abandono da Ucrânia, a questão seria a
da integridade da UE perante uma ameaça externa. A UE pode existir sem moeda
única, como já existiu, mas não sem a determinação de se defender.
Neste ponto, não é preciso invocar o cenário de uma
«terceira guerra mundial». As guerras totais entre grandes potências são
historicamente mais raras do que sugere a história do século XX. Mas uma nova
«guerra fria» na Europa oriental terá provavelmente consequências sociais e
económicas tão grandes ou maiores do que a crise grega da integração monetária.
Há anos que os orçamentos da defesa europeus são sistematicamente restringidos
e reduzidos a salários e pensões, contra a corrente do resto do mundo, a começar pela
Rússia (curiosamente, a Grécia é um dos poucos países europeus que insiste numa
despesa militar elevada, devido à sua rivalidade com a Turquia). O Estado
social europeu é, em grande medida, o resultado da prosperidade da economia de
mercado, mas também da diminuição das facturas militares, graças à protecção
americana e ao colapso da União Soviética. Foi assim que, desde o século XIX,
passámos na Europa de Estados cuja despesa era sobretudo militar, para Estados
cuja despesa é sobretudo «social». E a despesa militar americana
facilitou essa transição. Mas se a
pressão da Rússia aumentar, o investimento europeu na defesa terá de subir, até
porque os EUA não estarão dispostos a continuar a pagar a conta principal.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Os portugueses que nos querem ver gregos
Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 15 de Fevereiro de 2015
Logo a seguir ao futebol, as mais populares modalidades desportivas nacionais são bater no Cavaco e assinar manifestos. Por isso esta foi uma semana em cheio.
As festividades começaram quando o Presidente da República lembrou descaradamente um facto: os portugueses já emprestaram mil e cem milhões de euros à Grécia, fora trocos. Tamanha trivialidade perturbou as pessoas sensíveis, que a consideraram – a frase, não o empréstimo – inadmissível, na medida em que nada do que Cavaco Silva diz deve ser admitido (embora também não se tolere que Cavaco Silva esteja calado). A oposição falou em «humilhação do povo grego». E aquela senhora que liderava a meias o BE achou as afirmações perigosas, populistas, egoístas e uma ameaça ao «projecto europeu». Naturalmente, o «projecto europeu» consiste em fazer que os cidadãos de certos países trabalhem a fim de sustentar os que preferem dedicar-se a actividades paralelas como a subscrição de lengalengas em volta da palavra solidariedade.
A lengalenga do momento, sob a forma de carta aberta ao primeiro-ministro, reúne «destacadas personalidades» (sic) do calibre de Francisco Louçã, Carvalho da Silva, Pacheco Pereira, Octávio Teixeira e o conhecido benfiquista Bagão Félix. Essencialmente, trata-se do corpo de comentadores da Sic Notícias, ao qual, não sei porquê, faltam apenas Rui Santos e o trio de O Dia Seguinte.
E o que reza a carta? Reza que a austeridade é desagradável e exige a Pedro Passos Coelho que aproveite o pretexto grego para a mandar passear. Numa segunda leitura (e Deus sabe quanto me custou a primeira), a ideia é aliarmo-nos a quem nos pede dinheiro emprestado no combate a quem nos empresta. Isto não difere muito do sujeito que, ao ver-se assaltado, ajuda os ladrões a carregar o televisor e depois insulta a empresa que lho vendeu a crédito. Com a deliciosa agravante de que, no intervalo dos insultos, as filiais caseiras do Syriza suplicam por um crédito e um televisor novinhos.
Absurdo? Com certeza. E ainda nem referi a abdicação da famosa soberania pátria em favor do governo do Sr. Tsipras, que os subscritores da carta juram representar Portugal a sério. Imagine-se se estivessem a brincar.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Petição Pública de apoio aos patriotas ucranianos
Apoio à reabilitação de militares ucranianos
Para: Ex.ma
Senhora Presidente da Assembleia da República,
Ex.ma Senhora Presidente da Assembleia da República,
Os subscritores do presente Manifesto dirigem o seu apelo ao Estado Português para que subsidie os tratamentos e a reabilitação de alguns militares e combatentes-voluntários do exército ucraniano feridos no conflito armado na Ucrânia, em hospitais públicos ou privados em Portugal, em número e de acordo com as possibilidades existentes.
Estes militares, muitos de forma voluntária, arriscaram as suas vidas e à custa da sua saúde não só defendiam a integridade do seu país mas também contribuíam para que o conflito armado não se alastrasse para o resto do território da Ucrânia, não chegasse mesmo às portas da União Europeia, conseguindo evitar deslocações de refugiados para países da mesma. Eles estão a travar a luta para reestabelecer a paz na Europa.
Os peticionários têm conhecimento através das declarações das instituições governamentais ucranianas à comunicação social que 15 países recebem militares ucranianos para os tratamentos e a reabilitação. De acordo com os dados de Dezembro de 2014, setenta e três combatentes recebiam os tratamentos na Polónia, onze em Israel, oito na Croácia, quatro na Eslováquia, cinco no Reino Unido, treze na Letónia, quatro nos Estados Unidos da América, cinco na Alemanha. Vários países oferecem medicamentos e equipamento médico, deslocam os seus profissionais de saúde à Ucrânia para prestar apoio, avaliação e realização de cirurgias.
Os ucranianos valorizam o bom acolhimento que receberam em Portugal desde sempre, e agradeceram a ajuda que lhes foi dada com a sua integração, o seu conhecimento, o seu bom empenho e trabalho para o bem do país para onde vieram viver, assim foram estabelecidos laços bem fortes entre as duas nações. Esperamos que o Estado Português apoie a Ucrânia nesta altura tão difícil.
Por tudo isto os peticionários consideram essencial a colaboração e a ajuda de Portugal no tratamento e reabilitação dos militares feridos.
Agradecendo antecipadamente a atenção de V. Exa., apresentamos os nossos melhores cumprimentos.
Primeiros peticionários:
Iuliia Voroshylova (investigadora científica, Grupo de jovens ucranianos em Portugal «Synytsia»), Vasyl Bundzyak (padre ortodoxo de patriarcado de Kyiv, Braga), Pavlo Sadokha (Presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal), Andriy Veber (Presidente da Delegação de Vila Nova de Gaia da Associação dos Ucranianos em Portugal), Nuno Miguel Trindade Lourenço (advogado, Alenquer), Tetiana Franchuk (Grupo de jovens ucranianos em Portugal «Synytsia»), Olena Nesterenko Afonso (professora de línguas, Coimbra), Svitlana Oksyuta (professora de música, Porto), Galyna Ilyuk (professora de música, Santo Tirso), Olena Dvoininova (Directora da escola ucraniana Cirilo-Metódio em Braga, doutorada em História)
Para assinar: http://peticaopublica.com/?pi=petreabilitacao
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Idiossincrasias
Helena Matos
Como não há revolução sem o culto das idiossincrasias dos revolucionários estamos agora na questão das gravatas. Ou mais precisamente do sem gravata. Em Portugal nos idos de 75 era o sem sono.
A tara das gravatas. Não falha: mal a esquerda aparece com um despreparado candidato a caudilho começa o engraçadismo sobre a sua forma de vestir, os seus gostos ou outras idiossincrasias. No caso do actual governo grego é a mania das gravatas ou mais propriamente a mania de não as usar. Em Portugal nos idos de 75 era o sono. Não havia jornalista, activista ou adepto do turismo revolucionário que após fotografar umas ceifeiras numa cooperativa no Alentejo, uma empresa ocupada na margem sul, ver duas manifestações em Lisboa e falar com três militares não manifestasse uma profunda admiração sobre os homens sem sono que dirigiam Portugal. Portugal era governado por homens sem sono e esse aparente detalhe, por estranho que possa parecer, fazia toda a diferença face aos rotineiros ensonados que governavam a restante Europa.
Aquele estado de reunião permanente do Conselho de Ministros e do Conselho da Revolução, sem esquecer as assembleias do MFA, era visto como um frenesi revolucionário a que as fardas e o cabelo comprido dos militares emprestavam um negligé viril que ficava particularmente bem nas fotografias e filmagens a preto e branco. Quanto mais instalados nas suas muito capitalistas e confortáveis vidas, mais estes ilustres visitantes achavam interessante esta insone experiência revolucionária, logo ali a poucas horas de avião de qualquer descansada e bem dormida capital burguesa.
Que os homens sem sono aprovassem em Portugal a mais desvairada e contraditória legislação, que muito do decidido fosse logo esquecido e ultrapassado por outras decisões, que se aprovassem medidas atentatórias dos direitos mais básicos, como o Tribunal Militar Revolucionário e o confisco dos bens, não lhes causava inquietação de maior. O que salientavam como extraordinária mais-valia deste nosso país era o facto de sermos governados por homens sem sono.
Desfeito o PREC, os governantes portugueses para seu e nosso bem voltaram a dormir como os demais. E a imaginária revolucionária deslocalizou-se para paragens mais remotas: tivemos o carapuço do comandante Marcos no México, os inevitáveis lenços palestinianos, o (que Camões e Dom Afonso de Albuquerque me perdoem a apropriação da palavra!) «terribil» fato de treino de Chávez e, numa aparente contradição, mas só aparente, porque nesta matéria o que conta é épater le bourgeois, o deslumbramento dos socialistas portugueses pela pose dum seu líder que comprava fatos numa loja de Rodeo Drive.
Em 2015 muitos cidadãos europeus deslocam as suas nunca desfeitas ilusões revolucionárias para a Grécia. E como não há revolução sem o culto das idiossincrasias dos revolucionários estamos agora na questão das gravatas. Como se a questão fosse Tsipras ou Varoufakis usarem ou não gravata. (Já agora parabéns a Renzi que aproveitou o encontro com Tsipras para fazer publicidade a um dos produtos símbolo do sucesso da marca Itália: as gravatas). O problema do governo grego é que a única ideia que tem para governar a Grécia é pedir, mendigar, exigir, reivindicar e fazer palhaçadas de modo a sacar mais dinheiro aos outros. As gravatas, ou no caso concreto a ausência delas, é apenas um acessório da performance da pedincha disfarçada de bravata revolucionária. Pelo jeito com que a coisa vai os governantes gregos acabarão em Moscovo. Mas tanto quanto se sabe, na hora de cobrar as contrapartidas o Kremlin não costuma ser muito sensível ao vestuário dos seus tutelados. (Alguns aliás nunca mais precisaram de roupa na vida.) Talvez se Varoufakis for de túnica e sandálias como os pretéritos gregos seja bem-sucedido. Tem é de esperar pelo Verão.
O síndroma da mãe do Dantas. «Nós sentimos que a política que é hoje dominante na Europa está a matar a confiança dos nossos cidadãos pelo projecto europeu» afirmou António Costa. Não há dia em que os dirigentes do PS português, do PSOE espanhol, a par de outros líderes do socialismo democrático europeu não afiancem que a austeridade está a matar, que já não há líderes e que estamos à beira do caos. A austeridade está de facto a matar. Mas não é o projecto europeu mas sim uma ideologia. Mais precisamente a austeridade está a matar o socialismo democrático cujos partidos se arriscam a desaparecer do mapa eleitoral na Grécia, Espanha e França. E em boa parte isto acontece porque os líderes socialistas nos momentos difíceis ficam atacados pelo síndroma da mãe do Dantas.
Júlio Dantas que a maior parte lembrará por causa do manifesto que Almada lhe dedicou (por sinal, Júlio Dantas era uma figura bem mais complexa e corajosa do que aquilo que Almada sugere, mas esse assunto ficará para outra crónica). Ora entre os traços de personalidade de Júlio Dantas contava-se a absoluta desmesura com que vivia os factos da sua vida. Era um dramático, como então se dizia, para não entrar em maiores e à época embaraçosos detalhes.
Este traço de personalidade do nosso Dantas esteve à beira de deitar por terra um acontecimento em que várias personalidades portuguesas tinham posto muitas das suas maiores expectativas e vaidades: uma embaixada cultural que ia ao Brasil participar nas cerimónias evocativas do descobrimento daquele território (agora deve dizer-se achamento mas à época achar era próprio dos tolos). Ter conseguido constituir aquela «embaixada cultural» custara laboriosas negociações com Salazar que, para lá das proverbiais questões de dinheiro, temia a forma festiva para não dizer carnavalesca como no «país irmão» se tratavam os venerandos factos da História. No limite e sob o espectro de, por ausência de Portugal, Pedro Álvares Cabral acabar a ser representado com plumas e outros luzentes adereços, lá seguiu a embaixada cultural para o Brasil. Presidia-a Júlio Dantas. Ora a meio da viagem chegou a informação de que tinha morrido a mãe de Júlio Dantas.
Foram imensas a dor e a consternação que se abateram sobre o extremoso filho. Mas não só: a partir do momento em que a bordo se soube do passamento da senhora, Júlio Dantas comportou-se como se todos os membros da embaixada, a tripulação do navio e o próprio oceano estivessem de luto pela sua finada mãe. Mas mesmo assim não lhe chegava. Para o Brasil foi comunicado que falecera a mãe do dr. Júlio Dantas. Solícitos, os brasileiros logo acharam que também eles se deviam associar ao luto que naquela fase já não era do dr. Júlio Dantas mas de toda a delegação portuguesa. E assim, entre a exorbitação de Júlio Dantas e a atracção dos brasileiros pela espectacularidade, seja ela da vida ou da morte, as manifestações de dó pela morte da mãe do Dantas iam num crescendo arrebatador.
A bordo, os portugueses já se viam afastados de todas as cerimónias (as tais para as quais tinham andado durante meses a preparar vénias e discursos!) e a serem recebidos não como convidados de honra nas comemorações da descoberta do Brasil mas sim para naquela terra bendita chorarem a mãe do Dantas. E é quando os brasileiros, empolgados com a dor do Dantas, já comunicam para bordo a sua intenção de receber os portugueses com missas solenes e Te Deum que na embaixada portuguesa alguém declara que quem morrera fora a mãe do Dantas não a mãe da Pátria. Logo o Dantas que fizesse o seu luto enquanto a embaixada iria tratar daquilo a que se propunha: comemorar a descoberta do Brasil.
Os socialistas estão exactamente como o Dantas naquele barco a caminho do Brasil: acham que a Europa está à beira do fim, que os europeus deambulam sem líderes nem rota e que há que refundar tudo de novo. Ora o que os eleitores lhes estão a dizer é que quem está a morrer não são as restantes ideologias mas sim o socialismo democrático. Só que ao contrário da mãe do Dantas que morreu de causas naturais, o socialismo democrático está a morrer por culpa dos seus líderes. Estes continuam a fazer programas e discursos como se estivéssemos no tempo em que a diferenciação dos partidos se fazia pelas diferentes formas como se propunham distribuir a riqueza.
Impossibilitados de recorrer aos truques e à demagogia da esquerda e da direita radicais, os socialistas acabam por falta de propostas adequadas ao tempo em que vivemos a não capitalizar o descontentamento dos eleitores do centro: Passos, Rajoy e até o grego Samaras perdem eleitores mas mantêm os seus partidos como alternativas de poder.
À força de quererem identificar o seu problema ideológico com o fim das ideologias, obstinados em falar do tempo passado em que gostaram de viver e foram líderes, os socialistas ficaram sem discurso sobre os tempos em que vivemos. E deixaram não só que esse espaço fosse ocupado pelos radicais como que os defensores da austeridade aspirem a ganhar as eleições ou a não as perder por muito.
Ou os dirigentes socialistas percebem que quem está com problemas é o socialismo democrático e actualizam o seu discurso, ou arriscam-se a que muitos eleitores lhes deem a correr os pêsames e os deixem sós na sua missa por alma do passado antes de irem participar na festa dos outros.
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