quarta-feira, 18 de março de 2015


O desporto da indignação


Paulo Tunhas, Observador, 12 de Março de 2015

Tivesse Passos pisado inadvertidamente os pés do porteiro de São Bento e logo viria Alegre, com aquela mistura de poesia, moral e política que tanto se prejudicam umas às outras, exigir a sua demissão

A seguir ao futebol, o desporto da indignação é certamente o desporto mais noticiado em Portugal. A diferença é que, ao contrário do outro, não é uma paixão que entretenha todos os estratos da sociedade. Os seus verdadeiros admiradores e praticantes encontram-se nos membros da classe política e nas suas várias e diversificadas adjacências, que vão até aos fóruns de discussão da TSF ou das televisões. Uma boa parte da população é-lhe indiferente ou apenas finge interessar-se por ele de tempos a tempos, e isso mais por questão de conversa social do que por outra coisa.

Nos últimos dias o objecto desportivo principal foi Passos Coelho, por causa da história do pagamento em atraso dos impostos e das contribuições para a Segurança Social. Não se contam os artigos de jornal e as opiniões televisivas da sociedade dos amigos da indignação. E, dada a procura, o Expresso até decidiu espertamente publicar um documento forjado indicando uma quantia superior à dívida efectiva que Passos Coelho, como se sabe, entretanto já pagou. Convém contagiar. As paixões são assim, e a indignação é uma paixão.

Por acaso, simpatizo com Passos Coelho, que não conheço pessoalmente. Não foi sempre assim, mas nos últimos anos, com as inevitáveis trapalhadas pelo meio, ele mostrou uma coragem e uma persistência assinaláveis, que revelam força de carácter, e uma urbanidade no trato com os adversários políticos e com a comunicação social que são um alívio quando pensamos em certos exemplos recentes. Essas características são incompatíveis com a personagem que os amigos da indignação, nesta sua nova excitação, andam a querer construir. Admito que os atrasos foram, de um ponto de vista político, mais do que um crime: foram um erro. E que as explicações dadas ao facto padeceram de uma mistura de verosimilhança e de prolixidade confusa. Em geral, basta uma única prova, ou uma única explicação. Quando são precisas muitas, é porque nenhuma delas fala por si. Mas daí a este alarido, o passo é descomunal e indevido. Primeiro, porque as explicações são, como disse, verosímeis. Basta cada um de nós meter a mão na sua consciência para ver. E, em segundo e mais importante lugar, o exagero na importância concedida a esta história, se virmos a coisa com o mínimo de distância, o que o desporto da indignação obviamente não permite, não roça o absurdo: entra largamente dentro dele.

Há em tudo isto, é claro, um aspecto político. A esquerda, como é costume, babou-se de raiva. Os fracos resultados do PS nas sondagens podem explicar alguma coisa. Dados os hábitos comuns, isso nem sequer é grave. E não tenho muitas dúvidas que o PSD, se estivesse na oposição e o primeiro-ministro fosse António Costa (que, parece, tem uma história que se avizinha da de Passos), agiria de forma parecida. O que é interessante é a singular mistura de política e moral nos argumentos dos indignados.

Parece que, como escreveu Manuel Carvalho no Público do dia 8, o caso revela uma «mancha» moral em Passos Coelho. Não discuto a autoridade de Manuel Carvalho, ou de quem quer que seja, para falar em nome da moral. Constato apenas que, quando se começa a falar em nome dela, arriscamo-nos, na maior parte das vezes, a entrar no domínio da subjectividade. E, além disso, executamos um gesto que excede largamente em violência qualquer argumentação política. A coisa piora ainda se, embora pretextando que não, a inculpação moral é politicamente motivada. Era a altura de surgir uma nova versão do «Aviso por causa da moral» de Fernando Pessoa. Aparecem por aí tantos grandes escritores todos os dias que um deles bem que podia meter as mão à obra.

De qualquer maneira, segundo a opinião corrente, há uma «mancha» indelével na alma de Passos. Era uma coisa que acontecia aos heróis da tragédia grega. Por uma escolha com o seu quê de involuntário, punham-se a matar os filhos, ou o pai, e coisas assim (crimes irrisórios se comparados com o de Passos), e quando compreendiam o que tinham feito era tarde demais. De acordo com uma interpretação muito conhecida, isso costumava provocar sentimentos de medo e piedade nos espectadores. Medo por se porem na pele dos personagens e pensarem que o mesmo lhes poderia acontecer a eles (ninguém diga que está bem) e piedade pelo sofrimento alheio.

Passos tem menos sorte. A sua presente desventura não provoca nos desportistas da indignação nem medo nem piedade. Não provoca medo porque nem só por um instante pensam que lhes poderia ter acontecido o mesmo que a ele (pagar com atraso impostos e contribuições para a Segurança Social) e não suscita piedade porque o sofrimento alheio é até apreciado. Numa tragédia portuguesa, ao herói trágico não lhe bastaria o sofrimento ao reconhecer o seu erro: teria de aguentar com os insultos dos espectadores. Seria, é claro, uma péssima tragédia, porque destituída de objectividade e feita para suscitar a subjectividade moralista contaminada de farronca e detestação, contrários aproximativos do medo e da piedade.

Mas o lugar de Passos não é, neste caso, numa tragédia. Não há nenhuma «mancha» moral indelével provocada pelo que fez, contrariamente ao que dizem os indignados. Tivesse feito ele outra coisa, como pisar inadvertidamente os pés do porteiro de São Bento, e logo apareceria na mesma Manuel Alegre, com aquela mistura de poesia, moral e política que tanto se prejudicam umas às outras, exigir a sua demissão. Há casos em que não são as coisas que chamam a indignação, é a indignação que chama as coisas.

O que Passos tem que fazer, se me é permitida uma opinião na matéria, é corrigir politicamente o seu erro com umas poucas palavras acertadas e assertivas, sem mais explicações, dando o assunto por encerrado e deixando os outros a falarem sozinhos. E também lembrar-se que os desportistas da indignação, além de histriónicos, são em bem menor número do que parece. Há muita, muita gente que não confunde as coisas e que crê que, em grosso, o que ele faz no Governo é feito com uma genuína convicção no carácter bem-fundado das suas escolhas. E que, de resto, pensa que não poderia optar caminhos muito diferentes daqueles que escolheu. Uma convicção partilhada por muito boa gente do PS, pelo menos numa das várias versões que este costuma oferecer ao público em geral.





segunda-feira, 16 de março de 2015


Ser homem ou mulher está inscrito no DNA


Luis Jensen com a sua esposa Pilar Escudero

Luis Jensen, médico membro do Instituto das Famílias de Schoenstatt e do Centro de Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Chile, revelou que a homossexualidade «jamais vai permitir o desenvolvimento pleno da satisfação da complementariedade».

No dia 10 de Dezembro deste ano, apresentou-se no Chile um projecto de lei do «Matrimónio Igualitário», que quer modificar a Lei do Matrimónio actual para permitir as uniões homossexuais.

O projecto de lei foi pensado e redigido pelo Movimento de Integração e Libertação Homossexual (Movilh), o mesmo que criou o conto «Nicolau tem dois pais».

Em declarações feitas ao Grupo ACI, Jensen referiu que «se eu acredito que na natureza tudo tem o mesmo valor, então a pessoa desaparece, porque a pessoa é o mais extraordinário, é distinta, é outra entidade diferente do resto das coisas naturais».

«O ser homem e mulher, que são as duas formas de ser pessoa, tem uma razão de ser, um porquê, um para quê, está inscrito no DNA. Se ignorar isso, está ignorando uma coisa que não é electiva, mas constitutiva», afirmou.

Luis Jensen explicou que «a pessoa que realmente necessita move-se para procurar o outro e enriquece-se com o outro. E nessa relação, descobre que o outro também tem necessidades. E para fazê-lo feliz, que é a essência do amor, dá o máximo de si próprio como dom, como presente ao outro. Essa é a dinâmica do amor, a dinâmica do dom, da gratuidade».

Entretanto, advertiu o perito, as relações que se estabelecem hoje «não têm como base a complementariedade».

Jensen sustenta que «estas relações (homossexuais) ficam na reciprocidade: em que eu te dou e tu me dás, que é na verdade um intercâmbio comercial, funcional, estrutural, mas não da natureza da pessoa. Onde está a gratuidade? Já não é a dinâmica do amor mas a dinâmica da organização, do intercâmbio, da comercialização».

Para o médico, a polaridade homem-mulher tem a sua causa na «unidade do homem e da mulher porque são capazes de complementar-se em todos os campos».

«Isso jamais vai acontecer na homossexualidade, por muita imitação que façam, por muita intenção, boa vontade ou amor pessoal que tenham, não acontece. Por isso mesmo, acredito que hoje querem tirar o conceito da complementariedade do vocabulário e ficar com o da reciprocidade».

Para Jensen, actualmente procura-se «reduzir o tema do essencial do ser humano a róis: Há um rol feminino e um rol masculino, um rol paternal e um rol maternal, e já não se responde ao que é a natureza masculina e feminina».

«Tomou-se o mundo social como referência e não o mundo pessoal», criticou, denunciando que agora «os modelos constroem-se na base como se organizou socialmente o homem e não na base do que é o homem».





domingo, 15 de março de 2015


Os Americanos e a Base das Lajes


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

A operação das forças militares americanas na Base Aérea das Lajes há muito que merecia um livro.

Muito resumidamente foi assim:

A apetência dos EUA pelos Açores (e Cabo Verde) recua à Guerra Hispano-Americana, de 1898, que marca o início do imperialismo «yankee» fora do continente Americano, o que nunca mais parou até hoje.

Prolongou-se na I Guerra Mundial, com a ameaça submarina alemã e a visita do futuro presidente Roosevelt (na altura subsecretário de Estado da Marinha), em 1918, e firmou-se na II Guerra Mundial, por causa da ameaça naval alemã – podia ter sido aero-naval caso a Alemanha tivesse intentado e conseguido ocupar aquele arquipélago e também o da Madeira.


Ler mais em:

http://responderachamada.blogspot.pt/2015/02/os-americanos-e-base-das-lajes.html





sábado, 14 de março de 2015


Bispos da Bélgica alertam
sobre mais um crime da maçonaria:

Doentes mentais são o novo objectivo
da lei da eutanásia


Após a ampliação da eutanásia para crianças no ano passado na Bélgica, os bispos belgas elevaram a sua voz de alerta contra o próximo objectivo dos promotores da lei, as pessoas com problemas mentais.

Conforme assinala o jornal italiano Avvenire, na legislatura anterior, um senador estendeu a proposta de lei sobre a extensão da eutanásia para quem sofre de doenças neurodegenerativas.

Os bispos anunciaram que agora o maior temor é que a lei se dirija aos pacientes esquizofrénicos, onde o critério da «intolerância ao sofrimento» que até agora é usado para a sua aplicação, seria substituído pela «perda da capacidade cognitiva».


Ler mais em:

http://moldaraterra.blogspot.pt/2015/03/bispos-da-belgica-alertam-sobre-mais-um.html






sexta-feira, 13 de março de 2015


Há lugar para gente normal na política?


Helena Matos, Observador, 8 de Março de 2015

Que os partidos tenham à sua frente «gente normal» parece-me bem mais tranquilizador do que aqueles momentos em que estão entregues a pessoas que pairam acima das circunstâncias prosaicas da vida.

Conta-se, não sei se com fundamento ou sem ele, que a vida política de Cavaco Silva esteve para acabar quando a sua mulher percebeu que um jornalista andara a fazer perguntas aos operários de uma pequena obra que decorria na casa do então primeiro-ministro. Aquilo a que estamos agora a assistir é à aplicação aos actuais líderes do PSD e do PS do escrutínio dos detalhes do quotidiano a que até agora praticamente só se sujeitara de forma tão sistemática Cavaco Silva.

Enquanto escrevo, as dívidas de Passos Coelho à Segurança Social fazem manchete. Entretanto no blogue Portugal Profundo publica-se uma investigação sobre o local de residência de António Costa em 2013 e 2014. Mais ou menos em simultâneo assistimos também ao ressuscitar dos problemas do apuramento dos montantes de contribuição autárquica pagos por Costa no século passado e a uma onda de indignação com o facto de Passos ter sido alvo de processos de execução fiscal.

Lendo e ouvindo as notícias sobres estes casos (e presumo que nas próximas semanas outros surgirão a um ritmo pendular) deparo com incumprimentos, imprevidência e naturalmente com o reverso do mundo kafkiano constituído pela nossa administração – ou seja aquele volúvel «vamos a um suponhamos» na hora de calcular os montantes de IMI e segurança social e em que mesmo depois de tudo pago parece que continuamos sempre em falta – mas não encontro tentativa alguma de usar em benefício próprio o poder que se deteve ou detém. E aqui chego à dúvida que dá título a este texto: há lugar para gente normal na política? Ou seja, gente com família, flutuações nos rendimentos, documentos mal preenchidos, multas…? Não sei, e é aí que para mim está parte da questão.

Na política, como em tudo, as pessoas com vidas perfeitas causam-me grandes reservas. Em primeiro lugar porque para se ter uma vida perfeita do ponto de vista político é cada vez mais necessário ter sido sempre funcionário público (ou do partido), de preferência com direito a um serviço de secretariado, para culpar pelos eventuais erros e atrasos, e motorista a quem imputar os excessos de velocidade e estacionamentos em locais indevidos. Ora essa vida perfeita é de temer num político: coisas tão corriqueiras quanto o sistema para pagamento das SCUTS ou as inúmeras obrigações fiscais e administrativas a que estão sujeitos empresas e cidadãos só podem ter saído da cabeça de quem está de má fé ou de quem vive no universo protegido e artificial que se sustenta do Estado e a quem tudo parece legítimo na hora de lhe arranjar mais sustento e poder.

Quem vive fora desse casulo estatal confronta-se com os tectos para os recibos verdes, os meandros dos actos únicos, as facturas de que teve de pagar IVA mas que nunca lhe foram pagas, as multas porque não entregou a tempo o anexo X do modelo Z ou trocou o PEC com o PPC, a saber Pagamento Especial por Conta e Pagamento por Conta, duas denominações que só fazem sentido para o seu criador… Caso o político em causa tenha sido empresário a possibilidade de aparecer um papelinho entregue fora de prazo aumenta exponencialmente. A transformação da classe política numa espécie de casta superior dos quadros do universo Estado, quando não numa promoção para quadros partidários, não é alheia a esta quase impossibilidade técnica de quem está fora do casulo passar no escrutínio.

Em segundo lugar a perfeição causa-me dúvidas porque frequentemente não passa de uma ficção e uma ficção criada por quem tem poder para seu próprio benefício. Querem que recorde a perfeição mais que perfeita encarnada por Ricardo Salgado? E o curriculum ganhador de Sócrates? E já esqueceram a bajulação de que estes homens foram alvo por gente que andava de dedo em riste a acusar os outros? Em geral os maiores problemas escondem-se atrás das maiores perfeições. Mais perverso ainda, o problema dos perfeitos é que ao serem descobertas as suas imperfeições, para não lhes chamar outra coisa, continuam a manter contra a evidência dos factos, as suas narrativas perfeitas de vidas perfeitas e de decisões perfeitas. Não é por acaso que ouvir Bava e Ricardo Salgado na AR ou ler as declarações indignadas de Sócrates com a situação fiscal de Passos Coelho nos põe simultaneamente entre o riso e o choro. Afinal já não se trata de mentir ou falar verdade mas sim de manter para lá do razoável uma narrativa de que já sobra apenas aquele patético protagonista.

Que os partidos tenham à sua frente «gente normal» parece-me bem mais tranquilizador do que aqueles momentos em que estão entregues a pessoas que pairam acima das circunstâncias prosaicas da vida. Mas não se pode também subestimar a vulnerabilidade que tal representa face aos corruptos – que imediatamente nivelam tudo pelo seu nível, invariavelmente baixo – e aos radicais. O radicalismo cresce também porque os radicais conseguem alimentar no eleitorado a ideia de que todos, à excepção deles, são corruptos.

Não sei se ainda vamos a tempo mas parece-me essencial que nesta campanha eleitoral que já anda por aí se recupere a normalidade, ou seja, que líderes normais discutam os problemas das pessoas normais. O culto da excepcionalidade arrebata muita gente mas é meio caminho andado para o desastre.





quinta-feira, 12 de março de 2015


Folias do nosso tempo


Vasco Pulido Valente, Público, 8 de Março de 2015

Não admira que neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão.

Basta ligar a televisão para se perceber o estado de indigência intelectual e política a que chegou o País. A informação, que já foi sofrivelmente sensata, embora parcial e sumária, tem hoje o critério editorial do antigo semanário «O Crime» e da imprensa cor-de-rosa e desportiva.

Para começar, os portugueses são presenteados com horas do que antigamente se chamava «casos crapulosos»: a facada, o tiro, o roubo, a violência doméstica, histórias de tribunal, considerações de réus, de testemunhas, de advogados, de «populares», da polícia e de um ou outro comentador de serviço. Depois do «crapuloso» vem o «acidente» e a catástrofe: desastres de avião e de automóvel, incêndios, tempestades de vento ou neve, inundações, tudo o que meta feridos, mortos, miséria e sangue.

Isto ocupa muito mais de metade do noticiário médio. O resto consiste numa pseudo-reportagem desportiva, ou seja, no dia-a-dia do futebol. A televisão não perde um jogo ou um golo que possa  interessar a meia dúzia de fanáticos de um clube qualquer. Segue os treinos. Esclarece sobre o «plantel» da equipa A ou da equipa B, sobre os lesionados, sobre os castigados, sobre os «duvidosos». Entrevista treinadores na véspera e no minuto seguinte aos «clássicos» e não – «clássicos» do campeonato. Jorge Jesus, por exemplo, é seguido com uma persistência e um zelo com que não se segue nenhum ministro, o primeiro-ministro ou Presidente da República (agora tão retirado que o boato da sua prematura morte já corre pela província). E, através de tudo isto, Ronaldo, sempre Ronaldo, infinitamente Ronaldo.

O tempo que sobra (e o jornal da TVI, para só falar nele dura uma hora e meia) vai para festas: festas de cozinha, festas de vinho, festivais da alheira, do presunto e do chouriço, de quando em quando as prodigiosas fabricações do chefe A ou do chefe B e, continuamente, o sabor e o aroma dos tradicionais produtos deste nosso querido Portugal (que não se vendem nos supermercados, nem nas mercearias de Lisboa). Não admira que neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão. Com um esforço sublime consegue concorrer, e colaborar, com os «valores» que regem os noticiários e não pára de nos dar novos motivos de interesse e estima: a barafunda Sócrates, a barafunda BES, os mistérios do «Visa Gold», o velho incumprimento fiscal de Passos Coelho, a prisão de um inspector da polícia, a mentira impenitente e descarada no parlamento e fora dele. Portugal acaba com certeza por se transformar num «filme negro» (anos 40), sem Bogart, nem Bacall. E nós, pachorrentamente, assistimos na nossa cadeira.





quarta-feira, 11 de março de 2015


Da ditadura fiscal à miséria moral


André Azevedo Alves, Observador, 7 de Março de 2015

Mais do que eventuais pecadilhos de políticos, o que é grave é termos um sistema que se assemelha cada vez mais a uma ditadura fiscal em que todos os cidadãos são culpados até prova em contrário

Pedro Passos Coelho, o actual primeiro-ministro, não pagou impostos (eufemisticamente intitulados «contribuições») à Segurança Social entre 1999 e 2004, período em que foi trabalhador independente. Como não tinha nesse período um contracto por conta de outrem como fonte principal de rendimento, estava obrigado a fazê-lo. Entretanto, face à divulgação da notícia, Passos Coelho achou por bem fazer o pagamento, apesar de a tal já não estar legalmente obrigado, por a dívida já ter prescrito.

Na sequência das notícias sobre Passos Coelho, vieram também à tona notícias relativas a alegados incumprimentos passados de António Costa, o actual líder do maior partido da oposição, no que diz respeito à contribuição autárquica e Sisa. António Costa já veio entretanto desmentir as notícias sobre as alegadas irregularidades que, para já, têm merecido muito menos destaque e interesse investigatório por parte dos jornalistas.

Dado a natureza do tema, vale a pena recordar também que, por exemplo, António Vitorino apresentou a sua demissão em 1997, quando era vice-primeiro-ministro, na sequência de uma investigação jornalística que apontava igualmente para alegadas irregularidades de natureza fiscal numa transacção imobiliária. O episódio não impediu que Vitorino chegasse dois anos depois a comissário europeu nem ao desenvolvimento da sua fulgurante carreira de advogado que se seguiu. Aliás, António Vitorino é hoje um dos mais referidos presidenciáveis na área do PS no caso de António Guterres decidir não avançar.

Nesta, como em outras questões, faz sentido que os padrões de exigência aplicados a políticos sejam maiores do que aos cidadãos comuns, mas o problema central neste caso é a dimensão do Estado e a sua voracidade fiscal, que assume com preocupante frequência contornos para-totalitários. Ter um Estado que vive muito acima das possibilidades do país acarreta a imposição de uma carga fiscal muito acima das possibilidades dos contribuintes. A busca incessante do aparelho de Estado por mais recursos implica por sua vez uma brutal e crescente assimetria de poder entre a máquina fiscal e o cidadão comum.

Assim, a Autoridade Tributária (uma designação que em si mesma é já todo um programa…) que impõe prazos e obrigações declaratórias aos cidadãos é a mesma entidade que frequentemente não cumpre prazos e falha nas notificações. Acresce que, por via do alegado «combate à evasão» (o tal que supostamente propiciaria baixas de impostos que ainda ninguém viu), o ónus da prova está hoje cada vez mais invertido, de tal forma que em muitos casos, na prática, é já o cidadão que tem de provar a sua inocência face à máquina fiscal.

Ayn Rand resumiu bem a situação que daqui resulta numa marcante passagem do seu livro Atlas Shrugged:

«’Did you really think we want those laws observed?’ said Dr. Ferris. ‘We want them to be broken. You'd better get it straight that it's not a bunch of boy scouts you're up against… We're after power and we mean it… There's no way to rule innocent men. The only power any government has is the power to crack down on criminals. Well, when there aren't enough criminals one makes them. One declares so many things to be a crime that it becomes impossible for men to live without breaking laws. Who wants a nation of law-abiding citizens? What's there in that for anyone? But just pass the kind of laws that can neither be observed nor enforced or objectively interpreted – and you create a nation of law-breakers – and then you cash in on guilt. Now that's the system, Mr. Rearden, that's the game, and once you understand it, you'll be much easier to deal with.’»

Para quem leu o livro, é impossível não recordar esta passagem quando se assiste, no actual contexto, a nova discussão sobre a criminalização do enriquecimento «ilícito» ou «injustificado». O caminho rumo à total inversão do ónus da prova e o avanço gradual de mecanismos totalitários de controlo e repressão – sempre em nome, claro, da transparência e do combate contra a corrupção – vai assim avançando paulatinamente. Cada novo episódio constitui uma semente adicional para a demagogia e para o populismo e, passo a passo, vamos caminhando até que todos sejamos, por definição, criminosos face ao Estado.

Não sairemos deste perigoso caminho enquanto não percebermos que a verdadeira miséria moral é termos políticos que ao mesmo tempo que aumentam o peso do Estado e o seu poder para interferir nos mais diversos sectores da sociedade se manifestam publicamente preocupados com a corrupção. Uma boa ilustração simbólica deste triste estado de coisas é a recente notícia de que funcionários da Segurança Social alegadamente vendiam a empresas em dificuldades atestados falsos nos quais se assegurava que a sua situação contributiva estava regularizada, de forma a que pudessem cumprir as condições para se apresentarem a concursos públicos ou a fundos europeus.

O mais preocupante no actual contexto não são os eventuais pecadilhos fiscais de Passos Coelho, Costa, Vitorino ou outros políticos. O que é realmente grave é que todos contribuíram, à sua maneira, para construir e manter um sistema que se assemelha cada vez mais a uma ditadura fiscal em que todos os cidadãos são culpados até prova em contrário.


NOTA DA  REDACÇÃO

O autor deste texto é um liberal. Contudo, neste texto, denunciando a prepotência do Estado-vampiro, aproxima-se da defesa do bem comum, o que, na generalidade, não acontece com o liberalismo, outra forma de vampirismo.





terça-feira, 10 de março de 2015


A galeria dos horrores — ou um Salgado ruinoso

, Expresso Diário, 5 de Março de 2015

O problema sempre foi complexo mas a dúvida sempre foi simples: era tudo burro ou era tudo inteligente no BES? Ou seja: houve negligência ou houve intenção no colapso do Banco Espírito Santo?

Chamar-lhe dúvida é uma previdência jurídica. Não é dúvida, é suspeita: o contágio do GES ao BES, isto é, a forma como administradores do BES torpedearam nos últimos meses a «cerca» («ring fencing») que o Banco de Portugal havia colocado separando o banco do Grupo Espírito Santo, foi deliberada? E se sim, por quem?

Sempre foi difícil imaginar que tudo aconteceu por acaso. A ESI já estava falida há muito, o que o Banco de Portugal soube no final de 2013. Mas foi por acaso que a ESFG passou para dentro da Rio Forte a uma valorização de 22 euros por acção (quando valia em bolsa um décimo disso), assim contaminando irremediavelmente esta «holding»? Foi por acaso que se passaram cartas de conforto à Venezuela? Foi por acaso que se usaram praças financeiras no exterior para nos últimos 15 dias clientes do BES financiarem o GES, arriscando sem saber perder tudo? Foi por acaso que a ordem de não colocar mais papel comercial foi desrespeitada?

Embora toda a gente seja inocente até prova em contrário, é preciso ter caído no caldeirão da presunção de inocência em criança para acreditar em tantos acasos. Henrique Granadeiro disse na CPI que a luta de poder no BES foi tratada como «entre um bando de ciganos», mas foi um bando de banqueiros que gerou e distribui tanto prejuízos.

O Banco de Portugal pensará o mesmo. E, para se munir, e porque se sentiu traído por aqueles que deixou (incompreensível e ingenuamente) que permanecessem à frente do BES, encomendou uma auditoria forense.

Palavras são palavras mas «auditoria forense» quer dizer uma só coisa: procuram-se indícios de ilícitos criminais. Esta auditoria da Deloitte, que o Banco de Portugal entregou à Comissão Parlamentar de Inquérito e que já saiu nos jornais (no Negócios em primeira mão e logo depois no Expresso), tem um destino certo: a Procuradoria Geral da República.

Houve crime ou não no BES?

Claro que houve. Burla, fraude, manipulação de contas, falsificação de documentos, é só determinar entre as várias possibilidades.

Mas se houve crime, quem são os criminosos?

Aqui a pergunta muda radicalmente. Porque embora todas as dúvidas apontem para um nome, muitos mais nomes estavam envolvidos no GES e no BES. Os outros não viram? Não souberam? Não fizeram?

Estas são perguntas a responder posteriormente. Para já, temos publicada a auditoria forense ao BES e os indícios são aterradores. Entre as confirmações de muitas notícias publicadas  ao longo dos últimos meses e as novidades agora reveladas, nada é bom e tudo é grave. E tudo é repugnante.

Folheia-se as 45 páginas da auditoria forense e depara-se com uma galeria de horrores de suspeitas de violações de ordens do Banco de Portugal e de indícios de gestao ruinosa.

O BES usou o Panamá, a Suíça e a Líbia para financiar o GES à revelia do Banco de Portugal, contra credores do grupo e clientes do banco. Ricardo Salgado garantiu empréstimos à Venezuela sem que ninguem soubesse – nem sequer a sua própria administração. Houve esquemas «de financiamento fraudulento» através de obrigações nos últimos 15 dias. Havia administradores do BES a movimentar como queriam contas bancárias que supostamente serviam para pagar papel comercial. Suspeita-se que parte do dinheiro foi usado para pagar a alguns credores, favorecendo-os em detrimento de outros e em violação das ordens do supervisor. O BES emprestava dinheiro a acionistas. O Banco de Portugal foi ostensivamente ignorado. Houve administradores do BES que, em conflito de interesses, não respeitavam as regras internas e não enviavam informação para o departamento de controlo e risco. E por aí fora: basta ler as notícias relacionadas pelo Expresso sobre o documento.

Ainda havemos de perceber por que razão o Banco de Portugal confiou tanto em quem aparentemente o desrespeitou ao longo de tantos meses. Não é essa aliás a única dúvida. Como questionou Sílvia Caneco, jornalista do i, «como é que o Banco de Portugal, que continuamente insistiu na necessidade de constituição da conta escrow, com regras muito específicas, não controlou o que nela era feito em tempo real?» Sim, como é que o Banco de Portugal foi tão facilmente enganado em tantas frentes?

Ricardo Salgado está na linha da frente destas dúvidas, que agora serão investigadas enquanto indícios de crime pela Justiça. Até aqui, o caso era ruidoso. Pode substituir a palavra por outra: ruinoso.

A palavra já não está só nos jornais. Hoje, é palavra de auditor. Agora, falta outra: a palavra do juiz.

Chegou a hora.





segunda-feira, 9 de março de 2015


A verdadeira miséria moral


Rui Ramos

A discussão dos lapsos fiscais e contributivos de Passos assenta na ideia de que a política depende apenas da «gestão» da «agenda mediática», isto é, da habilidade de criar e matar «histórias».

Todos sabemos que dentro de duas semanas ninguém se lembrará disto, como ninguém se lembra já de outras histórias iguais. Todos sabemos que não terá influência nas eleições, como outros casos não tiveram no passado. No entanto, neste momento, há que falar de Passos Coelho e dos seus processos fiscais e pagamentos atrasados à Segurança Social, que ele entretanto regularizou, mas não a tempo de evitar mais uma redacção de José Sócrates, desta vez sobre «miséria moral». Examinemos então a miséria e a moral desta história.

A primeira nota significativa é que se trata de uma história muito velha. Desde 2011, quando Passos Coelho disputou o poder a Sócrates, que rumores sobre os seus processos fiscais serpenteiam pela internet. Em 2012, o primeiro-ministro já teria sido questionado por um jornalista sobre eventuais dívidas à Segurança Social. Em qualquer dos casos, trata-se de pequenas quantias, entre 100 e 2500 euros. Por qualquer razão, foi agora que finalmente tudo transbordou da internet para os jornais e as televisões.

Temos aqui uma das mais curiosas dimensões da vida pública portuguesa: aparentemente, a primeira coisa que a eleição de um político provoca em Portugal é uma corrida às fontes contributivas e fiscais, à procura de lapsos e deslizes que o possam embaraçar. O objectivo, numa era em que o que conta é a «imagem», não é fazer justiça, mas «mossa». O ritual está fixado há muito tempo: enquanto o visado não diz nada, exige-se que «explique»; quando se explica, notam-se as «contradicções»; logo que se defende, aqui d´el-rei que está a «vitimizar-se». Não pode ganhar, valendo-lhe apenas a indiferença pública que rapidamente absorve incidentes deste género mal saem das primeiras páginas e da abertura dos noticiários.

A propósito do caso do primeiro-ministro, logo alguém lembrou que também António Costa foi há anos acusado de vários lapsos fiscais (que negou). De facto, só se Passos e Costa não tivessem vivido e trabalhado em Portugal é que nada poderia ser levantado contra eles. Haverá em Portugal algum cidadão que nunca teve dúvidas genuínas acerca do que devia ou não pagar? O nosso regime fiscal e contributivo é tudo menos simples e transparente. Todos temos, a esse respeito, histórias para contar. Em Portugal, o fisco e a segurança social não servem apenas para subtrair uma grande parte dos rendimentos aos cidadãos, mas também para os empurrar para toda a espécie de irregularidades e infracções involuntárias. O fisco e os demais regimes contributivos, pela sua insondável instabilidade e complicação, são uma imensa armadilha. Neste sistema, não é necessário haver evasão fiscal para haver delitos. Aos cidadãos comuns, a máquina causa toda a espécie de incómodos; quando se trata de políticos e figuras públicas, colabora, violando o sigilo, na fabricação de todos os escândalos. Ninguém é perfeito, como disse o primeiro-ministro, mas em Portugal mesmo a perfeição seria apanhada em falta. Talvez por isso, ninguém verdadeiramente espera demissões nestes casos, ao contrário do que acontece em países onde os serviços funcionam regularmente. Acerca da regularidade dos nossos, basta dizer isto: não foi a Segurança Social, que nunca o notificou, mas um jornalista – repito, um jornalista —, quem alertou o primeiro-ministro para a dívida.

Depois de abordado pelo jornalista em 2012, Passos Coelho contactou o Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa. Ter-lhe-á sido dito que a sua situação era «regular», embora pudesse pagar uma quantia de 2 880 euros «voluntariamente» e para «constituir direitos futuros». Não o fez, o que, perante a informação que lhe terá sido dada, era uma opção legítima. Segundo o ministro da Segurança Social, mais de 100 000 outros contribuintes estão na mesma situação.

Mas apesar de a sua situação contributiva ser regular e a dívida estar prescrita, não devia Passos Coelho ter previsto que o pagamento em falta acabaria um dia por ser utilizado contra si? Sim, devia. E essa é, no fundo, a questão: porque é que, até pela dívida ser relativamente pequena, não a liquidou logo em 2012, quando dela tomou conhecimento, de modo a poupar-se às inevitáveis especulações jornalístico-partidárias? Segundo explicou, não quis que, como primeiro-ministro, parecesse estar a «usufruir de algum benefício particular». Não lhe ocorreram outros riscos?

Ao raciocinar desta maneira estamos, porém, a admitir que a política, afinal, depende apenas da «gestão» da «agenda mediática», isto é, da habilidade de criar ou de matar «histórias», independentemente dos factos. E é aqui que está a verdadeira «miséria moral». Porque o som e a fúria que têm sido gastos neste caso não decorrem de um real interesse pela verdade ou de um genuíno cuidado pelo bem público, mas de um desporto político-mediático ao nível da coscuvilhice e voyeurismo das revistas cor-de-rosa. É um jogo sem consequências jurídicas nem outros efeitos que não um reforço do cinismo e da hipocrisia com que toda a gente se permite encarar a política. Ao contrário do que possa parecer, a oligarquia do regime é a primeira interessada nesta espécie de praxe académica. Nada melhor para rebaixar toda a gente e garantir que nunca haverá ninguém, na vida pública, com «autoridade moral» para agitar o sistema. E nada melhor, também, para diluir os autênticos surtos de corrupção e abuso do poder.

Entretanto, todos os partidos da Assembleia da República – repito: todos os partidos, da direita à extrema-esquerda — apresentam propostas para alterar as sanções ou amnistiar as dívidas por não pagamento nas antigas SCUTs. Imagino, perante um zelo tão universal, que o arquivo das dívidas das auto-estradas contenha elementos suficientes para animar a vida política durante vários anos.




domingo, 8 de março de 2015


A minha abordagem à ideologia de género


João Pedro Cabral Valente

Em primeiro lugar quero desde já esclarecer que sou um básico.

Não sou um intelectual, um artista, um filósofo. Digamos que o meu pensamento está ao nível de um chofer de praça médio (sem ofensa aos chofers de praça, bem entendido).

Mas às vezes dá-me para matutar em certas coisas, que hei-de eu fazer?

A última foi aquilo da ideologia do género. Se bem percebi, as crianças nascem sem um sexo predefinido e mais tarde hão-de fazer uma escolha.

Ora isto anda-me cá a queimar os neurónios. Então se o Joãozinho nasce com um pirilau e a Ritinha com um pipi porque raio ele há-de escolher ser uma Ritinha ou vice-versa?

Quando eu andei na Escola, bem sei que já foi há muito tempo, ensinaram-me que o primeiro instinto de qualquer animal, cão, gato, aranha ou homem, é o da conservação da espécie, ou seja: um animal faz tudo para que a espécie sobreviva e se propague. Só depois vem o instinto da conservação do próprio.

Tenho visto naqueles documentários da televisão as mães leoas a atacarem hordas de hienas para salvarem as crias pondo em risco a própria vida. Para elas é mais importante defender a prole do que a elas próprias. E as avezinhas que voam quilómetros e quilómetros para procurarem comida para os filhotes e a defendê-los dos predadores. E o mesmo com todos os animais, pequenos ou grandes. Toda a gente sabe que não é boa ideia chegarmo-nos a uma cria quando a mãe está por perto. Era muito mais fácil e menos perigoso para as mães (e pais em certas espécies) porem-nos no mundo e dizerem: agora desenrascam-se. Mas não, até algumas espécies de salmão vêm do oceano salgado, sobem com enorme esforço rios de água doce para irem desovar onde nasceram. E a seguir morrem. O importante está feito, continuar a espécie!

No meu fraco entendimento, também acho fácil perceber porque é que os machos procuram em primeiro lugar as fêmeas que lhes parecem capazes de gerar melhores crias e as fêmeas entregam-se aos machos mais fortes, mais saudáveis, mais belos ou vistosos e com mais poder. O resultado desse cruzamento vão ser crias com maior probabilidade de sobreviver e vingar na vida. Mais uma vez o instinto da conservação da espécie.

E eu, cá para mim, o ser humano é um bicho, um animal, pronto (sem ofensa). Qual é o homem que não gostava de ter uma Angelina Jolie a jeito? Ou a mulher que virava a cara ao Brad Pitt? Ambos são belos, fortes, poderosos, à partida bons reprodutores. As suas três «crias» biológicas têm todo o potencial para continuarem a espécie humana nas melhores condições.

Bom, voltando ao Joãozinho e à Ritinha. Se os seus atributos sexuais ficam definidos no momento em que foram gerados (aquela coisa dos cromossomas X e Y), por que raio haviam eles de resolver mais tarde que querem ser uma Joãozinha ou um Ritinho? É o instinto de conservação da espécie? Claro que não.

À excepção de casos patológicos raros e complicados, o que acontece é um desvio comportamental, ou seja: uma alteração a esse instinto de conservação da espécie na sua componente reprodutiva que pode ser resultado de grande variedade de razões: pais ou mães excessivamente dominadores ou pelo contrário ausentes ou desinteressados, outros traumas sofridos desde a mais tenra infância, violência doméstica, abandono, aquilo que agora se chama bullying e que no meu tempo se chamava levar pancada dos colegas e ser alvo da chacota da escola (refúgio de relações desiguais de poder), dificuldade de abordagem ao sexo oposto, pressão social de grupos com o mesmo tipo de problemas, no caso de adultos relações heterossexuais fracassadas e traumatizantes, enfim: há um grande número de razões que, à medida que as pessoas crescem, se combinam, adicionam e se misturam com outras vivências e sentimentos, dando origem a esses desvios.

Este assunto veio-me à ideia depois de ter lido um artigo segundo o qual, só na cidade de Paderborn, na Alemanha, um conjunto de pais já tinha passado, no total, 210 dias presos, ou porque não tinham deixado os filhos irem às aulas de educação sexual, ou porque as próprias crianças se recusavam a ir, aulas nas quais entre outras coisas, se ensina a tal «ideologia do género».

Não julguem que sou homofóbico (acho este termo ridículo). Tenho alguns bons amigos e muitos conhecidos que são homossexuais, que estimo como a todos os que não o são. Não os acho culpados de nada. Quando muito serão vítimas.

Mas confesso que me assusta quando, como se não bastasse já a comunicação social, os estados, por meio das escolas, quererem formatar a cabeça das crianças, não só em assuntos tão sensíveis como este, mas também noutros como por exemplo na História ou nas Ciências.

Para mim que, repito, sou básico, a família é o núcleo da sociedade. A família é que deve educar e a escola limitar-se a ensinar. Uma sociedade sã e livre não resulta com certeza daquilo que os governos querem fazer de nós mas antes começa por uma família sã e equilibrada que ama, cuida e acompanha o crescimento e desenvolvimento dos seus filhos.





sexta-feira, 6 de março de 2015


Por que ataca Tsipras Portugal e Espanha?


José Ribeiro e Castro

O tom com que Tsipras atacou Portugal e Espanha, neste fim-de-semana, surpreendeu. As acusações foram, nada mais, nada menos, de que os governos português e espanhol quiseram «derrubar o governo do Syriza» e «levar a Grécia para o abismo». Foi ao ponto de sustentar mesmo, a apimentar o quadro, que Portugal e Espanha formaram um «eixo contra Atenas» (designação sugestiva...) e afirmou não ter dúvidas sobre que se tratava de um plano deliberado e bem urdido: «O plano era – e continua a ser – o de provocar desgaste e derrubar o nosso Governo ou forçar-nos a uma rendição incondicional, antes que o nosso trabalho começasse a dar fruto e antes que o nosso exemplo afectasse outros países.»


A coisa não podia ser mais delirante.

Jamais se ouvira algo assim nas relações entre governos europeus; e, por isso, o ataque causou estranheza, tendo sido logo criticado por terceiros atentos como uma «falha», enquanto Tsipras já aparenta sinais de recuo e surge a falar na necessidade de «diálogo» e de evitar «qualquer má interpretação». Ao mesmo tempo, declara negar a necessidade de criar «inimigos externos», um velho tique dos leninistas, mas deixa a dúvida sobre se isto não será outra velha táctica de mestre Lénine: dois passos em frente, um atrás.

A questão é saber por que motivo Tsipras, um líder político experiente e de sucesso, fez efectivamente aquilo. E fê-lo exactamente na primeira reunião do comité central do Syriza, pós-eleições.

A única explicação objectiva está na proximidade de eleições legislativas em Portugal e Espanha. O Syriza, junto com os seus compadres espanhóis e portugueses, aspira a vitórias do Podemos em Espanha e de uma amálgama de esquerda em Portugal (PS/BE/Livre e mais-não-sei-o-quê-que-por-aí-se-anda-a-formar).

A estratégia é simples: por um lado, alimentar o discurso anti-troika e os sentimentos anti-germânicos; por outro lado, apontar que os governos à direita estão do lado dos «maus» (os alemães) contra os «bons» (os gregos). Tudo envolvido na «heroicidade» dos «guerreiros negociadores gregos» e no glamour de Varoufakis. No fim de tudo, passada a fase dos PIGS e dos PIIGS, sonham vir a entoar, em coro: «O Sul é vermelho!» Talvez até cantando de novo a Internacional.

Que Espanha escapou por um triz à troika, que os programas de ajustamento correram fundamentalmente bem na Irlanda e em Portugal e que só falharam na Grécia porque não cumpriu quase nada – é o que não interessa. Que os «bravos negociadores» gregos tiveram que ceder quase tudo, diante do banho da realidade – é o que importa pôr e manter na sombra. Que os governos Rajoy e Passos Coelho defendem os interesses portugueses e a capitalização dos sacrifícios feitos e não estão ao serviço nem de alemães, nem de gregos – é o que importa desacreditar.

É fundamental que o governo grego arrepie caminho e mostre sentido de responsabilidade. Não vem mal ao mundo que os partidos afins tenham relações interpartidárias e se apoiem mutuamente, isto é, que o Syriza se relacione com o Podemos e o BE, se é assim que gostam. Mas querer transformar o Conselho Europeu num tabuleiro de estratégias e tácticas eleitorais seria uma responsabilidade completa e um caminho suicidário, que se pagariam muito caro. Faria muito mal à própria Grécia e seria mais uma deriva para o desastre de que a Europa não precisa nada.

O lugar para protestar, governo a governo, é pela diplomacia e embaixadores, não por métodos que sejam apelidados de «queixinhas». Passos Coelho fez bem em desmentir o alegado «protesto» em Bruxelas e o respectivo folhetim que se armou. Mas o assunto é sério. E merece ser analisado e tratado com seriedade e determinação nos termos apropriados e com impecável rigor, quer no plano das relações bilaterais, quer no funcionamento multilateral das instituições europeias.

O Conselho Europeu não é um bando de rapazes, de cachecol, bandeiras e autocolantes, entretidos em campanhas eleitorais. É uma instituição de que depende o futuro da Europa e dos cidadãos europeus.





quarta-feira, 4 de março de 2015


O admirável mundo das greves no metro


Pedro Sousa Carvalho, Público, 27 de Fevereiro de 2015

A frequência com que os trabalhadores do sector dos transportes públicos fazem greves tem qualquer coisa de extraordinário. Basta uma breve visita à página de Internet da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) para chegarmos ao admirável mundo das greves. Por exemplo, na agenda desta semana da Fectrans, de segunda a sexta, em todos os dias estão marcadas greves na CP e na Carris ao trabalho extraordinário. Na terça-feira houve ainda a greve no metro de Lisboa e ontem estava agendada uma concentração de activistas do sector ferroviário e uma manifestação nacional de ferroviários. Para hoje estava prevista uma outra greve no metro de Lisboa que entretanto foi desmarcada. Só que, no mesmo dia em que o sindicato do Metropolitano desmarca a greve, agenda mais duas para 16 e 18 de Março.

Convém sempre começar pela sacrossanta frase do «não está aqui em causa o direito à greve». Mas a verdade é que no sector dos transportes estamos a assistir ao que parece ser uma banalização deste direito previsto na Constituição. E esse direito, além de colidir com outros igualmente fundamentais, não nos deve inibir de perguntar, e tentar responder: quem é que ganha com tantas greves? Os trabalhadores? Os sindicatos? As empresas? E as reivindicações são justas tendo em conta aquilo que se passa (e se paga) nas restantes empresas públicas?

Sempre que o metro de Lisboa faz greve os seus 500 mil utentes e os restantes moradores da cidade ficam com o dia virado do avesso. São longas caminhadas, são filas intermináveis de trânsito, é o dinheiro que se gasta nos táxis, nos parquímetros, é o chegar atrasado ao trabalho, etc… Aliás, o Tribunal Arbitral, quando decretou a obrigatoriedade da realização de serviços mínimos para esta sexta-feira, chama a atenção para a colisão do direito da greve nos transportes com outro direito fundamental, também ele reconhecido na Constituição: «As necessidades sociais impreteríveis». E a lei reconhece a actividade de transporte ferroviário de passageiros como uma «necessidade social impreterível». Escreve o Tribunal que quando o metro pára está em causa a «liberdade de circulação das pessoas, tanto considerando o direito de circulação em si mesmo, como relacionando tal direito com o direito à saúde, o direito à educação ou o direito ao trabalho em sentido amplo (já que o exercício destes direitos depende da possibilidade de acesso a um determinado local)».

Isto quer dizer que um direito fundamental que é a greve não deve ser banalizado para não violentar outros direitos dos cidadãos igualmente fundamentais. O relatório e contas da Metro relativo a 2013 (o último disponível) refere que nesse ano houve 14 pré-avisos de greve (sendo que duas foram desconvocadas), o que correspondeu a 30,405 mil horas não trabalhadas por motivo de greve. Em 2014 (dados ainda não oficiais) terão também sido 14 as greves e este ano já se viu que vamos bem encarrilados para chegar a esse número.

Os utentes não são os únicos prejudicados. Quem faz greve também perde um dia de salário. E mesmo aqueles que recebem o salário desse dia de greve através dos sindicatos têm de descontar previamente para um fundo de greve. Com certeza que o objectivo da greve é (ou deveria ser) que os trabalhadores tenham ganhos a prazo; mas a verdade é que as revindicações dos sindicatos já se tornaram tão difusas e tão banais que perdem a eficácia nas negociações. Já só servem para os sindicalistas mostrarem serviço.

Quem se der ao trabalho de ler os avisos e pré-avisos de greve da Metro de Lisboa no site Fectrans percebe que as revindicações vão variando de semana para semana e englobam quase tudo: Defesa dos postos de trabalho; organização do trabalho, «péssimas» condições de trabalho; cumprimento do Acordo de Empresa; defesa do serviço público; horários, folgas, férias, tempo extraordinário não pago, supressão de postos de trabalho, segurança; reposição dos complementos de reforma; aumento «brutal dos preços», redução da frequência de comboios, aumento do tempo de espera; fim dos «roubos» nos salários e nas reformas; luta contra a subconcessão (privatização), etc…

Qual é o incentivo dos patrões para aceitar essas reivindicações? Pouco ou nenhum. Basta olhar para o relatório e contas da Metro de Lisboa e fazer umas contas de merceeiro: a Metro gasta por ano 46 milhões de euros a remunerar os seus 1490 trabalhadores. O que quer dizer que por cada dia de greve poupa qualquer coisa como 110 mil euros em salários. O reverso da medalha é que com as portas fechadas a Metro não vende bilhetes. Contudo, a verdade é que a grande parte das receitas da empresa é rígida: 44 milhões de indemnização compensatória e 38 milhões de receita com a venda de passes (que o utente paga quer haja greve ou não). Assim sobram 37 milhões de euros de receitas com a venda de títulos ocasionais, o que significa que por cada dia de greve a Metro deixa de facturar 104 mil euros.

Resumindo, num dia de greve a empresa poupa 110 mil euros em salários (sem contabilizar as poupanças com electricidade e noutras despesas de funcionamento) e deixa de facturar 104 mil euros. Não há portanto grande incentivo para que a administração faça alguma coisa para que o utente não fique apeado à porta da estação. É perverso que fazer greve possa beneficiar os patrões e prejudicar apenas os utentes. O Governo aprovou ontem o lançamento dos processos de subconcessão da Metro de Lisboa e da Carris a privados. Pode ser que alguma coisa mude.





segunda-feira, 2 de março de 2015


Ver ou não ver


Vasco Pulido Valente, Público, 27 de Novembro de 2015

Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.

Com as nossas preocupações domésticas, não nos sobra o tempo para pensar em coisas muito mais sérias como o expansionismo da Rússia.

Vem na Wikipédia, mas convém repetir, que a Rússia é uma federação de 22 repúblicas, 46 regiões autónomas (como a da Madeira) e nove territórios. Pior ainda, tem 160 etnias diferentes, 100 línguas diferentes, quatro grandes religiões diferentes (a ortodoxa, a islamita, a judaica e a budista) e uma enorme variedade de seitas, que constantemente varia e se multiplica. Tudo isto para uma população relativamente pequena de 140 milhões de habitantes. Qualquer pessoa de senso compreenderá que, segundo um velho hábito do século XVIII, chamamos Rússia a um Império que só pode ser governado autocraticamente e onde a democracia está para sempre condenada.

O autocrata de hoje já não é o czar Nicolau II, nem Lenine, nem Estaline, nem Khruschev, nem Brejnev. É um antigo membro da polícia secreta e, por consequência, um dissimulador, um mentiroso, um torcionário e um assassino, que dá pelo nome de Putin e que preside a uma cleptocracia, largamente caótica, a que só a violência e o seu arbítrio garantem uma vaga coesão e uma aparência de Estado. Além disso, na falta de uma legitimidade dinástica como a dos Romanov, ou ideológica como a URSS, Putin precisa, para se ir aguentando, de invocar a legitimidade imperial, principalmente depois da maior derrota que o Império sofreu desde 1613. O que não seria importante, se depois da implosão do comunismo a Rússia não permanecesse a segunda potência militar do mundo.

E se a Europa não se tivesse desarmado, como desarmou, para pagar o Estado social. A Inglaterra, por exemplo, gasta em defesa menos do que 2 por cento do PIB, no momento em que Putin (de resto, provocado pela França e pela Alemanha) embarcou numa política claramente agressiva e revanchista. A Crimeia foi o primeiro objectivo, como já o fora para Catarina, porque o Império fica fechado ao exterior sem um porto de água quente; e o segundo foi parte da bacia do Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do Império. Estaline e Hitler perceberam este ponto essencial. Putin também; e não há a sombra de uma dúvida de que não recuará. Como, tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.