sexta-feira, 10 de abril de 2015


Os descamisados doutorados


João Miguel Tavares, Público, 9 de Abril de 2015

Reparem como sou moderado: por um lado, não gosto nada do que o CES faz; por outro, compreendo que o queira fazer.

Nem por acaso: enquanto eu andava entretido a debater a qualidade «científica» do Observatório sobre Crises e Alternativas e as peculiaridades ideológicas do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Miguel Seabra, apresentava a sua demissão, após um desgraçadíssimo mandato.

Ora, a FCT e a ciência social ao estilo CES – que a sua própria direcção classifica como (juro) «ciência social crítica» ou «ciência cidadã» – estão ligadas por um cordão umbilical que diz muito acerca das debilidades estruturais deste país e do perigo da aposta acrítica na «qualificação», o cavalo favorito de António Costa e dos governos socialistas.

Dir-me-ão: mas então não é tão bonito investir na educação, na formação, na qualificação, e em outras palavras acabadas em «ão» que enchem a boca e o coração? É, é. Só que, quando juntamos 1) a política de doutoramentos e pós-doutoramentos criada por Mariano Gago e patrocinada pela FCT; 2) as limitações e a falta de competitividade da economia portuguesa; e 3) a chegada em força da austeridade e o aumento dramático do desemprego jovem; o resultado deste cocktail mortífero só pode naturalmente ser um: a criação de um exército de descamisados doutorados, completamente dependentes da boa-venturança do senhor professor que dá uma ajudinha para conseguir a bolsa do pós-doc, e que chegam aos 35 e aos 40 anos numa situação lastimável, sem forma de ingressar nos quadros das universidades (que estão fechados e cheios de gente menos competente do que eles), sem uma vida profissional estável e com excesso de qualificações para os empregos disponíveis.

Os números não mentem (enfim: às vezes mentem, se torturados por cientistas cidadãos). Em 1997, ano em que a FCT foi criada, doutoraram-se 579 portugueses. Em 2013 (dados Pordata), doutoraram-se 2668. Os doutorados quintuplicaram numa década e meia. Quando se olha para o gráfico dos doutoramentos anuais desde 1970, a evolução a partir do final dos anos 90 é uma subida de montanha de primeira categoria. Ou seja, enquanto em termos económicos o país afocinhava, naquela que já é conhecida como a «década perdida», as qualificações dos portugueses não paravam de subir. Seria fantástico, em termos de competitividade, se – e este é um grande «se» – o sector privado conseguisse absorver um quinhão significativo dos doutorados. Infelizmente, não consegue.

Um estudo de 2009 sobre a situação profissional dos doutorados em Portugal indicava a existência de 17 010 a trabalhar em investigação e desenvolvimento. Mas sabem quantos é que o faziam fora das universidades, em empresas privadas? 196. Ou seja, pouco mais de 1% do total. É esta a força da investigação e do desenvolvimento em Portugal. E se olharmos para o domínio específico das ciências sociais, não é difícil adivinhar o seu credo da última década: «fora da universidade (ou do laboratório associado) não há salvação».

Reparem como sou moderado: por um lado, não gosto nada do que o CES faz; por outro, compreendo que o queira fazer. Boaventura Sousa Santos, José Manuel Pureza e Carvalho da Silva têm um batalhão de doutorados descamisados, frustrados e politizados às suas ordens, que lhes foram oferecidos por Mariano Gago, uma economia débil e um país intervencionado. Há que entendê-los: a tentação de criar as condições para que um dia possa nascer um Pablo Iglesias do Mondego é demasiado grande. E é para isso que eles trabalham. «Cientificamente».





terça-feira, 7 de abril de 2015


O salvador


Vasco Pulido Valente, Público, 3 de Abril de 2015

Para nossa desgraça, António Costa, talvez por falta de inspiração própria, não mostrou até agora capacidade para inspirar ninguém.

O menos que se pode dizer da operação que levou António Costa a secretário-geral do PS e a candidato a primeiro-ministro é que não foi «elegante».

Nessa altura, muita gente desculpou ou justificou a grosseria e a brutalidade da coisa, porque esperava de António Costa uma nova oposição ao governo lúcida e compreensível e, sobretudo, com princípio, meio e fim. A discrição e as meias-frases na Quadratura do Círculo davam a impressão de esconder um pensamento sólido e um plano político original, que nos tirasse do lugar-comum e da pura irrelevância do debate instituído. Infelizmente, não aconteceu nada disso. Nem nos rituais do Congresso Socialista, nem a seguir em meia dúzia de entrevistas de uma «prudência» claramente exagerada e de uma ambiguidade extrema, António Costa saiu da mastigação das velhas lamúrias da esquerda e da extrema-esquerda.

Esperança não trouxe nenhuma; e extinguiu depressa o entusiasmo das «primárias» do PS, em que não se sabe ao certo quem votou. Apareceu então um putativo salvador que se calava ou, quando se mexia, era como se andasse a pisar ovos. O que, de resto, não o salvou de erros sem desculpa. Prometeu baixar o IVA da restauração para 13% (como se os 23% não tivessem também o objectivo de melhorar a qualidade dos serviços prestados); prometeu a «reposição total» dos salários (do Estado, claro) e das pensões, sem explicar onde iria buscar o dinheiro para essa extravagância; prometeu que os municípios passariam a reter uma indeterminada percentagem do IVA, gerado localmente; e prometeu um «programa nacional» de «requalificação urbana», aparentemente financiado pela «Europa». Ora isto por um lado é muito, e por outro lado muito pouco. Meia dúzia de medidas não faz um plano estratégico; e um plano estratégico precisa de uma inspiração unificadora, capaz de ser adoptada e compreendida pelo cidadão comum.

Mas, para nossa desgraça, António Costa, talvez por falta de inspiração própria, não mostrou até agora capacidade para inspirar ninguém. No governo foi um razoável ministro; na câmara um administrador sofrível; e no partido um ambicioso hábil. O que não chega para um país sem futuro certo ou destino visível. Tropeçando de papel em papel e de comissão em comissão, António Costa vai fatalmente desaparecer, já desapareceu, no cansaço e no desespero dos portugueses.





sábado, 4 de abril de 2015


Aconteceu-nos e pode voltar a acontecer


Helena Matos, Observador, 29 de Março de 2015

O que o percurso de Sócrates revelou foi uma enorme disponibilidade da esquerda para apoiar caudilhos e a extraordinária fragilidade daquele que, até hoje, tem sido o principal partido português, o PS.

Andamos todos muito entretidos a discutir o futuro das democracias por causa do crescimento de partidos que esperávamos ver como marginais – o Syriza, o Podemos e a Frente Nacional. Muitos de nós até agradecemos aos céus, ao PREC e ao PCP preservarem Portugal de tal assombração. Mas nem reparamos que aquilo que podia ter acontecido em Portugal e de certa forma aconteceu foi bem mais perigoso. Foi um grande partido tornar-se ele mesmo um instrumento das circunstâncias pessoais de um homem, José Sócrates.

Entendamo-nos desde já e antes que comece a ladainha na caixa de comentários sobre a inocência de José Sócrates e a sem razão da sua detenção: não me interessam as acusações de natureza criminal que possam vir a ser feitas contra o antigo primeiro-ministro. Experimento aliás uma imensa vergonha de cada vez que saem mais notícias sobre tal assunto. Afinal não passo de uma provinciana cidadã de um pequeno país que sabe que este tipo de casos acontece em todo o lado mas que também não ignora que o mundo reage institucionalmente quando estes casos acontecem com o Kremlin ou o Palazzo Chigicomo panos de fundo.

Pelo contrário se o cenário for aquela pequena vivenda de S. Bento a que por aqui chamamos palácio, os sorrisos escarninhos e condescendentes logo aparecem. A isto, que já não é pouco, junta-se o meu sério temor que ao reduzirem-se as dúvidas sobre a actuação de José Sócrates a um ou muitos casos de justiça acabemos a esquecer o essencial: a condenação ou absolvição num tribunal não pode nem deve substituir-se ao juízo moral nem político.

Feita esta introdução passemos ao que me interessa: a política. E aos falarmos de política chegamos àquilo que o percurso de Sócrates revelou: uma enorme disponibilidade da esquerda para apoiar caudilhos e uma extraordinária fragilidade daquele que, até agora, tem sido o principal partido português. Não interessa que o PS ganhe ou perca as eleições. A linguagem, o paradigma, as referências, o padrão do regime são socialistas em Portugal.

Cavaco Silva conseguiu enormes vitórias eleitorais mas continua a ser visto como um intruso no poder. Os estadistas são Soares e Guterres. Sá Carneiro só é uma referência transversal porque morreu. E é muito cedo para dizer que Passos Coelho conseguirá alterar esta espécie de pacto de regime. Portanto, que o PS possa ser capturado por um grupo que o coloca ao serviço dos seus particulares desígnios não diz apenas respeito aos socialistas. Diz respeito a todos nós. Não tenho aliás grandes dúvidas sobre o que seria o funcionamento das instituições da democracia portuguesas devidamente entregue a pintos monteiros e noronhas do nascimento, caso o governo em funções em 2011 não se tivesse visto obrigado a chamar a troika e que consequentemente Sócrates não tivesse perdido as eleições em 2011. De igual modo tenho quase a certeza que Sócrates preparava uma candidatura presidencial quando foi detido. Para tudo isso podia contar com o PS transformado no seu círculo protector.

Mas deixando o plano do que nos poderia ter acontecido voltemos ao plano do que de facto nos aconteceu e não pode voltar a acontecer: um partido, para mais um grande partido, sofrer um processo de captura pelas circunstâncias pessoais do seu líder. E este usar em proveito próprio as características desse mesmo partido. No caso, a cultura jacobina a par da convicção de superioridade intelectual e moral dos quadros e simpatizantes socialistas levou-os a transformar o partido numa espécie de milícia de defesa de Sócrates.

Note-se que os partidos socialistas sempre foram um objectivo para a chamada táctica do «entrismo» que, como é próprio de todas as tácticas políticas muito ardilosas mas pouco eficazes, nasceu da cabeça dos trotsquistas.

Resumidamente a coisa passar-se-ia assim: militantes trotsquistas escondendo a sua pertença ideológica filiavam-se noutros partidos, sobretudo nos socialistas democráticos. Uma vez lá dentro tinham como objectivo transformar estes partidos reformistas em partidos revolucionários.

Tudo isto tem as suas variantes que no caso português acabam geralmente com a irónica suspeita de que o estalinista PCP seria o grande beneficiado caso a tendência «entrista» de Manuel Serra tivesse vingado no congresso do PS de 1974. Já em França o entrismo foi bem sucedido quando o antigo militante trotsquista Lionel Jospin se tornou líder do PSF. Acontece contudo que sendo os trotsquistas notáveis a conceber tácticas são também incapazes de atender ao essencial: o infiltrado podia esquecer-se da missão que trazia e aderir às teses da organzição que deveria subverter. Assim nunca se soube se Lionel Jospin foi ou não um agente do entrismo da Organização Comunista Internacionalista dentro do PSF. Mas em boa verdade não fez nada para transformar o PSF num partido revolucionário. Aliás enquanto primeiro-ministro proferiu a frase «l’État ne peut pas tout» um óbvio ululante mas dizer em França no ano de 2002 que o Estado não pode tudo era um perfeito sacrilégio face ao estatismo então e agora reinante na esquerda e na direita daquele país.

Espantosamente (ou talvez não) o PS português, que sempre manifestou prudência face aos candidatos a entristas ou que teve a capacidade de os tornar politicamente apresentáveis como fez com Ferro Rodrigues e Jorge Sampaio (antigos radicais do MES) deixou-se instrumentalizar por Sócrates. O que esse episódio nos veio mostrar é que qualquer um que domine o jargão da esquerda e a leve a acreditar que ele sim vai derrotar a direita inevitavelmente ultra-montana, retrógrada e reaccionária («a mais estúpida do mundo» e «neo-liberal» também são expressões a considerar) terá não apenas o apoio mas também a devoção do eleitorado socialista. Mais, contará com o silêncio dos estridentes compagnons de route dos socialistas, como é o caso do BE e seus múltiplos derivados, que vivem na esperança de fazer o melhor negócio da política portuguesa: associarem-se ao PS ou serem convidados a entrar naquele partido.

Seja qual for a modalidade, uma regra aplica-se sempre: nunca uma gente que não vale mais que meia dúzia de votos consegue tanto protagonismo e alarido em torno das suas pessoas. Para cúmulo ficam sempre com a aura de serem a consciência de esquerda do PS o que é meio caminho andado para se tornarem personalidades de referência e para que o PS se convença de que fez um bom negócio.

Assim, o que perturba não é tanto o que Sócrates fez mas sim aquilo que muitos no PS e nessa entourage que vive de o PS ser poder não quiseram ver que ele fazia. Perturbante é ainda e sobretudo constatar que o povo socrático continua à espera de quem lhe pegue. Não, não me estou a referir aos que vão cantar hinos para a porta da prisão de Évora mas sim a essa plêiade de notáveis que quanto mais insanes eram as medidas que o então primeiro-ministro tomava mais eles resguardados nas suas universidades, institutos, fundações, ordens e observatórios, garantiam que o primeiro-ministro devolvera a esperança aos portugueses. Essa gente continua aí, disponível, à espera não só de quem lhes prometa o impossível mas sobretudo de quem consiga envolver essa promessa num imaginário de uma esquerda a «malhar na direita». Tal como anunciava aquele homem que nos Restauradores vendia os mais improváveis objectos «É disto que o meu povo gosta!»

Na verdade o PS gostou de Sócrates e aquilo que esperam de cada novo líder é que ele lhes devolva o espírito miliciano que tiveram com Sócrates. Nada disto é crime. Mas politicamente falando é um desastre. Para maior azar foi o nosso desastre e pode voltar a sê-lo outra vez.





quinta-feira, 2 de abril de 2015


Acidente da Germanwings:

impotência e humilhação colectiva


Pedro Afonso

De acordo com as informações disponíveis, a queda do Airbus 320 da Germanwings na região nos Alpes, em que morreram 150 pessoas, terá tido origem num acto deliberado do co-piloto Andreas Lubitz. O jornal alemão Bild avança a informação de que Andreas Lubitz terá recebido tratamento psiquiátrico há cerca de seis anos por apresentar sintomas de depressão profunda. Estas informações levantam a possibilidade de existir uma doença psiquiátrica grave por detrás deste acto aparentemente suicida.

Embora tenhamos de ter a devida reserva por não conhecermos os factos na sua totalidade, o acidente é suficientemente grave para merecer algumas reflexões. Em primeiro lugar, este acidente levanta a questão dos riscos das doenças psiquiátricas no mundo laboral. Um relatório recente, publicado este ano pela OCDE, revelou que cerca de 20% da população em idade activa sofre de uma doença mental a qualquer momento e uma em cada duas pessoas (50%) vai sofrer um período de má saúde mental durante a vida.

Quando um indivíduo sofre de depressão grave e continua a exercer a sua actividade profissional sem o acompanhamento adequado, esta situação pode ser particularmente perigosa e sensível em determinadas profissões, como é o caso dos pilotos de aviação, agentes de segurança, militares, etc. Um dos perigos reside no risco de suicídio. Cerca de dois terços das pessoas que cometem suicídio sofrem de depressão. Além disso, no caso de o indivíduo sofrer de depressão, o risco de cometer suicídio é cerca de 21 vezes superior à restante população.

Mas como é que se podem detectar estas situações em profissões de risco? Contrariamente ao que tem sido referido por alguma comunicação social, a depressão grave não é uma «doença psicológica» que pode ser facilmente detectada por testes. A depressão grave é uma doença orgânica que provoca muitas alterações fisiológicas, atingindo o cérebro e outros órgãos, e que afecta a capacidade de sentir, pensar e agir. O seu diagnóstico é clínico — já que não existe um exame específico —, não podendo ser efectuado por testes psicológicos. No entanto, estes testes podem ajudar a seleccionar os candidatos a pilotos, identificando alguns factores de risco para vir a sofrer de doenças mentais, nomeadamente associados à personalidade, mas não diagnosticam propriamente doenças psiquiátricas.

Por que será que um indivíduo se suicida e decide matar juntamente consigo uma série de pessoas inocentes? A resposta a esta pergunta é difícil, mas sabemos que existem doenças psiquiátricas graves, embora raras (por exemplo, a depressão psicótica), nas quais o indivíduo pode apresentar sintomas psicóticos, mais concretamente ideias delirantes de conteúdo niilista. Neste caso, a pessoa pode acreditar que tudo acabou, a esperança desaparece e não há futuro; portanto, está convicta de que não existe solução para o sofrimento que se tornou insuportável, julgando ainda que os outros se encontram na mesma situação. Assim, este acto homicida é visto pelo próprio como um acto de compaixão. É o chamado «homicídio oblativo ou piedoso», já que o indivíduo considera (erradamente) que ao matar os outros está a ter um gesto de misericórdia.

Que factores na área da aviação podem contribuir para o aumento das doenças psiquiátricas? Um dos aspectos que se encontram relacionados com este tema diz respeito ao stresse profissional. Esta situação pode dar origem a uma autêntica doença ocupacional (burnout) que ainda é muitas vezes ignorada pelos vários responsáveis. Com frequência surgem queixas, por parte dos pilotos e restante tripulação, de que a carga horária é excessiva e que nem sempre são respeitados os intervalos de descanso. Aparentemente, este fenómeno tem vindo a aumentar, já que a competição entre companhias de aviação é enorme, e a tentativa de reduzir ao máximo os custos tornou-se uma obsessão dos gestores. O incremento do stresse profissional pode aumentar o risco de aparecimento de doenças psiquiátricas e com isso colocar em causa a segurança.

Esta recente tragédia veio trazer para o debate público a questão da segurança na aviação. Para além disso, deveria também alertar para o aumento das doenças psiquiátricas no mundo do trabalho e para a importância que se deve dar à saúde mental, independentemente da profissão. Este é um assunto complexo para o qual não existem soluções fáceis. Seja como for, há que criar condições para prevenir e detectar estas situações o mais precocemente possível, evitando-se as consequências terríveis que um aparente suicídio como este acarreta, levando à morte 150 inocentes e gerando um sentimento de impotência e de humilhação colectiva.


NOTA DA REDACÇÃO

As estatísticas sobre as doenças mentais aqui apresentadas pecam por defeito dado que o gangue dos invertidos conseguiu que a sua doença fosse retirada da lista das doenças psiquiátricas. Não é doença, é opção do «género»...





segunda-feira, 30 de março de 2015


Esta é a ONU dos «sábios» Adriano Moreira e Freitas


Heduíno Gomes

No nosso post «Assembleia Geral vota a favor do 'casamento' entre invertidos e fufas» há ainda a acrescentar uma pequena nota.

Esta é a ONU dos nossos «sábios» Adriano Moreira e Freitas do Amaral, que pretendem colocar a ONU a governar o mundo.

Dois académicos parolos sem visão de Estado e sem perspectivas nem para a Civilização, nem para o Ocidente nem para Portugal.






Assembleia Geral da ONU vota a favor

do chamado «casamento» entre invertidos e fufas


Stefano Gennarini, resumido

Tradução: Julio Severo

Numa reunião do orçamento animada e surpreendentemente cheia na semana passada, os países membros da ONU aprovaram benefícios especiais para qualquer funcionário invertido ou fufa da ONU.

Uma proposta na Assembleia Geral quase reverteu a decisão unilateral do secretário-geral em Junho passado estendendo benefícios de casamento para qualquer funcionário invertido ou fufa da ONU, ainda que o seu país de origem não reconheça o «casamento entre invertidos e fufas».

O Secretário-Geral da ONU com o universalista,
relativista e multiculturalista Sampaio.

O que é surpreendente é que 80 países votaram a favor para permitir tais benefícios. Só 43 países votaram para revogar a decisão executiva, e 70 países cujas leis não estão em coerência com a acção executiva ou se abstiveram do voto (37), não apareceram ou não chegaram a dar um voto (33). Se todos esses países tivessem votado, é provável que a Assembleia Geral tivesse revogado o secretário-geral.

Uma mensagem do secretário-geral defendendo a sua decisão foi lida antes da votação, dizendo que era seu «privilégio e dever» tomar tais decisões. Os Estados Unidos, os países europeus e os países nórdicos tomaram a palavra para repercutir os comentários dele sobre a necessidade de promover a «igualdade.»

Fontes dizem que o resultado da votação não deveria ser visto como uma exibição mundial de apoio aos direitos LGBT, mas como prova da dominação completa dos países ricos que fazem doações no orçamento e nas questões administrativas da ONU. O resultado aumenta a percepção de que os países membros não têm a mesma agenda social dos países ricos que fazem doações e têm menos adesão no sistema.

Até mesmo entre os 80 países que votaram com o secretário-geral, pelo menos metade deles não tem condições de dar benefícios especiais para invertidos e fufas nas suas leis nacionais. O casamento entre um homem e uma mulher permanece como norma na maioria dos países e não mais do que 40 países no mundo inteiro dão benefícios a invertidos e fufas por meio de leis que sancionam o tão chamado «casamento» entre invertidos e fufas ou uniões civis. Até mesmo na Europa poucos países sancionam tais «casamentos» sem qualificação.

As abstenções e ausências são o produto de uma campanha de seis anos realizada pelos Estados Unidos e países europeus para fazer com que os países se abstenham durante as votações envolvendo direitos lésbicos, invertidos, bissexuais e transgêneros (LGBT) na ONU.

Esta não é a primeira vez que a Assembleia Geral dá a sua aprovação oficial a uma decisão do secretário-geral para garantir benefícios de casamento para funcionários invertidos e fufas da ONU.

A resolução de 2004 foi adoptada pela Assembleia Geral depois de uma acção executiva similar do secretário-geral, e limitava o alcance da sua decisão para estender benefícios de casamento para invertidos e fufas. Desta vez a votação foi necessária.

A votação foi um caso que estabeleceu um precedente para futuras acções conjuntas dos países europeus e do secretário-geral para avançar direitos LGBT por meio do sistema da ONU, apesar da falta completa de qualquer mandato em resoluções da ONU. Um precedente foi agora estabelecido para o secretário-geral abertamente desafiar o consenso da Assembleia Geral em questões LGBT.





domingo, 29 de março de 2015


O igualitarismo e a lista VIP

Se a parvoíce do Governo pagasse imposto

Portugal não tinha crise


Helena Matos, Observador, 19 de Março de 2015

Não faço ideia se existe ou não lista VIP no fisco mas se não existe devia existir: o Estado obriga-nos a entregar aos serviços fiscais informações que o mesmo Estado nos garante serem de natureza privada. Logo o mínimo que o mesmo Estado tem de assegurar é que essas informações não serão divulgadas. Ter em conta que as informações de alguns cidadãos poderão ser alvo de um maior interesse é elementar.

Podemos discutir quem está nessa lista, como é ela elaborada, questionar em que medida os dados de quem lá não está ficam bem ou mal protegidos mas a partir do momento em que se garante que determinados dados na posse do Estado são da esfera privada cabe ao Estado garantir que assim permanecem.

Note-se que o crescimento do Estado Social levou a que duas entidades – a máquina fiscal e o Serviço Nacional de Saúde – detenham hoje informações sobre as nossas vidas que a polícia política alguma vez em Portugal almejou conseguir. Fazer uma lista dos nomes mais prováveis de uma divulgação indevida dos seus dados é de um básico bom senso.

Aliás seria interessantíssimo discutirmos as dificuldades e os falsos entraves que o fisco, as polícias, os tribunais, a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, as autarquias… levantam para impedir o acesso às informações que obrigatoriamente têm de ser facultadas. Não talvez por acaso, nesta matéria não há coincidências, assistimos em simultâneo ao proliferar de um jornalismo cada vez mais dependente de fugas de informação.

E em boa parte é disso, da gestão das fugas de informação, que se trata nesta polémica: uma corporação habituada a gerir a divulgação dos dados fiscais de alguns cidadãos ficou muito irritada porque percebeu que essa prática, que é também uma forma de poder, estava a findar e contra-atacou denunciando a existência de uma lista, logo denominada VIP, da qual constam pessoas cujos dados ficais serão objecto de maior protecção perante acessos indevidos. Como não podia deixar de ser a lista VIP tornou-se num problema político em boa parte por erro do Governo.

A forma desatinada (e, na minha opinião, desleal para com os funcionários da administração fiscal) como o Governo está a reagir a esta crise é bem sintomática do complexo de não ser de esquerda misturada com o frenesi deste ser ano de eleições que se apossou do executivo. E executivo algum em Portugal está preparado para ser acusado do pecado capital da desigualdade. É dos livros: mal a palavrinha desigualdade aparece no meio daquilo que pode transformar-se numa polémica logo os acusados de desigualdade tratam de mostrar que são ainda mais igualitários que os outros e, nesses momentos, vale tudo. Até a apologia do igualitarismo.

Hoje é o problema da igualdade perante o fisco, expressão por si mesma anedótica pois a desproporção de poderes entre os cidadãos e a máquina fiscal chegou a níveis tais que os cidadãos que outrora fomos se transformaram em contribuintes constantemente em falta: há sempre uma taxazinha ou um imizinho para pagar. Ou, na falta deles temos essa frota automóvel única no mundo que apenas existe para o fisco português composta por automóveis entretanto passados a sucata mas que na impossibilidade de provarmos não só que já não nos pertencem mas que na verdade já nem existem continuam, fiscalmente falando, a circular e pagando o respectivo IUC.

Mas voltemos à desigualdade: o Estado não pode tratar de forma igual o que é diferente. Existe uma maior probabilidade de que alguém tente aceder aos dados fiscais de Cristiano Ronaldo do que aos de um jogador só conhecido no seu bairro. De igual modo um titular de um cargo político tem por isso mesmo poderes e obrigações diferentes dos demais cidadãos. Estes últimos, por exemplo, não depositam declarações de interesses no Tribunal Constitucional, onde aliás podem ser consultadas por qualquer cidadão. Ou, tendo nós constitucionalmente consagrado o direito à segurança, sabemos que existem cidadãos aos quais o Estado garante uma segurança diferenciada: alguns membros do governo em funções ou antigos presidentes da República têm polícia à porta. Claro que isso é uma desigualdade contudo não é por ser desigualdade que é condenável.

Prosseguindo na senda da desigualdade: quantos de nós não gostaríamos de chegar e estacionar à porta dos edifícios municipais ou ter direito a carro com motorista? Pois é, mas não temos. Não duvidando eu dos abusos que se cometem nestas áreas (particularmente por uns titulares desses cargos que em público abominam o automóvel e nos mandam deslocar de bicicleta!) e defendendo que devia ser muito maior o escrutínio sobre a extensão desses direitos, não contem comigo para fazer a apologia do «acabemos já com estas desigualdades» a que se segue o consensual «isto é uma pouca vergonha» que conduz ao inevitável «têm de rolar cabeças». Às vezes rolam as melhores mas isso para o caso não interessa nada: tem é de se mostrar à turba a cabeça que rolou.

Todos sabem como começa este jogo do combate à desigualdade mas que muitos fazem de conta que não sabem como acaba: oficialmente aquela iníqua desigualdade é dada por extinta. Na prática institui-se nos bastidores uma desigualdade muito maior só que deixa de ser mediaticamente mencionável. No caso da lista VIP que o Governo diz que nunca existiu não é difícil antecipar o que aí vem: as fugas cirúrgicas sobre dados fiscais vão continuar; os cidadãos comuns não ficam mais protegidos pelo desaparecimento da lista VIP; aumenta o poder informal, logo não questionável, de quem gere o que se sabe e de quem.





sexta-feira, 27 de março de 2015


Todos os partidos têm

o seu porteiro de discoteca

e o do PS chama-se José Lello


João Miguel Tavares, Público, 26 de Março de 2015

Todos os partidos têm o seu porteiro de discoteca, e o do PS chama-se José Lello. A sua função é controlar a clientela, actividade que pratica há décadas com muita alegria e evidentes proveitos, recompensando quem se porta bem e dispensando uns carolos a quem se porta mal. Desta vez, a vítima foi Henrique Neto, um dos raríssimos socialistas que não embarcaram na aventura socrática e que nunca se cansaram de avisar quem era o senhor engenheiro técnico e para onde ele estava a conduzir o País.

Confrontado com o anúncio da candidatura de Neto à Presidência da República, José Lello decidiu chamar-lhe o «Beppe Grillo português», o que faz tanto sentido quanto Batatinha acusar Henrique Neto de ser um palhaço. Houve outras reacções destemperadas, como a de Augusto Santos Silva («sempre que os [candidatos] responsáveis se resguardam, os bobos ocupam a cena»), e a do próprio António Costa foi, no mínimo, deselegante, quando comentou a candidatura com um seco «é-me indiferente» — expressão que talvez tenha de engolir num futuro próximo. Mas no campeonato da fancaria política nada bate o camionismo verbal de José Lello, um mestre da traulitada que em 2009 acusou Manuel Alegre de «falta de carácter» por ter avançado para Belém sem o apoio do PS, em 2011 chamou «foleiro» a Cavaco Silva por não ter sido convidado para as cerimónias oficiais do 25 de Abril, e em 2013 afirmou que os portugueses estavam «desesperados por se verem livres» de Passos Coelho, «morto ou vivo».

Atenção: nada tenho contra linguagem colorida, nem contra personagens catitas. O meu problema é mesmo com o irmão Lello e aquilo que ele representa — uma encarnação ululante dos piores defeitos da política portuguesa. Basta ler quatro páginas (30 a 33, para os interessados) do livro Os Privilegiados, de Gustavo Sampaio, para ficarmos esclarecidos sobre o ser Lello.

Ora reparem: o Governo Sócrates teve início em Março de 2005, e nove meses depois o deputado José Lello deixou de exercer o seu mandato em exclusividade, para passar a integrar o conselho consultivo da Capgemini em Portugal, uma consultora especializada em tecnologias de informação.

Durante os seis anos do consulado lello-socrático, a Capgemini firmou 113 contratos por ajuste directo com entidades públicas, no valor de 6,7 milhões de euros, alguns dos quais relacionados com o famoso Simplex.

Ao mesmo tempo, o incansável deputado Lello exercia ainda o cargo de membro não executivo do conselho de administração da Domingos da Silva Teixeira (DST), uma empresa de construção e engenharia com negócios na área das energias renováveis, águas e saneamento. Enquanto Lello foi administrador da DST, celebraram-se 62 contratos por ajuste directo com entidades públicas, num total superior a 71 milhões de euros. Um único contrato com a Parque Escolar, em Maio de 2009, rendeu quase 25 milhões. José Lello foi consultor da Capgemini entre Setembro de 2006 e Novembro de 2012 e administrador da DST entre Janeiro de 2007 e Fevereiro de 2012.


O Governo Sócrates caiu em Junho de 2011, e com ele parecem ter caído também — curiosa coincidência — as notáveis capacidades administrativas de José Lello, um homem cujo talento insiste em manifestar-se apenas na órbita do Estado socialista.

E é este pobre Lello que vem agora chamar Beppe Grillo a Henrique Neto, que enriqueceu no privado, tomou posições corajosas e tem um pensamento estruturado sobre o País. Caro porteiro Lello: não dá para gerir a clientela com a boca fechada?





quinta-feira, 26 de março de 2015


Lembram-se da Crimeia?


Kirsty Hayes, Embaixadora do Reino Unido em Portugal,

Público, 19 de Março de 2015

A nossa posição é firme – a anexação da Crimeia é inaceitável e continuaremos a defender os nossos valores através das sanções que penalizam os responsáveis por retirar a Crimeia à Ucrânia.

Há um ano, o Kremlin ajudou a encenar um «referendo» ilegítimo e ilegal na Crimeia, que culminou com a anexação deste território pela Rússia à Ucrânia, redesenhando o mapa da Europa, pela força, agravando a crise no Leste da Ucrânia.

O chamado referendo, preparado à pressa em apenas duas semanas, serviu apenas para ridicularizar a democracia. Não esteve presente um único observador internacional independente. Em vez disso, tropas russas de elite (os «homenzinhos de verde», como os habitantes locais lhes chamaram) impuseram a vontade do Presidente Putin. Não devemos ter ilusões sobre a origem destes combatentes. O seu equipamento, sotaque e treino, provam que eram russos, ainda que não usassem qualquer insígnia.

No período que antecedeu o chamado referendo, as estações ucranianas de televisão terrestre foram encerradas na Crimeia; e quem levantou a voz contra a ocupação militar russa foi alvo de ameaças e intimidação. Desde então, várias pessoas desapareceram e outras foram encontradas mortas, uma delas com sinais de tortura.

Tudo isto foi feito sob a alegação infundada dos dirigentes russos de que os direitos dos falantes de russo na Crimeia estariam sob ameaça de Kiev. Este estratagema cínico não tem, nem teve, qualquer credibilidade. Na verdade, Vladimir Putin admitiu na semana passada, numa entrevista, ter planeado a anexação da Crimeia antes do pseudo-referendo ter tido lugar. Nessa altura, ele dizia à comunidade internacional que não se colocava a hipótese de anexar a Crimeia, e negava a presença de tropas russas. Sabemos que nunca houve qualquer ameaça aos falantes de russo na Crimeia ou em qualquer outra parte da Ucrânia. Pouco antes da anexação, o alto comissário para as Minorias Nacionais da OSCE afirmou não haver «provas de qualquer violência ou ameaças».

Na realidade, os relatórios elaborados pela ONU, pelo Alto Comissariado para os Direitos Humanos e pelo comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, deixaram claro que só após a ocupação russa é que os direitos humanos passaram a estar ameaçados na Crimeia. Os efeitos têm sido especialmente sentidos pelas minorias étnicas, tais como a comunidade tártara da Crimeia.

É vital que não se minimize o significado da anexação da Crimeia. As acções agressivas por parte da Rússia naquela zona e em Donbas não são uma ameaça apenas para a Ucrânia, mas para o resto da Europa. Ao anexar um território da Ucrânia, ao violar a sua integridade territorial e ao destabilizar o Leste da Ucrânia através do fornecimento constante de tropas e armamento, a Rússia desafiou a ordem democrática do século XXI fazendo tábua rasa das regras de direito internacional.

Essas acções constituem uma violação flagrante de uma série de compromissos internacionais assumidos pela Rússia, entre os quais a Carta das Nações Unidas, a Acta Final de Helsínquia da OSCE e o Tratado de Divisão sobre estatuto e condições da frota do Mar Negro de 1997, com a Ucrânia. É por tudo isto que a Rússia está isolada no Conselho de Segurança e na comunidade internacional e é essencial que todos os Estados-membros da UE estejam à altura da ameaça que as acções da Rússia representam para os nossos valores partilhados e para a nossa segurança comum. O Reino Unido regozija-se pelo apoio de Portugal neste contexto, condenando inequivocamente a violação da integridade territorial da Ucrânia e rejeitando a atitude de continuada confrontação por parte da Rússia. Valorizamos em especial a contribuição de Portugal para o controlo da segurança naquela região, integrando os seus aviões F-16 na missão de policiamento aéreo da NATO no Báltico.

Entendemos que nenhum país, qualquer que seja a sua dimensão, pode ignorar as normas internacionais sem sofrer consequências. Não podemos aceitar a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia como uma nova realidade. Os factos provam que este foi um acto ilegal, a Crimeia continua ocupada e os seus cidadãos estão mais vulneráveis e sofrem as consequências da intolerância russa. A triste realidade é que, se a Rússia não tivesse ocupado a Crimeia há um ano, e forçado o seu povo sob a ameaça das armas, as pessoas na Crimeia poderiam hoje gerir os seus negócios pacificamente, como tinham feito nos últimos 23 anos, sem a intimidação, as dificuldades e o perigo físico resultantes da anexação ilegal pela Rússia.

Há uma saída para esta situação. A Rússia ainda pode retirar as suas tropas da Crimeia e do Leste da Ucrânia, respeitar os seus compromissos ao abrigo dos acordos de Minsk e deixar o povo ucraniano gerir o seu próprio país. Mas, até que isso aconteça, não vamos ignorar o que aconteceu na Crimeia. A nossa posição é firme – a anexação da Crimeia é inaceitável e continuaremos a defender os nossos valores através das sanções que penalizam os responsáveis por retirar a Crimeia à Ucrânia.





terça-feira, 24 de março de 2015


Socialismo utópico e socialismo científico


Paulo Tunhas, Observador 2015.03.19

As crenças absurdas afectam, ou ameaçam afectar, as nossas vidas, como as de Vasco Lourenço e Varoufakis, e aí é que a porca torce o rabo. Sobretudo quando as querem impor contra a vontade da maioria.

O socialismo, à boa e velha maneira, continua, apesar de tudo, na moda em vários lugares do mundo. E o que não faltam são teóricos esclarecidos para nos demonstrarem a sua urgência. Um deles é Vasco Lourenço, que sonha com uma aliança do PS com o PC, o Bloco de Esquerda e outros partidos fora do «arco da governação», que nos conduza a uma libertação da «mesquinhez» da actual política europeia, como confessou ao Público. «Um estrondoso murro na mesa», como ele diz, é o que é preciso.

Maçonaria utópica
ou maçonaria «cientítica» (calculista)? 

Estas declarações foram feitas por ocasião de um congresso na Gulbenkian, significativamente intitulado «Congresso da Cidadania. Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática». Um tão vasto projecto requeria certamente um tão longo título. A revolução precisa de uma rampa de lançamento com a extensão devida, e é até duvidoso que a coisa possa ir para a frente sem um seminário permanente consagrado ao tema. De qualquer maneira, faz-se o que se pode, e Vasco Lourenço, presidente da «Associação 25 de Abril», não se poupou a esforços no texto de apresentação do congresso. Não faltam considerações sobre Portugal se ter tornado um «Estado vassalo» da burocracia de Bruxelas nem sobre a óbvia solução para o «estado a que chegámos»: «uma prática correcta dos valores de Abril» (para esclarecimentos detalhados sobre a «prática correcta», destinados a evitar riscos de práticas incorrectas de valores, contactar o presidente da Associação).

A mim, o que me despertou curiosidade na prosa foi, confesso, a «utopia». No texto de Vasco Lourenço, a palavra aparece, além do título, em duas passagens. Na primeira, a utopia – «uma nova utopia» – viria dar aos portugueses «razões para a esperança num futuro melhor». Na segunda, oferece-se, na medida do possível, um conteúdo concreto para a utopia: «a construção da sociedade de Abril». Desconto o facto de, na prosa do autor, a tal «nova utopia» ser, afinal, uma utopia velha. O que é curioso é o próprio recurso à utopia. É como se esta exigência de socialismo (a palavra não aparece, é verdade, no texto) adoptasse (sem grande consciência disso, quase de certeza) um perfume pré-marxista capaz de comover as multidões e, ao mesmo tempo, permitindo uma oportuna vagueza sobre o que viria depois do «estrondoso murro na mesa». Aposto que não viria nada de muito bom, até porque, bem vistas as coisas, a mesa somos nós, os cidadãos eleitores, não suficientemente esclarecidos em matéria de práticas correctas.

Mas não é muito crível que os desejos utópicos de Vasco Lourenço se venham a realizar a breve prazo. Afinal de tudo, Portugal é uma democracia. Ele que siga o exemplo de um dos mais divertidos utopistas de todos os tempos, Charles Fourier, que esperou pontualmente, durante dez anos, ao meio-dia, nos jardins do Palais Royal, o benemérito que lhe financiaria a construção da Harmonia. Os jardins da Gulbenkian não são tão lindos como o Palais Royal, mas são lindos à mesma e servem muito bem. Pode ser que tenha sorte. Ou então, se as suas finanças andarem particularmente boas, que faça como Robert Owen, que emprestava quantidades extraordinárias de dinheiro ao Duque de Kent (o pai da futura Rainha Vitória) na esperança de que este o pudesse ajudar a transformar a sociedade. Mas com prudência, que as pessoas nesta matéria não são de confiança. Se lhe faltar energia para qualquer destas duas soluções, que poupariam em princípio um estrondoso murro na cabeça dos portugueses, há estímulos possíveis. O jovem Henri de Saint-Simon, por exemplo, fazia-se acordar diariamente pelo seu criado de quarto ao som de «Levante-se, monsieur le Comte! Lembre-se que tem grandes feitos a realizar!». Porque não tentar algo assim?

Quem não precisa desses estímulos, porque a si próprio os administra em doses abundantes, é o nosso já imprescindível Yanis Varoufakis, que além de tudo beneficia do «amor» do estremoso Jean-Claude Juncker (porque carga d'água nos caiu este homem em cima? – razão tinha Cameron). Mas aqui não se trata de um retorno a um perfume utópico pré-marxista. Trata-se antes de uma espécie de ciência pós-marxista. Num texto que o Guardian publicou, e que reproduz uma conferência feita em Zagreb em 2013, Varoufakis expõe as razões pelas quais se tornou um «marxista errático». O epíteto «errático» não merece grande curiosidade, a não ser pela fantástica auto-condescendência e garridice narcísica que revela, até porque em muito pouco tempo nos habituamos a ouvi-lo dizer uma coisa e o seu contrário, a pedir desculpa pelo que fez e a declarar que o que fez não o fez. Mas a história das suas ideias em relação a Marx é explicada com um detalhe que mostra o seu desprezo pelo sábio conselho de alguém (esqueci quem) que notava que o género «História das minhas ideias filosóficas» deveria ser reservado a quem tivesse tido ideias filosóficas.

Os pontos em que Varoufakis discorda de Marx são um lugar-comum da crítica ao marxismo desde tempos imemoriais e os aspectos em que diz ser-lhe fiel são erros ainda mais antigos. A única novidade – relativa, de resto – consiste na adopção de um tom desenvolto e pretensamente cândido que visa antes de mais mostrar as altas dimensões da sua inteligência e que é em parte copiado de Zizek. Por exemplo, Varoufakis não se limita a criticar, numa coisa ou noutra, Marx. Tem de declarar que os erros de Marx o tornam «terrivelmente furioso» com o velho Karl. Se existisse uma máquina do tempo e Varoufakis fosse transportado para a biblioteca do British Museum por volta de 1850, Marx de certeza que era obrigado a fugir. E não só por medo, mas também por não conseguir trabalhar, com o outro sempre a falar.

Um outro exemplo da garridice do nosso autor. Varoufakis declara que bem gostaria de avançar com um programa radical: «abolir o capitalismo europeu, desmantelar a horrível eurozona e sabotar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros da bancarrota». Mas, desejando do fundo do coração o crepúsculo do capitalismo, não quer avançar imediatamente nessa direcção. Porquê? Porque se encontrava em Inglaterra no tempo da ascensão de Thatcher ao poder e, à época, acreditou na veracidade da célebre frase de Lenine: «As coisas têm de piorar antes de melhorarem». Thatcher provocaria uma reacção tão violenta que as forças do Bem rapidamente tomariam o controle da situação. E o que viu foi que, ao invés, a esquerda, em vez de se mobilizar eficazmente contra Thatcher, perdeu de forma durável o combate político e ideológico. Por isso, com medo que um programa radical esbarrasse com a vontade da maioria, anestesiada pelo neoliberalismo, e suscitasse mesmo um avanço da extrema-direita, o autodesignado «marxista errático» decidiu que a sua tarefa seria doravante a de «salvar o capitalismo europeu de si mesmo» e de estabilizar a Europa.

Em suma: mais inteligente do que todos, Varoufakis pretende tornar-se o campeão daquilo que pretende destruir. Será necessário, para «estabilizar a Europa hoje», «forjar alianças com as forças reaccionárias». Depois, mais tarde do que cedo, não se percebe muito bem como, virá a revolução. Esta demora é obviamente vivida com a grande «tristeza de abandonar qualquer esperança de substituir o capitalismo no tempo da minha vida».

Receio que a grande ambição de Varoufakis, a de «estabilizar a Europa» através da «aliança com as forças reaccionárias» não esteja a ser muito bem sucedida. Seria Lenine, afinal, a ter razão? Mais cedo ou mais tarde teremos certamente, pela sua pena, alguns esclarecimentos quanto a esta questão. Entretanto, num mundo ideal, seria bom vê-lo num banquinho dos jardins da Gulbenkian ao lado de Vasco Lourenço.

Com a idade, ganha-se respeito para com as coisas em que os outros acreditam e nós não, desde não afectem as nossas vidas. Um dia, há já vários anos, no metro do aeroporto até casa, fiquei fascinado por um casal de velhotes, com ar de camponeses dos arredores do Porto, que liam entretidamente uma revista dedicada às telenovelas que passavam na televisão. Falavam dos personagens como se fossem pessoas reais, como eles próprios, dotadas de uma existência e de uma autenticidade indiscutíveis. De uns gostavam, a outros odiavam. E uma vez, no quiosque onde compro cigarros e jornais, a propósito de uma actriz portuguesa que costumava aparecer muito nas capas das revistas da especialidade, alternando quase semanalmente, para óbvios propósitos publicitários, uma felicidade amorosa absoluta e tragédias igualmente amorosas de fazer chorar as pedrinhas da calçada, querendo fazer conversa engraçada, disse ao senhor: «Ela esta semana está feliz». Resposta, muito séria: «E bem merece». Juro que poucas vezes me senti tão ofensivamente estúpido.

O problema é com as crenças absurdas que afectam, ou ameaçam afectar, as nossas vidas, como as de Vasco Lourenço e Varoufakis. Aí é que a porca torce o rabo. Sobretudo quando as querem impor contra a vontade da maioria. Seja com a utopia à força do murro na mesa, seja através das falsas subtilezas «pós-marxistas» e erráticas do outro. Nestes casos, as palavras são sempre poucas para denunciar a impostura.





domingo, 22 de março de 2015


O estado engraçado de António Costa


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 15 de Março de 2015

Uma sondagem «dá» ao PS 36,1% das intenções de voto. Nos tempos em que aquilo era liderado por António José Seguro, homem sem «carisma» nem hipótese de «capitalizar» (desculpem a palavra) o descontentamento das massas, o partido andava no limiar da maioria absoluta. Desde então, leia-se Novembro passado, a tendência constante é de queda. O que aconteceu entretanto?

Aconteceu António Costa, a reserva da nação. Durante meses a fio, políticos, economistas, autoproclamados intelectuais e «personalidades» sortidas alimentaram as expectativas em volta das descomunais capacidades governativas do Dr. Costa, até aí escondidas numa autarquia. Mário Soares garantiu que o homem é a esperança de um povo em sofrimento. Manuel Alegre, tipicamente homérico, rogou-lhe que libertasse Portugal. José Sócrates louvou-lhe a coragem. Em representação da indispensável «cultura», um alegado realizador de cinema jurou que o Dr. Costa concilia a tradição com a modernidade, talvez por causa de umas benesses ao Benfica. Etc.

Só faltava encomendar-lhe a canonização em vida. Antes disso, por azar, o novo cargo do Dr. Costa obrigou-o a mostrar em público a sua verdadeira natureza. Falar em desastre é usar um eufemismo. De cada vez que não consegue evitar tomar uma posição acerca de um assunto, o aclamado secretário-geral expõe-se espectacularmente ao ridículo. Ele é a aproximação à extrema-esquerda enquanto tenta convencer o eleitorado do centro. Ele é o entusiasmo com o Syriza enquanto arrisca gravitas europeia. Ele é a retórica da «consciência social» enquanto taxa os carros dos pobres e mal remediados. Ele é o resgate do entulho, perdão, do orgulho socialista enquanto admite ao ouvido de chineses que o socialismo espatifou a economia. Ele é, em suma, a dificuldade em parecer uma alternativa quando de facto não é nada, excepto um desnorte exagerado até para os padrões do partido, da classe política e do país.

Em quatro ou cinco meses, o estado de graça do Dr. Costa transformou-se numa galhofa pegada. Apenas o PS, que o inventou, não se ri. E eu prometo juntar-me ao choro se ele em breve mandar nisto.





sexta-feira, 20 de março de 2015


Saudades do tempo

em que éramos livres e não sabíamos


Helena Matos, Observador, 15 de Março de 2015

Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos.

Tenho saudades do tempo em que chamar filho da puta a um filho da puta era mesmo só dizer o que pensávamos daquele filho da puta e ofendê-lo na medida do verbalmente possível sem cairmos numa polémica sobre os nossos preconceitos acerca do comportamento sexual que esperamos das nossas mães e das mães dos outros e das outras (manda agora o bom senso dizer tudo em dobro ou quiçá em dobra e dobro). Desse tempo em que o simples pronunciar da palavra mãe não nos levava a ser interpelados sobre as «representações eivadas de uma concepção patriarcal» que subsistem nos recônditos do nosso pensamento, recônditos esses em que existem papéis de pai e papéis de mãe diferenciados, que é o mesmo que dizer estereotipados.

Hoje, independentemente do filho da puta continuar a comportar-se como um filho da puta, há que ponderar que as putas são trabalhadoras sexuais, que ao referirmos a mãe de alguém, seja ela trabalhadora sexual ou não, temos de considerar se estamos a falar da mãe biológica ou não biológica ou da mãe companheira da outra mãe e que, para evitar mais quezílias, o melhor será desistir de falar de filhos ou de filhas pois automaticamente incluímos o ser objecto da nossa ira num género (uma sociedade que trocou o sexo pelo género não está de facto boa da moleirinha!) ao qual não sabemos se ele quer pertencer. No fim o nosso filho da puta passará a «pessoa com relação de parentalidade com trabalhadora sexual» mas nós ficamos com a alma livre de escarmento. Para quem tiver dúvidas na matéria aconselho a consulta do Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública, dado à estampa em 2009, e que entre muitas assombrosas coisas manda que se diga «a gerência» em vez de «o gerente» ou «a direcção» em vez de «o director». (No caso, os directores e os gerentes na hora de lhes chamarmos «grandes pessoas com relação de parentalidade com trabalhadoras sexuais» agradecem porque se o director ou a directora têm nome, a direcção é composta ao certo não se sabe por quem e muito menos se percebe quem nela decide o quê.)

Se alguém tem ilusões sobre a possibilidade de escapar entre os pingos da chuva a toda esta doideira é melhor que as perca: no V Plano Nacional para a Igualdade, Género, Cidadania e Não Discriminação (em vigor até 2017) o Governo comprometeu-se a encomendar um estudo para avaliar até que ponto a «linguagem inclusiva» está a ser utilizada na administração pública. (Realmente é melhor que se entretenham na administração pública porque se chegarem à industria dos moldes ainda acabam a proibir as peças macho e fêmea). Naturalmente o estudo dirá que muita coisa ainda está eivada da terminologia anterior à linguagem inclusiva. E um novo guia de linguagem inclusiva e novos estudos sobre a aplicação da linguagem inclusiva se seguirão. Até ao dia, claro, em que os promotores da linguagem inclusiva descobrirem que esta não faz qualquer sentido e passem a defender o seu contrário com idêntico fervor, idênticas avenças e correlativa proliferação de gabinetes de estudos destas rentáveis temáticas. graças às quais em muitas universidades se tem substituído o saber pelo proselitismo.

Na verdade nestas matérias já nada me espanta desde que, meados do ano passado, descobri que os programas e secções de jardinagem muito populares em países como a Inglaterra e a França andavam a ser criticados pela sua terminologia racista e discriminatória – é o problema da mosca negra, das espécies invasoras, as pragas de plantas exóticas… A obsessão com o racismo tem levado a paradoxos tais que no futuro terão de fazer glossários para que se perceba o vocabulário que criámos nesta matéria: assim, depois da igualdade entre as raças passou-se para as etnias, mais as comunidades e agora andamos nos afro isto e aquilo versus os europeus. Resultado: um negro que viva em Portugal há várias gerações ou que nunca tenha posto os pés em África é designado como africano, ao passo que um branco, mesmo que tenha nascido em África e descenda de uma família radicada naquele continente há mais de um século nunca deixa de ser europeu. (Essa foi aliás a lógica que não só levou a que se chamassem retornados aos portugueses que fugiram de África de 1974 a 1976 mas também a que, contra todas as evidências, políticos e jornalistas tenham apresentado essa fuga como um comportamento exclusivo dos brancos).

Boa parte deste nosso linguarejar não faz qualquer sentido. Por exemplo, manda a novilíngua em alguns países ditos mais evoluídos nas questões da multiculturalidade que não se diga Estado Islâmico mas sim Daesh para não ofender os muçulmanos, alteração que faz tanto sentido quanto designar os cruzados por octognos ou paralelipípedos rectângulos na hora de criticar as cruzadas, alegando que usar o termo cruzados pode ofender os cristãos que têm na cruz o seu símbolo sagrado.

Podia fazer quase uma edição completa do Observador com exemplos dos absurdos a que o politicamente correcto nos conduziu. Na linguagem e não só. Todos os dias há uma polémica. Vivemos em frenesi. Anteontem o problema era a publicação por uma editora da revista Vogue de uma foto onde se via uma mulher com ar de pedinte (agora deve dizer-se sem-abrigo mas preparem-se porque daqui a uns meses esta designação agora tão certinha pode tornar-se maldita!) a ler aquela revista de moda acompanhada da legenda: «Paris está cheia de surpresas… há leitores da Vogue até nos sítios mais insuspeitos». Também tivemos o problema das gaffes de Jeremy Clarkson, um muito apreciado apresentador da BBC a quem um murro dado num produtor acabou com uma longa carreira a dizer banalidades que se tornaram blasfémias. O problema como é óbvio não foi o murro mas sim ele obstinar-se em fazer considerandos politicamente incorrectos sobre sexo, culturas, países… De caminho, o Daily Telegraph até fez um levantamento dos 14 filmes mais politicamente incorrectos e, na prática, do James Bond ao Dumbo, tudo é um repositório de racismo e outros ismos.

Não nos bastando a constante supervisão do presente, o próprio passado é revisto. E assim, de Camões a D. Pedro I sem esquecer Inês de Castro ou a padeira de Aljubarrota os protagonistas passam a ser apresentados como bons ou maus (o maniqueísmo está vivo e recomenda-se) em função dos conceitos que o progressismo manda adoptar no presente. Logo D. Afonso Henriques passa a machista e Dona Teresa a feminista. Os próprios clássicos podem ter de ser reescritos. Das Aventuras de Huckleberry Finn aos filmes sobre a vida de Jesus, em que se analisa o papel dos negros e das mulheres nada escapa a esta perspectiva correctora do passado, do presente e do futuro.

Como exclamam alguns venezuelanos emigrados em Espanha quando recordam o seu país antes da revolução bolivariana «Esse era o tempo em que nós éramos felizes e não sabíamos». Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos – pelo menos eu acreditei – que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos e não criarmos as metástases do Comité de Saúde Pública, de Rousseau. Esse era o tempo em que éramos livres e não sabíamos. E eu tenho saudades dele.