terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para acabar de vez com o equívoco (ou não)
da social-democracia e outros mitos

Heduíno Gomes

1 — Historicamente, a expressão social-democracia tem origem em França, em Fevereiro de 1849. Depois de derrotados na Revolução de 1848, os grupos revolucionários agrupam-se no Partido Democrata-Socialista ou Social-Democrata, sendo esta forma abreviada (social=socialista) a mais comum.

Mais tarde, nos anos 60 do século XIX, na Alemanha, surge a revista Der Sozialdemokrat, que contribuiu também para baptizar assim e organizar o movimento socialista.

Nem Marx nem Engels gostavam da expressão, que toleravam mas qualificavam de «elástica». Contudo, dada a sua popularidade, acabaram por acei­tá-la na I Internacional. E, dada a influência de Marx e Engels no movimento socialista, nos anos 80 social-democrata já era sinónimo de marxista.

Lenin utilizou igualmente a designação desde o início da sua actividade política nos anos 90 e só a abandonou em Abril de 1917, rebaptizando o seu partido, o Partido Operário Social-Democrata da Rússia, entretanto adjectivado de bolchevique, em Partido Comunista da Rússia, adjectivado do mesmo modo. A sinonímia entre social-democracia e comunismo haveria de acabar definitivamente apenas com a fundação da III Internacional, ou Internacional Comunista, ou Komintern, em 1920.

Depois disto, os partidos não comunistas que ­vinham da II Internacional (1889) não se livraram inteiramente do marxismo, permanecendo neles ­conceitos marxistas sobre a sociedade, excepto a via revolucionária­ para atingir os objectivos.

Quando da fundação da Internacional Socialista, em 1951, as referências ao marxismo e toda a confusão ideológica com o marxismo ainda não haviam sido eliminadas. Apenas em 1959 essas referências ao marxismo haveriam de desaparecer.

Contudo, com referências ou sem referências ao marxismo, a verdade é que os macacos continuaram no sótão dos socialistas. A visão da maioria dos problemas da sociedade por socialistas — ­chamem-se eles sociais-democratas ou trabalhistas­ ­—, continuou inquinada pela ideologia marxis­ta e variantes submarxistas, estatistas e colectivistas.

Por mais voltas que lhe sejam dadas, isto é que é realmente o socialismo democrático ou social-democracia. Não há disfarce possível.

2 — O partido que, entre nós, se chamava «Partido Popular Democrático» passou a chamar-se, em 1977, «Partido Social Democrata», aparecendo umas vezes grafado com hífen, outras vezes sem ele, o que são coisas bem diferentes. Mas a verdade­ é que os autores que assim escrevem, na maioria dos casos, nem se apercebem da diferença.

3 — A designação do partido com hífen, como vimos, significa socialista. Sem hífen, significa que o partido é social e também democrata, não necessariamente social-democrata. Portanto, a designação sem hífen presta-se ao equívoco. Esta nuance é demasiada areia para a camioneta dos aprendizes­ de ideólogos que pontuaram no PPD e PSD.

Alguns deles tentam forçar as palavras a seu jeito,­ adocicando-as (para se dizerem não socialistas) ou carregando-as (para se dizerem não liberais).

Pura manipulação das palavras, eventualmente com uma forte dose de ignorância.

4 — O mais grave dentro do PSD não é o equívoco linguístico. O mais grave é mesmo algumas pessoas terem conceitos marxistas, adocicados ou não, quer no estilo revisionista Bernstein, quer no estilo Marx original (o tecnocrata Cavaco diz que é bernsteiniano). Estes camaradas não são os 99,9% das pessoas do partido nem do seu eleitorado.

Se querem ignorar o significado das ­palavras, que ignorem. Se querem ser os continua­dores da manipulação da linguagem, que conti­nuem. Mas não esperem qualquer contemplação no esclarecimento ideológico e no confronto político.

 5 — Segundo rezam as crónicas, o Partido Popular­ Democrático foi assim designado em 1974 porque, nos primeiros dias de Maio desse ano, um outro partido designado social-democrata,­­ o efé­mero Partido Cristão Social Democrata, se antecipou de 48 horas na sua apresentação pública.

Como diz o ditado, há males que vêm por bem.

6 — O Programa de 1974 do Partido Popular ­Democrático é um inacreditável tratado de esquer­dismo socia­lista. Na linguagem, com socialismo por todo o lado, alternado com social-democracia (o objectivo era o socialismo e a via para lá chegar seria então a social-democracia!?...), na referência­ ao marxismo, nos conceitos, nas políticas sociali­zan­tes (economia, educação, cultura,­ etc.), o Programa, comparado ao «moderno» socialismo­ de 1959 da Internacional Socialista, é um dinos­sauro.

7 — Em Sá Carneiro, mesmo considerando as suas limitações de cultura política, social-democracia não era apenas um equívoco: ele era realmente socialista nos conceitos e políticas.

Mais ainda, Sá Carneiro pretendeu que o PPD se integrasse na Internacional Socialista. Só não o conseguiu porque Mário Soares já era da casa e tinha naturalmente preferência.

Mais uma vez, há males que vêm por bem.

8 — No PPD, os complexos de direita eram tais que foi colocado no Programa um ponto gravíssimo no que respeita à defesa de Portugal e do Ocidente: em plena guerra-fria, com o imperialismo soviético em expansão (Vietnam, Laos, Cambodja, África — aqui graças ao MFA) e o PCP de garras afiadas, era preconizada a saída de Portugal da NATO...

Mas que grande consciência geoestratégica!

9 — Tendo sido convidado a integrar o Partido Socialista, Sá Carneiro não aceitou, apesar do seu Programa, na essência, pouco ou nada diferir do Programa do PS — excepto na linguagem deste, mais carregada de marxismo, e, em contrapartida, na saída de Portugal da NATO por parte do PPD. Contudo, Sá Carneiro queria que o Partido integrasse a Internacional Socialista.

Fica ao cuidado dos ­psicólogos a tarefa de des­cortinar os porquês da não adesão de Sá Carneiro ao PS e, entretanto, pretender que o Partido aderisse à Internacional Socialista.

10 — Na realidade, as pessoas que aderiam ao PPD, e depois ao PSD, faziam-no fugindo ao socialismo do PS. Hoje, o fenómeno permanece. E isto acontece porque ignoram a doutrina oficial (ou ­oficiosa, nem se sabe) do PSD. A estas pessoas nada há a apontar. A quem há que apontar o dedo é aos mentores desta ideologia analfabeta e aos que pretendem prolongar a fraude da social-democracia.

Existe, pois, uma grande diferença entre a base do PSD e os profissionais, ou candidatos a sê-lo, dessa­ social-democracia ou socialismo.

11 — Ao longo dos anos, dentro do PPD e PSD, o sector com mais complexos de direita, snob ou sindicalista, alimentou a ideia de que o Partido teria de ser –– ou dizer-se… –– social-democrata. Aqueles que, no seu interior, não fossem –– ou não se dissessem… –– sociais-democratas não seriam bondosos nem amigos dos pobrezinhos.

12 — Neste labirinto ideológico laranja, também a puxar pela social-democracia, surgem os chamados «católicos progressistas»,­ ­influenciados pela confusa ideologia personalista de Mounier e por alguns textos irrealistas provenientes de certos sectores «avançados» da Igreja nos anos 60.

13 — Um dos aspectos da manipulação operada pelos camaradas sociais-democratas é oporem o liberalismo à social-democracia — isto é, ao ­socialismo —, como se não houvesse alternativa, como se não existisse outra concepção do ­Estado e das políticas, na economia, na educação, na saúde,­ na assistência, na justiça, etc. Ou és social-democra­ta, ou és liberal — o que é uma estrondosa mentira!­

A verdade é que a defesa da Civilização e do bem comum no mundo nada devem nem à social-democracia nem ao liberalismo. Antes pelo contrário!

14 — Curiosamente, os «herdeiros» de Sá Carneiro, dos quais Santana Lopes sempre foi o campeão, levantam a bandeira do ícone para defender supostas posições de direita­ (?!) — o que demonstra mais uma vez que a ideologia política no PPD e PSD sempre foi uma mentira, um monte de slogans, superficialidades e incongruências a serem utilizadas segundo as conveniências de cada barão em cada momento de luta pelo poleiro.

15 — Conclusão: dado que a designação do partido com hífen significa socialista e sem hífen­ se presta, no mínimo, ao equívoco, o partido deve ­regressar à sua primitiva designação PPD, limpar da sua linguagem a expressão social-democracia, com ou sem hífen, e repudiar tal conceito como socialista, quer de ontem, quer de hoje.

16 — Outra conclusão: o antídoto para toda esta manipulação e confusão é a formação política­ séria­ dentro do Partido. A isso todos os «grandes­ líderes» têm fugido.­ Porque será?... Sim, porque será que tantos professores universitários têm mantido o seu partido ao nível da primária?

Uma honrosa excepção: Carlos da Mota Pinto. Ele tinha um programa de reformula­ção do Partido contemplando a formação dos seus membros. Morreu e com ele o projecto.

Seguiram-se o Cavaco e os outros, e com eles se manteve a confusão, o obscurantismo e os poleiros.­

Hoje, finalmente, os «grandes líderes» vão nus. É a­ boa ocasião para reactivar o projecto Mota Pinto.



 

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