quinta-feira, 1 de maio de 2014
Virtudes e defeitos de Abril (1)
João Miguel Tavares, Público
Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons é a criar heróis e memoriais. Toda a sua mitologia está assente na figura do homem normal que em momentos extraordinários se consegue superar a si próprio, seja ele Abraham Lincoln, Rocky Balboa ou Chesley Sullenberger, o comandante do avião que em Janeiro de 2009 conseguiu amarar nas águas geladas do rio Hudson, salvando todas as pessoas a bordo.
Por muito filme de Hollywood que a gente veja, nós não temos essa cultura em Portugal, nem, segundo parece, esse tipo de herói. Já desde os tempos da padeira de Aljubarrota que o herói português é invariavelmente do tipo relutante, mais dado à astúcia do que à coragem desabrida. É como nas velhas anedotas do português, do inglês e do francês – o português sai-se sempre melhor, mas nunca por fazer uso de qualquer espécie de heroísmo espampanante; sai-se melhor porque é o chico-esperto, o manhoso, o campeão dos improvisadores.
Recentemente, o PÚBLICO divulgou um longo excerto do texto que Adelino Gomes escreveu para o óptimo livro Os Rapazes dos Tanques, centrado na figura do cabo apontador José Alves Costa, que na manhã de 25 de Abril de 1974 se recusou a disparar sobre a coluna de Salgueiro Maia, mesmo após o brigadeiro Junqueira dos Reis lhe ordenar directamente «dá fogo já a direito». O que é extraordinário na descrição de Adelino Gomes não é a recusa em si – já antes o alferes Fernando Sottomayor havia feito o mesmo, recebendo ordem de detenção –, mas sim a forma tão portuguesa como Alves Costa resolveu o imbróglio que tinha à sua frente.
Em primeiro lugar, explicou ao brigadeiro que não percebia lá muito de tanques. «Fui improvisado para aqui. Sei pouco trabalhar com isto. Vou ver se consigo, mas eu não sei», desculpou-se. E quando o brigadeiro o ameaçou «ou dá fogo ou meto-lhe um tiro na cabeça!», Alves Costa decidiu-se por um desenrascanço 100% nacional: enfiou-se dentro da torre e trancou a porta. «Eu, fechando-me dentro do carro, ninguém abre, porque aquilo é blindado, entende?» E assim se fez Abril.
Nós somos o povo para quem Herman Melville criou, sem saber, o seu Bartleby, o desconcertante escrivão que fazia da passividade uma filosofia existencial. A tudo o que lhe era pedido Bartleby respondia: «Preferiria não o fazer.» Também José Alves Costa preferiria não atirar sobre os revoltosos de Santarém. E não atirou. No entanto, nunca afrontou de forma directa o seu superior: «A gente sabia o regime que tinha. Se calhava as coisas não correrem bem, a minha vida podia ir para o maneta», explicou a Adelino Gomes.
É certo que o espírito luso-bartlebyano, na mão de burocratas, é de modo a conduzir qualquer alma ao desespero – como pode comprovar quem já passou dias numa repartição pública. No ramerrão diário, «preferiria não o fazer» é um inferno paralítico, que nos faz sonhar com as virtudes da disciplina teutónica. Mas na Alemanha dificilmente haveria um 25 de Abril com cravos enfiados nos canos das espingardas, porque um qualquer Alves Costa da Baviera nunca mandaria o seu brigadeiro dar uma curva enquanto fingia cumprir ordens. Para citar José Gil, a não-inscrição chega ao próprio heroísmo – o cabo apontador que impediu que a revolução se tornasse num banho de sangue viveu 40 anos no anonimato de uma aldeia da Póvoa de Varzim. Afinal, ele não fez nada. O que é tão absurdo quanto comoventemente português.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Petição contra a lei das barrigas de aluguer
Por
favor leia e assine esta petição contra mais um ataque aos valores éticos e morais que os nossos deputados se preparam
para votar:
Está marcado para Maio o debate e votação sobre as
Barrigas de Aluguer.
Os partidos presentes na Assembleia da República tem insistido num conjunto
vasto de experiências sociais que
em nada a dignificam.
Não se pode andar a brincar com a vida dos portugueses,
nem a consumir recursos humanos e económicos tão escassos.
Será que os senhores deputados em que votou não tem
assuntos sérios para se preocuparem? Estarão eles porventura convencidos que
isto é um assunto importante para a superação das dificuldades e construção de
um futuro para Portugal?
A ciência cada vez mais afirma que a formação do vínculo
mãe-bebé é essencial para o desenvolvimento da criança a nível metabólico,
epigenético e psicológico. Este vínculo é bem físico e fácil de compreender: o cordão umbilical! Graças ao cordão umbilical, durante 9 meses o bebé vive
sendo nutrido a partir deste.
Será justo criarmos um novo tipo de negócio em que a mercadoria são pessoas?
A única forma de aprovar uma lei destas seria considerar
que a gravidez não tem efeito no futuro da criança e tomar como definitivo a
ideia de que o útero é uma simples incubadora.
A mãe da «barriga de aluguer» será sujeita a riscos
físicos e psicológicos através
desta mercantilização do seu corpo bem como, a sua família. Caso a mãe
da barriga de aluguer já tenha os seus próprios filhos, como conseguirá
integrar na concepção dos seus filhos a ideia de que o bebé que está na sua
barriga não foi concebido através do pai, nem será seu irmão ou irmã?
A lei não pode organizar a concepção de uma criança a
qualquer preço, tal como outras leis não deveriam consentir de forma absurda
retirar a vida às crianças a qualquer preço. E é sempre a criança que paga esse
preço. O desejo de ter uma criança não é sinónimo de ter direito a ter uma
criança.
«As portas que Abril abriu»
Robd.
«As portas que Abril abriu»
Estiveram quase a fechar;
O vento as flores quiz secar
E o joio nunca floriu.
Mas o Novembro surgiu
Para a Luz poder entrar...
terça-feira, 29 de abril de 2014
Petição
«Não ao
encerramento do serviço de Cirurgia Cardio-Torácica
e Cardiologia Pediátrica do Hospital de Santa Cruz»
No endereço http://peticaopublica. com/pview.aspx?pi=PT73249
Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o
dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão
avaliar da sua pertinência e actualidade.
Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua
divulgação através de um email para os vossos contactos.
Obrigado.
Subscrever em
segunda-feira, 28 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
De boca cheia de Abril
José Caniné
De boca cheia de Abril
Andam sempre os mesmos mil,
Erguendo alto a sua voz!
Mas aos mais jovens eu lembro
Que se não fosse o Novembro,
Ai do Abril e ai de nós!
sábado, 26 de abril de 2014
sexta-feira, 25 de abril de 2014
O que foi realmente para Portugal o 25 A
Palavras proféticas de Marcello
![]() |
| Marcello Caetano |
«Em poucas décadas ...estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suíça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.»
«Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.»
...e aí estão eles!
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Conferência sobre as Ilhas Selvagens
«50 anos de expedições: Estudos Científicos às Ilhas Selvagens»
Dr. Manuel Biscoito
Dia 29 de Abril — 18 horas — Auditório ONE02 do ISCTE-IUL,
Av. das Forças Armadas
Clique no crime que quer ler... (451-478)
(fim)
451. – Será que é assim que se procede nos tribunais?
452. – SLN comprou 6000 hectares perto do novo aeroporto....
453. – SLN E BPN SEMPRE METIDOS EM BURACOS FINANCEIROS. P...
454. – Só em Portugal é que não se encontram culpados...
455. – Só o governo é que não vê para onde nos encaminham...
456. – Sobrecarregar os "milionários" de Portugal
457. – Sociedade do Metro do mondego...
458. – Sociedade para albergar boys e destruir erário público...
459. – Sócrates e Paulo Campos pisam a lei e os portugueses...
460. – Submarinos corrompidos já provado na Alemanha.
461. – Subsídios de reintegração. Deputados são uma despesa...
462. – SUBVENÇÃO VITALÍCIA DUPLICA AOS 60 ANOS.
463. – Tachos aos pares rende. Edite Estrela.
464. – Tachos da família Sampaio.
465. – Tal como o governo, injustamente, a justiça protege os ricos...
466. – Legitimo é quando um politico quer ...
467. – TAP sem cortes. Governo continua a espalhar injustiça...
468. – Tentativas de manipular o povo... direita igual a ...
469. – Ter o estado como sócio tem os seus benefícios.
470. – Ter um tacho não chega, a vida está cara,
471. – Todos falam em revolução, em destronar os corruptos...
472. – Todos sabiam e ninguém faz nada.PPP rodoviárias obscuras
473. – Três reformas de sonho vitalícias.
474. – Tribunal de contas conclui: Governo negoceia portagens lesando estado...
475. – Triste verdade da nossa pátria saqueada por incompetentes...
476. – Trocando as voltas ao povo para ver se passa despercebido...
477. – Tudo começou com a descoberta da ponte Vasco da Gama PPP...
478. – Urbanismo em Portugal comparável ao tráfico de droga...
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Assunção Esteves:
Falta de coluna vertebral, oportunismo...
Heduíno Gomes
Tendo tomado uma posição correcta em relação à pretenção de Vasco Lourenço e «Associação 25 A» ir falar à Assembleia, Assunção Esteves não aguentou as pressões do politicamente correcto e acabou por, humilhada, ir fazer mea culpa junto dos supostamente ofendidos.
Uma pessoa com tal falta de coluna vertebral, reflexo do seu oportunismo político, é a segunda pessoa mais importante na hierarquia do Estado. Claro, na III República.
Tolerância estilo FireFox
Filipe d' Avillez, Actualidade Religiosa...
Ao longo dos últimos meses tenho chamado atenção para o facto de os crentes estarem cada vez mais sujeitos a consequências por serem fiéis às suas consciências. Há quem ache que isto não passa de uma obsessão minha, mas por outro lado há casos como o de ontem, do recém-nomeado CEO da empresa Mozilla, que foi obrigado a demitir-se por ser opositor do casamento entre homossexuais.
Leram bem. A empresa emitiu um comunicado, que podem ler aqui, em inglês, com alguns comentários meus.
A listagem de casos de cristãos vítimas da marcha dos novos «direitos» dos homossexuais também foi actualizada com este novo caso...
terça-feira, 22 de abril de 2014
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Não à ideologia de género!
Prof. Hermes R. Nery
Entrevista com o Prof. Hermes Rodrigues Nery,
especialista em bioética e membro da comissão em defesa da vida do Regional Sul
1 da CNBB
O que é o PNE e quais os riscos que a sua aprovação
traria para a educação no Brasil perante o ponto de visto ético?
O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece as
directrizes e metas da educação brasileira para os próximos dez anos, norteando
o conteúdo e as metodologias de ensino em todo o País, com instrumentos legais
para exigir dos professores, directores e também donos de escolas particulares
a cumprirem o que está determinado no referido PNE.
Ao incluir a ideologia de género no Plano
Nacional de Educação, o governo do PT (a exemplo do que já expôs no PNDH3),
visa utilizar todos os meios e recursos para disseminar a agenda do feminismo
radical, assumida pela ONU, para intensificar o processo de desmonte
civilizacional, de modo especial os princípios e valores da cultura Ocidental,
de tradição judaico-cristã. É, portanto, uma agenda anticristã inclusa no PNE,
com a ideologia de género, que, sendo aprovado, será executada por toda a rede
de ensino do País, procurando dar legalidade ao que já vem sendo posto em
prática, e implementando de modo subtil e sofisticado o que
ideólogos de países desenvolvidos criaram enquanto experimentação de
reengenharia social, a partir de muitas formas de manipulação, de modo especial
o da linguagem.
Como explica o Dr. Jorge Scala, que os ideólogos de
género «têm a pretensão de modificar a estrutura íntima do ser humano por meio
de uma transformação cultural levada a cabo pela manipulação da linguagem e
pelo controle dos meios de comunicação». O governo do PT sabe que para fazer a
revolução cultural que pretende, precisa instrumentalizar toda a rede de
ensino para os seus fins de perversão, fazendo dos professores escravos de uma
ideologia, obrigados a ensinar e doutrinar as crianças, desde a mais tenra
idade, de que a identidade sexual não pode estar condicionada a um determinismo
biológico, porque seria uma construção sócio-cultural, e não pode haver
diferenças portanto nesta dimensão relacional, pois as diferenças acentuam
lógicas de dominação e poder. O próprio relator do PNE na Câmara, deputado
Ângelo Vanhoni, afirmou numa entrevista à TV Canção Nova, de que a escola é o
espaço privilegiado para a transformação dos valores. Espaço este que o governo
quer tomar de vez para promover a sua revolução cultural, anti-cristã e
inteiramente desumana.
Quais são os argumentos apresentados pelos
relatores e promotores do projecto para inserir a ideologia de género entre os
princípios da educação?
Os argumentos do feminismo radical promovido pela
ONU e que o governo do PT (atrelado a grupos e fundações internacionais) está
comprometido a executar. O termo «género» apareceu na conferência da ONU
sobre a mulher, em Pequim (1995), como ferramenta política do feminismo radical
para a mais profunda e ousada subversão antropológica. Na verdade, trata-se de
uma pseudoantropologia, com obsessão a uma reengenharia social global.
«Infelizmente – como evidencia Dale O'Leary – a ONU tornou-se cativa de
perigosos ideólogos, que estão usando o poder e a influência da organização
para promover os seus perigosos esquemas». Perigo porque a ideologia de género
nega a natureza humana e fere profundamente a humanidade do homem e da
mulher, que deixam de ser complementares, pois, para os ideólogos de género, a
identidade sexual não é um dado natural, mas uma construção sócio-cultural, que
pode ser manipulada, atingindo assim o âmago do que é ser homem e mulher, e
destruindo assim a dimensão humana da família monogâmica e heterossexual
(realidade caracterizada pela dualidade, complementaridade e fecundidade). «Nós
não seremos forçadas a retroceder para o conceito de que 'a biologia é o
destino' que procura definir, confinar e reduzir as mulheres às suas
características sexuais físicas», afirmou a feminista Bela Abzug.
Foi Shulamita Firestone, no seu livro «A Dialética do Sexo», que associou o marxismo com o feminismo radical, dizendo que «assim como o objectivo final da revolução socialista não era apenas a eliminação do privilégio de classe económica, mas a própria distinção da classe económica, assim também o objectivo final da revolução feminina deve ser, diversamente do objectivo do primeiro movimento feminista, não apenas a eliminação do privilégio masculino, mas da própria distinção sexual». Nesta lógica de perversão, os ideólogos de género acenam com a falácia do igualitarismo, como discurso sedutor, mas que, na prática, conduz tanto o homem quanto a mulher a situações de crescente vulnerabilidade e violência. É uma ideologia que se volta contra a condição biológica da pessoa humana, com efeitos sociais danosos já vistos noutros países que a adoptaram no seu sistema educacional, como a Suécia. Dale O'Leary também observa que «o fundamento do feminismo radical e o cerne da agenda de género é a eliminação da distinção sexual e o controle da reprodução». E acrescenta que «as feministas radicais concordam com os marxistas que o objectivo é uma sociedade sem classes, mas a revolução feminista radical quer abolir também as classes sexuais». Cabe lembrar que o controle reprodutivo feminino incluiria também o aborto.
Como vemos, incluir a ideologia de género no PNE é
permitir que o governo do PT avance no seu programa socialista, utilizando o
próprio parlamento para os seus fins revolucionários. Agora, não pelas armas,
mas de modo subtil e sofisticado, por dentro das estruturas,
corroendo-as. O que se quer ensinar nas escolas brasileiras, sob o amparo
da legislação, é o que desejava Firestone: o regresso «a uma pansexualidade
desobstruída», como ainda a abolição da própria infância, pois, para ela, «devemos
incluir a opressão das crianças em qualquer programa feminista
revolucionário... A nossa etapa final deve ser a eliminação das próprias
condições da feminilidade e da infância. O tabu do incesto hoje é necessário
somente para preservar a família; então, se nós nos desfizermos da família,
iremos de facto desfazermos das repressões que moldam a sexualidade em formas
específicas», até que a sexualidade seja «libertada da sua camisa de força para
erotizar toda a nossa cultura».
Quando Bela Abzug conseguiu introduzir a ideologia
de género nos documentos da ONU, os anarcofeministas que assumiram postos de
decisão nos governos dos estados-membros da ONU, começaram a exigir que os
governos incluíssem também a perspectiva de género nas suas legislações, directrizes
e metas educacionais, configurando a nível local, regional e nacional, a agenda
controlista, antivida, anticristã e antifamília por estes grupos
internacionais. Por isso, mais uma vez, o Brasil vê a sua soberania
aviltada por esses pérfidos interesses. Daí o trabalho que estamos a fazer,
levando informações aos deputados senadores, e pressionar o legislativo
brasileiro a não ceder diante desta ideologia totalitária que querem implantar
no País.
De que maneira concreta (a nível de materiais,
conteúdos, etc.) a ideologia de género seria apresentada aos estudantes
brasileiros? A medida afectaria também as escolas particulares? Escolas
católicas, por exemplo, teriam que, obrigatoriamente, incluir a ideologia de
género nos seus materiais e planeamento de classes?
domingo, 20 de abril de 2014
A Rampa Deslizante
Pedro Vaz Patto
As propostas iniciais de legalização da eutanásia
começam por apresentar esta prática como um recurso excepcional e estritamente
enquadrado, como corolário do respeito escrupuloso pela liberdade de quem a
pede. Que tal objectivo seja atingido, não resulta, porém, das experiências dos
países que enveredaram por tal legalização.
Há cerca de dois anos, e a propósito do décimo
aniversário dessa legalização na Bélgica, foi publicado um manifesto, Dez
anos de eutanásia, um feliz aniversário?, subscrito por médicos de
diferentes especialidades, mas também juristas, filósofos e teólogos de várias
religiões.
Aí se afirma que a legalização da eutanásia não
envolve apenas o respeito pela liberdade individual. Representa o aval da
comunidade e do corpo médico à opção em causa. A quebra de um interdito
fundamental («não matar») que estrutura, como sólido alicerce, a vida
comunitária, não pode deixar de afectar a confiança no seio das famílias, entre
gerações e na comunidade em geral; e, particularmente, a confiança no corpo
médico. Fragiliza, por outro lado, os mais vulneráveis, sujeitos a pressões, em
grande medida inconscientes, que os levam a sentir-se obrigados a pedir a
eutanásia para não serem um peso para a família e para a sociedade.
O manifesto também confirma o receio de que a
quebra desse interdito estruturante nunca poderá ter efeitos limitados e
contidos. A noção de «sofrimento insuportável» a que a lei belga recorre (como
as de outros países) é subjectiva e tem permitido estender o seu campo de
aplicação a sofrimentos psíquicos que não se enquadram na noção de «patologia
grave e incurável» a que a legalização supostamente se restringiria.
Suscitaram compreensível clamor os casos de uma
mulher que sofria de anorexia nervosa e o de uma outra que sofria de depressão
(doenças que podem ser tratadas); o de dois irmãos gémeos, surdos de nascença
em vias de ficar cegos; ou a de um professor de medicina com 95 anos, que não
era doente terminal, nem sofria de «dor insuportável».
E, agora, foi aprovada, também na Bélgica, a
extensão da legalização da eutanásia a casos de crianças (cuja maturidade para
decidir seja atestada por psicólogos) e de dementes (que tenham manifestado a
sua vontade anteriormente, no exercício das suas faculdades). Num e noutro
caso, o respeito pela «sacrossanta» liberdade de quem pede a eutanásia (que
nunca seria, de qualquer modo, aceitável quando se atinge a raiz e o fundamento
da própria liberdade, que é a vida) é posto em segundo plano.
Dá-se relevo à manifestação de vontade de uma criança,
num âmbito de absoluta irreversibilidade, quando não é dado esse relevo, por
incapacidade, em âmbitos de muito menor importância (comprar uma casa ou gerir
uma conta bancária, por exemplo). Um significativo grupo de pediatras afirmou
não ser possível em caso algum considerar essa manifestação de vontade de uma
criança verdadeiramente consciente e genuína.
E, no caso de pessoas dementes, também se dá relevo
a uma manifestação de vontade não actual, quando é sabido que muitas vezes a
vontade de uma pessoa se altera quando a doença progride e o apego à vida vem
ao de cima (ou seja: nunca pode haver a certeza de que, no momento da morte,
fosse essa a vontade real da pessoa demente).
No caso de pessoas dementes, pode facilmente
suceder que a motivação do pedido não seja o previsível sofrimento dessas
pessoas (nestes casos, o sofrimento atingirá mais os familiares do que o
próprio doente, por este não se aperceber da sua doença), mas antes a vontade
de não fazer recair sobre esses familiares um fardo difícil de suportar (fardo
que é inegável). E o mesmo pode suceder em relação ao pedido de crianças, que,
até de forma inconsciente, podem sentir que são um peso para os pais
(disseram-no também, a propósito da nova legislação belga, vários pediatras).
Pode, assim, abrir-se a porta a uma morte provocada já não pela compaixão para
com o doente, mas para que as pessoas ao redor deste se livrem de um fardo
difícil de suportar.
Estas mesmas consequências (a progressiva extensão
da eutanásia, incluindo a situações de doentes incapazes de manifestar a sua
vontade) já se haviam notado na mais antiga experiência da Holanda, como já
resultava do célebre relatório Remmelink, de 1991. E onde também já se aceita,
desde há alguns anos, a eutanásia de crianças.
sábado, 19 de abril de 2014
Aspectos da oposição do «bando de Argel» ao Estado Novo II
João J. Brandão Ferreira
Por razões judiciais tenho feito alguma
pesquisa no arquivo do Ministério da Defesa, onde se encontra
documentação muito interessante, infelizmente ainda longe de estar toda
identificada e tratada.
Encontrámos uma miríade de transcrições de emissões de rádios estrangeiras
algumas das quais possuíam programas preparados e emitidos por «exilados»
portugueses que militavam em Partidos e organizações que lutavam contra o
Regime Político instituído em Portugal, em 1933.
Ocorreu-me que seria interessante transcrever alguns trechos dessas
emissões para os contemporâneos puderem avaliar o que então se dizia (e as
queixas e «denúncias» que se faziam) – na substância e na forma – e
poderem comparar com aquilo que se passou a seguir à «Revolução» do
25/4/1974 e com o que se passa hoje em dia.
Não farei comentários deixando a cada um retirar as suas conclusões.
Vou cingir-me à «Rádio Voz da Liberdade, órgão da «Frente Patriótica de
Libertação Nacional» (FPLN), que emitia a partir de Argel, entre 1964 e 1974.[1]
Eis o 2.º texto lido em 23/10/1966, com o título «Uma Guerra Perdida».[2]
«A SITUAÇÃO NA
GUINÉ»
– o P.A.I.G.C.
bombardeou quarteis com tiros de canhão.
Segundo uma notícia proveniente de Conakri, pela
primeira vez as forças do P.A.I.G.C. bombardearam com tiros de canhão a vila de
Bolama, e o campo entrincheirado de Empada, sendo destruídas numerosas
instalações militares.
Já meses antes, tinham sido bombardeados a tiros de
morteiro os campos fortificados de …. Guidage, Farim, Colopape (?), Ngore,
Burumtuma, Canquelifá, Guiledje, Bedanda, Madina, Belifa e outros.
Trata-se de um grande passo em frente na luta
de libertação nacional do povo da Guiné. Das acções de flagelação, das
emboscadas, dos rápidos ataques de surpresa com armas ligeiras, o Partido
Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, passou a uma nova fase,
passando a atacar as forças portuguesas no seu próprio reduto. Já não são
apenas as minas, as armadilhas, já não se trata sequer de ataques efectuados
com metralhadoras, e apoiados com tiros de bazuca. Trata-se de operações
ofensivas de bombardeamento de quarteis com tiros de canhão ou de morteiro.
As tropas de ocupação deixaram de ter pela frente
grupos de homens rudimentarmente armados, e passaram a ter que suportar os
ataques conduzidos por um exército regular, disciplinado, treinado e
armado, que conhece o terreno que pisa e que além disso, tem um moral e
uma coragem diferentes, porque está a combater pela libertação da sua terra.
A situação na Guiné pode caracterizar-se da
seguinte maneira: metade do território libertado, transformação da guerra de
guerrilhas, que continua a ser preponderante, com operações de ataque frontal.
As tropas de ocupação estão aquarteladas nos quarteis, e as operações ofensivas
reduzem-se a acções em áreas reduzidas, e aos bombardeamentos efectuados pela
Aviação sobre a população civil das zonas libertadas.
Os comandos salazaristas sabem que a guerra está
perdida. Entretanto, para fazerem o jogo criminoso do ditado para ganhar tempo,
vão exigindo sacrifícios inúteis aos soldados, que vão procurar a morte inútil
de um número cada vez maior de soldados portugueses, e vão continuar a
assassinar os guineenses que o fascismo diz defender.
Não é apenas um erro de cálculo político e militar.
É um crime, um crime semelhante ao que Salazar quis cometer em Goa, exigindo o
sacrifício do total das tropas portuguesas.
Mas, tal como em Goa, não há nada a fazer na Guiné.
Tal como em Goa, qualquer sacrifício mais é inútil e, mais do que inútil, é um
crime».
*****
A SITUAÇÃO EM
ANGOLA
«Nos últimos três meses, o panorama da guerra
colonial em Angola, sofreu duas alterações importantes: em primeiro lugar, o
Movimento Popular de Libertação de Angola apresenta-se melhor organizado e com
equipamento militar moderno, em três frentes de luta separadas por milhares de
quilómetros: em Cabinda, nos Dembos e na região de Vila Luso.
As Forças Armadas Portuguesas foram obrigadas a
dispersar-se e a baterem-se em terrenos e regiões que não conhecem bem (caso da
região de Vila Luso), ou que conhecem demasiado bem, o que sucede nos Dembos,
pelas amargas experiências que tem tido.
Em segundo lugar, o MPLA, e a Frente Nacional de
Libertação de Angola (ex-UPA) estabeleceram há menos de uma semana, numa
reunião efectuada no Cairo, acordos de cooperação que, a serem concretizados,
podem vir a ter uma grande repercussão no progresso da luta de libertação do
povo de Angola.
Angola, seis anos de guerra quase passados,
regressa assim ao primeiro plano das preocupações salazaristas, impotentes para
vencerem o povo angolano. Há cerca de um mês, um oficial que se encontrava na
região de Vila Luso, escreveu-nos relatando o desespero dos soldados perante a
crescente insegurança das FA portuguesas, cercadas por uma população hostil e
mais esclarecida, e assediadas por guerrilheiros móveis e bem armados,
dirigidos pelo M.P.L.A.
Os soldados portugueses, nem sequer no plano
alimentar tinham uma situação defendida: há meses que os comandos lhe davam
arroz e peixe estragado a todas as refeições. Entre diversas companhias,
desenvolvia-se um largo movimento de protesto no sentido de levantamento de
ranchos.
No plano militar, o isolamento, a vida em campos
fortificados, impotentes perante ataques de morteiros, tornava-se cada vez mais
difícil».
*****
A SITUAÇÃO EM
MOÇAMBIQUE
«Um comunicado divulgado ontem pela Frente de
Libertação de Moçambique (FRELIMO), anuncia que, em operações
militares realizadas no fim de Setembro, morreram mais 34 soldados
portugueses.
A crise que atravessa o colonialismo, e a guerra
colonial salazarista em Moçambique, são já do domínio público. E mesmo em
Moçambique que os comunicados de guerra se veem forçados a admitir mais baixas.
A imprensa suíça conservadora, a «Gazette de
Lausanne», porta-voz salazarista, confessava há semanas que o governo e a
guerra coloniais atravessavam uma profunda dificuldade em Moçambique, e que
estava em estudo um plano que desde já previa o abandono de toda a região do
norte do Zambeze, já que as províncias de Cabo Delgado e Niassa, pela
reduzidíssima penetração civil e militar portuguesa, não eram defensáveis.
Dias depois, a imprensa mundial anunciava o que a
imprensa salazarista calava: a pressão pela PIDE, do governador da província de
Manica e Sofala. Assim, um ano de guerra passado, a situação adensa-se para o
colonialismo português, e para os soldados e militares portugueses que lá são
forçados a combater. As medidas repressivas, as bombas de napalm, os campos de
concentração, com milhares de moçambicanos presos, os julgamentos – farsa dos
intelectuais moçambicanos, os assassínios por agentes da PIDE, de dirigentes da
FRELIMO, como Jaime … (falha), morto há meses na Zâmbia, não conseguiram deter
o movimento de libertação do povo moçambicano.
Pelo contrário, hoje é difícil continuar afirmando
que se trata de acções terroristas fabricadas no exterior, quando as forças
portuguesas têm de combater, a centenas, a mais de mil quilómetros dentro de
Moçambique, quando há extensas regiões libertadas, e administrativamente
dirigidas pela FRELIMO, com escolas e serviços de saúde.
A acção do povo moçambicano pela sua independência,
a organização e o armamento das forças da FRELIMO, são bem diferentes daquela
caricatura que o governo nos quis servir, de tribos primitivas. Hoje as pretensas
tribos primitivas abatem aviões, e estão em condições de dizimar companhias
inteiras».
*****
COMO RESISTIR À
GUERRA
«Militares portugueses, o sacrifício que Salazar
vos exige, é cada vez maior, e cada vez mais inútil. Nos quarteis de Portugal,
antes de partir para as colónias, ou mesmo no meio da guerra, na Guiné, em
Angola e em Moçambique, é possível resistir, é possível lutar contra a guerra,
é possível não fazer a guerra.
Se vos encontrais ainda em Portugal, recusai-vos a
partir, resisti ao embarque, organizai deserções colectivas, que cada
companhia, cada grupo, cada esquadrão, se recuse a embarcar.
Resisti dentro e fora dos quarteis, se for preciso,
ocupai os quarteis. Unidos, sólidos, invencíveis, ninguém vos poderá embarcar à
força, se vos mantiverdes firmes, unidos e dispostos a resistir.
Parti em grupos para as vossas terras. Chamai o
povo das vossas terras a defender-vos. Contai ao povo que não quereis servir de
carne para canhão numa guerra perdida, ao serviço dos interesses da dominação estrangeira.
O vosso lugar é em Portugal. Não vos deixeis
embarcar. Vale mais lutar em Portugal pelo direito à vida e à liberdade, do que
ir morrer em África por meia dúzia de monopólios.
Mas, se vos encontrardes nas colónias, mesmo lá é
possível resistir, é possível desertar e, em certas circunstâncias, é mesmo
possível a revolta. Procurai contacto com os movimentos nacionalistas. Por
acordos estabelecidos com a Frente Patriótica de Libertação Nacional, os
movimentos nacionalistas acolher-vos-ão, e pôr-vos-ão em contacto connosco.
Desertai em grupos ou individualmente. Se vos exigirem a partida para uma morte
certa, recusai-vos a combater, revoltai-vos. Se vos não for possível fazer mais
nada, fazei a resistência passiva. Deixai-vos ficar perto dos quarteis e
acampamentos, sem vos arriscardes no meio do mato, sem expor inutilmente as
vossas vidas. Não ataqueis quem não vos ataca. Os altos comandos que vão fazer
a guerra. Eles que se arrisquem.
Militares portugueses, a Voz da Liberdade não vos
mente. A guerra está perdida. O governo exige o vosso sacrifício para nada,
apenas para ganhar tempo, apenas para que alguns monopólios arrecadem os lucros
dos capitais investidos. Nós não queremos uma juventude estropiada, não
queremos mais mortos inúteis, não queremos que os jovens da nossa terra
continuem a sacrificar-se por uma guerra injusta e perdida. A Voz da Liberdade,
militares de Portugal, é a vossa voz. E a Voz da Liberdade diz-vos: poupai as
vossas vidas. Não vos deixeis embarcar. Resisti. E desertai. Revoltai-vos. A
nossa Pátria é Portugal. E Portugal está a saque. É em Portugal que temos de
lutar pelo direito à vida, á liberdade, pela independência da nossa Pátria».
[1] Recorda-se
que a Argélia tinha ascendido à independência, em 1962, depois de uma longa e
cruenta guerra com a França. A Argélia tinha um regime político de partido
único de inspiração marxista, cujo 1.º presidente foi Ben Bella. Assumia-se
como um país do «Terceiro Mundo» vindo, mais tarde, a situar-se na órbitra da
extinta URSS. A FPLN tinha lá o seu «quartel- general», desde 1962 e o
principal apoio. Na FPLN pontuavam Piteira Santos, Tito de Morais e Manuel
Alegre. A «Rádio Voz da Liberdade» era um dos seus principais instrumentos e os
dois principais (únicos?) locutores eram Manuel Alegre e Estela Piteira Santos.
[2] Arquivo do MDN, Fundo
5/23/81/16.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
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