domingo, 22 de fevereiro de 2015
A jangada de pedra do Syriza
Rui Ramos
A encenação de negociações serviria só para culpar os alemães, aliás já devidamente demonizados por todas as dificuldades futuras, tal como a ditadura plebiscitária da Venezuela culpa os americanos.
Há semanas que somos convidados a venerar a democracia na Grécia, como se a Grécia estivesse outra vez perante os Persas, e não perante os seus outros 18 parceiros do euro, onde os governos também são eleitos e os cidadãos manifestam livremente a sua vontade – nomeadamente a de não darem mais dinheiro à Grécia, como se viu nas eleições regionais de Hamburgo no passado fim de semana.
É tempo de perguntar quem é que põe em causa a democracia na Grécia? Os seus 18 parceiros da zona Euro, que requerem as garantias do programa de assistência para lhe emprestarem mais dinheiro, ou o Syriza e a extrema-direita, que estão a arrastar para fora da moeda única um país onde 81% da população quer o Euro e apenas 30% admite negociar até à ruptura?
Sim, a Grécia tem um regime democrático, a começar por um sistema eleitoral que produz resultados aceites como genuínos. Mas esses sistemas podem ser manipulados, sobretudo num ambiente como o gerado no Ocidente pela crise de 2008, que comprometeu expectativas e situações dadas por adquiridas. Na Grécia, tudo foi pior, porque a oligarquia política e as suas clientelas viviam de capturar fundos externos, os quais lhe permitiam poupar fiscalmente o resto da população. O ajustamento não limitou apenas a distribuição de rendas pelo Estado, mas forçou a oligarquia a enfrentar a necessidade de mudar. Não conseguiu, não quis. O Pasok desfez-se, a Nova Democracia falhou, e subitamente uma série de pequenos grupos de extrema-esquerda viram a porta aberta.
Sem a construção imprevidente da zona Euro e sem a irresponsabilidade dos velhos partidos de governo, a extrema-esquerda não teria tido a oportunidade que teve na Grécia. Mas a verdade é que também estava preparada para a agarrar. O facto de, ao contrário de Portugal, não haver um PCP, deu aos maoístas e trotskistas gregos uma margem de manobra que, por exemplo, o BE nunca teve. Puderam assim subir ao palco como uma nova classe de tecnocratas oriundos das universidades e dos media. Sem gravatas, mas com títulos académicos. A foto de grupo incluía até economistas, do género «banqueiro anarquista», como Varoufakis, marxista não-praticante. Falaram de um «novo consenso», e não de «revolução». Ofereceram soluções para a dívida e receitas para o crescimento, com as devidas fórmulas matemáticas e notas de rodapé. Por um lado, explicaram que não vinham para «alternar», mas para «mudar»; por outro, deram a entender que a «mudança» seria apenas a preservação do velho estatismo contra uma suposta agressão «neo-liberal». Assim tentaram e conseguirem participar e liderar uma maioria «anti-austeridade» e «anti-dívida». Entretanto, a imprensa ajudava lembrando o PT brasileiro como prova da disponibilidade da «esquerda radical» para substituir a corrupção da velha oligarquia pela corrupção de uma nova oligarquia.
O Syriza fez mais: persuadiu os eleitores de que seria possível arrancar ainda mais concessões à UE, devido ao medo que a todos inspiraria a reversibilidade da zona euro (a teoria do «castelo de cartas» de Varoufakis). Durante a campanha eleitoral, Tsipras chegou a insinuar na televisão que Merkel já teria aceite a ideia de um novo pacto de assistência, faltando apenas um sinal da Grécia. Muitos gregos acreditaram, e começaram logo a deixar de pagar impostos: em Janeiro, a perspectiva de vitória do Syriza inspirou uma queda de 40% da receita fiscal prevista. Outros, com menos fé, trataram de extrair o seu dinheiro da Grécia, num movimento de capitais equivalentes a 4% do PIB só em Dezembro.
O Syriza não tem mandato para tirar a Grécia do euro. Levará a chantagem até esse ponto? A questão é a de saber qual o verdadeiro projecto do Syriza. É substituir a social-democracia como parceiro de alternância num país da UE? Ou é provocar a saída do euro, num país em que ninguém quer sair? O «plano secreto» de abandono da moeda única foi um tema do debate eleitoral, inspirando negações veementes ao Syriza. Mas o Syriza também nunca mencionou a aliança com a extrema-direita, falando sempre de outras forças de esquerda como seus aliados preferenciais. É muito provável que nem toda a gente que votou ou que foi eleita pelo Syriza saiba ou perceba o que a extrema-esquerda, que constitui a única força organizada dentro do Syriza, verdadeiramente pretende.
Consideremos a hipótese de saída do euro. Significaria, como muita gente já explicou, desvalorização, inflação e falências. Para um Syriza que aspire a suceder ao Pasok como alternativa à Nova Democracia, seria um desastre e justificaria muitas concessões, embora o risco de descrédito fosse grande depois das promessas eleitorais. Mas para um Syriza determinado em fazer uma revolução na Grécia contra o «capitalismo» e a «democracia burguesa», faz todo o sentido: mesmo depois de todos os anos de austeridade, continuava a não haver sovietes na Grécia e quase toda a gente preferia continuar na zona Euro; terá sido, portanto, necessário envolver os gregos com propostas aparentemente «moderadas», mas apenas para, uma vez dentro das instituições, iniciar um processo de radicalização. O objectivo fundamental não seria isentar o poder em Atenas dos constrangimentos orçamentais europeus, mas romper com o enquadramento ocidental da Grécia. A encenação de negociações serviria apenas para culpar os alemães, aliás já devidamente demonizados, por todas as dificuldades futuras, tal como a ditadura plebiscitária da Venezuela culpa os americanos.
Na Europa do sul, especialmente nos países que emergiram de ditaduras na década de 1970, como Portugal, a Grécia e a Espanha, a democracia foi sempre pensada segundo os modelos da Europa ocidental e, enquanto tal, dependente da integração europeia. Os partidos democráticos de esquerda e de direita propuseram a integração europeia, e a extrema-esquerda e a extrema-direita sempre a contrariaram, por verem na integração europeia uma redução do leque das possibilidades políticas. Por isso, extrema-esquerda e extrema-direita sonharam sempre com «jangadas de pedra» (romance de José Saramago publicado no ano da adesão de Portugal à então CEE). A crise da Grécia na zona euro é, desse ponto de vista, uma ocasião única para a extrema-esquerda cortar as amarras europeias do país. Os 81% de gregos que querem o euro estão assim sujeitos a descobrir um destes dias que, ao serem convidados a rejeitar a «austeridade», foram afinal levados, sem saber, a renunciar a muito mais.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
O mito da austeridade grega
Daniel Gros, director do Centro de Estudos Políticos Europeus.
Desde a vitória do partido anti-austeridade Syriza nas eleições da Grécia que o «problema grego» está a preocupar, novamente, os mercados e os responsáveis políticos em toda a Europa. Alguns temem o regresso da incerteza que se viveu em 2012, quando muitos pensavam que estariam iminentes um «default» da Grécia e a saída da Zona Euro.
Naquela altura, como agora, muitos temiam que a crise da dívida grega pudesse desestabilizar – e até mesmo derrubar – a união monetária da Europa. Mas desta vez é realmente diferente.
Uma diferença fundamental reside nos fundamentos económicos. Ao longo dos últimos dois anos, outros países periféricos da Zona Euro têm provado a sua capacidade de ajustamento, ao reduzirem os seus défices orçamentais, aumentarem as exportações e registarem excedentes em conta corrente, negando, assim, a necessidade de financiamento. Na verdade, a Grécia é o único país que tem constantemente arrastado os pés sobre as reformas e registado um péssimo desempenho ao nível das exportações.
Fornecer uma blindagem adicional aos países periféricos é o plano do Banco Central Europeu para começar a comprar títulos soberanos. Embora o governo alemão não apoie oficialmente a flexibilização quantitativa, deveria estar grato ao BCE por acalmar os mercados financeiros. Agora, a Alemanha pode assumir uma posição intransigente perante as intenções do novo governo – perdão de dívida e fim da austeridade – sem temer o tipo de turbulência nos mercados financeiros que, em 2012, deixou a Zona Euro, com poucas alternativas a não ser socorrer a Grécia.
Na verdade, as exigências do governo grego baseiam-se num mal-entendido. Para começar, o Syriza e outros argumentam que a dívida pública da Grécia, de 170% do PIB, é insustentável e deve ser cortada. Dado que a dívida oficial do país constitui a maior parte da sua dívida pública global, o governo quer vê-la reduzida.
Contudo, os credores oficiais da Grécia concederam-lhe períodos de carência bastante longos e taxas de juros bastante baixas, pelo que o encargo é suportável. A Grécia gasta menos com o serviço da dívida do que a Itália ou a Irlanda, sendo que ambos os países têm rácios (brutos) da dívida em relação ao PIB muito mais baixos. Com os pagamentos da dívida externa da Grécia a representar apenas 1,5% do PIB, o serviço da dívida não é o problema do país.
O custo relativamente baixo do serviço da dívida também anula as justificações do Syriza para apelar ao fim da austeridade. O último programa de resgate da «troika» (Fundo Monetário Internacional, BCE e Comissão Europeia), iniciado em 2010, prevê um excedente primário (que exclui o pagamento de juros) de 4% do PIB este ano. Isso seria um pouco mais do que o necessário para cobrir os pagamentos de juros, o que permitiria à Grécia começar finalmente a reduzir a sua dívida.
O argumento do novo governo grego de que esta é uma meta excessiva não convence. Afinal de contas, quando confrontados com níveis excessivos de dívida, outros países europeus – incluindo a Bélgica (de 1995), a Irlanda (de 1991) e a Noruega (de 1999) – mantiveram excedentes semelhantes durante pelo menos dez anos, tipicamente na sequência de uma crise financeira.
É razoável argumentar que a austeridade na Zona Euro tem sido excessiva, e que os défices orçamentais deviam ter sido muito maiores para sustentar a procura. Mas só os governos que têm acesso ao financiamento do mercado podem usar uma política orçamental expansionista para impulsionar a procura. Para a Grécia, mais despesa teria de ser financiada por empréstimos de uma ou mais instituições oficiais.
Pela mesma razão, é falso afirmar que a troika obrigou a Grécia a uma austeridade excessiva. Se a Grécia não tivesse recebido apoio financeiro em 2010, teria de reduzir o seu défice orçamental de mais de 10% do PIB para zero imediatamente. Ao financiar défices continuados até 2013, a troika permitiu à Grécia atrasar a austeridade.
É claro que a Grécia não é o primeiro país a pedir financiamento de emergência para adiar cortes orçamentais, e depois queixar-se que os cortes são excessivos, quando o pior já passou. Isso normalmente acontece quando o governo tem um excedente primário. Quando o governo pode financiar os seus gastos correntes por meio de impostos – e até aumentar a despesa, se não tiver de pagar juros – a tentação de renegar a dívida intensifica-se.
Foi amplamente antecipado que a Grécia seria tentada a seguir este caminho, quando foi iniciado o programa troika. No ano passado, o novo ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, confirmou a previsão, argumentando que um excedente primário daria vantagem à Grécia em quaisquer negociações sobre reestruturação da dívida, porque o país poderia simplesmente suspender o reembolso à troika, sem incorrer em problemas de financiamento.
Essa abordagem seria um erro. O problema prático da Grécia neste momento não é a sustentabilidade de uma dívida que vence em 20-30 anos e que tem taxas de juros muito baixas; a verdadeira questão são os poucos pagamentos ao FMI e ao BCE que vencem este ano – os pagamentos que o novo governo prometeu fazer.
Mas, para cumprir esta promessa (e contratar mais funcionários), a Grécia vai precisar de mais apoio financeiro dos seus parceiros da Zona Euro. Além disso, o sistema financeiro do país vai precisar de apoio contínuo por parte do BCE.
Por outras palavras, o novo governo da Grécia deve agora tentar convencer os seus parceiros europeus que merece mais apoio financeiro, ao mesmo tempo que faz pressão no sentido de reduzir a dívida existente e resistir às políticas de austeridade a que os empréstimos anteriores foram condicionados. Para o Syriza e os seus eleitores, a lua-de-mel política poderá ser curta.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Filhos e enteados
Helena Matos
Um perdão como aquele que agora a Câmara de Lisboa se propõe conceder ao Benfica torna-se um insulto a todos aqueles que ao mesmo município pagaram o que tinham de pagar.
NOTA DA REDACÇÃO:
Se alguém souber de idêntica imoralidade em relação a qualquer outro clube, faz favor de nos comunicar.
Não tenho nada contra o Benfica nem contra qualquer clube de futebol, excepção feita a um das minhas imediações que insiste aos domingos em animar as redondezas com uma animação sonora que deve ter brotado da cabeça de algum sádico. Sei que é estranhíssimo dizê-lo e ainda mais escrevê-lo, mas se o futebol desaparecesse não lhe daria pela falta porque vivo em quase total alheamento do que por ali sucede. Mas, em abono da verdade, devo acrescentar que, se acaso pergunto quem está a ganhar e se dá o caso de o Benfica estar em campo, prefiro ouvir que o Benfica está a ganhar e, como sou espírito de contradição, neste tempo de treinadores que se vestem como os empregados bancários, sinto uma certa fraqueza pelo estilo de Jorge Jesus. E acaba aqui a minha declaração de (pouco) interesse pelo futebol.
O que pelo contrário me interessa muito é o tratamento fiscal muito favorável que o Estado português, através dos seus sucessivos governos e das suas autarquias, tem dado aos clubes de futebol. O perdão fiscal agora concedido ao Benfica pela Câmara Municipal de Lisboa levanta-me as maiores reservas, tanto mais que ele acontece num momento em que os cidadãos portugueses vivem sob uma tremendíssima carga fiscal. Nada lhes é perdoado. Quanto aos munícipes lisboetas creio que só andar a pé pela cidade não lhes é ainda taxado, como bem se percebe lendo as 22 páginas do Regulamento Geral de Taxas, Preços e outras receitas municipais, mais as três páginas dos Tarifários do Serviço de Saneamento e Águas Residuais Urbanas que também integra o incontornável Tarifário do Serviço de Gestão de Resíduos Urbanos , a inevitável Tabela de Taxas Municipais para 2015 (13 páginas) e, por fim, a extensa Tabela de Preços e Outras Receitas Municipais 2013 (25 páginas). E não, não estou enganada, estes documentos não se anulam entre si. Pelo contrário, cada um deles tem sempre umas taxas que os outros não contemplam.
Como é óbvio nem o frenesi fiscal do município e muito menos o tratamento fiscal light para com os clubes de futebol nasceram com António Costa. Mas os tempos mudaram. Em 2015 vivemos sob uma carga insuportável de impostos. Cada vez somos menos cidadãos e mais contribuintes. A obsessão com a cobrança de impostos leva a que o Governo (graças a Deus o mais liberal de sempre. O que seria se não fosse), que adia tanta coisa para um momento financeiramente mais adequado, não se tenha esquecido de criar uma carreira especial para os técnicos do Ministério das Finanças. Cada um de nós é tratado pelo seu Estado como um provável infractor fiscal. A nível municipal ainda recentemente a autarquia de Lisboa entendeu por bem taxar o simples facto de se aterrar ou desembarcar em Lisboa. Ora neste quadro parece-me injustificável avançar com um perdão fiscal (a que obviamente se seguirá, por parte dos outros clubes, a reivindicação de tratamento similar) para um clube a quem não faltam receitas, muito menos sócios, equipamentos e meios.
Os clubes de futebol têm sido alvo ao longo de décadas de um tratamento fiscal muito favorável: perdões fiscais, prescrições e fecho de processos, adiamento de pagamentos, regularizações especiais, renegociações de dívidas, aprovação de pagamento em prestações de dívidas que os clubes se tinham comprometido pagar a pronto… E não raras vezes, quando se supõe que todo este tratamento tão tolerante e solidário com os clubes de futebol levará a que estes arrepiem caminho, eis que se descobrem novas dívidas… Depois quando as coisas ficam outra vez difíceis fazem-se umas declarações espectaculares, acusa-se meio mundo e ameaça-se com a fúria e a mística da massa associativa. Qualquer semelhança com a estratégia dos actuais governantes gregos não é certamente coincidência: os chamados partidos anti-sistema estão a trazer para a política o estilo verbal e a atitude entre o displicente, o arrogante e o insultuoso que muitos dirigentes desportivos e suas entourages têm adoptado para não serem confrontados com os seus erros e desmandos.
Que o Benfica tenha construído, segundo revela o Público, a partir de 2004 (note-se que foi em 2004, no meio de Lisboa, não foi no Algarve dos anos 80, nem na Brandoa dos anos 70 do século passado), sem respeitar o alvará de loteamento, dois espaços comerciais, um equipamento desportivo, um balneário, duas bilheteiras e o edifício que alberga as piscinas, o pavilhão e o museu é por si mesmo espantoso. Tão espantoso que se aguardam esclarecimentos dos presidentes da CML durante esse período: Santana Lopes, Carmona Rodrigues e António Costa deverão explicar como foi isto possível.
Neste contexto e com este historial dos clubes de futebol um perdão como aquele que agora a CML se propõe conceder ao Benfica torna-se um insulto a todos aqueles que ao mesmo município pagaram o que tinham de pagar. Mas não só. Aqueles que viram recusados os seus pedidos de construção, alteração ou ampliação têm fortes razões para concluir que andaram a fazer figura de parvos.
Qual é o maior problema da Europa?
Rui Ramos
A guerra na Ucrânia pode mudar mais profundamente a nossa
vida do que a crise da Grécia: na Grécia, está em causa o Euro; na Ucrânia, o
Ocidente, isto é, tudo.
A crer no ruído noticioso e comentarista, é a Grécia.
Percebe-se porquê: é o caso que mais directamente podemos relacionar com o
nosso. Mas preparemo-nos para a possibilidade de, daqui a uns anos, os
historiadores darem menos importância à Grécia do que ao que se está a passar
na Ucrânia. Arriscamo-nos então a parecer muito distraídos. Enquanto estávamos
a olhar para a Grécia, perdemos a Ucrânia. E com a Ucrânia, podemos perder
muito mais do que imaginamos.
Neste momento, é preciso ser muito optimista para não
usar o pretérito ao falar da Ucrânia: tinha 46 milhões de habitantes e
era o Estado com maior superfície na Europa. A opção pró-russa do presidente
Yanukovytch em 2013 e a sublevação pró-europeia em Kiev em Fevereiro de 2014
dividiram o país e precipitaram a invasão russa. A situação é agora
reminiscente da Jugoslávia na década de 1990. A UE não sabe o que fazer:
conformou-se com a anexação da Crimeia, hesita em continuar as sanções à
Rússia, arranja todos os dias mais um bom argumento para não armar o governo de
Kiev, e aposta tudo em mais um acordo.
Há várias coisas, para além da nossa obsessão grega, a
impedir-nos de apreender a relevância do que se passa na Ucrânia. Uma é a
percepção da Ucrânia como um caso exótico. Há quem nem a considere um
verdadeiro país, por causa da sua diversidade interna. No entanto, todos os
grande Estados europeus são o resultado de «unificações» mais ou menos recentes
de elementos diversos e até opostos: a Espanha ou o Reino Unido, por exemplo,
mas também a Itália. A diferença é que a Itália, a Espanha ou o Reino Unido não
têm, nas suas fronteiras, uma grande potência militar a animar e a armar
rebeliões e a injectar tropas nos seus territórios. Se a Rússia fosse mais
perto, talvez a Espanha, no caso da Catalunha, não estivesse apenas a discutir
um referendo.
Chegamos aqui à questão da Rússia de Putin, e do que pode
representar para o Ocidente. A II Guerra Mundial e depois a Guerra Fria
convenceram-nos de que os grandes conflitos têm necessariamente raízes
doutrinárias. Sem o marxismo-leninismo, concluímos que a Rússia não nos deveria
preocupar. Acontece que nem sempre foram precisas divergências ideológicas para
haver rivalidades internacionais e guerras (a I Guerra Mundial é um
exemplo). A Rússia de Putin é uma autocracia pessoal a que a retracção
soviética deu uma causa (a recuperação do império) e a percepção do declínio e
da divisão ocidentais deu uma oportunidade. Putin pretende manifestamente
abalar a NATO e a UE, em que vê limites à sua influência na Europa. Podemos
diagnosticar muitas debilidades à Rússia, mas Angela Merkel, ao recusar qualquer solução
militar, reconheceu-lhe esta
força decisiva: a Rússia, na Europa de leste, empenhar-se-á sempre mais do que
os ocidentais. É uma admissão tremenda. Porque se a Ucrânia tombar por causa da
indisponibilidade ocidental para sustentar a sua opção europeísta, o que
passará pela cabeça de Putin em relação aos Estados bálticos, também com
minorias russas, mas já membros da UE?
A integração europeia pode estar muito mais em causa na
Ucrânia do que na Grécia. Na Grécia, a questão é a da irreversibilidade do
euro; nos países bálticos, depois de um abandono da Ucrânia, a questão seria a
da integridade da UE perante uma ameaça externa. A UE pode existir sem moeda
única, como já existiu, mas não sem a determinação de se defender.
Neste ponto, não é preciso invocar o cenário de uma
«terceira guerra mundial». As guerras totais entre grandes potências são
historicamente mais raras do que sugere a história do século XX. Mas uma nova
«guerra fria» na Europa oriental terá provavelmente consequências sociais e
económicas tão grandes ou maiores do que a crise grega da integração monetária.
Há anos que os orçamentos da defesa europeus são sistematicamente restringidos
e reduzidos a salários e pensões, contra a corrente do resto do mundo, a começar pela
Rússia (curiosamente, a Grécia é um dos poucos países europeus que insiste numa
despesa militar elevada, devido à sua rivalidade com a Turquia). O Estado
social europeu é, em grande medida, o resultado da prosperidade da economia de
mercado, mas também da diminuição das facturas militares, graças à protecção
americana e ao colapso da União Soviética. Foi assim que, desde o século XIX,
passámos na Europa de Estados cuja despesa era sobretudo militar, para Estados
cuja despesa é sobretudo «social». E a despesa militar americana
facilitou essa transição. Mas se a
pressão da Rússia aumentar, o investimento europeu na defesa terá de subir, até
porque os EUA não estarão dispostos a continuar a pagar a conta principal.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Os portugueses que nos querem ver gregos
Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 15 de Fevereiro de 2015
Logo a seguir ao futebol, as mais populares modalidades desportivas nacionais são bater no Cavaco e assinar manifestos. Por isso esta foi uma semana em cheio.
As festividades começaram quando o Presidente da República lembrou descaradamente um facto: os portugueses já emprestaram mil e cem milhões de euros à Grécia, fora trocos. Tamanha trivialidade perturbou as pessoas sensíveis, que a consideraram – a frase, não o empréstimo – inadmissível, na medida em que nada do que Cavaco Silva diz deve ser admitido (embora também não se tolere que Cavaco Silva esteja calado). A oposição falou em «humilhação do povo grego». E aquela senhora que liderava a meias o BE achou as afirmações perigosas, populistas, egoístas e uma ameaça ao «projecto europeu». Naturalmente, o «projecto europeu» consiste em fazer que os cidadãos de certos países trabalhem a fim de sustentar os que preferem dedicar-se a actividades paralelas como a subscrição de lengalengas em volta da palavra solidariedade.
A lengalenga do momento, sob a forma de carta aberta ao primeiro-ministro, reúne «destacadas personalidades» (sic) do calibre de Francisco Louçã, Carvalho da Silva, Pacheco Pereira, Octávio Teixeira e o conhecido benfiquista Bagão Félix. Essencialmente, trata-se do corpo de comentadores da Sic Notícias, ao qual, não sei porquê, faltam apenas Rui Santos e o trio de O Dia Seguinte.
E o que reza a carta? Reza que a austeridade é desagradável e exige a Pedro Passos Coelho que aproveite o pretexto grego para a mandar passear. Numa segunda leitura (e Deus sabe quanto me custou a primeira), a ideia é aliarmo-nos a quem nos pede dinheiro emprestado no combate a quem nos empresta. Isto não difere muito do sujeito que, ao ver-se assaltado, ajuda os ladrões a carregar o televisor e depois insulta a empresa que lho vendeu a crédito. Com a deliciosa agravante de que, no intervalo dos insultos, as filiais caseiras do Syriza suplicam por um crédito e um televisor novinhos.
Absurdo? Com certeza. E ainda nem referi a abdicação da famosa soberania pátria em favor do governo do Sr. Tsipras, que os subscritores da carta juram representar Portugal a sério. Imagine-se se estivessem a brincar.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Petição Pública de apoio aos patriotas ucranianos
Apoio à reabilitação de militares ucranianos
Para: Ex.ma
Senhora Presidente da Assembleia da República,
Ex.ma Senhora Presidente da Assembleia da República,
Os subscritores do presente Manifesto dirigem o seu apelo ao Estado Português para que subsidie os tratamentos e a reabilitação de alguns militares e combatentes-voluntários do exército ucraniano feridos no conflito armado na Ucrânia, em hospitais públicos ou privados em Portugal, em número e de acordo com as possibilidades existentes.
Estes militares, muitos de forma voluntária, arriscaram as suas vidas e à custa da sua saúde não só defendiam a integridade do seu país mas também contribuíam para que o conflito armado não se alastrasse para o resto do território da Ucrânia, não chegasse mesmo às portas da União Europeia, conseguindo evitar deslocações de refugiados para países da mesma. Eles estão a travar a luta para reestabelecer a paz na Europa.
Os peticionários têm conhecimento através das declarações das instituições governamentais ucranianas à comunicação social que 15 países recebem militares ucranianos para os tratamentos e a reabilitação. De acordo com os dados de Dezembro de 2014, setenta e três combatentes recebiam os tratamentos na Polónia, onze em Israel, oito na Croácia, quatro na Eslováquia, cinco no Reino Unido, treze na Letónia, quatro nos Estados Unidos da América, cinco na Alemanha. Vários países oferecem medicamentos e equipamento médico, deslocam os seus profissionais de saúde à Ucrânia para prestar apoio, avaliação e realização de cirurgias.
Os ucranianos valorizam o bom acolhimento que receberam em Portugal desde sempre, e agradeceram a ajuda que lhes foi dada com a sua integração, o seu conhecimento, o seu bom empenho e trabalho para o bem do país para onde vieram viver, assim foram estabelecidos laços bem fortes entre as duas nações. Esperamos que o Estado Português apoie a Ucrânia nesta altura tão difícil.
Por tudo isto os peticionários consideram essencial a colaboração e a ajuda de Portugal no tratamento e reabilitação dos militares feridos.
Agradecendo antecipadamente a atenção de V. Exa., apresentamos os nossos melhores cumprimentos.
Primeiros peticionários:
Iuliia Voroshylova (investigadora científica, Grupo de jovens ucranianos em Portugal «Synytsia»), Vasyl Bundzyak (padre ortodoxo de patriarcado de Kyiv, Braga), Pavlo Sadokha (Presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal), Andriy Veber (Presidente da Delegação de Vila Nova de Gaia da Associação dos Ucranianos em Portugal), Nuno Miguel Trindade Lourenço (advogado, Alenquer), Tetiana Franchuk (Grupo de jovens ucranianos em Portugal «Synytsia»), Olena Nesterenko Afonso (professora de línguas, Coimbra), Svitlana Oksyuta (professora de música, Porto), Galyna Ilyuk (professora de música, Santo Tirso), Olena Dvoininova (Directora da escola ucraniana Cirilo-Metódio em Braga, doutorada em História)
Para assinar: http://peticaopublica.com/?pi=petreabilitacao
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Idiossincrasias
Helena Matos
Como não há revolução sem o culto das idiossincrasias dos revolucionários estamos agora na questão das gravatas. Ou mais precisamente do sem gravata. Em Portugal nos idos de 75 era o sem sono.
A tara das gravatas. Não falha: mal a esquerda aparece com um despreparado candidato a caudilho começa o engraçadismo sobre a sua forma de vestir, os seus gostos ou outras idiossincrasias. No caso do actual governo grego é a mania das gravatas ou mais propriamente a mania de não as usar. Em Portugal nos idos de 75 era o sono. Não havia jornalista, activista ou adepto do turismo revolucionário que após fotografar umas ceifeiras numa cooperativa no Alentejo, uma empresa ocupada na margem sul, ver duas manifestações em Lisboa e falar com três militares não manifestasse uma profunda admiração sobre os homens sem sono que dirigiam Portugal. Portugal era governado por homens sem sono e esse aparente detalhe, por estranho que possa parecer, fazia toda a diferença face aos rotineiros ensonados que governavam a restante Europa.
Aquele estado de reunião permanente do Conselho de Ministros e do Conselho da Revolução, sem esquecer as assembleias do MFA, era visto como um frenesi revolucionário a que as fardas e o cabelo comprido dos militares emprestavam um negligé viril que ficava particularmente bem nas fotografias e filmagens a preto e branco. Quanto mais instalados nas suas muito capitalistas e confortáveis vidas, mais estes ilustres visitantes achavam interessante esta insone experiência revolucionária, logo ali a poucas horas de avião de qualquer descansada e bem dormida capital burguesa.
Que os homens sem sono aprovassem em Portugal a mais desvairada e contraditória legislação, que muito do decidido fosse logo esquecido e ultrapassado por outras decisões, que se aprovassem medidas atentatórias dos direitos mais básicos, como o Tribunal Militar Revolucionário e o confisco dos bens, não lhes causava inquietação de maior. O que salientavam como extraordinária mais-valia deste nosso país era o facto de sermos governados por homens sem sono.
Desfeito o PREC, os governantes portugueses para seu e nosso bem voltaram a dormir como os demais. E a imaginária revolucionária deslocalizou-se para paragens mais remotas: tivemos o carapuço do comandante Marcos no México, os inevitáveis lenços palestinianos, o (que Camões e Dom Afonso de Albuquerque me perdoem a apropriação da palavra!) «terribil» fato de treino de Chávez e, numa aparente contradição, mas só aparente, porque nesta matéria o que conta é épater le bourgeois, o deslumbramento dos socialistas portugueses pela pose dum seu líder que comprava fatos numa loja de Rodeo Drive.
Em 2015 muitos cidadãos europeus deslocam as suas nunca desfeitas ilusões revolucionárias para a Grécia. E como não há revolução sem o culto das idiossincrasias dos revolucionários estamos agora na questão das gravatas. Como se a questão fosse Tsipras ou Varoufakis usarem ou não gravata. (Já agora parabéns a Renzi que aproveitou o encontro com Tsipras para fazer publicidade a um dos produtos símbolo do sucesso da marca Itália: as gravatas). O problema do governo grego é que a única ideia que tem para governar a Grécia é pedir, mendigar, exigir, reivindicar e fazer palhaçadas de modo a sacar mais dinheiro aos outros. As gravatas, ou no caso concreto a ausência delas, é apenas um acessório da performance da pedincha disfarçada de bravata revolucionária. Pelo jeito com que a coisa vai os governantes gregos acabarão em Moscovo. Mas tanto quanto se sabe, na hora de cobrar as contrapartidas o Kremlin não costuma ser muito sensível ao vestuário dos seus tutelados. (Alguns aliás nunca mais precisaram de roupa na vida.) Talvez se Varoufakis for de túnica e sandálias como os pretéritos gregos seja bem-sucedido. Tem é de esperar pelo Verão.
O síndroma da mãe do Dantas. «Nós sentimos que a política que é hoje dominante na Europa está a matar a confiança dos nossos cidadãos pelo projecto europeu» afirmou António Costa. Não há dia em que os dirigentes do PS português, do PSOE espanhol, a par de outros líderes do socialismo democrático europeu não afiancem que a austeridade está a matar, que já não há líderes e que estamos à beira do caos. A austeridade está de facto a matar. Mas não é o projecto europeu mas sim uma ideologia. Mais precisamente a austeridade está a matar o socialismo democrático cujos partidos se arriscam a desaparecer do mapa eleitoral na Grécia, Espanha e França. E em boa parte isto acontece porque os líderes socialistas nos momentos difíceis ficam atacados pelo síndroma da mãe do Dantas.
Júlio Dantas que a maior parte lembrará por causa do manifesto que Almada lhe dedicou (por sinal, Júlio Dantas era uma figura bem mais complexa e corajosa do que aquilo que Almada sugere, mas esse assunto ficará para outra crónica). Ora entre os traços de personalidade de Júlio Dantas contava-se a absoluta desmesura com que vivia os factos da sua vida. Era um dramático, como então se dizia, para não entrar em maiores e à época embaraçosos detalhes.
Este traço de personalidade do nosso Dantas esteve à beira de deitar por terra um acontecimento em que várias personalidades portuguesas tinham posto muitas das suas maiores expectativas e vaidades: uma embaixada cultural que ia ao Brasil participar nas cerimónias evocativas do descobrimento daquele território (agora deve dizer-se achamento mas à época achar era próprio dos tolos). Ter conseguido constituir aquela «embaixada cultural» custara laboriosas negociações com Salazar que, para lá das proverbiais questões de dinheiro, temia a forma festiva para não dizer carnavalesca como no «país irmão» se tratavam os venerandos factos da História. No limite e sob o espectro de, por ausência de Portugal, Pedro Álvares Cabral acabar a ser representado com plumas e outros luzentes adereços, lá seguiu a embaixada cultural para o Brasil. Presidia-a Júlio Dantas. Ora a meio da viagem chegou a informação de que tinha morrido a mãe de Júlio Dantas.
Foram imensas a dor e a consternação que se abateram sobre o extremoso filho. Mas não só: a partir do momento em que a bordo se soube do passamento da senhora, Júlio Dantas comportou-se como se todos os membros da embaixada, a tripulação do navio e o próprio oceano estivessem de luto pela sua finada mãe. Mas mesmo assim não lhe chegava. Para o Brasil foi comunicado que falecera a mãe do dr. Júlio Dantas. Solícitos, os brasileiros logo acharam que também eles se deviam associar ao luto que naquela fase já não era do dr. Júlio Dantas mas de toda a delegação portuguesa. E assim, entre a exorbitação de Júlio Dantas e a atracção dos brasileiros pela espectacularidade, seja ela da vida ou da morte, as manifestações de dó pela morte da mãe do Dantas iam num crescendo arrebatador.
A bordo, os portugueses já se viam afastados de todas as cerimónias (as tais para as quais tinham andado durante meses a preparar vénias e discursos!) e a serem recebidos não como convidados de honra nas comemorações da descoberta do Brasil mas sim para naquela terra bendita chorarem a mãe do Dantas. E é quando os brasileiros, empolgados com a dor do Dantas, já comunicam para bordo a sua intenção de receber os portugueses com missas solenes e Te Deum que na embaixada portuguesa alguém declara que quem morrera fora a mãe do Dantas não a mãe da Pátria. Logo o Dantas que fizesse o seu luto enquanto a embaixada iria tratar daquilo a que se propunha: comemorar a descoberta do Brasil.
Os socialistas estão exactamente como o Dantas naquele barco a caminho do Brasil: acham que a Europa está à beira do fim, que os europeus deambulam sem líderes nem rota e que há que refundar tudo de novo. Ora o que os eleitores lhes estão a dizer é que quem está a morrer não são as restantes ideologias mas sim o socialismo democrático. Só que ao contrário da mãe do Dantas que morreu de causas naturais, o socialismo democrático está a morrer por culpa dos seus líderes. Estes continuam a fazer programas e discursos como se estivéssemos no tempo em que a diferenciação dos partidos se fazia pelas diferentes formas como se propunham distribuir a riqueza.
Impossibilitados de recorrer aos truques e à demagogia da esquerda e da direita radicais, os socialistas acabam por falta de propostas adequadas ao tempo em que vivemos a não capitalizar o descontentamento dos eleitores do centro: Passos, Rajoy e até o grego Samaras perdem eleitores mas mantêm os seus partidos como alternativas de poder.
À força de quererem identificar o seu problema ideológico com o fim das ideologias, obstinados em falar do tempo passado em que gostaram de viver e foram líderes, os socialistas ficaram sem discurso sobre os tempos em que vivemos. E deixaram não só que esse espaço fosse ocupado pelos radicais como que os defensores da austeridade aspirem a ganhar as eleições ou a não as perder por muito.
Ou os dirigentes socialistas percebem que quem está com problemas é o socialismo democrático e actualizam o seu discurso, ou arriscam-se a que muitos eleitores lhes deem a correr os pêsames e os deixem sós na sua missa por alma do passado antes de irem participar na festa dos outros.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
A guerra do Islão
José António Saraiva, Jornal Sol, 26 de Janeiro de 2015
Depois dos atentados em Paris, o primeiro-ministro
francês, Manuel Valls, e a chanceler alemã, Angela Merkel, fizeram uma declaração
solene: «A luta é contra o terrorismo, não é contra o Islão».
O pior inimigo dos muçulmanos que hoje vivem na
Europa é a inacção dos Governos nacionais – permitindo uma liberdade de acção
aos fundamentalistas que acaba por virar a opinião pública contra toda a
comunidade islâmica
A intenção era óbvia: tentar precaver acções
racistas contra os muçulmanos – e, ao mesmo tempo, acalmar os países islâmicos
amigos.
Mas dizer isto é tentar tapar o sol com a peneira.
Porque este tipo de terrorismo é indissociável do
Islão.
Os terrorismos não são todos iguais – e o
terrorismo islâmico tem características próprias, sendo completamente diferente
dos terrorismos que conhecemos na Europa.
As organizações terroristas europeias das últimas
décadas – o Baader-Meinhof na Alemanha, as Brigadas Vermelhas em Itália, o Sinn
Fein na Irlanda, a ETA no País Basco, as FP-25 em Portugal – actuavam
geograficamente e tinham objectivos políticos concretos.
O terrorismo islâmico, pelo contrário, não é
localizado geograficamente – está disseminado por todo o planeta – e não tem um
objectivo político determinado – visa atingir a civilização Ocidental no seu
conjunto.
Há quem, como Ana Gomes, tente explicar o
terrorismo islâmico com base nas más condições de vida ou numa deficiente
integração dos muçulmanos nos países de imigração.
Ora, dizer isto é não compreender o fenómeno.
Se as condições de vida produzissem terroristas, já
teríamos visto muitos pobres em Portugal, atingidos pela austeridade, pegarem
em metralhadoras e irem por aí fora a matar pessoas.
E se fosse pela deficiente integração, muitos
africanos em Portugal já se teriam transformado em homens-bomba.
As condições de vida e o desenraizamento podem
facilitar o recrutamento de operacionais, mas a raiz do terrorismo islâmico é outra.
E se fosse esta também não teria solução, pois a
Europa não vai sair da crise tão cedo e a integração dos muçulmanos nas
sociedades europeias nunca será completa...
Como se vê em França, na Bélgica, em Inglaterra ou
na Alemanha, as populações de origem árabe, por exemplo, conservam em geral os
seus hábitos de vida: comem a sua comida, vestem à sua maneira, professam a sua
religião, lêem os seus jornais, vivem nos seus bairros.
E depois, em virtude de serem cada vez mais
associados ao terrorismo, os muçulmanos são olhados com desconfiança pelo resto
da população – o que agrava a segregação.
Perante um muçulmano, as pessoas hoje pensam: quem
sabe se por detrás deste homem não se esconde um terrorista?
Ao contrário de outros terrorismos, o terrorismo
islâmico é de natureza religiosa – embora haja dificuldade em aceitar esta
ideia, porque a cartilha marxista, que continua a condicionar o pensamento de
muita gente, contempla sobretudo as condições socio-económicas.
Mas basta olhar para a História para o perceber: a
guerra entre o Islão e o Ocidente cristão vem de muito longe (e nós sabemos
isso melhor do que ninguém, pois ajudámos a expulsar os «infiéis» da
Península).
Sucede que, ao contrário do cristianismo, o
islamismo conservou uma vertente fundamentalista e violenta, bem expressa nas
atrocidades de Khomeyni, de Bin Laden ou do Estado Islâmico.
E o fundamentalismo não tem parado de crescer nos
últimos tempos – conquistando cada vez mais terreno no Norte de África e
multiplicando os atentados terroristas pelo mundo fora.
Neste momento, a Europa é um paraíso para os
terroristas islâmicos, pela ausência de fronteiras nacionais, pela liberdade de
movimentos, pela liberdade de propaganda, etc.
Em nenhuma parte do mundo existem tais condições.
Ora isto pode fazer do continente europeu, nos
tempos que aí vêm, um palco privilegiado para os ataques terroristas.
Até porque aqui vivem 50 milhões de muçulmanos,
possibilitando que eles se escondam com tremenda facilidade (procurar um
muçulmano em certos países da Europa é como procurar agulha em palheiro) e
oferecendo um campo de recrutamento muito grande.
Enfrentar o terrorismo islâmico na Europa é uma
tarefa ciclópica.
Mas há uma coisa a fazer antes de mais nada:
abandonar os preconceitos ideológicos, os complexos de esquerda e os clichés –
e aceitar pôr tudo em questão.
A recusa dos partidos do sistema em debater
descomplexadamente a imigração, está a entregar à extrema-direita o monopólio
do debate sobre este tema.
Ora, isso é perigosíssimo.
Os partidos centrais têm de ser mais activos e
firmes no combate a este flagelo.
Não podem revelar a passividade e a inocência que
têm demonstrado.
Como aceitar, por exemplo, que alguns imãs
continuem a pregar livremente a violência e a recrutar homens nas
mesquitas de Paris ou Bruxelas para ataques terroristas?
Como admitir que em Londres haja municípios ostentando
à entrada placas dizendo: «Está a entrar numa zona controlada pela sharia [lei
islâmica]»?
É inadmissível.
Muitos europeus começam a estar cansados, com medo,
aterrorizados mesmo – e, se os Governos não derem respostas concretas, o
racismo anti-muçulmano na Europa pode ficar fora de controlo.
E os partidos da extrema-direita continuarão a
crescer eleitoralmente e começarão a ganhar eleições.
O tempo urge.
O discurso politicamente correcto já deu o que
tinha a dar e não convence ninguém.
Os próprios muçulmanos estão fartos dele, pois a
sua vontade é que se comece a separar o trigo do joio, não pagando o justo pelo
pecador.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
A implosão dos socialistas
Helena Matos
Por ironia, a grande mudança que António Costa celebrou na passada semana está ser feita à custa do esfrangalhar dos partidos socialistas. Primeiro do PASOK. Depois, muito provavelmente, do PSOE.
No domingo passado os socialistas quase desapareceram do mapa eleitoral grego. Ontem, em Madrid, o Podemos encheu as ruas numa manifestação de força já a preparar o ambiente das próximas eleições. Mas esta extrema-esquerda que se agiganta e que grita que vai derrubar a direita está para já é a derrotar a esquerda democrática. Os dedos de uma mão devem chegar para contar os eleitores do PP que foram à manifestação do Podemos em Madrid mas muitos desses milhares de manifestantes já, por mais de uma vez, deram o seu voto ao PSOE. Agora podem dá-lo a Pablo Iglesias, uma espécie de Chavez com formação universitária. Há mudanças que dão que pensar e esta é certamente uma delas.
Por ironia, a grande mudança que António Costa celebrou na passada semana está ser feita à custa do esfrangalhar dos partidos socialistas. Primeiro do PASOK. Depois, muito provavelmente, do PSOE. Goste-se ou não, na Espanha e na Grécia, boa parte dos eleitorados da esquerda democrática está a radicalizar-se e a dar o seu voto a líderes que num passado não muito distante teriam considerado inapresentáveis.
E não, não são inapresentáveis por causa de não usarem gravata. Sei que não há nada que os jornalistas desta velha Europa gostem mais do que dar uma imagem alternativa-caviar dos líderes radicais através desses pequenos traços: é o não usar gravata ou, pelo contrário, gostar de desfiles de moda. O ir ou não ir ao cabeleireiro… Mas os líderes radicais que actualmente merecem as graças do eleitorado são inapresentáveis não por questões de guarda-roupa (não há nada mais caro e estudado que o casual!), mas sim porque não mostram qualquer preparação para as funções a que se estão a candidatar. E, não menos importante, porque a sua concepção do funcionamento das instituições do regime democrático é meramente instrumental. Não digo que vão instaurar ditaduras nos países que vierem a governar, mas escrevo que não vão usar para com os opositores a mesma tolerância e respeito que agora reivindicam para si.
Tal como os milionários têm aquelas fantasias estilo Espírito Santo na Comporta ou Guevara-chic de brincar aos pobrezinhos e de fazer férias prescindindo da electricidade e demais tecnologia, uma parte dos socialistas acha que votar na extrema-esquerda é uma espécie de fazer de conta que temos uma revolução. Grita-se como nas revoluções. Chora-se, canta-se e dizem-se poemas como nas revoluções de antigamente. Mas o objectivo, no fim, é voltar a viver como há dez anos.
Só que mudar de roupa, voltar a ter frigorífico e ligar-se à net, uma vez regressados à civilização, é bem mais simples que mudar de governo, sobretudo se esse governo tiver uma retórica de esquerda radical.
O que mais perturba nesta transferência de votos da esquerda democrática para a esquerda radical é que durante anos e anos os socialistas foram apresentados como o eleitorado mais culto e cosmopolita dos respectivos países. Ora, assim que a riqueza acabou, os socialistas não ficaram apenas sem programa, ficaram também sem verniz: os seus eleitores declaram-se disponíveis para apoiar a socialização das dívidas com a mesma fé dogmática com que os comunistas votaram no passado ao confisco e divisão da propriedade. A forma como desenham uma Europa livre da disciplina orçamental em pouco se distingue na ingenuidade dos amanhãs que cantam do PCP.
Há algo de regressão intelectual neste processo. Uma espécie de infantilização de gente que, depois de ter um projecto para mudar as sociedades e governar civilizadamente os seus países, repete agora, como se estivesse numa sessão esotérica de invocação das vidas passadas, que a austeridade acabou na Grécia e quiçá na Europa simplesmente porque ganhou um partido que se diz anti-austeridade.
E em Portugal? Os socialistas portugueses manifestam uma enorme disponibilidade para, em nome da esquerda, aderir a projectos em que fantasia e caudilhismo se misturam. Vejam-se, por exemplo, os apoios conseguidos pela candidatura de Manuel Alegre cujo programa ao certo nenhum dos seus eleitores – nem o próprio – saberiam explicar. Era tudo atitude: dizia-se Pátria, Liberdade e grilhetas e lá ia Portugal a caminho daquele Graal que só eles decifravam. O próprio António Costa chegou a secretário-geral rodeado de uma aura de pensamento mágico que seria ridícula caso não fosse perigosa: acreditava muito boa gente que bastaria afastar Seguro para que o PS galopasse nas sondagens. Agora mostram-se impacientes porque tal ainda não aconteceu.Da impaciência à desilusão – na esquerda nunca se cometem erros, têm-se ilusões e desilusões – vai um caminho muito curto. E potencialmente perigoso.
A isto, que já não é pouco, junta agora o PS, por vicissitudes do socratismo que os usou como milícia mediática, uma aguerrida ala esquerda que estuda pouco mas sabe bem o que quer: sentar-se num futuro conselho de ministros nas cadeiras que lhes permitam fazer à força de decreto-lei a revolução que os seus amigos de extrema-esquerda hesitam se devem fazer na rua ou na secretaria. Eles têm a certeza que deve ser na secretaria e já lá estão à espera desse momento. Chegaram primeiro e vão lembrá-lo a quem de direito.
Não nos falta portanto quem esteja disponível para apoiar um projecto de esquerda radical. Apenas não existe um Tsipras ou um Iglesias. Ou seja, um líder carismático e populista susceptível de aglutinar aquela espécie de células em divisão constante que são os movimentos à esquerda do PS e os desiludidos do próprio PS.
Nesse sentido e também porque o PCP lá está a cumprir o seu papel histórico de corta-fogo à esquerda, os socialistas portugueses têm a vida bem mais simplificada que os espanhóis, o que não é o mesmo que dizer que terão uma vida simples. Na verdade, a vida complicou-se-lhes.
A António Costa não basta, como muitos acreditaram, continuar a reagir como se ainda estivesse à noite a fazer comentário na SIC sob o olhar complacente de Pacheco Pereira e Lobo Xavier e de manhã na CML a engolir as oposições dos zés que faziam falta e das emocionadas rosetas.
O seu caderno de encargos cresceu. Não só os socialistas lhe exigem que ganhe as eleições, como outra tarefa o espera: não deixar que aconteça ao PS o mesmo que ao PASOK e ao PSOE. Conseguir capitalizar em proveito próprio a arregimentação da extrema-esquerda e a sua falta de liderança pode ser uma táctica para ganhar tempo mas nunca uma estratégia para governar. Ou os socialistas fazem um discurso de poder, ou seja, dizem como vão governar, ou eles e todos nós temos um problema. Um problema chamado triunfo do populismo.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Arrogância e provocação
Maria de Fátima Bonifácio
Do Syriza, convertido em bezerro de ouro da esquerda, a Europa ainda só recebeu, até agora, arrogância e provocação, uma estratégia estúpida cuja pretensa esperteza não escapa a ninguém.
Sempre pensei que o liberalismo assentava (entre outros) no pressuposto de que as pessoas, em última análise, eram racionais e responsáveis. Claro que as emoções, as paixões, a aflição, o desespero abrem grandes intervalos nesse meu suposto estado de fundamental lucidez. Mas, passadas essas perturbações, acabaríamos todos, ou quase todos, por ser chamados à razão. Não no sentido de reconhecer a verdade, um exercício mais apropriado para filósofos ou teólogos, mas de se admitir a evidência dos factos duros e retirar deles, racionalmente, logicamente, as ilações que se impõem. A nossa vida, tal como a História, está cheia de momentos de irracionalidade. Mas, tudo somado, olhando retrospectivamente, prevalece em geral um padrão coerente e inteligível. E mesmo os disparates, no caso de indivíduos, e as tragédias, no caso da História, são em última análise susceptíveis de um escrutínio e explicação racionais.
Com excepções, contudo, como acontece nas situações radicalmente absurdas. A minha crença nos mencionados pressupostos do liberalismo foi logo abalada durante o ominoso consulado de José Sócrates, quando Portugal se assemelhava a um automóvel a acelerar com toda a força contra um paredão. E mais abalada ficou quando acordámos para a realidade de que a dívida privada (de empresas e particulares) superava a gigantesca dívida pública. Era «o tempo das duas casas e das três auto-estradas» (R. Ramos). Se as três auto-estradas acabaram por ser levadas a crédito da irresponsabilidade do nosso governante, a culpa das duas casas foi, e continua a ser, atribuída à malícia dos bancos e aos efeitos nefastos do euro, que graças aos baixos juros permitia viver folgadamente da dívida. Responsabilidade pessoal? Não houve. Somos um país de crianças grandes inimputáveis.
O Syriza justifica as suas fanfarronadas com os votos democráticos e soberanos que recebeu do povo grego (mais os 50 deputados que a absurda lei eleitoral oferece de borla ao partido mais votado). A crise humanitária pela qual a Grécia efectivamente está a passar, causada pelo tratamento draconiano que recebeu da Troika, foi precedida pelo predomínio incontestado de duas dinastias de políticos corruptos que durante décadas saquearam o país, acabando por obrigar a mendigar ajuda externa para evitar, por um fio, a bancarrota.
Ora, enquanto os Karamanlis (falecido em 1998) e os Papandreous arruinavam o país, os gregos colaboravam alegremente: poderiam ter corrido com eles com um voto tão democrático e soberano como deram agora ao Syriza, até votando massivamente nulo ou em branco se não entrevissem alternativa credível. Porém, nenhum grego estranhava os extraordinários privilégios de que gozava e de que nem os cidadãos das nações mais ricas da Europa usufruíam. Não só: em lado nenhum da Europa a evasão fiscal era tão sistemática e escandalosa, praticada de cima abaixo da escala social. Enquanto a fartura durou, toda a gente colaborou no saque do país e beneficiou dele, ao mesmo tempo que o enterrava descontraidamente. A revolta e o fervor patriótico só irromperam quando, subitamente, os gregos se viram confrontados com a duríssima realidade. Não, os gregos não elegeram o Syriza por causa da Europa, do BCE ou da Troika, elegeram o Syriza porque este lhes prometeu ressuscitar o sonho de fadas em que se tinham habituado a viver, poupando-os à realidade e devolvendo-lhes a irresponsabilidade em que descansadamente viviam e dormiam. Pessoalmente, não me sinto inclinada a contribuir com os meus «cortes» e impostos para financiar a negligência e o desmazelo da Grécia.
Do Syriza, convertido em bezerro de ouro da esquerda, a Europa ainda só recebeu, até agora, arrogância e provocação, uma estratégia estúpida cuja pretensa esperteza não escapa a ninguém. A filáucia de Varoufakis, ministro grego das Finanças, destina-se a testar os limites da condescendência europeia; a dispensa da gravata pelo primeiro-ministro Tsipras não passa de uma demonstração infantil de irreverência e rebeldia; a aliança com um partido de direita anti-europeu foi mais um desafio desnecessário; o apoio manifestado à agressão criminosa da Rússia na Ucrânia ou é sincera e por isso lamentável, ou não passa de mais uma farronca pseudo-nacionalista que renega os deveres de um país-membro da NATO; a elevação do salário mínimo para 720 euros constitui uma afronta para os muitos e muitos europeus excluídos de uma tal benesse; a readmissão nos quadros da Função Pública de 600 (!) empregadas para limpar o ministério das Finanças inscreve-se na mesma política de esbanjamento que antes da Troika mantinha 27 jardineiros (!) entretidos a fingir que cuidavam de um jardim com um hectare. A listagem dos casos mais escandalosos pode ser lida no artigo de Sousa Tavares no Expresso de sábado, 31 de Janeiro (embora o colunista retire conclusões opostas às minhas).
Há quem veja no «caso grego» uma oportunidade para forçar a Europa a flexibilizar as suas regras e políticas. Mas a Grécia não quer uma mera flexibilização, quer, com 10 milhões de habitantes e os cofres vazios, ditar ela as regras e políticas de uma União que alberga cerca de 500 milhões de pessoas. Ocorre-me o ditado – entradas de leão, saídas de cão. Esperemos apesar de tudo, por razões meramente humanitárias, que a Europa não queira, e possa não querer, transformar o caso grego numa «vacina» contra a veleidade de acreditar no Pai Natal. Não tardará que tenhamos a oportunidade de confirmar se ele afinal existe ou não realmente.
Há quem diga, como MST, que uma «capitulação» da Grécia forçada por Berlim detonaria na Europa uma onda de ódio anti-germânico e a ebulição das frustrações em relação a Bruxelas; e que neste caso se poderá antever a próxima dissolução da UE. Pode ser. É um facto que o ódio e a frustração já existem, mas não acredito que se agravassem. Mas, dada a despropositada arrogância de um país falido cujos principais problemas não começaram sequer a ser resolvidos apesar de dois resgates e um mais que generoso perdão de metade da dívida; dadas as provocações com que o Syriza entendeu por bem desafiar aqueles de quem precisa, o problema, o dilacerante problema a que chegámos está em que desapareceu qualquer espaço para uma negociação em que ninguém perca a face. Graças ao gabado talento político de Tsipras, a Europa está colocada perante o dilema entre deixar cair a Grécia ou sofrer uma miserável humilhação. E neste segundo caso teríamos, não a tal onda de ódio, mas uma onda de reivindicações e exigências dos países em dificuldades que, a serem satisfeitas, igualmente preludiariam o fim da Europa num futuro muito próximo. No ponto em que o Syriza colocou as coisas, uma das partes terá fatalmente de capitular – ou a Grécia terá de sair da Europa pelo seu pé. Talvez a Rússia, a título de mais um passo na renovada Guerra Fria, lhe sirva de amparo.
Se a Europa se rendesse à chantagem, como se contornaria o precedente grego? O que justificaria a excepção de um tratamento privilegiado? Com o exemplo seminal de Péricles e da Democracia Ateniense? Mas Péricles e a Democracia Ateniense estão tão longe dos gregos e da Grécia actual como nós estamos dos Incas ou dos Astecas dizimados por Cortês e Pizarro. Mas ainda que o simbolismo tivesse cabimento, teríamos de concluir que os gregos não honraram a herança que receberam.
A UE, ao longo da sua formação, acumulou erros sobre erros. A perspectiva de uma federalização parece-me completamente utópica. Ignoro se há outras opções a explorar. O certo é que foi construída em comum, e em comum se deve reformar, se reforma tiver. O que não pode é alterar regras ao sabor de ultimatos vindos de alguém que, por ora, não passa de um aventureiro com pretensões e ambições absurdas, daquelas que escapam a um entendimento racional. Mas isto já é outro assunto.
Subscrever:
Mensagens (Atom)










