terça-feira, 2 de maio de 2017
sábado, 22 de abril de 2017
Suécia teme a agressividade de Moscovo e intensifica rearmamento
Revista Catolicismo, n.º 796, 20
de Abril de 2017
A Suécia, que nutria até há
pouco um pacifismo visceral, agora, diante da agressividade de Putin,
restabeleceu o serviço militar obrigatório. As provocadoras manobras da marinha
e da força aérea russa nas fronteiras do país escandinavo geram grande temor.
Nova lei dispõe o alistamento de 13 000 dos 88 000 jovens nascidos em 1999. O Ministério da Defesa calcula que a partir de 2023 precisará anualmente de 8 000 soldados a mais. Setenta por cento dos suecos declararam-se favoráveis a esse recrutamento.
Nova lei dispõe o alistamento de 13 000 dos 88 000 jovens nascidos em 1999. O Ministério da Defesa calcula que a partir de 2023 precisará anualmente de 8 000 soldados a mais. Setenta por cento dos suecos declararam-se favoráveis a esse recrutamento.
sexta-feira, 14 de abril de 2017
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Porque é que George Soros financia movimentos de esquerda? Entenda.
Alan Ghani, InfoMoney, 26 de Agosto de 2016
O casamento aparentemente contraditório
entre um bilionário capitalista com grupos de esquerda desperta a seguinte
pergunta: como um bilionário capitalista, especulador no mercado financeiro,
decidiu financiar grupos de esquerda? E porquê? Basicamente, porque muitos
movimentos de esquerda não são necessariamente contra o capitalismo de George
Soros, mas contra valores e princípios conservadores, base da Civilização
ocidental, que representam obviamente uma resistência aos anseios globalistas
de Soros e outros grandes capitalistas – tema muito discutido noutros países e
totalmente obscuro no Brasil.
Recentemente, tivemos um facto marcante que
nos ajudaria a entender a realidade do mundo actual e, para variar, passou
despercebido pelos média: o esvaziamento de informações da fundação do
bilionário George Soros, Open Society Foundation, a qual doa milhares de
dólares para organizações de modelo esquerdista (progressista). Até 25 de Agosto, a lista completa dos documentos e das organizações de esquerda financiadas
por Soros estava aqui (fonte primária).
O casamento aparentemente contraditório entre um
bilionário capitalista com grupos de esquerda desperta a seguinte pergunta:
como um bilionário, especulador do mercado financeiro, decidiu financiar grupos
de esquerda? E porquê? Para quem acompanha os textos de Olavo Carvalho (aqui) e Flávio Morgenstern, esse casamento entre os metacapitalistas e as
esquerdas não traz grandes surpresas, pelo contrário, é perfeitamente
compatível com os movimentos progressistas de hoje.
De acordo com o intelectual Flávio
Morgenstern (em óptimo Podcast sobre o tema, no qual resumo parte das ideias abaixo), para
compreender o casamento entre George Soros e grupos de esquerda, é fundamental
entender quais são os objectivos da esquerda hoje e o que é Globalismo,
fenómeno muito debatido no mundo, mas pouco discutido no Brasil.
Segundo Morgenstern, o grande objectivo da
esquerda é um mundo de paz entre as pessoas. Assim, para se alcançar a PAZ, na
lógica esquerdista, seria necessário um Estado forte, além das fronteiras de um
país, capaz de destruir todas as fontes de desigualdades na sociedade, seja ela
racial, sexual ou até de rendimento. Mais do que isso, se tivéssemos um Estado
com controle absoluto sobre a sociedade, acima das forças locais de um país,
não haveria motivos para as nações entrarem em guerra. E é exactamente aí que
entra o Globalismo de George Soros.
Teoria da conspiração? O brilhante filósofo
inglês, Roger Scruton (ver obra Como
ser um Conservador), diz-nos que não. Segundo ele, a União Europeia foi
criada justamente para ser um Estado acima dos governos locais a fim de evitar
mais guerras na Europa. O
ponto chave é que a união entre os povos não ocorreu de maneira espontânea,
popular, de baixo para cima, mas imposta por uma agenda globalista onde as pessoas comuns não
se vêm representadas pelas novas normas e leis impostas para a sociedade pelos
burocratas de Bruxelas. A saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) só
mostrou este descontentamento popular com a agenda globalista.
Se de um lado, a União Europeia é um exemplo
real que nos ajuda a entender o Globalismo; por outro, a relação entre o
financiamento dos globalistas (George Soros) com movimentos de esquerda não
parece ser tão óbvia. Porque a Fundação de George Soros financia ONGs,
«colectivos» e movimentos que defendem ideologias que hoje caracterizam a nova
esquerda (new left): feminismo, ideologia de género, black lives matter, gayzismo, abortismo,
legalização das drogas, livres fronteiras para imigração, desarmamentismo,
descriminalização da pedofilia, etc?
A razão é simples, muitos destes movimentos
de esquerda não são necessariamente contra o capitalismo de George Soros, mas contra valores e princípios conservadores, base
da Civilização ocidental, que representam obviamente uma resistência aos
anseios globalistas das famílias Soros, Rockfeller, Ford, entre outras.
Uma hipótese plausível é que para estes
metacapitalistas, colarem em prática o seu projecto de governo global – novamente,
tema amplamente discutido no primeiro mundo – é necessário enfraquecer qualquer
resistência a esse super governo. Evidentemente que todos os elementos
defendidos pela direita, principalmente pelos conservadores, são uma
resistência ao poder global, tais como a família, a religião judaico-cristã, os
poderes locais, o respeito às tradições, aos costumes e à liberdade individual.
Por exemplo, é muito difícil um governo moldar um comportamento numa sociedade em que os valores são
transmitidos pela família ou pelo convívio social, e não pelo Estado. Na mesma
linha, é quase impossível um governo impor a sua agenda diante de costumes e
tradições tão enraizadas na sociedade. Por outras palavras, estes elementos
conservadores representam uma resistência a qualquer tentativa de CONTROLE de governos sobre a sociedade civil.
Por isso, o que é perfeitamente compreensível
que George Soros, um super capitalista, financie agendas progressistas mundo
afora: os movimentos de esquerda de hoje lutam contra princípios conservadores,
que são elementos d resistência ao projecto globalista de George Soros. Mais do
que isso, muitos destes movimentos progressistas não lutam pelos mais
oprimidos, mas vendem-se como bem-intencionados, politizando problemas de facto
reais, para imporem a sua ideologia sobre a sociedade. Por exemplo, é evidente
que existe machismo em diversas partes do mundo; o problema é politizar o tema
para impor uma ideologia e um CONTROLE sobre a sociedade, transformando todo
o homem num potencial machista e toda a mulher numa potencial vítima. Por
outras palavras, por meio de uma guerra de narrativas, exploram-se
ressentimentos para imporem uma agenda antiliberal e anticonservadora sobre a
sociedade, financiada com o dinheiro de Soros.
Por fim, será que é mera coincidência que uma pessoa adepta da ideologia de género defenda também o desarmamento da sociedade civil, o aborto, o poliamor, ridicularize o cristianismo e admire o Obama? Porque será que é tão previsível saber a opinião dos Gregórios Duviviers e dos cools da Vila Madalena e do Leblon sobre imigração, legalização das drogas, aborto, cotas, etc? Porque será que tantas pessoas pensam em bloco sobre todos estes temas? Não sei. Talvez George Soros saiba a resposta.
Por fim, será que é mera coincidência que uma pessoa adepta da ideologia de género defenda também o desarmamento da sociedade civil, o aborto, o poliamor, ridicularize o cristianismo e admire o Obama? Porque será que é tão previsível saber a opinião dos Gregórios Duviviers e dos cools da Vila Madalena e do Leblon sobre imigração, legalização das drogas, aborto, cotas, etc? Porque será que tantas pessoas pensam em bloco sobre todos estes temas? Não sei. Talvez George Soros saiba a resposta.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
O que defendemos no debate sobre a eutanásia
Isabel Galriça
Neto, Observador, 22 de Fevereiro
de 2017
Na Holanda em 2015 praticou-se uma
eutanásia a cada hora e meia. De pessoas com doença mental, pessoas que não
pediram para morrer, pessoas sem situações de terminalidade, pessoas cansadas
de viver.
Neste debate sobre a legalização da
eutanásia defendemos a inviolabilidade da Vida humana, o respeito pela
Dignidade e pela Liberdade.
Este não é de todo um debate
confessional – como querem fazer crer —, talvez para acentuar um preconceito
subtil de que sendo um debate religioso seria uma coisa retrógrada, um
preconceito que confunde a sociedade laica em que vivemos com uma sociedade
anti-religiosa. O debate, ainda que politizado, é claramente sobre que valores
queremos ter na sociedade moderna para dar resposta ao sofrimento dos mais
vulneráveis.
Defendemos a protecção da vida e a
Dignidade. Entendemos que não é preciso escolher ser morto por outro para ter
Dignidade na morte, aliás ser morto por outra pessoa é provavelmente a forma
menos digna de se morrer. Defendemos a Dignidade enquanto valor intrínseco e
patrimonial inegociável do ser Humano, pelo que para nós, e independentemente
das circunstâncias, não há vidas que valem a pena ser vividas e outras não. É a
vida que deve ter Dignidade, até ao fim, existindo hoje indicações rigorosas e
meios de intervenção claros que não permitem que se prolongue a vida das
pessoas com doenças avançadas e em sofrimento à custa de mais sofrimento com
tratamentos inúteis.
Numa matéria literalmente de vida ou
de morte como esta, com a relevância que a rodeia, não são admissíveis
imprecisões e eufemismos que enviesam o debate, acrescem demagogia e pouco
esclarecem: por exemplo, não se trata de um direito a morrer nem de uma morte
assistida – trata-se sim de criar um pretenso direito a ser morto por outra
pessoa; não se trata de morte digna – mal estaríamos se apenas os homicídios a
pedido definissem a dignidade na morte; e não se trata de abranger apenas
situações de fim de vida, pois no articulado do ante-projecto não são
claramente excluídas outras situações de sofrimento, como situações de
sofrimento existencial e com muito tempo de vida pela frente. Faz-se crer que
serão situações de excepcionalidade, que depois o próprio articulado não
permite de todo garantir.
Defende-se uma certa visão
distorcida da Autonomia, em nosso entender irrealista e incorrecta: a ideia de
que a autonomia é igual a uma autodeterminação absoluta em que o individualismo
se estabelece e se ignoram as consequências do exercício das liberdades no Bem
Comum. Se a autonomia fosse um valor absoluto, não seriam recusados pedidos nem
se reservaria esta opção apenas para situações de fim de vida, e não seriam
médicos a aprovar a decisão, esses sim os verdadeiros decisores que vêem o seu
poder reforçado. A eventual legitimação e aplicação das propostas defendidas
levaria a uma aparente «normalização» do matar a pedido e a uma banalização
daquilo que consideramos um retrocesso na nossa sociedade. O que se iria impor
seria uma visão apoucada do ser humano, que teria consequências perigosas no
Bem comum, pois é isso que acontece quando se fazem leis deste tipo nos poucos
países europeus que as têm, e se permite que sejam mortas milhares de pessoas
por ano – uma eutanásia a cada hora e meia na Holanda em 2015 –, pessoas com
doença mental, pessoas que não pediram para morrer, pessoas sem situações de
terminalidade, pessoas cansadas de viver.
Defendemos uma sociedade moderna, que tem na
protecção da vida o alicerce dos Direitos Humanos, uma sociedade que não
descarta os mais vulneráveis e lhes amplia horizontes. Para nós, o problema do
sofrimento em fim de vida trata-se cuidando e não eliminando aquele que sofre.
Maçonaria francesa proíbe sites «enganosos» pró-vida
«Liberdade — Igualdade — Fraternidade»
ou as «amplas liberdades» maçónicas...
Chiara Bertoglio, Mercatornet, 21 de
Fevereiro de 2017
Uma das citações mais mal atribuídas credibiliza a
Voltaire com uma frase bem formada – que ele nunca escreveu. De qualquer
forma, o pai do Iluminismo francês e dos seus valores, alegadamente proclamou:
«Eu desaprovo o que diz, mas vou defender até à morte o seu direito de
dizê-lo.» (Na verdade, a frase vem da pena de Evelyn Beatrice Hall).
Parece, no entanto, que os
netos de Voltaire estão a desviar-se cada vez mais dos valores fundadores da
sua República e da sua democracia, que são parcialmente resumidos na citação
falsa. Na sua versão actualizada deve ler: «Eu desaprovo o que diz, mas
vou defender até à morte o seu direito de concordar comigo.» Ou então, cala a
boca.
De qualquer forma, é a
mensagem que o Parlamento francês enviou para aqueles que discordam do aborto e
que estão a usar a internet para informar às mulheres que não é o único, e
muito menos a melhor resposta para uma gravidez indesejada. Na última
quinta-feira, a Assembléia Nacional aprovou uma lei contra a «difusão de
informações enganosas» sobre o aborto, um crime punível com pena máxima de dois
anos de prisão e multa de US $ 30.000.
A medida expande o crime
existente de «obstáculo ao aborto» – com o objectivo de impedir que activistas
pró-vida falem às mulheres que entram em clínicas de aborto, ou organizem
manifestações perto de clínicas e hospitais públicos – para incluir sites e «obstáculos
digitais».
Num artigo precedente escrevi
sobre o bagarre que (o
combate que) cerca alguns Web site franceses da
pró-vida. Ocasionalmente semelhantes em aparência aos sites oficiais do
governo que fornecem informações sobre serviços de aborto, estes sites (muito
bem sucedidos) têm o objectivo de ajudar as mulheres que estão a enfrentar uma
gravidez difícil ou inesperada, encorajando-as a escolher a vida para seu bebé.
No último caso, nenhum mal
está a ser feito a ninguém, especialmente porque as pessoas são perfeitamente
livres para silenciar informações indesejáveis com um clique numa janela do
navegador. Nenhum pro-lifer francês aparece sob o seu laptop enquanto está
a navegar na internet para «dificultar» a sua ida para uma clínica de aborto.
Sim, às vezes é muito
difícil encontrar apoio legal para suprimir a liberdade de expressão em França,
uma vez que a famosa liberté ainda está no lema da República. Neste caso, é
preciso encontrar uma maneira oblíqua de obter o mesmo resultado.
Assim, os sites pró-vida
devem ser encerrados não porque os seus conteúdos
diferem da linha oficial sobre
o aborto, mas porque parecem muito semelhantes aos sites oficiais pró-escolha e,
portanto – é mantida – enganam as mulheres e fortalecem-nas a continuar a
gravidez.
A ministra dos Direitos da
Mulher, Laurence Rossignol, declarou:
«Os adversários do controle
da natalidade estão a avançar disfarçados, ocultos atrás de plataformas [web-]
que imitam sites institucionais ou linhas directas aparentemente
oficiais. Os militantes pró-vida, entretanto, permanecerão livres para
expressar a sua hostilidade contra o aborto. Desde que afirmem
sinceramente quem são, o que fazem e o que querem.»
Mas o que isto significa na
prática? De acordo com este relatório, a redacção da lei não é restritiva:
«Tal como está, pode ser
usado para processar aqueles com qualquer «informação» que apresenta o aborto
numa luz desfavorável e empurra as mulheres a não escolher o aborto. A lei
não define quem tem autoridade para julgar se a informação é oficialmente «enganosa».
Isso dependerá dos juízes em princípio e especificamente para a saúde e
funcionários do governo.»
Quem está a enganar as
pessoas neste debate é, pelo menos, aberto a questionar. O site oficial do aborto fala, por exemplo, sobre o aborto cirúrgico como uma
«aspiração do ovo» e afirma que «o aborto não é a remoção de uma vida», como
disse Rossignol na Assembléia Nacional. O site oficial diz que «todos os
estudos sérios» mostram que não há efeitos psicológicos adversos a longo prazo
do aborto, enquanto que o site IVG.NET pró-vida fornece evidências
muito credíveis contra. Isto poderia, sob a lei, levar a queixas e
acusações.
A Alliance Vita, uma rede
pró-vida, denuncia a lei como um perigo para a «liberdade de expressão e de
informação. [...] Não só a objectividade da informação é ameaçada, mas
também qualquer prevenção das pressões que encorajam o aborto, que actualmente
são negadas e ignoradas».
IVG.NET por sua vez não está pronto a recuar. O seu director
M. Phillippe declara que não mudará «o conteúdo dos nossos sites ou a
ajuda que fornecemos às mulheres por telefone, incluindo o convite para
refletir».
Torna saliente que a
tentativa de esmagar sites pró-vida estende-se aos meios de comunicação: nos
oito anos que foram atacados, receberam apenas quatro minutos para colocar o
seu ponto de vista – no canal da TV do Senado Público. Acrescenta:
«Nós, naturalmente, não
exercemos» pressões morais e psicológicas ‘ou’ ameaças ou actos de
intimidação». Mas o propósito desta lei (e a sua consequência) será
permitir que o Planeamento Familiar nos assedie judicialmente sem que possamos retribuir
condignamente por causa da sua impunidade de facto».
O Partido Republicano
(centro-direita), que votou contra, concorda. Pretendem submeter o texto
ao Conselho Constitucional, na esperança de o declararem contrário à
Constituição francesa.
O golpe para a liberdade francesa é
sério. De facto, o alvo maior do crime de «impedimento ao aborto» é
susceptível de limitar dramaticamente os esforços das pessoas cujo único
objectivo é ajudar as mulheres a escolher a vida.
Para citar Voltaire novamente,
«Nós somos pró-escolha, desde que você escolha o que queremos.» (Podemos fazer
mais uma citação falsa Voltaire, não podemos?).
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
Para Prémio Nobel o «aquecimento global é uma nova religião»
![]() |
| Ivar Giaever, Prémio Nobel de Física 1973. |
Luis
Dufaur, IPCO, 15 de Fevereiro de
2017
Ivar Giaever, Prémio
Nobel de Física 1973 renunciou à famosa American
Physical Society (APS) em 13 de Setembro de 2011 como forma de condenar a posição oficial da
associação em favor do «aquecimento global».
Giaever é professor
emérito do Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy, Nova York, e
da Universidade de Oslo.
Em 2007, a APS adoptou
uma declaração oficial segundo a qual as actividades humanas estão a mudar o
clima da Terra.
«As evidências são
incontestáveis: O aquecimento global está ocorrendo», afirmava o documento
repelido pelo Prémio Nobel.
«Se não forem
empreendidas acções mitigadoras provavelmente acontecerão rupturas
significativas nos sistemas físicos e ecológicos da Terra, nos sistemas
sociais, atingindo a segurança e a saúde humana. Precisamos reduzir as emissões
de gases de efeito de estufa a partir de agora», martelava o documento.
Giaever enviou nessa
altura um e-mail para Kate Kirby, chefe da APS, explicando que «ele não podia
cooperar com essa declaração» quando a temperatura global continua
«surpreendentemente estável».
Na APS, explicou o
cientista, pode-se discutir todos os temas científicos, menos um que é
tratado como tabu intocável: «o aquecimento global deve ser tratado como
evidência indiscutível»?
«A
alegação de que a temperatura da Terra passou de 288,0 para 288,8 graus Kelvin
em cerca de 150 anos, se for verdade significa que a temperatura tem
sido surpreendentemente estável, e a saúde humana e a felicidade
melhoraram indiscutivelmente neste período de ‘aquecimento’», acrescentou o
Prémio Nobel.
«Aquecimento global»,
guerra ao desflorestamento, etc.:
dogmas de uma nova religião
Para o Prémio
Nobel, «o aquecimento global tornou-se uma nova religião»«Ouvimos muitas
advertências semelhantes sobre a chuva ácida, há 30 anos e o buraco de ozono há
10 anos ou o desflorestamento», defende ele apontando
profecias catastrofistas que não se verificaram.
«O aquecimento global
tornou-se uma nova religião. Nós frequentemente ouvimos falar do número
de cientistas que o apoiam. Mas o número não é importante:… Só importa saber se
os cientistas estão correctos. E, realmente nós não sabemos no que é que
consiste o efeito real da actividade humana sobre a temperatura global»,
acrescentou.
Giaever é um dos
cientistas mais proeminentes citados no Relatório histórico da Comissão do Meio
Ambiente e Obras Públicas do Senado dos EUA.
Figura entre os 400
«cientistas dissidentes» que denunciaram em manifesto o mito do «aquecimento
global» e que aumentaram para 700.
Giaever também foi um
dos mais de 100 signatários da carta de 30 de Março de 2009 ao presidente
Barack Obama, criticando a sua postura sobre o aquecimento global.
É de se desejar que o
novo presidente americano Donald Trump que mostra sensibilidade para posições
afastadas do utopismo «verde» reconheça agora os méritos de cientistas como
Giaever.
Figura de destaque numa
legião de cientistas objectivos que vêm sendo menosprezados e até punidos pelo
radicalismo ambientalista instalado na administração pública americana.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Eutanásia e o «mito da autonomia»
Diogo Costa
Gonçalves, Observador, 11 de
Fevereiro de 2017
A solidariedade é
sentida como o primeiro e mais expressivo dever de humanidade. Por isso se
rebela a inteligência e o coração contra os muros que se erguem e contra os
mortos que ninguém chora.
Uma só coisa é certa no debate da
eutanásia: está em causa uma fronteira civilizacional. Ultrapassá-la ou
defendê-la, depende da perspectiva.
A questão de fundo é inelutável: a
centralidade da autonomia, como valor antropológico e jurídico.
É em nome da autonomia que se
reclama o direito a decidir quando e em que circunstâncias podemos pôr termo à
própria vida; é em nome da autonomia que se exige a assistência médica nesse
momento singular; é em nome da autonomia que se postula uma leitura
dignificante, altruísta, humanizadora do que até há bem poucos anos era sinal
de barbárie… E é também em nome da autonomia que se condena qualquer visão diferente,
catalogada como intolerante e sem direito de cidadania, porque, justamente,
parece ameaçar a auto-determinação do sujeito.
Sucede, porém, que a autonomia é um
mito: um novo dogma moderno com pouca sustentação na realidade. Não, não somos
autónomos! Não o é o bebé recém-nascido, nem o idoso, nem o doente terminal.
Nem sequer o adulto na plena posse das suas faculdades. Talvez gostássemos de o
ser. Talvez até estivéssemos dispostos a queimar incenso no altar da velha
Aytomatia grega… mas não somos autónomos!
Pelo contrário: o que é próprio da
nossa experiência humana é a contingência, a fragilidade, a necessidade e a
dependência face ao outro. Não há segundo da nossa existência em que não
estejamos nas mãos de alguém.
Essa vulnerabilidade genética que
todos experimentamos, não é aviltante. Pelo contrário: está associada ao que de
mais belo e digno tem a nossa condição humana. Somos tanto mais humanos quanto
mais somos dos outros e para os outros.
No mundo das ideologias, é possível
conceber muitos sujeitos autónomos, mas na realidade da vida – da nossa vida
concreta de todos os dias – é impossível encontrar uma única pessoa que o seja
realmente.
Por isso, a solidariedade é sentida
como um dever: o primeiro e mais expressivo dever de humanidade. Por isso se
rebela a inteligência e o coração contra os muros que se erguem e contra os
mortos que ninguém chora.
Ora, é justamente aqui que reside a
falácia da eutanásia.
Ao reclamar uma plena autonomia para
o sujeito, o que se está a fazer é a negar a solidariedade como um dever
irrenunciável. Quando aquele que depende de mim pode morrer, que obrigação
terei eu de lhe assegurar a vida?
Se a dependência é vista como um
fardo, como uma indignidade, o direito a uma morte rápida e indolor
transforma-se facilmente num dever de morrer dignamente, de não ser pesado, de
não onerar o outro com a minha existência.
Não tenhamos dúvidas: é isto o que está em
debate na eutanásia. O sofrimento do outro – por quem, infelizmente, poucos
realmente se interessam – é apenas um pretexto emocional para a discussão… tudo
mais (menos cuidados paliativos, mais consentimento informado, etc.) são minudências
de uma discussão que só não vê quem não quer.
domingo, 12 de fevereiro de 2017
A inexplicável Vendeia
Helena Matos, Observador, 5
de Fevereiro de 2017
Os dias da «inexplicável Vendeia»,
essa revolta que os revolucionários nunca compreendem e sempre procuraram
esquecer: como pode o povo revoltar-se contra a revolução feita em seu nome?
Uppsala. Malmo. Nordstan. Podiam ser
(e talvez até sejam) nomes de uma qualquer estante Ikea. Mas são também nomes
de locais onde, nos últimos meses, na Suécia têm acontecido crimes muitos deles
de natureza sexual praticados por emigrantes ou refugiados, provenientes de
países maioritariamente muçulmanos. Num dos casos, que envolveu um rapaz, a
polícia viu-se cercada e bateu em retirada deixando a vítima nas mãos dos seus
agressores. Noutro os agressores violaram uma rapariga, filmaram e colocaram online o
filme onde nem faltavam os seus rostos sorridentes.
Quantas notícias temos visto ou lido
sobre estes casos acontecidos na Suécia, um país que víamos como seguro e
tolerante mas onde nos últimos tempos o número de agressões tem aumentado?
Estas agressões acontecidas na Suécia, ou melhor dizendo o silêncio que se
abate sobre elas, é tão mais estranho quanto recentemente o assassínio de uma
jovem na Islândia fez com que pelos jornais desta Europa fora se multiplicassem
as chamadas de atenção sobre o homicídio que chocara o país que não tinha
crimes. Será que os suecos não se têm chocado? Na verdade eles tinham poucos
crimes. Ou será que o facto de os jovens apontados como autores do crime da
Islândia serem gronelandeses tornou muito mais fácil a divulgação dos seus
actos e também dos seus rostos?
Nas últimas décadas as lideranças da
Europa e dos Estados Unidos produziram toneladas de legislação para, diziam,
promover a igualdade, combater a discriminação, todas as formas de fobia e,
obviamente, o machismo e o racismo. Assim que umas leis eram postas em prática logo
outras mais perfeitas as vinham completar. A multiplicação das leis era
acompanhada pela divisão dos crimes em grupos, subgrupos, alíneas… Mas todo
este edifício de leis, comissões e programas foi feito a pensar num modelo em
que o homem, branco, católico, conservador encarnava o papel do machista, do
racista, do reaccionário…
Quando o agressor é outro e
sobretudo quando o agressor vem dos grupos que os libertadores do povo têm como
seus protegidos (e potenciais futuros eleitores) então o que antes tinha de ser
imediatamente denunciado passa a ser prontamente silenciado. E assim ignoram-se
agora as agressões praticadas por refugiados/emigrantes muçulmanos na Suécia
tal como se ignorou durante anos e anos o que estava a acontecer nos bairros
periféricos de França, quer com a radicalização dos muçulmanos, quer com a
violência dos bandos de jovens de que são exemplos os acontecimentos deste ano
em Juvisy (não, não foi notícia por cá) ou as reviravoltas oficiais para que
não sejam conhecidos os números das viaturas incendiadas nas datas festivas
naquele país.
Para que se perceba melhor, em
Juvisy, nos arredores de Paris, um bando armado com paus e sabres tomou conta
de um bairro numa noite de sábado para domingo, em Janeiro deste ano. O que
então ali se viveu foi definido pelas autoridades como «guerrilha urbana». Já
quanto ao número de viaturas incendiadas é preciso ter em conta que queimar
carros se tornou numa espécie de actividade recreativa em França. Revelar os
números das viaturas queimadas na noite da passagem de ano é um clássico do mês
de Janeiro para o governo que em França estiver em funções. Este ano, para
compor os números, o ministro do Interior francês até inventou uma nova
categoria de carros queimados: os queimados por fogo colocado directamente.
Deste modo ficavam de fora aqueles que tinham ardido simplesmente porque
estavam ao lado dos que tinham sido incendiados. Esta nova categorização
permitiu ao ministro deixar de fora 295 carros ardidos e dar graças porque
apenas tinham sido incendiadas 650 viaturas e não 945!
Tal como os camponeses da Vendeia
não viam libertação alguma nas perseguições à Igreja Católica ou na
substituição da monarquia pelos comités revolucionários, também o povo neste
início do século XXI não vê libertação alguma no multiculturalismo. Antes pelo
contrário aquilo que o poder apresenta como sinal de tolerância pode em muitos
casos traduzir-se num pesadelo para as suas vidas. Como o foi, por exemplo,
para os habitantes de Calais, uma cidade portuária francesa de 70 mil
habitantes que chegou a contar com 9 mil refugiados/emigrantes que ali
permaneciam meses ou até anos na esperança de passar para Inglaterra. (Quando a
poeira assentar avaliar-se-á o impacto que as imagens do caos de Calais tiveram
na opção dos britânicos pelo Brexit.)
Mas seja no século XVIII seja no
XXI, os libertadores do povo invariavelmente diabolizam qualquer tentativa de
explicação sobre as consequências na vida do povo de todas aquelas leis
perfeitas, aquelas decisões pioneiras, aqueles voluntarismos precursores. E
finalmente acontece o que tem de acontecer: chegam os dias da «inexplicável
Vendeia», essa revolta que os revolucionários nunca compreendem e sempre
procuraram esquecer: como pode o povo revoltar-se contra uma revolução feita em
seu nome?
Em 2016 e 2017 o povo não pega em
armas como fez em França entre 1793 e 1796. Simplesmente vota. E a cada votação
– Brexit, Trump, referendo na Colômbia… – as élites reagem com a estupefacção
dos clubes de iluminados de Paris perante a revolta dos camponeses da Vendeia.
No śeculo XVIII sabemos como tudo acabou: a revolução triunfou sobre a
«inexplicável Vendeia» (mesmo que à custa de um massacre) para em seguida os
revolucionários começarem a combater entre si.
A grande questão já não é quando
acontecem as novas Vendeias mas sim durante quanto tempo as élites irão tolerar
essas inexplicáveis Vendeias que lhe saem das urnas. Presumo que mais
rapidamente se aniquilarão entre si do que serão capazes de parar para pensar
sobre a origem dessas Vendeias que elas fabricaram com a sua arrogância. Por
aqui e por ali vão chegando vozes que apelam à resistência contras as maiorias
eleitorais…
Nada disto prenuncia algo de bom e
tudo isto já se viu no passado. Para que tudo se assemelhe ainda mais a esse
final do século XVIII nem sequer falta em França a destruição do que era o
melhor dos candidatos, o conservador Fillon. (Há sempre um bom candidato
conservador arredado nestas cavalgadas para o irreparável.)
Ao sair de cena o candidato que
melhor podia evitar uma vitória de Le Pen, os eleitores franceses podem
levar-nos a outra «inexplicável Vendeia». Mas que só é inexplicável para quem
não quis ver nem ouvir.
PS. Os falsos recibos verdes. Os precários. Os falsos precários. Os
verdadeiros precários. Os precários que não sendo precários afinal são
precários…PS, PCP e BE acreditam que a cada novo funcionário público
corresponde um novo voto. Só resta saber a qual dos três caberá o voto do
premiado com a integração na função pública. Dada a óbvia terra de promissão
eleitoral em que está transformada a função pública não hesito em lançar daqui
o que me parece ser o futuro slogan das esquerdas: a cada português tem de
corresponder um posto de trabalho com contrato efectivo na função pública.
A eutanásia e a democracia fugitiva
Germano de Sousa
A Eutanásia é uma questão
civilizacional! Autorizar a morte de um doente ou facilitar o seu suicídio, por
um médico, a pedido daquele, mesmo que por razões ponderosas – chame-se-lhe
Eutanásia, ou o que se quiser – sem uma reflexão de toda a comunidade e sem um
referendo que claramente expresse o seu sentir, desestrutura e atinge a
identidade dessa comunidade. O B.E. com o beneplácito de parlamentares de
outros partidos, atarefa-se na legalização da eutanásia na A.R.. Apesar da
Eutanásia não constar do programa de nenhum dos partidos desses deputados e sem
mandato para isso do povo português, recusam o referendo. Confrontados nos
jornais, alguns deles argumentam, «que a Eutanásia é um assunto que diz
respeito às liberdades fundamentais» e como tal querem legislar sem
ouvir os portugueses! Quem os autoriza a falar em nome destes sem previamente
terem avisado ao que vinham? E o referendo sobre o aborto? A liberdade da
mulher dispor do seu «ventre» não era também uma liberdade fundamental? Estarão
estes parlamentares com receio de auscultarem o povo que os elegeu? Um deles,
há um ano atrás, afirmava mesmo que o objectivo do referendo «é o oposto da
democracia. Uns quantos a imporem a todos as suas próprias opções, regras e
decisões de vida!!» Como se uma decisão sobre a Eutanásia, tomada
apenas no parlamento não configurasse uma minoria a impor a todos
as suas próprias opções e decisões de vida? Que democracia fugitiva é esta que nos
querem impor?
Se houver referendo votarei contra a legalização
da morte. Não o faço por razões religiosas ou teológicas. Faço-o por razões
éticas e deontológicas que para mim sobrelevam qualquer lei ou religião. As
mesmas que me levaram quando Conselheiro do C.N.E.C.V. a subscrever
positivamente o parecer sobre o Testamento Vital ou que, enquanto
Bastonário da O.M., me fizeram opor a qualquer forma de encarniçamento
terapêutico (Distanásia). A ética médica implica a realização de valores que
encarnam os direitos que todos os seres humanos deveriam primordialmente
usufruir. Entre estes está o direito a viver com dignidade. Do princípio ao
fim. Viver o fim com dignidade significa a ausência de sofrimento físico.
Significa também a ausência de sofrimento moral e psíquico, pois a angústia do
doente que sabe estar o fim de vida muito próximo e a solidão que sente (haverá
acto mais solitário que morrer?), torna obrigatório também aqui, que o médico
cumpra o princípio ético de tudo fazer pelo bem-estar e dignidade do seu
doente. Que tem o direito a terapêuticas paliativas que lhe diminuam o sofrimento,
mesmo que contribuam indirectamente para um não prolongar artificial da vida.
Que tem o direito a consentir ou recusar essas terapêuticas. Que tem o direito
a um fim de vida digno e conforme à sua condição de ser humano. Porém, o
respeito por esses direitos, não permite ao médico descurar outro dever ético
fundamental e estruturante da sua profissão. O de jamais atentar contra a vida
do doente mesmo que o faça em nome desses direitos. Eliminar a dor física ou
moral não pode significar eliminar o portador da dor. Ou seja, mesmo invocando
intuitos piedosos o médico não pode jamais praticar a eutanásia. Sob pena de
negar os alicerces da sua profissão e da relação médico-doente! Sob pena de se
negar a si mesmo! O respeito máximo dos médicos pela vida humana é um valor
absoluto que não admite subterfúgios. Assim o impõe o Juramento de Hipócrates
na sua forma clássica e a Declaração de Genebra, na sua última versão de 2006.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Uma sociedade que abdica ou uma sociedade que se dedica?
João Paulo Barbosa de Melo, Observador, 31 de Janeiro de 2017
Temos direito a morrer pacificamente, com o mínimo de dor, e a sociedade
deve proporcionar os meios para isso. Mas teremos o direito de pedir (ou de
exigir) que acabem activamente com a nossa vida?
Ninguém (ou quase ninguém) quer morrer. O que queremos é levar uma vida longa e feliz e todos temos direito a ambicioná-lo! Quando se pensa no final da vida, temos medo. Por muita fé e por muita esperança num depois que tenhamos, a morte, em especial a nossa e a dos nossos, assusta-nos. E a morte em sofrimento físico ainda assusta mais.
Partindo do princípio de que ninguém tem a obrigação de morrer em dor física insuportável, qual deve ser a resposta da sociedade perante a probabilidade de isso acontecer?
Os caminhos são fundamentalmente dois. De um lado, a sociedade pode organizar-se para que cada um tenha o máximo auxílio (médico e não só) para reduzir ao mínimo o sofrimento físico na hora de morrer, mesmo que essa intervenção acabe por ter o efeito colateral de encurtar o tempo de vida. Esta é a resposta de uma sociedade que se preocupa, uma sociedade fraterna. No extremo oposto, a sociedade pode oferecer ao que sofre (ou teme vir a sofrer) um meio para acabar com a sua vida quando entender que é chegada a hora. É a resposta de matriz liberal em que o valor preponderante é o da liberdade do indivíduo: se o suicídio é a escolha daquela pessoa, então temos de respeitar a sua vontade – se a pessoa quer acabar com a sua vida, deve poder fazê-lo e a comunidade não tem nada com isso.
Que caminho colectivo queremos trilhar em Portugal? A resposta a esta questão diz muito sobre a sociedade que queremos ser.
O reflexo humano ancestral perante alguém que se tenta suicidar – normalmente no meio de grande sofrimento emocional, psicológico ou físico – é, e sempre foi, salvar aquela pessoa, fazer o possível por demovê-la, tentar perceber o seu problema e dar a mão. Quantas pessoas conhecemos que quiseram acabar com a vida e que, ajudadas, acabaram por se arrepender e viveram vidas felizes e longas? Se virmos alguém a preparar-se para saltar de uma ponte, se nos cruzarmos com alguém que acabou de ingerir uma dose letal de comprimidos ou que ameaça apontar uma arma à cabeça, o que fazemos? O que achamos que devemos fazer? Deixar andar? Ficarmo-nos por considerar que «se foi isso que esta pessoa decidiu em liberdade, então o problema é dela e não meu»?
Ninguém pode ser obrigado a fazer tratamentos e intervenções que prolonguem artificialmente a vida, aumentando o sofrimento físico às portas da morte. Mas também não é fácil a uma família respeitar a vontade do familiar moribundo e recusar manobras encarniçadas só para tentar mais umas horas de vida. E se essas decisões são difíceis e pouco claras para as famílias, não o são menos para os profissionais de saúde. Os médicos defendem primordialmente a vida e nenhum médico tem o direito de obrigar o seu paciente a viver um pouco mais, se for apenas para morrer em maior sofrimento.
Temos direito a morrer pacificamente, com o mínimo de dor física, e a sociedade tem o dever de proporcionar activamente os meios para isso. Mas teremos o direito de pedir (ou de exigir) que acabem activamente com a nossa vida para acabar com o nosso sofrimento? E será que a sociedade tem o dever de acabar com a vida daqueles que não querem mais viver? Se acharmos que sim, em que condições vamos permiti-lo? Com que cautelas e travões? Para que idades? Com que prazos? Para que casos concretos? Com que hipóteses de voltar atrás se nos arrependermos? Há caminhos que, uma vez abertos, não sabemos até onde nos levam.
O tema é muito fundo e merece uma reflexão séria, feita com tempo, que vá para além dos «soundbites» para a praça pública, que ultrapasse as divisões bons-maus ou esquerda-direita, que se liberte da arengada habitual dos «progressistas» e dos «retrógrados» e, já agora, que a Igreja não seja metida nisto. É uma discussão a que todos somos convocados porque define o que queremos que a nossa sociedade seja: uma sociedade que abdica ou uma sociedade que se dedica?
Professor da Universidade de Coimbra
Eutanásia: Quem é que decide afinal?
Afonso Espregueira, Observador, 1 de Fevereiro de 2017
A eutanásia não é uma escolha do doente, antes é uma decisão da
sociedade, que através da lei define quem pode a ela recorrer, e do corpo
clínico, que decide nos casos concretos se estes estão na lei.
A eutanásia é a última expressão da vontade e liberdade do doente. Numa
situação de sofrimento insuportável e doença incurável, o doente deve poder
decidir pôr fim à sua vida e pedir a morte assistida. É um legítimo exercício
da sua autodeterminação, a derradeira manifestação da sua autonomia.
É nesta simples mas poderosa ideia, que coloca a liberdade como o valor
máximo (mesmo acima da vida), que se baseiam os defensores da eutanásia. Mas
será mesmo assim? Será a eutanásia o exercício derradeiro da liberdade?
Julgo que não. Julgo que, na verdade, não está em causa a liberdade do
doente e que a decisão pela eutanásia, em última análise, não é sua, mas de
terceiros. E, como ninguém pode decidir tirar a vida a outrem, a eutanásia não
é admissível.
É importante notar que a eutanásia será sempre enquadrada numa lei, onde
se definirão as situações em que esta é permitida. Podem ser termos mais ou
menos concretos ou subjectivos, mas será sempre o legislador, em representação
da sociedade, a determinar que casos podem ou não ser sujeitos a eutanásia.
Para além disso, haverá um corpo clínico a ajuizar a situação específica do
doente, decidindo se a lei é aplicável ao seu caso e portanto se o pedido de
eutanásia deve ou não ser respeitado.
Quer isto dizer que certas pessoas que requeiram a eutanásia verão o seu
pedido rejeitado e, poder-se-á dizer, à luz do que foi dito acima, a sua
liberdade coarctada. Alguns doentes (de primeira ou de segunda, depende do
ponto de vista) terão a «morte assistida» como querem; outros não.
Mas se assim é, saímos da esfera da liberdade individual. Afinal, a
eutanásia não é uma escolha do doente, antes é uma decisão da sociedade, que
através da lei define quem pode ou não recorrer à eutanásia, e do corpo
clínico, que decide nos casos concretos se estes estão ou não dentro da lei.
Assim, legalizar a eutanásia trata-se, na verdade, de permitir que a
sociedade, personificada na equipa médica, decida quem vive e quem morre, o que
é extremamente perverso.
A menos, claro, que em nome da coerência, os defensores da eutanásia
argumentem que esta é legítima em qualquer situação, que qualquer pessoa a pode
pedir e que o seu pedido será sempre atendido, independentemente do seu estado
de saúde. Porém, aqui já não estamos no campo dos casos extremos de que tanto
nos falam e que a todos enche de compaixão. Estamos, sim, perante uma apologia
do suicídio. E isso não é de todo admissível.
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Carta de Hilarion a Alis, endossada hoje à Assembleia da República
José Miguel Pinto dos Santos, Observador, 1 de Fevereiro de 2017
Agora que não há dor que não possa ser dominada com
cuidados paliativos adequados, fica a dúvida se o que se pretende não será o
«progresso» para uma sociedade sem piedade para com os mais fracos.
Hialarion era camponês, casado e, tudo indica, bom
pai de família. Provavelmente era natural da região de Oxirrinco, uma cidade do
Médio Egipto. Como falava grego é possível que fosse descendente de colonos
helenos, mas não é certo, porque após três séculos de governo Ptolemaico o
grego era língua franca no Egipto. Podemos supor que não tinha uma vida fácil
porque a certa altura teve de ir trabalhar, por uns tempos, para a longínqua
Alexandria. De lá escreveu, ou pediu a um escrivão que escrevesse, a seguinte
carta para a sua mulher Alis:
[recto] De Hilarion para Alis, sua irmã, saudações
sinceras, e também para os meus caros Berous e Apollonarion. Fica a saber que
ainda estamos neste momento em Alexandria. Não te preocupes se, quando os
outros regressarem, eu permanecer em Alexandria. Te imploro e suplico que cuides
bem do menino. Assim que recebamos o salário te o enviarei. Se deres à luz,
felicidades!, e se for rapaz deixa-o viver. Se for rapariga expõe-na [εκβαλε, literalmente:
deita-a fora]. Disseste [através de] Aphrodisias «Não me esqueças». Como te
poderei esquecer? Peço-te portanto que não te preocupes.
Vigésimo nono ano de César [1 a.C.], Pauni 23
[verso] Entregar a Alis da parte de Hilarion
[Oxyrhynchus Papyrus, 744]
Esta missiva demonstra que Hilarion era um amor de
pessoa: trabalhador esforçado e flexível, ternurento para com a mulher, pai
preocupado pelo filho, que não esquece de enviar saudações para os vizinhos.
Apesar de ser excelente pessoa, Hilarion era um homem do seu tempo: cortês e
prestável para quem lhe é útil, como a mulher que lhe cuida da casa, o filho
que lhe cuidará do futuro, e os vizinhos que lhe asseguram boa vizinhança, mas
implacável para quem não lhe serve para nada, como uma filha que só lhe traria
despesa. Esta era a visão que os homens tinham dos homens antes de serem
influenciados pela doutrina de Cristo: ou instrumentos ou empecilhos do seu
bem-estar, que merecem viver, os primeiros, e que podem ser descartados, ou
morrer, os segundos. Também era esta a visão que a sociedade tinha do Homem, e
que se encontrava espelhada nas leis e costumes um pouco por todo o mundo, na
lei romana e nos códices egípcios, no consuetudinário japonês e na legislação
chinesa, e que permitiam o aborto, o infanticídio, o golpe «de misericórdia», a
exposição de velhos e enfermos, a exterminação dos homens «não-pessoas» ou
«não-humanos» e, em não poucas civilizações, o sacrifício humano.
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