terça-feira, 15 de julho de 2014


A irresponsabilidade,

doença infantil do socialismo


Rui RamosObservador, 8 de Julho de 2014

O PS prefere confrontos ideológicos de fantasia. Assim ignora os problemas. Perante a questão da governação pós-2015, em vez de enfrentar a dificuldade, finge ter infinitas hipóteses à esquerda.

Se há um documento revelador da estranha fase por que está a passar o PS, é a extraordinária entrevista de João Cravinho de sábado passado. Cravinho, antigo ministro de António Guterres, discorre sobre a maré alta do socratismo em 2009, à qual se seguiu o défice de 10,2% em 2010 e o pedido de resgate em 2011. Diz Cravinho: «Em 2009, ano de eleições, houve de facto um eleitoralismo orçamental muitíssimo forte, quer directamente – caso do aumento salarial da função pública e das prestações sociais –, quer indirectamente – é por essa altura que se lançam os grandes projectos, nomeadamente rodoviários».

Um socialista a reconhecer imperfeições a Sócrates? Nada disso. Acrescenta Cravinho: «Espantosamente, não sei como foi possível aprovar [aquela] legislação. E não sei como foi possível ao Presidente da República promulgá-la. Isso para mim é o grande mistério do primeiro mandato de Cavaco: sendo ele especialista na matéria, como é que aceita, por exemplo, que as concessões só comecem a ter efeitos no termo da legislatura 'n' anos à frente?»

Ficamos portanto a saber: a culpa é de Cavaco Silva. O Presidente da República, segundo um antigo dirigente socialista, não deveria ter deixado o PS governar. Mas que teria dito Cravinho em 2009, se o presidente tivesse contestado as opções do PS? E não tem agora nada para dizer sobre o facto de ter sido o PS o responsável dessas opções?

O PS esteve no governo entre 1995 e 2011, com um breve intervalo de faxina entre 2002 e 2005. A economia portuguesa deixou de convergir com a UE, a dívida pública escalou os Himalaias, e acabámos «resgatados». Para o PS, a culpa de tudo isso, quando não é dos bancos, é de Cavaco Silva.

O PS vive num mundo extraordinário. Actualmente, a sua razão de ser é a resistência a um governo «neo-liberal», supostamente empenhado em destruir o Estado social e fazer-nos pagar a dívida. Mas sábado passado, em Cinfães, o primeiro-ministro revelou que «nós hoje temos um nível de despesa social maior do que aquele que tínhamos quando a crise começou». É isto o neo-liberalismo? No Conselho de Estado de sexta-feira, Passos Coelho terá explicado que haverá «mutualização» quando os outros governos europeus entenderem, mas que isso significará ainda mais restrições à governação em Portugal.

O que pensa o PS do recorde de despesa social ou dos condicionalismos de qualquer mutualização (ou reestruturação) da dívida? Não sabemos. O PS prefere confrontos ideológicos de fantasia. É a sua maneira de ignorar os problemas. Perante a questão da governação depois de 2015, no caso de vencer eleições sem maioria absoluta, é a mesma coisa: em vez de enfrentar a dificuldade, finge ter infinitas hipóteses à esquerda. Como se fosse viável governar com o BE ou com o PCP, partidos que negam tudo aquilo em que o PS acredita, da democracia pluralista à integração europeia. Como se o PS não tivesse a história que tem, feita da resistência ao comunismo em 1974-1975 e da colaboração com o FMI em 1983-1985, num ajustamento mais violento do que o actual.

O PS deveria garantir a possibilidade de alternância no governo. Mas este PS – o PS de Seguro, de Costa, de Sócrates –, que escolha nos deixa? É que me parece estar a ler a entrevista de João Cravinho no fim de 2016, depois do novo resgate com que há-de terminar o próximo governo socialista: «Mas vocês não viram a minha entrevista de há dois anos, quando eu culpei o Presidente da República pelo que o PS fez em 2009? Vocês não perceberam que, estando nós nesse estado, não nos podiam deixar regressar ao poder? Os culpados são vocês». E terá toda a razão.





Sem comentários: