segunda-feira, 30 de março de 2015


Assembleia Geral da ONU vota a favor

do chamado «casamento» entre invertidos e fufas


Stefano Gennarini, resumido

Tradução: Julio Severo

Numa reunião do orçamento animada e surpreendentemente cheia na semana passada, os países membros da ONU aprovaram benefícios especiais para qualquer funcionário invertido ou fufa da ONU.

Uma proposta na Assembleia Geral quase reverteu a decisão unilateral do secretário-geral em Junho passado estendendo benefícios de casamento para qualquer funcionário invertido ou fufa da ONU, ainda que o seu país de origem não reconheça o «casamento entre invertidos e fufas».

O Secretário-Geral da ONU com o universalista,
relativista e multiculturalista Sampaio.

O que é surpreendente é que 80 países votaram a favor para permitir tais benefícios. Só 43 países votaram para revogar a decisão executiva, e 70 países cujas leis não estão em coerência com a acção executiva ou se abstiveram do voto (37), não apareceram ou não chegaram a dar um voto (33). Se todos esses países tivessem votado, é provável que a Assembleia Geral tivesse revogado o secretário-geral.

Uma mensagem do secretário-geral defendendo a sua decisão foi lida antes da votação, dizendo que era seu «privilégio e dever» tomar tais decisões. Os Estados Unidos, os países europeus e os países nórdicos tomaram a palavra para repercutir os comentários dele sobre a necessidade de promover a «igualdade.»

Fontes dizem que o resultado da votação não deveria ser visto como uma exibição mundial de apoio aos direitos LGBT, mas como prova da dominação completa dos países ricos que fazem doações no orçamento e nas questões administrativas da ONU. O resultado aumenta a percepção de que os países membros não têm a mesma agenda social dos países ricos que fazem doações e têm menos adesão no sistema.

Até mesmo entre os 80 países que votaram com o secretário-geral, pelo menos metade deles não tem condições de dar benefícios especiais para invertidos e fufas nas suas leis nacionais. O casamento entre um homem e uma mulher permanece como norma na maioria dos países e não mais do que 40 países no mundo inteiro dão benefícios a invertidos e fufas por meio de leis que sancionam o tão chamado «casamento» entre invertidos e fufas ou uniões civis. Até mesmo na Europa poucos países sancionam tais «casamentos» sem qualificação.

As abstenções e ausências são o produto de uma campanha de seis anos realizada pelos Estados Unidos e países europeus para fazer com que os países se abstenham durante as votações envolvendo direitos lésbicos, invertidos, bissexuais e transgêneros (LGBT) na ONU.

Esta não é a primeira vez que a Assembleia Geral dá a sua aprovação oficial a uma decisão do secretário-geral para garantir benefícios de casamento para funcionários invertidos e fufas da ONU.

A resolução de 2004 foi adoptada pela Assembleia Geral depois de uma acção executiva similar do secretário-geral, e limitava o alcance da sua decisão para estender benefícios de casamento para invertidos e fufas. Desta vez a votação foi necessária.

A votação foi um caso que estabeleceu um precedente para futuras acções conjuntas dos países europeus e do secretário-geral para avançar direitos LGBT por meio do sistema da ONU, apesar da falta completa de qualquer mandato em resoluções da ONU. Um precedente foi agora estabelecido para o secretário-geral abertamente desafiar o consenso da Assembleia Geral em questões LGBT.





domingo, 29 de março de 2015


O igualitarismo e a lista VIP

Se a parvoíce do Governo pagasse imposto

Portugal não tinha crise


Helena Matos, Observador, 19 de Março de 2015

Não faço ideia se existe ou não lista VIP no fisco mas se não existe devia existir: o Estado obriga-nos a entregar aos serviços fiscais informações que o mesmo Estado nos garante serem de natureza privada. Logo o mínimo que o mesmo Estado tem de assegurar é que essas informações não serão divulgadas. Ter em conta que as informações de alguns cidadãos poderão ser alvo de um maior interesse é elementar.

Podemos discutir quem está nessa lista, como é ela elaborada, questionar em que medida os dados de quem lá não está ficam bem ou mal protegidos mas a partir do momento em que se garante que determinados dados na posse do Estado são da esfera privada cabe ao Estado garantir que assim permanecem.

Note-se que o crescimento do Estado Social levou a que duas entidades – a máquina fiscal e o Serviço Nacional de Saúde – detenham hoje informações sobre as nossas vidas que a polícia política alguma vez em Portugal almejou conseguir. Fazer uma lista dos nomes mais prováveis de uma divulgação indevida dos seus dados é de um básico bom senso.

Aliás seria interessantíssimo discutirmos as dificuldades e os falsos entraves que o fisco, as polícias, os tribunais, a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, as autarquias… levantam para impedir o acesso às informações que obrigatoriamente têm de ser facultadas. Não talvez por acaso, nesta matéria não há coincidências, assistimos em simultâneo ao proliferar de um jornalismo cada vez mais dependente de fugas de informação.

E em boa parte é disso, da gestão das fugas de informação, que se trata nesta polémica: uma corporação habituada a gerir a divulgação dos dados fiscais de alguns cidadãos ficou muito irritada porque percebeu que essa prática, que é também uma forma de poder, estava a findar e contra-atacou denunciando a existência de uma lista, logo denominada VIP, da qual constam pessoas cujos dados ficais serão objecto de maior protecção perante acessos indevidos. Como não podia deixar de ser a lista VIP tornou-se num problema político em boa parte por erro do Governo.

A forma desatinada (e, na minha opinião, desleal para com os funcionários da administração fiscal) como o Governo está a reagir a esta crise é bem sintomática do complexo de não ser de esquerda misturada com o frenesi deste ser ano de eleições que se apossou do executivo. E executivo algum em Portugal está preparado para ser acusado do pecado capital da desigualdade. É dos livros: mal a palavrinha desigualdade aparece no meio daquilo que pode transformar-se numa polémica logo os acusados de desigualdade tratam de mostrar que são ainda mais igualitários que os outros e, nesses momentos, vale tudo. Até a apologia do igualitarismo.

Hoje é o problema da igualdade perante o fisco, expressão por si mesma anedótica pois a desproporção de poderes entre os cidadãos e a máquina fiscal chegou a níveis tais que os cidadãos que outrora fomos se transformaram em contribuintes constantemente em falta: há sempre uma taxazinha ou um imizinho para pagar. Ou, na falta deles temos essa frota automóvel única no mundo que apenas existe para o fisco português composta por automóveis entretanto passados a sucata mas que na impossibilidade de provarmos não só que já não nos pertencem mas que na verdade já nem existem continuam, fiscalmente falando, a circular e pagando o respectivo IUC.

Mas voltemos à desigualdade: o Estado não pode tratar de forma igual o que é diferente. Existe uma maior probabilidade de que alguém tente aceder aos dados fiscais de Cristiano Ronaldo do que aos de um jogador só conhecido no seu bairro. De igual modo um titular de um cargo político tem por isso mesmo poderes e obrigações diferentes dos demais cidadãos. Estes últimos, por exemplo, não depositam declarações de interesses no Tribunal Constitucional, onde aliás podem ser consultadas por qualquer cidadão. Ou, tendo nós constitucionalmente consagrado o direito à segurança, sabemos que existem cidadãos aos quais o Estado garante uma segurança diferenciada: alguns membros do governo em funções ou antigos presidentes da República têm polícia à porta. Claro que isso é uma desigualdade contudo não é por ser desigualdade que é condenável.

Prosseguindo na senda da desigualdade: quantos de nós não gostaríamos de chegar e estacionar à porta dos edifícios municipais ou ter direito a carro com motorista? Pois é, mas não temos. Não duvidando eu dos abusos que se cometem nestas áreas (particularmente por uns titulares desses cargos que em público abominam o automóvel e nos mandam deslocar de bicicleta!) e defendendo que devia ser muito maior o escrutínio sobre a extensão desses direitos, não contem comigo para fazer a apologia do «acabemos já com estas desigualdades» a que se segue o consensual «isto é uma pouca vergonha» que conduz ao inevitável «têm de rolar cabeças». Às vezes rolam as melhores mas isso para o caso não interessa nada: tem é de se mostrar à turba a cabeça que rolou.

Todos sabem como começa este jogo do combate à desigualdade mas que muitos fazem de conta que não sabem como acaba: oficialmente aquela iníqua desigualdade é dada por extinta. Na prática institui-se nos bastidores uma desigualdade muito maior só que deixa de ser mediaticamente mencionável. No caso da lista VIP que o Governo diz que nunca existiu não é difícil antecipar o que aí vem: as fugas cirúrgicas sobre dados fiscais vão continuar; os cidadãos comuns não ficam mais protegidos pelo desaparecimento da lista VIP; aumenta o poder informal, logo não questionável, de quem gere o que se sabe e de quem.





sexta-feira, 27 de março de 2015


Todos os partidos têm

o seu porteiro de discoteca

e o do PS chama-se José Lello


João Miguel Tavares, Público, 26 de Março de 2015

Todos os partidos têm o seu porteiro de discoteca, e o do PS chama-se José Lello. A sua função é controlar a clientela, actividade que pratica há décadas com muita alegria e evidentes proveitos, recompensando quem se porta bem e dispensando uns carolos a quem se porta mal. Desta vez, a vítima foi Henrique Neto, um dos raríssimos socialistas que não embarcaram na aventura socrática e que nunca se cansaram de avisar quem era o senhor engenheiro técnico e para onde ele estava a conduzir o País.

Confrontado com o anúncio da candidatura de Neto à Presidência da República, José Lello decidiu chamar-lhe o «Beppe Grillo português», o que faz tanto sentido quanto Batatinha acusar Henrique Neto de ser um palhaço. Houve outras reacções destemperadas, como a de Augusto Santos Silva («sempre que os [candidatos] responsáveis se resguardam, os bobos ocupam a cena»), e a do próprio António Costa foi, no mínimo, deselegante, quando comentou a candidatura com um seco «é-me indiferente» — expressão que talvez tenha de engolir num futuro próximo. Mas no campeonato da fancaria política nada bate o camionismo verbal de José Lello, um mestre da traulitada que em 2009 acusou Manuel Alegre de «falta de carácter» por ter avançado para Belém sem o apoio do PS, em 2011 chamou «foleiro» a Cavaco Silva por não ter sido convidado para as cerimónias oficiais do 25 de Abril, e em 2013 afirmou que os portugueses estavam «desesperados por se verem livres» de Passos Coelho, «morto ou vivo».

Atenção: nada tenho contra linguagem colorida, nem contra personagens catitas. O meu problema é mesmo com o irmão Lello e aquilo que ele representa — uma encarnação ululante dos piores defeitos da política portuguesa. Basta ler quatro páginas (30 a 33, para os interessados) do livro Os Privilegiados, de Gustavo Sampaio, para ficarmos esclarecidos sobre o ser Lello.

Ora reparem: o Governo Sócrates teve início em Março de 2005, e nove meses depois o deputado José Lello deixou de exercer o seu mandato em exclusividade, para passar a integrar o conselho consultivo da Capgemini em Portugal, uma consultora especializada em tecnologias de informação.

Durante os seis anos do consulado lello-socrático, a Capgemini firmou 113 contratos por ajuste directo com entidades públicas, no valor de 6,7 milhões de euros, alguns dos quais relacionados com o famoso Simplex.

Ao mesmo tempo, o incansável deputado Lello exercia ainda o cargo de membro não executivo do conselho de administração da Domingos da Silva Teixeira (DST), uma empresa de construção e engenharia com negócios na área das energias renováveis, águas e saneamento. Enquanto Lello foi administrador da DST, celebraram-se 62 contratos por ajuste directo com entidades públicas, num total superior a 71 milhões de euros. Um único contrato com a Parque Escolar, em Maio de 2009, rendeu quase 25 milhões. José Lello foi consultor da Capgemini entre Setembro de 2006 e Novembro de 2012 e administrador da DST entre Janeiro de 2007 e Fevereiro de 2012.


O Governo Sócrates caiu em Junho de 2011, e com ele parecem ter caído também — curiosa coincidência — as notáveis capacidades administrativas de José Lello, um homem cujo talento insiste em manifestar-se apenas na órbita do Estado socialista.

E é este pobre Lello que vem agora chamar Beppe Grillo a Henrique Neto, que enriqueceu no privado, tomou posições corajosas e tem um pensamento estruturado sobre o País. Caro porteiro Lello: não dá para gerir a clientela com a boca fechada?





quinta-feira, 26 de março de 2015


Lembram-se da Crimeia?


Kirsty Hayes, Embaixadora do Reino Unido em Portugal,

Público, 19 de Março de 2015

A nossa posição é firme – a anexação da Crimeia é inaceitável e continuaremos a defender os nossos valores através das sanções que penalizam os responsáveis por retirar a Crimeia à Ucrânia.

Há um ano, o Kremlin ajudou a encenar um «referendo» ilegítimo e ilegal na Crimeia, que culminou com a anexação deste território pela Rússia à Ucrânia, redesenhando o mapa da Europa, pela força, agravando a crise no Leste da Ucrânia.

O chamado referendo, preparado à pressa em apenas duas semanas, serviu apenas para ridicularizar a democracia. Não esteve presente um único observador internacional independente. Em vez disso, tropas russas de elite (os «homenzinhos de verde», como os habitantes locais lhes chamaram) impuseram a vontade do Presidente Putin. Não devemos ter ilusões sobre a origem destes combatentes. O seu equipamento, sotaque e treino, provam que eram russos, ainda que não usassem qualquer insígnia.

No período que antecedeu o chamado referendo, as estações ucranianas de televisão terrestre foram encerradas na Crimeia; e quem levantou a voz contra a ocupação militar russa foi alvo de ameaças e intimidação. Desde então, várias pessoas desapareceram e outras foram encontradas mortas, uma delas com sinais de tortura.

Tudo isto foi feito sob a alegação infundada dos dirigentes russos de que os direitos dos falantes de russo na Crimeia estariam sob ameaça de Kiev. Este estratagema cínico não tem, nem teve, qualquer credibilidade. Na verdade, Vladimir Putin admitiu na semana passada, numa entrevista, ter planeado a anexação da Crimeia antes do pseudo-referendo ter tido lugar. Nessa altura, ele dizia à comunidade internacional que não se colocava a hipótese de anexar a Crimeia, e negava a presença de tropas russas. Sabemos que nunca houve qualquer ameaça aos falantes de russo na Crimeia ou em qualquer outra parte da Ucrânia. Pouco antes da anexação, o alto comissário para as Minorias Nacionais da OSCE afirmou não haver «provas de qualquer violência ou ameaças».

Na realidade, os relatórios elaborados pela ONU, pelo Alto Comissariado para os Direitos Humanos e pelo comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, deixaram claro que só após a ocupação russa é que os direitos humanos passaram a estar ameaçados na Crimeia. Os efeitos têm sido especialmente sentidos pelas minorias étnicas, tais como a comunidade tártara da Crimeia.

É vital que não se minimize o significado da anexação da Crimeia. As acções agressivas por parte da Rússia naquela zona e em Donbas não são uma ameaça apenas para a Ucrânia, mas para o resto da Europa. Ao anexar um território da Ucrânia, ao violar a sua integridade territorial e ao destabilizar o Leste da Ucrânia através do fornecimento constante de tropas e armamento, a Rússia desafiou a ordem democrática do século XXI fazendo tábua rasa das regras de direito internacional.

Essas acções constituem uma violação flagrante de uma série de compromissos internacionais assumidos pela Rússia, entre os quais a Carta das Nações Unidas, a Acta Final de Helsínquia da OSCE e o Tratado de Divisão sobre estatuto e condições da frota do Mar Negro de 1997, com a Ucrânia. É por tudo isto que a Rússia está isolada no Conselho de Segurança e na comunidade internacional e é essencial que todos os Estados-membros da UE estejam à altura da ameaça que as acções da Rússia representam para os nossos valores partilhados e para a nossa segurança comum. O Reino Unido regozija-se pelo apoio de Portugal neste contexto, condenando inequivocamente a violação da integridade territorial da Ucrânia e rejeitando a atitude de continuada confrontação por parte da Rússia. Valorizamos em especial a contribuição de Portugal para o controlo da segurança naquela região, integrando os seus aviões F-16 na missão de policiamento aéreo da NATO no Báltico.

Entendemos que nenhum país, qualquer que seja a sua dimensão, pode ignorar as normas internacionais sem sofrer consequências. Não podemos aceitar a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia como uma nova realidade. Os factos provam que este foi um acto ilegal, a Crimeia continua ocupada e os seus cidadãos estão mais vulneráveis e sofrem as consequências da intolerância russa. A triste realidade é que, se a Rússia não tivesse ocupado a Crimeia há um ano, e forçado o seu povo sob a ameaça das armas, as pessoas na Crimeia poderiam hoje gerir os seus negócios pacificamente, como tinham feito nos últimos 23 anos, sem a intimidação, as dificuldades e o perigo físico resultantes da anexação ilegal pela Rússia.

Há uma saída para esta situação. A Rússia ainda pode retirar as suas tropas da Crimeia e do Leste da Ucrânia, respeitar os seus compromissos ao abrigo dos acordos de Minsk e deixar o povo ucraniano gerir o seu próprio país. Mas, até que isso aconteça, não vamos ignorar o que aconteceu na Crimeia. A nossa posição é firme – a anexação da Crimeia é inaceitável e continuaremos a defender os nossos valores através das sanções que penalizam os responsáveis por retirar a Crimeia à Ucrânia.





terça-feira, 24 de março de 2015


Socialismo utópico e socialismo científico


Paulo Tunhas, Observador 2015.03.19

As crenças absurdas afectam, ou ameaçam afectar, as nossas vidas, como as de Vasco Lourenço e Varoufakis, e aí é que a porca torce o rabo. Sobretudo quando as querem impor contra a vontade da maioria.

O socialismo, à boa e velha maneira, continua, apesar de tudo, na moda em vários lugares do mundo. E o que não faltam são teóricos esclarecidos para nos demonstrarem a sua urgência. Um deles é Vasco Lourenço, que sonha com uma aliança do PS com o PC, o Bloco de Esquerda e outros partidos fora do «arco da governação», que nos conduza a uma libertação da «mesquinhez» da actual política europeia, como confessou ao Público. «Um estrondoso murro na mesa», como ele diz, é o que é preciso.

Maçonaria utópica
ou maçonaria «cientítica» (calculista)? 

Estas declarações foram feitas por ocasião de um congresso na Gulbenkian, significativamente intitulado «Congresso da Cidadania. Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática». Um tão vasto projecto requeria certamente um tão longo título. A revolução precisa de uma rampa de lançamento com a extensão devida, e é até duvidoso que a coisa possa ir para a frente sem um seminário permanente consagrado ao tema. De qualquer maneira, faz-se o que se pode, e Vasco Lourenço, presidente da «Associação 25 de Abril», não se poupou a esforços no texto de apresentação do congresso. Não faltam considerações sobre Portugal se ter tornado um «Estado vassalo» da burocracia de Bruxelas nem sobre a óbvia solução para o «estado a que chegámos»: «uma prática correcta dos valores de Abril» (para esclarecimentos detalhados sobre a «prática correcta», destinados a evitar riscos de práticas incorrectas de valores, contactar o presidente da Associação).

A mim, o que me despertou curiosidade na prosa foi, confesso, a «utopia». No texto de Vasco Lourenço, a palavra aparece, além do título, em duas passagens. Na primeira, a utopia – «uma nova utopia» – viria dar aos portugueses «razões para a esperança num futuro melhor». Na segunda, oferece-se, na medida do possível, um conteúdo concreto para a utopia: «a construção da sociedade de Abril». Desconto o facto de, na prosa do autor, a tal «nova utopia» ser, afinal, uma utopia velha. O que é curioso é o próprio recurso à utopia. É como se esta exigência de socialismo (a palavra não aparece, é verdade, no texto) adoptasse (sem grande consciência disso, quase de certeza) um perfume pré-marxista capaz de comover as multidões e, ao mesmo tempo, permitindo uma oportuna vagueza sobre o que viria depois do «estrondoso murro na mesa». Aposto que não viria nada de muito bom, até porque, bem vistas as coisas, a mesa somos nós, os cidadãos eleitores, não suficientemente esclarecidos em matéria de práticas correctas.

Mas não é muito crível que os desejos utópicos de Vasco Lourenço se venham a realizar a breve prazo. Afinal de tudo, Portugal é uma democracia. Ele que siga o exemplo de um dos mais divertidos utopistas de todos os tempos, Charles Fourier, que esperou pontualmente, durante dez anos, ao meio-dia, nos jardins do Palais Royal, o benemérito que lhe financiaria a construção da Harmonia. Os jardins da Gulbenkian não são tão lindos como o Palais Royal, mas são lindos à mesma e servem muito bem. Pode ser que tenha sorte. Ou então, se as suas finanças andarem particularmente boas, que faça como Robert Owen, que emprestava quantidades extraordinárias de dinheiro ao Duque de Kent (o pai da futura Rainha Vitória) na esperança de que este o pudesse ajudar a transformar a sociedade. Mas com prudência, que as pessoas nesta matéria não são de confiança. Se lhe faltar energia para qualquer destas duas soluções, que poupariam em princípio um estrondoso murro na cabeça dos portugueses, há estímulos possíveis. O jovem Henri de Saint-Simon, por exemplo, fazia-se acordar diariamente pelo seu criado de quarto ao som de «Levante-se, monsieur le Comte! Lembre-se que tem grandes feitos a realizar!». Porque não tentar algo assim?

Quem não precisa desses estímulos, porque a si próprio os administra em doses abundantes, é o nosso já imprescindível Yanis Varoufakis, que além de tudo beneficia do «amor» do estremoso Jean-Claude Juncker (porque carga d'água nos caiu este homem em cima? – razão tinha Cameron). Mas aqui não se trata de um retorno a um perfume utópico pré-marxista. Trata-se antes de uma espécie de ciência pós-marxista. Num texto que o Guardian publicou, e que reproduz uma conferência feita em Zagreb em 2013, Varoufakis expõe as razões pelas quais se tornou um «marxista errático». O epíteto «errático» não merece grande curiosidade, a não ser pela fantástica auto-condescendência e garridice narcísica que revela, até porque em muito pouco tempo nos habituamos a ouvi-lo dizer uma coisa e o seu contrário, a pedir desculpa pelo que fez e a declarar que o que fez não o fez. Mas a história das suas ideias em relação a Marx é explicada com um detalhe que mostra o seu desprezo pelo sábio conselho de alguém (esqueci quem) que notava que o género «História das minhas ideias filosóficas» deveria ser reservado a quem tivesse tido ideias filosóficas.

Os pontos em que Varoufakis discorda de Marx são um lugar-comum da crítica ao marxismo desde tempos imemoriais e os aspectos em que diz ser-lhe fiel são erros ainda mais antigos. A única novidade – relativa, de resto – consiste na adopção de um tom desenvolto e pretensamente cândido que visa antes de mais mostrar as altas dimensões da sua inteligência e que é em parte copiado de Zizek. Por exemplo, Varoufakis não se limita a criticar, numa coisa ou noutra, Marx. Tem de declarar que os erros de Marx o tornam «terrivelmente furioso» com o velho Karl. Se existisse uma máquina do tempo e Varoufakis fosse transportado para a biblioteca do British Museum por volta de 1850, Marx de certeza que era obrigado a fugir. E não só por medo, mas também por não conseguir trabalhar, com o outro sempre a falar.

Um outro exemplo da garridice do nosso autor. Varoufakis declara que bem gostaria de avançar com um programa radical: «abolir o capitalismo europeu, desmantelar a horrível eurozona e sabotar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros da bancarrota». Mas, desejando do fundo do coração o crepúsculo do capitalismo, não quer avançar imediatamente nessa direcção. Porquê? Porque se encontrava em Inglaterra no tempo da ascensão de Thatcher ao poder e, à época, acreditou na veracidade da célebre frase de Lenine: «As coisas têm de piorar antes de melhorarem». Thatcher provocaria uma reacção tão violenta que as forças do Bem rapidamente tomariam o controle da situação. E o que viu foi que, ao invés, a esquerda, em vez de se mobilizar eficazmente contra Thatcher, perdeu de forma durável o combate político e ideológico. Por isso, com medo que um programa radical esbarrasse com a vontade da maioria, anestesiada pelo neoliberalismo, e suscitasse mesmo um avanço da extrema-direita, o autodesignado «marxista errático» decidiu que a sua tarefa seria doravante a de «salvar o capitalismo europeu de si mesmo» e de estabilizar a Europa.

Em suma: mais inteligente do que todos, Varoufakis pretende tornar-se o campeão daquilo que pretende destruir. Será necessário, para «estabilizar a Europa hoje», «forjar alianças com as forças reaccionárias». Depois, mais tarde do que cedo, não se percebe muito bem como, virá a revolução. Esta demora é obviamente vivida com a grande «tristeza de abandonar qualquer esperança de substituir o capitalismo no tempo da minha vida».

Receio que a grande ambição de Varoufakis, a de «estabilizar a Europa» através da «aliança com as forças reaccionárias» não esteja a ser muito bem sucedida. Seria Lenine, afinal, a ter razão? Mais cedo ou mais tarde teremos certamente, pela sua pena, alguns esclarecimentos quanto a esta questão. Entretanto, num mundo ideal, seria bom vê-lo num banquinho dos jardins da Gulbenkian ao lado de Vasco Lourenço.

Com a idade, ganha-se respeito para com as coisas em que os outros acreditam e nós não, desde não afectem as nossas vidas. Um dia, há já vários anos, no metro do aeroporto até casa, fiquei fascinado por um casal de velhotes, com ar de camponeses dos arredores do Porto, que liam entretidamente uma revista dedicada às telenovelas que passavam na televisão. Falavam dos personagens como se fossem pessoas reais, como eles próprios, dotadas de uma existência e de uma autenticidade indiscutíveis. De uns gostavam, a outros odiavam. E uma vez, no quiosque onde compro cigarros e jornais, a propósito de uma actriz portuguesa que costumava aparecer muito nas capas das revistas da especialidade, alternando quase semanalmente, para óbvios propósitos publicitários, uma felicidade amorosa absoluta e tragédias igualmente amorosas de fazer chorar as pedrinhas da calçada, querendo fazer conversa engraçada, disse ao senhor: «Ela esta semana está feliz». Resposta, muito séria: «E bem merece». Juro que poucas vezes me senti tão ofensivamente estúpido.

O problema é com as crenças absurdas que afectam, ou ameaçam afectar, as nossas vidas, como as de Vasco Lourenço e Varoufakis. Aí é que a porca torce o rabo. Sobretudo quando as querem impor contra a vontade da maioria. Seja com a utopia à força do murro na mesa, seja através das falsas subtilezas «pós-marxistas» e erráticas do outro. Nestes casos, as palavras são sempre poucas para denunciar a impostura.





domingo, 22 de março de 2015


O estado engraçado de António Costa


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 15 de Março de 2015

Uma sondagem «dá» ao PS 36,1% das intenções de voto. Nos tempos em que aquilo era liderado por António José Seguro, homem sem «carisma» nem hipótese de «capitalizar» (desculpem a palavra) o descontentamento das massas, o partido andava no limiar da maioria absoluta. Desde então, leia-se Novembro passado, a tendência constante é de queda. O que aconteceu entretanto?

Aconteceu António Costa, a reserva da nação. Durante meses a fio, políticos, economistas, autoproclamados intelectuais e «personalidades» sortidas alimentaram as expectativas em volta das descomunais capacidades governativas do Dr. Costa, até aí escondidas numa autarquia. Mário Soares garantiu que o homem é a esperança de um povo em sofrimento. Manuel Alegre, tipicamente homérico, rogou-lhe que libertasse Portugal. José Sócrates louvou-lhe a coragem. Em representação da indispensável «cultura», um alegado realizador de cinema jurou que o Dr. Costa concilia a tradição com a modernidade, talvez por causa de umas benesses ao Benfica. Etc.

Só faltava encomendar-lhe a canonização em vida. Antes disso, por azar, o novo cargo do Dr. Costa obrigou-o a mostrar em público a sua verdadeira natureza. Falar em desastre é usar um eufemismo. De cada vez que não consegue evitar tomar uma posição acerca de um assunto, o aclamado secretário-geral expõe-se espectacularmente ao ridículo. Ele é a aproximação à extrema-esquerda enquanto tenta convencer o eleitorado do centro. Ele é o entusiasmo com o Syriza enquanto arrisca gravitas europeia. Ele é a retórica da «consciência social» enquanto taxa os carros dos pobres e mal remediados. Ele é o resgate do entulho, perdão, do orgulho socialista enquanto admite ao ouvido de chineses que o socialismo espatifou a economia. Ele é, em suma, a dificuldade em parecer uma alternativa quando de facto não é nada, excepto um desnorte exagerado até para os padrões do partido, da classe política e do país.

Em quatro ou cinco meses, o estado de graça do Dr. Costa transformou-se numa galhofa pegada. Apenas o PS, que o inventou, não se ri. E eu prometo juntar-me ao choro se ele em breve mandar nisto.





sexta-feira, 20 de março de 2015


Saudades do tempo

em que éramos livres e não sabíamos


Helena Matos, Observador, 15 de Março de 2015

Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos.

Tenho saudades do tempo em que chamar filho da puta a um filho da puta era mesmo só dizer o que pensávamos daquele filho da puta e ofendê-lo na medida do verbalmente possível sem cairmos numa polémica sobre os nossos preconceitos acerca do comportamento sexual que esperamos das nossas mães e das mães dos outros e das outras (manda agora o bom senso dizer tudo em dobro ou quiçá em dobra e dobro). Desse tempo em que o simples pronunciar da palavra mãe não nos levava a ser interpelados sobre as «representações eivadas de uma concepção patriarcal» que subsistem nos recônditos do nosso pensamento, recônditos esses em que existem papéis de pai e papéis de mãe diferenciados, que é o mesmo que dizer estereotipados.

Hoje, independentemente do filho da puta continuar a comportar-se como um filho da puta, há que ponderar que as putas são trabalhadoras sexuais, que ao referirmos a mãe de alguém, seja ela trabalhadora sexual ou não, temos de considerar se estamos a falar da mãe biológica ou não biológica ou da mãe companheira da outra mãe e que, para evitar mais quezílias, o melhor será desistir de falar de filhos ou de filhas pois automaticamente incluímos o ser objecto da nossa ira num género (uma sociedade que trocou o sexo pelo género não está de facto boa da moleirinha!) ao qual não sabemos se ele quer pertencer. No fim o nosso filho da puta passará a «pessoa com relação de parentalidade com trabalhadora sexual» mas nós ficamos com a alma livre de escarmento. Para quem tiver dúvidas na matéria aconselho a consulta do Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública, dado à estampa em 2009, e que entre muitas assombrosas coisas manda que se diga «a gerência» em vez de «o gerente» ou «a direcção» em vez de «o director». (No caso, os directores e os gerentes na hora de lhes chamarmos «grandes pessoas com relação de parentalidade com trabalhadoras sexuais» agradecem porque se o director ou a directora têm nome, a direcção é composta ao certo não se sabe por quem e muito menos se percebe quem nela decide o quê.)

Se alguém tem ilusões sobre a possibilidade de escapar entre os pingos da chuva a toda esta doideira é melhor que as perca: no V Plano Nacional para a Igualdade, Género, Cidadania e Não Discriminação (em vigor até 2017) o Governo comprometeu-se a encomendar um estudo para avaliar até que ponto a «linguagem inclusiva» está a ser utilizada na administração pública. (Realmente é melhor que se entretenham na administração pública porque se chegarem à industria dos moldes ainda acabam a proibir as peças macho e fêmea). Naturalmente o estudo dirá que muita coisa ainda está eivada da terminologia anterior à linguagem inclusiva. E um novo guia de linguagem inclusiva e novos estudos sobre a aplicação da linguagem inclusiva se seguirão. Até ao dia, claro, em que os promotores da linguagem inclusiva descobrirem que esta não faz qualquer sentido e passem a defender o seu contrário com idêntico fervor, idênticas avenças e correlativa proliferação de gabinetes de estudos destas rentáveis temáticas. graças às quais em muitas universidades se tem substituído o saber pelo proselitismo.

Na verdade nestas matérias já nada me espanta desde que, meados do ano passado, descobri que os programas e secções de jardinagem muito populares em países como a Inglaterra e a França andavam a ser criticados pela sua terminologia racista e discriminatória – é o problema da mosca negra, das espécies invasoras, as pragas de plantas exóticas… A obsessão com o racismo tem levado a paradoxos tais que no futuro terão de fazer glossários para que se perceba o vocabulário que criámos nesta matéria: assim, depois da igualdade entre as raças passou-se para as etnias, mais as comunidades e agora andamos nos afro isto e aquilo versus os europeus. Resultado: um negro que viva em Portugal há várias gerações ou que nunca tenha posto os pés em África é designado como africano, ao passo que um branco, mesmo que tenha nascido em África e descenda de uma família radicada naquele continente há mais de um século nunca deixa de ser europeu. (Essa foi aliás a lógica que não só levou a que se chamassem retornados aos portugueses que fugiram de África de 1974 a 1976 mas também a que, contra todas as evidências, políticos e jornalistas tenham apresentado essa fuga como um comportamento exclusivo dos brancos).

Boa parte deste nosso linguarejar não faz qualquer sentido. Por exemplo, manda a novilíngua em alguns países ditos mais evoluídos nas questões da multiculturalidade que não se diga Estado Islâmico mas sim Daesh para não ofender os muçulmanos, alteração que faz tanto sentido quanto designar os cruzados por octognos ou paralelipípedos rectângulos na hora de criticar as cruzadas, alegando que usar o termo cruzados pode ofender os cristãos que têm na cruz o seu símbolo sagrado.

Podia fazer quase uma edição completa do Observador com exemplos dos absurdos a que o politicamente correcto nos conduziu. Na linguagem e não só. Todos os dias há uma polémica. Vivemos em frenesi. Anteontem o problema era a publicação por uma editora da revista Vogue de uma foto onde se via uma mulher com ar de pedinte (agora deve dizer-se sem-abrigo mas preparem-se porque daqui a uns meses esta designação agora tão certinha pode tornar-se maldita!) a ler aquela revista de moda acompanhada da legenda: «Paris está cheia de surpresas… há leitores da Vogue até nos sítios mais insuspeitos». Também tivemos o problema das gaffes de Jeremy Clarkson, um muito apreciado apresentador da BBC a quem um murro dado num produtor acabou com uma longa carreira a dizer banalidades que se tornaram blasfémias. O problema como é óbvio não foi o murro mas sim ele obstinar-se em fazer considerandos politicamente incorrectos sobre sexo, culturas, países… De caminho, o Daily Telegraph até fez um levantamento dos 14 filmes mais politicamente incorrectos e, na prática, do James Bond ao Dumbo, tudo é um repositório de racismo e outros ismos.

Não nos bastando a constante supervisão do presente, o próprio passado é revisto. E assim, de Camões a D. Pedro I sem esquecer Inês de Castro ou a padeira de Aljubarrota os protagonistas passam a ser apresentados como bons ou maus (o maniqueísmo está vivo e recomenda-se) em função dos conceitos que o progressismo manda adoptar no presente. Logo D. Afonso Henriques passa a machista e Dona Teresa a feminista. Os próprios clássicos podem ter de ser reescritos. Das Aventuras de Huckleberry Finn aos filmes sobre a vida de Jesus, em que se analisa o papel dos negros e das mulheres nada escapa a esta perspectiva correctora do passado, do presente e do futuro.

Como exclamam alguns venezuelanos emigrados em Espanha quando recordam o seu país antes da revolução bolivariana «Esse era o tempo em que nós éramos felizes e não sabíamos». Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos – pelo menos eu acreditei – que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos e não criarmos as metástases do Comité de Saúde Pública, de Rousseau. Esse era o tempo em que éramos livres e não sabíamos. E eu tenho saudades dele.





quarta-feira, 18 de março de 2015


O desporto da indignação


Paulo Tunhas, Observador, 12 de Março de 2015

Tivesse Passos pisado inadvertidamente os pés do porteiro de São Bento e logo viria Alegre, com aquela mistura de poesia, moral e política que tanto se prejudicam umas às outras, exigir a sua demissão

A seguir ao futebol, o desporto da indignação é certamente o desporto mais noticiado em Portugal. A diferença é que, ao contrário do outro, não é uma paixão que entretenha todos os estratos da sociedade. Os seus verdadeiros admiradores e praticantes encontram-se nos membros da classe política e nas suas várias e diversificadas adjacências, que vão até aos fóruns de discussão da TSF ou das televisões. Uma boa parte da população é-lhe indiferente ou apenas finge interessar-se por ele de tempos a tempos, e isso mais por questão de conversa social do que por outra coisa.

Nos últimos dias o objecto desportivo principal foi Passos Coelho, por causa da história do pagamento em atraso dos impostos e das contribuições para a Segurança Social. Não se contam os artigos de jornal e as opiniões televisivas da sociedade dos amigos da indignação. E, dada a procura, o Expresso até decidiu espertamente publicar um documento forjado indicando uma quantia superior à dívida efectiva que Passos Coelho, como se sabe, entretanto já pagou. Convém contagiar. As paixões são assim, e a indignação é uma paixão.

Por acaso, simpatizo com Passos Coelho, que não conheço pessoalmente. Não foi sempre assim, mas nos últimos anos, com as inevitáveis trapalhadas pelo meio, ele mostrou uma coragem e uma persistência assinaláveis, que revelam força de carácter, e uma urbanidade no trato com os adversários políticos e com a comunicação social que são um alívio quando pensamos em certos exemplos recentes. Essas características são incompatíveis com a personagem que os amigos da indignação, nesta sua nova excitação, andam a querer construir. Admito que os atrasos foram, de um ponto de vista político, mais do que um crime: foram um erro. E que as explicações dadas ao facto padeceram de uma mistura de verosimilhança e de prolixidade confusa. Em geral, basta uma única prova, ou uma única explicação. Quando são precisas muitas, é porque nenhuma delas fala por si. Mas daí a este alarido, o passo é descomunal e indevido. Primeiro, porque as explicações são, como disse, verosímeis. Basta cada um de nós meter a mão na sua consciência para ver. E, em segundo e mais importante lugar, o exagero na importância concedida a esta história, se virmos a coisa com o mínimo de distância, o que o desporto da indignação obviamente não permite, não roça o absurdo: entra largamente dentro dele.

Há em tudo isto, é claro, um aspecto político. A esquerda, como é costume, babou-se de raiva. Os fracos resultados do PS nas sondagens podem explicar alguma coisa. Dados os hábitos comuns, isso nem sequer é grave. E não tenho muitas dúvidas que o PSD, se estivesse na oposição e o primeiro-ministro fosse António Costa (que, parece, tem uma história que se avizinha da de Passos), agiria de forma parecida. O que é interessante é a singular mistura de política e moral nos argumentos dos indignados.

Parece que, como escreveu Manuel Carvalho no Público do dia 8, o caso revela uma «mancha» moral em Passos Coelho. Não discuto a autoridade de Manuel Carvalho, ou de quem quer que seja, para falar em nome da moral. Constato apenas que, quando se começa a falar em nome dela, arriscamo-nos, na maior parte das vezes, a entrar no domínio da subjectividade. E, além disso, executamos um gesto que excede largamente em violência qualquer argumentação política. A coisa piora ainda se, embora pretextando que não, a inculpação moral é politicamente motivada. Era a altura de surgir uma nova versão do «Aviso por causa da moral» de Fernando Pessoa. Aparecem por aí tantos grandes escritores todos os dias que um deles bem que podia meter as mão à obra.

De qualquer maneira, segundo a opinião corrente, há uma «mancha» indelével na alma de Passos. Era uma coisa que acontecia aos heróis da tragédia grega. Por uma escolha com o seu quê de involuntário, punham-se a matar os filhos, ou o pai, e coisas assim (crimes irrisórios se comparados com o de Passos), e quando compreendiam o que tinham feito era tarde demais. De acordo com uma interpretação muito conhecida, isso costumava provocar sentimentos de medo e piedade nos espectadores. Medo por se porem na pele dos personagens e pensarem que o mesmo lhes poderia acontecer a eles (ninguém diga que está bem) e piedade pelo sofrimento alheio.

Passos tem menos sorte. A sua presente desventura não provoca nos desportistas da indignação nem medo nem piedade. Não provoca medo porque nem só por um instante pensam que lhes poderia ter acontecido o mesmo que a ele (pagar com atraso impostos e contribuições para a Segurança Social) e não suscita piedade porque o sofrimento alheio é até apreciado. Numa tragédia portuguesa, ao herói trágico não lhe bastaria o sofrimento ao reconhecer o seu erro: teria de aguentar com os insultos dos espectadores. Seria, é claro, uma péssima tragédia, porque destituída de objectividade e feita para suscitar a subjectividade moralista contaminada de farronca e detestação, contrários aproximativos do medo e da piedade.

Mas o lugar de Passos não é, neste caso, numa tragédia. Não há nenhuma «mancha» moral indelével provocada pelo que fez, contrariamente ao que dizem os indignados. Tivesse feito ele outra coisa, como pisar inadvertidamente os pés do porteiro de São Bento, e logo apareceria na mesma Manuel Alegre, com aquela mistura de poesia, moral e política que tanto se prejudicam umas às outras, exigir a sua demissão. Há casos em que não são as coisas que chamam a indignação, é a indignação que chama as coisas.

O que Passos tem que fazer, se me é permitida uma opinião na matéria, é corrigir politicamente o seu erro com umas poucas palavras acertadas e assertivas, sem mais explicações, dando o assunto por encerrado e deixando os outros a falarem sozinhos. E também lembrar-se que os desportistas da indignação, além de histriónicos, são em bem menor número do que parece. Há muita, muita gente que não confunde as coisas e que crê que, em grosso, o que ele faz no Governo é feito com uma genuína convicção no carácter bem-fundado das suas escolhas. E que, de resto, pensa que não poderia optar caminhos muito diferentes daqueles que escolheu. Uma convicção partilhada por muito boa gente do PS, pelo menos numa das várias versões que este costuma oferecer ao público em geral.





segunda-feira, 16 de março de 2015


Ser homem ou mulher está inscrito no DNA


Luis Jensen com a sua esposa Pilar Escudero

Luis Jensen, médico membro do Instituto das Famílias de Schoenstatt e do Centro de Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Chile, revelou que a homossexualidade «jamais vai permitir o desenvolvimento pleno da satisfação da complementariedade».

No dia 10 de Dezembro deste ano, apresentou-se no Chile um projecto de lei do «Matrimónio Igualitário», que quer modificar a Lei do Matrimónio actual para permitir as uniões homossexuais.

O projecto de lei foi pensado e redigido pelo Movimento de Integração e Libertação Homossexual (Movilh), o mesmo que criou o conto «Nicolau tem dois pais».

Em declarações feitas ao Grupo ACI, Jensen referiu que «se eu acredito que na natureza tudo tem o mesmo valor, então a pessoa desaparece, porque a pessoa é o mais extraordinário, é distinta, é outra entidade diferente do resto das coisas naturais».

«O ser homem e mulher, que são as duas formas de ser pessoa, tem uma razão de ser, um porquê, um para quê, está inscrito no DNA. Se ignorar isso, está ignorando uma coisa que não é electiva, mas constitutiva», afirmou.

Luis Jensen explicou que «a pessoa que realmente necessita move-se para procurar o outro e enriquece-se com o outro. E nessa relação, descobre que o outro também tem necessidades. E para fazê-lo feliz, que é a essência do amor, dá o máximo de si próprio como dom, como presente ao outro. Essa é a dinâmica do amor, a dinâmica do dom, da gratuidade».

Entretanto, advertiu o perito, as relações que se estabelecem hoje «não têm como base a complementariedade».

Jensen sustenta que «estas relações (homossexuais) ficam na reciprocidade: em que eu te dou e tu me dás, que é na verdade um intercâmbio comercial, funcional, estrutural, mas não da natureza da pessoa. Onde está a gratuidade? Já não é a dinâmica do amor mas a dinâmica da organização, do intercâmbio, da comercialização».

Para o médico, a polaridade homem-mulher tem a sua causa na «unidade do homem e da mulher porque são capazes de complementar-se em todos os campos».

«Isso jamais vai acontecer na homossexualidade, por muita imitação que façam, por muita intenção, boa vontade ou amor pessoal que tenham, não acontece. Por isso mesmo, acredito que hoje querem tirar o conceito da complementariedade do vocabulário e ficar com o da reciprocidade».

Para Jensen, actualmente procura-se «reduzir o tema do essencial do ser humano a róis: Há um rol feminino e um rol masculino, um rol paternal e um rol maternal, e já não se responde ao que é a natureza masculina e feminina».

«Tomou-se o mundo social como referência e não o mundo pessoal», criticou, denunciando que agora «os modelos constroem-se na base como se organizou socialmente o homem e não na base do que é o homem».





domingo, 15 de março de 2015


Os Americanos e a Base das Lajes


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

A operação das forças militares americanas na Base Aérea das Lajes há muito que merecia um livro.

Muito resumidamente foi assim:

A apetência dos EUA pelos Açores (e Cabo Verde) recua à Guerra Hispano-Americana, de 1898, que marca o início do imperialismo «yankee» fora do continente Americano, o que nunca mais parou até hoje.

Prolongou-se na I Guerra Mundial, com a ameaça submarina alemã e a visita do futuro presidente Roosevelt (na altura subsecretário de Estado da Marinha), em 1918, e firmou-se na II Guerra Mundial, por causa da ameaça naval alemã – podia ter sido aero-naval caso a Alemanha tivesse intentado e conseguido ocupar aquele arquipélago e também o da Madeira.


Ler mais em:

http://responderachamada.blogspot.pt/2015/02/os-americanos-e-base-das-lajes.html





sábado, 14 de março de 2015


Bispos da Bélgica alertam
sobre mais um crime da maçonaria:

Doentes mentais são o novo objectivo
da lei da eutanásia


Após a ampliação da eutanásia para crianças no ano passado na Bélgica, os bispos belgas elevaram a sua voz de alerta contra o próximo objectivo dos promotores da lei, as pessoas com problemas mentais.

Conforme assinala o jornal italiano Avvenire, na legislatura anterior, um senador estendeu a proposta de lei sobre a extensão da eutanásia para quem sofre de doenças neurodegenerativas.

Os bispos anunciaram que agora o maior temor é que a lei se dirija aos pacientes esquizofrénicos, onde o critério da «intolerância ao sofrimento» que até agora é usado para a sua aplicação, seria substituído pela «perda da capacidade cognitiva».


Ler mais em:

http://moldaraterra.blogspot.pt/2015/03/bispos-da-belgica-alertam-sobre-mais-um.html






sexta-feira, 13 de março de 2015


Há lugar para gente normal na política?


Helena Matos, Observador, 8 de Março de 2015

Que os partidos tenham à sua frente «gente normal» parece-me bem mais tranquilizador do que aqueles momentos em que estão entregues a pessoas que pairam acima das circunstâncias prosaicas da vida.

Conta-se, não sei se com fundamento ou sem ele, que a vida política de Cavaco Silva esteve para acabar quando a sua mulher percebeu que um jornalista andara a fazer perguntas aos operários de uma pequena obra que decorria na casa do então primeiro-ministro. Aquilo a que estamos agora a assistir é à aplicação aos actuais líderes do PSD e do PS do escrutínio dos detalhes do quotidiano a que até agora praticamente só se sujeitara de forma tão sistemática Cavaco Silva.

Enquanto escrevo, as dívidas de Passos Coelho à Segurança Social fazem manchete. Entretanto no blogue Portugal Profundo publica-se uma investigação sobre o local de residência de António Costa em 2013 e 2014. Mais ou menos em simultâneo assistimos também ao ressuscitar dos problemas do apuramento dos montantes de contribuição autárquica pagos por Costa no século passado e a uma onda de indignação com o facto de Passos ter sido alvo de processos de execução fiscal.

Lendo e ouvindo as notícias sobres estes casos (e presumo que nas próximas semanas outros surgirão a um ritmo pendular) deparo com incumprimentos, imprevidência e naturalmente com o reverso do mundo kafkiano constituído pela nossa administração – ou seja aquele volúvel «vamos a um suponhamos» na hora de calcular os montantes de IMI e segurança social e em que mesmo depois de tudo pago parece que continuamos sempre em falta – mas não encontro tentativa alguma de usar em benefício próprio o poder que se deteve ou detém. E aqui chego à dúvida que dá título a este texto: há lugar para gente normal na política? Ou seja, gente com família, flutuações nos rendimentos, documentos mal preenchidos, multas…? Não sei, e é aí que para mim está parte da questão.

Na política, como em tudo, as pessoas com vidas perfeitas causam-me grandes reservas. Em primeiro lugar porque para se ter uma vida perfeita do ponto de vista político é cada vez mais necessário ter sido sempre funcionário público (ou do partido), de preferência com direito a um serviço de secretariado, para culpar pelos eventuais erros e atrasos, e motorista a quem imputar os excessos de velocidade e estacionamentos em locais indevidos. Ora essa vida perfeita é de temer num político: coisas tão corriqueiras quanto o sistema para pagamento das SCUTS ou as inúmeras obrigações fiscais e administrativas a que estão sujeitos empresas e cidadãos só podem ter saído da cabeça de quem está de má fé ou de quem vive no universo protegido e artificial que se sustenta do Estado e a quem tudo parece legítimo na hora de lhe arranjar mais sustento e poder.

Quem vive fora desse casulo estatal confronta-se com os tectos para os recibos verdes, os meandros dos actos únicos, as facturas de que teve de pagar IVA mas que nunca lhe foram pagas, as multas porque não entregou a tempo o anexo X do modelo Z ou trocou o PEC com o PPC, a saber Pagamento Especial por Conta e Pagamento por Conta, duas denominações que só fazem sentido para o seu criador… Caso o político em causa tenha sido empresário a possibilidade de aparecer um papelinho entregue fora de prazo aumenta exponencialmente. A transformação da classe política numa espécie de casta superior dos quadros do universo Estado, quando não numa promoção para quadros partidários, não é alheia a esta quase impossibilidade técnica de quem está fora do casulo passar no escrutínio.

Em segundo lugar a perfeição causa-me dúvidas porque frequentemente não passa de uma ficção e uma ficção criada por quem tem poder para seu próprio benefício. Querem que recorde a perfeição mais que perfeita encarnada por Ricardo Salgado? E o curriculum ganhador de Sócrates? E já esqueceram a bajulação de que estes homens foram alvo por gente que andava de dedo em riste a acusar os outros? Em geral os maiores problemas escondem-se atrás das maiores perfeições. Mais perverso ainda, o problema dos perfeitos é que ao serem descobertas as suas imperfeições, para não lhes chamar outra coisa, continuam a manter contra a evidência dos factos, as suas narrativas perfeitas de vidas perfeitas e de decisões perfeitas. Não é por acaso que ouvir Bava e Ricardo Salgado na AR ou ler as declarações indignadas de Sócrates com a situação fiscal de Passos Coelho nos põe simultaneamente entre o riso e o choro. Afinal já não se trata de mentir ou falar verdade mas sim de manter para lá do razoável uma narrativa de que já sobra apenas aquele patético protagonista.

Que os partidos tenham à sua frente «gente normal» parece-me bem mais tranquilizador do que aqueles momentos em que estão entregues a pessoas que pairam acima das circunstâncias prosaicas da vida. Mas não se pode também subestimar a vulnerabilidade que tal representa face aos corruptos – que imediatamente nivelam tudo pelo seu nível, invariavelmente baixo – e aos radicais. O radicalismo cresce também porque os radicais conseguem alimentar no eleitorado a ideia de que todos, à excepção deles, são corruptos.

Não sei se ainda vamos a tempo mas parece-me essencial que nesta campanha eleitoral que já anda por aí se recupere a normalidade, ou seja, que líderes normais discutam os problemas das pessoas normais. O culto da excepcionalidade arrebata muita gente mas é meio caminho andado para o desastre.