quinta-feira, 12 de março de 2015


Folias do nosso tempo


Vasco Pulido Valente, Público, 8 de Março de 2015

Não admira que neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão.

Basta ligar a televisão para se perceber o estado de indigência intelectual e política a que chegou o País. A informação, que já foi sofrivelmente sensata, embora parcial e sumária, tem hoje o critério editorial do antigo semanário «O Crime» e da imprensa cor-de-rosa e desportiva.

Para começar, os portugueses são presenteados com horas do que antigamente se chamava «casos crapulosos»: a facada, o tiro, o roubo, a violência doméstica, histórias de tribunal, considerações de réus, de testemunhas, de advogados, de «populares», da polícia e de um ou outro comentador de serviço. Depois do «crapuloso» vem o «acidente» e a catástrofe: desastres de avião e de automóvel, incêndios, tempestades de vento ou neve, inundações, tudo o que meta feridos, mortos, miséria e sangue.

Isto ocupa muito mais de metade do noticiário médio. O resto consiste numa pseudo-reportagem desportiva, ou seja, no dia-a-dia do futebol. A televisão não perde um jogo ou um golo que possa  interessar a meia dúzia de fanáticos de um clube qualquer. Segue os treinos. Esclarece sobre o «plantel» da equipa A ou da equipa B, sobre os lesionados, sobre os castigados, sobre os «duvidosos». Entrevista treinadores na véspera e no minuto seguinte aos «clássicos» e não – «clássicos» do campeonato. Jorge Jesus, por exemplo, é seguido com uma persistência e um zelo com que não se segue nenhum ministro, o primeiro-ministro ou Presidente da República (agora tão retirado que o boato da sua prematura morte já corre pela província). E, através de tudo isto, Ronaldo, sempre Ronaldo, infinitamente Ronaldo.

O tempo que sobra (e o jornal da TVI, para só falar nele dura uma hora e meia) vai para festas: festas de cozinha, festas de vinho, festivais da alheira, do presunto e do chouriço, de quando em quando as prodigiosas fabricações do chefe A ou do chefe B e, continuamente, o sabor e o aroma dos tradicionais produtos deste nosso querido Portugal (que não se vendem nos supermercados, nem nas mercearias de Lisboa). Não admira que neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão. Com um esforço sublime consegue concorrer, e colaborar, com os «valores» que regem os noticiários e não pára de nos dar novos motivos de interesse e estima: a barafunda Sócrates, a barafunda BES, os mistérios do «Visa Gold», o velho incumprimento fiscal de Passos Coelho, a prisão de um inspector da polícia, a mentira impenitente e descarada no parlamento e fora dele. Portugal acaba com certeza por se transformar num «filme negro» (anos 40), sem Bogart, nem Bacall. E nós, pachorrentamente, assistimos na nossa cadeira.





quarta-feira, 11 de março de 2015


Da ditadura fiscal à miséria moral


André Azevedo Alves, Observador, 7 de Março de 2015

Mais do que eventuais pecadilhos de políticos, o que é grave é termos um sistema que se assemelha cada vez mais a uma ditadura fiscal em que todos os cidadãos são culpados até prova em contrário

Pedro Passos Coelho, o actual primeiro-ministro, não pagou impostos (eufemisticamente intitulados «contribuições») à Segurança Social entre 1999 e 2004, período em que foi trabalhador independente. Como não tinha nesse período um contracto por conta de outrem como fonte principal de rendimento, estava obrigado a fazê-lo. Entretanto, face à divulgação da notícia, Passos Coelho achou por bem fazer o pagamento, apesar de a tal já não estar legalmente obrigado, por a dívida já ter prescrito.

Na sequência das notícias sobre Passos Coelho, vieram também à tona notícias relativas a alegados incumprimentos passados de António Costa, o actual líder do maior partido da oposição, no que diz respeito à contribuição autárquica e Sisa. António Costa já veio entretanto desmentir as notícias sobre as alegadas irregularidades que, para já, têm merecido muito menos destaque e interesse investigatório por parte dos jornalistas.

Dado a natureza do tema, vale a pena recordar também que, por exemplo, António Vitorino apresentou a sua demissão em 1997, quando era vice-primeiro-ministro, na sequência de uma investigação jornalística que apontava igualmente para alegadas irregularidades de natureza fiscal numa transacção imobiliária. O episódio não impediu que Vitorino chegasse dois anos depois a comissário europeu nem ao desenvolvimento da sua fulgurante carreira de advogado que se seguiu. Aliás, António Vitorino é hoje um dos mais referidos presidenciáveis na área do PS no caso de António Guterres decidir não avançar.

Nesta, como em outras questões, faz sentido que os padrões de exigência aplicados a políticos sejam maiores do que aos cidadãos comuns, mas o problema central neste caso é a dimensão do Estado e a sua voracidade fiscal, que assume com preocupante frequência contornos para-totalitários. Ter um Estado que vive muito acima das possibilidades do país acarreta a imposição de uma carga fiscal muito acima das possibilidades dos contribuintes. A busca incessante do aparelho de Estado por mais recursos implica por sua vez uma brutal e crescente assimetria de poder entre a máquina fiscal e o cidadão comum.

Assim, a Autoridade Tributária (uma designação que em si mesma é já todo um programa…) que impõe prazos e obrigações declaratórias aos cidadãos é a mesma entidade que frequentemente não cumpre prazos e falha nas notificações. Acresce que, por via do alegado «combate à evasão» (o tal que supostamente propiciaria baixas de impostos que ainda ninguém viu), o ónus da prova está hoje cada vez mais invertido, de tal forma que em muitos casos, na prática, é já o cidadão que tem de provar a sua inocência face à máquina fiscal.

Ayn Rand resumiu bem a situação que daqui resulta numa marcante passagem do seu livro Atlas Shrugged:

«’Did you really think we want those laws observed?’ said Dr. Ferris. ‘We want them to be broken. You'd better get it straight that it's not a bunch of boy scouts you're up against… We're after power and we mean it… There's no way to rule innocent men. The only power any government has is the power to crack down on criminals. Well, when there aren't enough criminals one makes them. One declares so many things to be a crime that it becomes impossible for men to live without breaking laws. Who wants a nation of law-abiding citizens? What's there in that for anyone? But just pass the kind of laws that can neither be observed nor enforced or objectively interpreted – and you create a nation of law-breakers – and then you cash in on guilt. Now that's the system, Mr. Rearden, that's the game, and once you understand it, you'll be much easier to deal with.’»

Para quem leu o livro, é impossível não recordar esta passagem quando se assiste, no actual contexto, a nova discussão sobre a criminalização do enriquecimento «ilícito» ou «injustificado». O caminho rumo à total inversão do ónus da prova e o avanço gradual de mecanismos totalitários de controlo e repressão – sempre em nome, claro, da transparência e do combate contra a corrupção – vai assim avançando paulatinamente. Cada novo episódio constitui uma semente adicional para a demagogia e para o populismo e, passo a passo, vamos caminhando até que todos sejamos, por definição, criminosos face ao Estado.

Não sairemos deste perigoso caminho enquanto não percebermos que a verdadeira miséria moral é termos políticos que ao mesmo tempo que aumentam o peso do Estado e o seu poder para interferir nos mais diversos sectores da sociedade se manifestam publicamente preocupados com a corrupção. Uma boa ilustração simbólica deste triste estado de coisas é a recente notícia de que funcionários da Segurança Social alegadamente vendiam a empresas em dificuldades atestados falsos nos quais se assegurava que a sua situação contributiva estava regularizada, de forma a que pudessem cumprir as condições para se apresentarem a concursos públicos ou a fundos europeus.

O mais preocupante no actual contexto não são os eventuais pecadilhos fiscais de Passos Coelho, Costa, Vitorino ou outros políticos. O que é realmente grave é que todos contribuíram, à sua maneira, para construir e manter um sistema que se assemelha cada vez mais a uma ditadura fiscal em que todos os cidadãos são culpados até prova em contrário.


NOTA DA  REDACÇÃO

O autor deste texto é um liberal. Contudo, neste texto, denunciando a prepotência do Estado-vampiro, aproxima-se da defesa do bem comum, o que, na generalidade, não acontece com o liberalismo, outra forma de vampirismo.





terça-feira, 10 de março de 2015


A galeria dos horrores — ou um Salgado ruinoso

, Expresso Diário, 5 de Março de 2015

O problema sempre foi complexo mas a dúvida sempre foi simples: era tudo burro ou era tudo inteligente no BES? Ou seja: houve negligência ou houve intenção no colapso do Banco Espírito Santo?

Chamar-lhe dúvida é uma previdência jurídica. Não é dúvida, é suspeita: o contágio do GES ao BES, isto é, a forma como administradores do BES torpedearam nos últimos meses a «cerca» («ring fencing») que o Banco de Portugal havia colocado separando o banco do Grupo Espírito Santo, foi deliberada? E se sim, por quem?

Sempre foi difícil imaginar que tudo aconteceu por acaso. A ESI já estava falida há muito, o que o Banco de Portugal soube no final de 2013. Mas foi por acaso que a ESFG passou para dentro da Rio Forte a uma valorização de 22 euros por acção (quando valia em bolsa um décimo disso), assim contaminando irremediavelmente esta «holding»? Foi por acaso que se passaram cartas de conforto à Venezuela? Foi por acaso que se usaram praças financeiras no exterior para nos últimos 15 dias clientes do BES financiarem o GES, arriscando sem saber perder tudo? Foi por acaso que a ordem de não colocar mais papel comercial foi desrespeitada?

Embora toda a gente seja inocente até prova em contrário, é preciso ter caído no caldeirão da presunção de inocência em criança para acreditar em tantos acasos. Henrique Granadeiro disse na CPI que a luta de poder no BES foi tratada como «entre um bando de ciganos», mas foi um bando de banqueiros que gerou e distribui tanto prejuízos.

O Banco de Portugal pensará o mesmo. E, para se munir, e porque se sentiu traído por aqueles que deixou (incompreensível e ingenuamente) que permanecessem à frente do BES, encomendou uma auditoria forense.

Palavras são palavras mas «auditoria forense» quer dizer uma só coisa: procuram-se indícios de ilícitos criminais. Esta auditoria da Deloitte, que o Banco de Portugal entregou à Comissão Parlamentar de Inquérito e que já saiu nos jornais (no Negócios em primeira mão e logo depois no Expresso), tem um destino certo: a Procuradoria Geral da República.

Houve crime ou não no BES?

Claro que houve. Burla, fraude, manipulação de contas, falsificação de documentos, é só determinar entre as várias possibilidades.

Mas se houve crime, quem são os criminosos?

Aqui a pergunta muda radicalmente. Porque embora todas as dúvidas apontem para um nome, muitos mais nomes estavam envolvidos no GES e no BES. Os outros não viram? Não souberam? Não fizeram?

Estas são perguntas a responder posteriormente. Para já, temos publicada a auditoria forense ao BES e os indícios são aterradores. Entre as confirmações de muitas notícias publicadas  ao longo dos últimos meses e as novidades agora reveladas, nada é bom e tudo é grave. E tudo é repugnante.

Folheia-se as 45 páginas da auditoria forense e depara-se com uma galeria de horrores de suspeitas de violações de ordens do Banco de Portugal e de indícios de gestao ruinosa.

O BES usou o Panamá, a Suíça e a Líbia para financiar o GES à revelia do Banco de Portugal, contra credores do grupo e clientes do banco. Ricardo Salgado garantiu empréstimos à Venezuela sem que ninguem soubesse – nem sequer a sua própria administração. Houve esquemas «de financiamento fraudulento» através de obrigações nos últimos 15 dias. Havia administradores do BES a movimentar como queriam contas bancárias que supostamente serviam para pagar papel comercial. Suspeita-se que parte do dinheiro foi usado para pagar a alguns credores, favorecendo-os em detrimento de outros e em violação das ordens do supervisor. O BES emprestava dinheiro a acionistas. O Banco de Portugal foi ostensivamente ignorado. Houve administradores do BES que, em conflito de interesses, não respeitavam as regras internas e não enviavam informação para o departamento de controlo e risco. E por aí fora: basta ler as notícias relacionadas pelo Expresso sobre o documento.

Ainda havemos de perceber por que razão o Banco de Portugal confiou tanto em quem aparentemente o desrespeitou ao longo de tantos meses. Não é essa aliás a única dúvida. Como questionou Sílvia Caneco, jornalista do i, «como é que o Banco de Portugal, que continuamente insistiu na necessidade de constituição da conta escrow, com regras muito específicas, não controlou o que nela era feito em tempo real?» Sim, como é que o Banco de Portugal foi tão facilmente enganado em tantas frentes?

Ricardo Salgado está na linha da frente destas dúvidas, que agora serão investigadas enquanto indícios de crime pela Justiça. Até aqui, o caso era ruidoso. Pode substituir a palavra por outra: ruinoso.

A palavra já não está só nos jornais. Hoje, é palavra de auditor. Agora, falta outra: a palavra do juiz.

Chegou a hora.





segunda-feira, 9 de março de 2015


A verdadeira miséria moral


Rui Ramos

A discussão dos lapsos fiscais e contributivos de Passos assenta na ideia de que a política depende apenas da «gestão» da «agenda mediática», isto é, da habilidade de criar e matar «histórias».

Todos sabemos que dentro de duas semanas ninguém se lembrará disto, como ninguém se lembra já de outras histórias iguais. Todos sabemos que não terá influência nas eleições, como outros casos não tiveram no passado. No entanto, neste momento, há que falar de Passos Coelho e dos seus processos fiscais e pagamentos atrasados à Segurança Social, que ele entretanto regularizou, mas não a tempo de evitar mais uma redacção de José Sócrates, desta vez sobre «miséria moral». Examinemos então a miséria e a moral desta história.

A primeira nota significativa é que se trata de uma história muito velha. Desde 2011, quando Passos Coelho disputou o poder a Sócrates, que rumores sobre os seus processos fiscais serpenteiam pela internet. Em 2012, o primeiro-ministro já teria sido questionado por um jornalista sobre eventuais dívidas à Segurança Social. Em qualquer dos casos, trata-se de pequenas quantias, entre 100 e 2500 euros. Por qualquer razão, foi agora que finalmente tudo transbordou da internet para os jornais e as televisões.

Temos aqui uma das mais curiosas dimensões da vida pública portuguesa: aparentemente, a primeira coisa que a eleição de um político provoca em Portugal é uma corrida às fontes contributivas e fiscais, à procura de lapsos e deslizes que o possam embaraçar. O objectivo, numa era em que o que conta é a «imagem», não é fazer justiça, mas «mossa». O ritual está fixado há muito tempo: enquanto o visado não diz nada, exige-se que «explique»; quando se explica, notam-se as «contradicções»; logo que se defende, aqui d´el-rei que está a «vitimizar-se». Não pode ganhar, valendo-lhe apenas a indiferença pública que rapidamente absorve incidentes deste género mal saem das primeiras páginas e da abertura dos noticiários.

A propósito do caso do primeiro-ministro, logo alguém lembrou que também António Costa foi há anos acusado de vários lapsos fiscais (que negou). De facto, só se Passos e Costa não tivessem vivido e trabalhado em Portugal é que nada poderia ser levantado contra eles. Haverá em Portugal algum cidadão que nunca teve dúvidas genuínas acerca do que devia ou não pagar? O nosso regime fiscal e contributivo é tudo menos simples e transparente. Todos temos, a esse respeito, histórias para contar. Em Portugal, o fisco e a segurança social não servem apenas para subtrair uma grande parte dos rendimentos aos cidadãos, mas também para os empurrar para toda a espécie de irregularidades e infracções involuntárias. O fisco e os demais regimes contributivos, pela sua insondável instabilidade e complicação, são uma imensa armadilha. Neste sistema, não é necessário haver evasão fiscal para haver delitos. Aos cidadãos comuns, a máquina causa toda a espécie de incómodos; quando se trata de políticos e figuras públicas, colabora, violando o sigilo, na fabricação de todos os escândalos. Ninguém é perfeito, como disse o primeiro-ministro, mas em Portugal mesmo a perfeição seria apanhada em falta. Talvez por isso, ninguém verdadeiramente espera demissões nestes casos, ao contrário do que acontece em países onde os serviços funcionam regularmente. Acerca da regularidade dos nossos, basta dizer isto: não foi a Segurança Social, que nunca o notificou, mas um jornalista – repito, um jornalista —, quem alertou o primeiro-ministro para a dívida.

Depois de abordado pelo jornalista em 2012, Passos Coelho contactou o Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa. Ter-lhe-á sido dito que a sua situação era «regular», embora pudesse pagar uma quantia de 2 880 euros «voluntariamente» e para «constituir direitos futuros». Não o fez, o que, perante a informação que lhe terá sido dada, era uma opção legítima. Segundo o ministro da Segurança Social, mais de 100 000 outros contribuintes estão na mesma situação.

Mas apesar de a sua situação contributiva ser regular e a dívida estar prescrita, não devia Passos Coelho ter previsto que o pagamento em falta acabaria um dia por ser utilizado contra si? Sim, devia. E essa é, no fundo, a questão: porque é que, até pela dívida ser relativamente pequena, não a liquidou logo em 2012, quando dela tomou conhecimento, de modo a poupar-se às inevitáveis especulações jornalístico-partidárias? Segundo explicou, não quis que, como primeiro-ministro, parecesse estar a «usufruir de algum benefício particular». Não lhe ocorreram outros riscos?

Ao raciocinar desta maneira estamos, porém, a admitir que a política, afinal, depende apenas da «gestão» da «agenda mediática», isto é, da habilidade de criar ou de matar «histórias», independentemente dos factos. E é aqui que está a verdadeira «miséria moral». Porque o som e a fúria que têm sido gastos neste caso não decorrem de um real interesse pela verdade ou de um genuíno cuidado pelo bem público, mas de um desporto político-mediático ao nível da coscuvilhice e voyeurismo das revistas cor-de-rosa. É um jogo sem consequências jurídicas nem outros efeitos que não um reforço do cinismo e da hipocrisia com que toda a gente se permite encarar a política. Ao contrário do que possa parecer, a oligarquia do regime é a primeira interessada nesta espécie de praxe académica. Nada melhor para rebaixar toda a gente e garantir que nunca haverá ninguém, na vida pública, com «autoridade moral» para agitar o sistema. E nada melhor, também, para diluir os autênticos surtos de corrupção e abuso do poder.

Entretanto, todos os partidos da Assembleia da República – repito: todos os partidos, da direita à extrema-esquerda — apresentam propostas para alterar as sanções ou amnistiar as dívidas por não pagamento nas antigas SCUTs. Imagino, perante um zelo tão universal, que o arquivo das dívidas das auto-estradas contenha elementos suficientes para animar a vida política durante vários anos.




domingo, 8 de março de 2015


A minha abordagem à ideologia de género


João Pedro Cabral Valente

Em primeiro lugar quero desde já esclarecer que sou um básico.

Não sou um intelectual, um artista, um filósofo. Digamos que o meu pensamento está ao nível de um chofer de praça médio (sem ofensa aos chofers de praça, bem entendido).

Mas às vezes dá-me para matutar em certas coisas, que hei-de eu fazer?

A última foi aquilo da ideologia do género. Se bem percebi, as crianças nascem sem um sexo predefinido e mais tarde hão-de fazer uma escolha.

Ora isto anda-me cá a queimar os neurónios. Então se o Joãozinho nasce com um pirilau e a Ritinha com um pipi porque raio ele há-de escolher ser uma Ritinha ou vice-versa?

Quando eu andei na Escola, bem sei que já foi há muito tempo, ensinaram-me que o primeiro instinto de qualquer animal, cão, gato, aranha ou homem, é o da conservação da espécie, ou seja: um animal faz tudo para que a espécie sobreviva e se propague. Só depois vem o instinto da conservação do próprio.

Tenho visto naqueles documentários da televisão as mães leoas a atacarem hordas de hienas para salvarem as crias pondo em risco a própria vida. Para elas é mais importante defender a prole do que a elas próprias. E as avezinhas que voam quilómetros e quilómetros para procurarem comida para os filhotes e a defendê-los dos predadores. E o mesmo com todos os animais, pequenos ou grandes. Toda a gente sabe que não é boa ideia chegarmo-nos a uma cria quando a mãe está por perto. Era muito mais fácil e menos perigoso para as mães (e pais em certas espécies) porem-nos no mundo e dizerem: agora desenrascam-se. Mas não, até algumas espécies de salmão vêm do oceano salgado, sobem com enorme esforço rios de água doce para irem desovar onde nasceram. E a seguir morrem. O importante está feito, continuar a espécie!

No meu fraco entendimento, também acho fácil perceber porque é que os machos procuram em primeiro lugar as fêmeas que lhes parecem capazes de gerar melhores crias e as fêmeas entregam-se aos machos mais fortes, mais saudáveis, mais belos ou vistosos e com mais poder. O resultado desse cruzamento vão ser crias com maior probabilidade de sobreviver e vingar na vida. Mais uma vez o instinto da conservação da espécie.

E eu, cá para mim, o ser humano é um bicho, um animal, pronto (sem ofensa). Qual é o homem que não gostava de ter uma Angelina Jolie a jeito? Ou a mulher que virava a cara ao Brad Pitt? Ambos são belos, fortes, poderosos, à partida bons reprodutores. As suas três «crias» biológicas têm todo o potencial para continuarem a espécie humana nas melhores condições.

Bom, voltando ao Joãozinho e à Ritinha. Se os seus atributos sexuais ficam definidos no momento em que foram gerados (aquela coisa dos cromossomas X e Y), por que raio haviam eles de resolver mais tarde que querem ser uma Joãozinha ou um Ritinho? É o instinto de conservação da espécie? Claro que não.

À excepção de casos patológicos raros e complicados, o que acontece é um desvio comportamental, ou seja: uma alteração a esse instinto de conservação da espécie na sua componente reprodutiva que pode ser resultado de grande variedade de razões: pais ou mães excessivamente dominadores ou pelo contrário ausentes ou desinteressados, outros traumas sofridos desde a mais tenra infância, violência doméstica, abandono, aquilo que agora se chama bullying e que no meu tempo se chamava levar pancada dos colegas e ser alvo da chacota da escola (refúgio de relações desiguais de poder), dificuldade de abordagem ao sexo oposto, pressão social de grupos com o mesmo tipo de problemas, no caso de adultos relações heterossexuais fracassadas e traumatizantes, enfim: há um grande número de razões que, à medida que as pessoas crescem, se combinam, adicionam e se misturam com outras vivências e sentimentos, dando origem a esses desvios.

Este assunto veio-me à ideia depois de ter lido um artigo segundo o qual, só na cidade de Paderborn, na Alemanha, um conjunto de pais já tinha passado, no total, 210 dias presos, ou porque não tinham deixado os filhos irem às aulas de educação sexual, ou porque as próprias crianças se recusavam a ir, aulas nas quais entre outras coisas, se ensina a tal «ideologia do género».

Não julguem que sou homofóbico (acho este termo ridículo). Tenho alguns bons amigos e muitos conhecidos que são homossexuais, que estimo como a todos os que não o são. Não os acho culpados de nada. Quando muito serão vítimas.

Mas confesso que me assusta quando, como se não bastasse já a comunicação social, os estados, por meio das escolas, quererem formatar a cabeça das crianças, não só em assuntos tão sensíveis como este, mas também noutros como por exemplo na História ou nas Ciências.

Para mim que, repito, sou básico, a família é o núcleo da sociedade. A família é que deve educar e a escola limitar-se a ensinar. Uma sociedade sã e livre não resulta com certeza daquilo que os governos querem fazer de nós mas antes começa por uma família sã e equilibrada que ama, cuida e acompanha o crescimento e desenvolvimento dos seus filhos.





sexta-feira, 6 de março de 2015


Por que ataca Tsipras Portugal e Espanha?


José Ribeiro e Castro

O tom com que Tsipras atacou Portugal e Espanha, neste fim-de-semana, surpreendeu. As acusações foram, nada mais, nada menos, de que os governos português e espanhol quiseram «derrubar o governo do Syriza» e «levar a Grécia para o abismo». Foi ao ponto de sustentar mesmo, a apimentar o quadro, que Portugal e Espanha formaram um «eixo contra Atenas» (designação sugestiva...) e afirmou não ter dúvidas sobre que se tratava de um plano deliberado e bem urdido: «O plano era – e continua a ser – o de provocar desgaste e derrubar o nosso Governo ou forçar-nos a uma rendição incondicional, antes que o nosso trabalho começasse a dar fruto e antes que o nosso exemplo afectasse outros países.»


A coisa não podia ser mais delirante.

Jamais se ouvira algo assim nas relações entre governos europeus; e, por isso, o ataque causou estranheza, tendo sido logo criticado por terceiros atentos como uma «falha», enquanto Tsipras já aparenta sinais de recuo e surge a falar na necessidade de «diálogo» e de evitar «qualquer má interpretação». Ao mesmo tempo, declara negar a necessidade de criar «inimigos externos», um velho tique dos leninistas, mas deixa a dúvida sobre se isto não será outra velha táctica de mestre Lénine: dois passos em frente, um atrás.

A questão é saber por que motivo Tsipras, um líder político experiente e de sucesso, fez efectivamente aquilo. E fê-lo exactamente na primeira reunião do comité central do Syriza, pós-eleições.

A única explicação objectiva está na proximidade de eleições legislativas em Portugal e Espanha. O Syriza, junto com os seus compadres espanhóis e portugueses, aspira a vitórias do Podemos em Espanha e de uma amálgama de esquerda em Portugal (PS/BE/Livre e mais-não-sei-o-quê-que-por-aí-se-anda-a-formar).

A estratégia é simples: por um lado, alimentar o discurso anti-troika e os sentimentos anti-germânicos; por outro lado, apontar que os governos à direita estão do lado dos «maus» (os alemães) contra os «bons» (os gregos). Tudo envolvido na «heroicidade» dos «guerreiros negociadores gregos» e no glamour de Varoufakis. No fim de tudo, passada a fase dos PIGS e dos PIIGS, sonham vir a entoar, em coro: «O Sul é vermelho!» Talvez até cantando de novo a Internacional.

Que Espanha escapou por um triz à troika, que os programas de ajustamento correram fundamentalmente bem na Irlanda e em Portugal e que só falharam na Grécia porque não cumpriu quase nada – é o que não interessa. Que os «bravos negociadores» gregos tiveram que ceder quase tudo, diante do banho da realidade – é o que importa pôr e manter na sombra. Que os governos Rajoy e Passos Coelho defendem os interesses portugueses e a capitalização dos sacrifícios feitos e não estão ao serviço nem de alemães, nem de gregos – é o que importa desacreditar.

É fundamental que o governo grego arrepie caminho e mostre sentido de responsabilidade. Não vem mal ao mundo que os partidos afins tenham relações interpartidárias e se apoiem mutuamente, isto é, que o Syriza se relacione com o Podemos e o BE, se é assim que gostam. Mas querer transformar o Conselho Europeu num tabuleiro de estratégias e tácticas eleitorais seria uma responsabilidade completa e um caminho suicidário, que se pagariam muito caro. Faria muito mal à própria Grécia e seria mais uma deriva para o desastre de que a Europa não precisa nada.

O lugar para protestar, governo a governo, é pela diplomacia e embaixadores, não por métodos que sejam apelidados de «queixinhas». Passos Coelho fez bem em desmentir o alegado «protesto» em Bruxelas e o respectivo folhetim que se armou. Mas o assunto é sério. E merece ser analisado e tratado com seriedade e determinação nos termos apropriados e com impecável rigor, quer no plano das relações bilaterais, quer no funcionamento multilateral das instituições europeias.

O Conselho Europeu não é um bando de rapazes, de cachecol, bandeiras e autocolantes, entretidos em campanhas eleitorais. É uma instituição de que depende o futuro da Europa e dos cidadãos europeus.





quarta-feira, 4 de março de 2015


O admirável mundo das greves no metro


Pedro Sousa Carvalho, Público, 27 de Fevereiro de 2015

A frequência com que os trabalhadores do sector dos transportes públicos fazem greves tem qualquer coisa de extraordinário. Basta uma breve visita à página de Internet da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) para chegarmos ao admirável mundo das greves. Por exemplo, na agenda desta semana da Fectrans, de segunda a sexta, em todos os dias estão marcadas greves na CP e na Carris ao trabalho extraordinário. Na terça-feira houve ainda a greve no metro de Lisboa e ontem estava agendada uma concentração de activistas do sector ferroviário e uma manifestação nacional de ferroviários. Para hoje estava prevista uma outra greve no metro de Lisboa que entretanto foi desmarcada. Só que, no mesmo dia em que o sindicato do Metropolitano desmarca a greve, agenda mais duas para 16 e 18 de Março.

Convém sempre começar pela sacrossanta frase do «não está aqui em causa o direito à greve». Mas a verdade é que no sector dos transportes estamos a assistir ao que parece ser uma banalização deste direito previsto na Constituição. E esse direito, além de colidir com outros igualmente fundamentais, não nos deve inibir de perguntar, e tentar responder: quem é que ganha com tantas greves? Os trabalhadores? Os sindicatos? As empresas? E as reivindicações são justas tendo em conta aquilo que se passa (e se paga) nas restantes empresas públicas?

Sempre que o metro de Lisboa faz greve os seus 500 mil utentes e os restantes moradores da cidade ficam com o dia virado do avesso. São longas caminhadas, são filas intermináveis de trânsito, é o dinheiro que se gasta nos táxis, nos parquímetros, é o chegar atrasado ao trabalho, etc… Aliás, o Tribunal Arbitral, quando decretou a obrigatoriedade da realização de serviços mínimos para esta sexta-feira, chama a atenção para a colisão do direito da greve nos transportes com outro direito fundamental, também ele reconhecido na Constituição: «As necessidades sociais impreteríveis». E a lei reconhece a actividade de transporte ferroviário de passageiros como uma «necessidade social impreterível». Escreve o Tribunal que quando o metro pára está em causa a «liberdade de circulação das pessoas, tanto considerando o direito de circulação em si mesmo, como relacionando tal direito com o direito à saúde, o direito à educação ou o direito ao trabalho em sentido amplo (já que o exercício destes direitos depende da possibilidade de acesso a um determinado local)».

Isto quer dizer que um direito fundamental que é a greve não deve ser banalizado para não violentar outros direitos dos cidadãos igualmente fundamentais. O relatório e contas da Metro relativo a 2013 (o último disponível) refere que nesse ano houve 14 pré-avisos de greve (sendo que duas foram desconvocadas), o que correspondeu a 30,405 mil horas não trabalhadas por motivo de greve. Em 2014 (dados ainda não oficiais) terão também sido 14 as greves e este ano já se viu que vamos bem encarrilados para chegar a esse número.

Os utentes não são os únicos prejudicados. Quem faz greve também perde um dia de salário. E mesmo aqueles que recebem o salário desse dia de greve através dos sindicatos têm de descontar previamente para um fundo de greve. Com certeza que o objectivo da greve é (ou deveria ser) que os trabalhadores tenham ganhos a prazo; mas a verdade é que as revindicações dos sindicatos já se tornaram tão difusas e tão banais que perdem a eficácia nas negociações. Já só servem para os sindicalistas mostrarem serviço.

Quem se der ao trabalho de ler os avisos e pré-avisos de greve da Metro de Lisboa no site Fectrans percebe que as revindicações vão variando de semana para semana e englobam quase tudo: Defesa dos postos de trabalho; organização do trabalho, «péssimas» condições de trabalho; cumprimento do Acordo de Empresa; defesa do serviço público; horários, folgas, férias, tempo extraordinário não pago, supressão de postos de trabalho, segurança; reposição dos complementos de reforma; aumento «brutal dos preços», redução da frequência de comboios, aumento do tempo de espera; fim dos «roubos» nos salários e nas reformas; luta contra a subconcessão (privatização), etc…

Qual é o incentivo dos patrões para aceitar essas reivindicações? Pouco ou nenhum. Basta olhar para o relatório e contas da Metro de Lisboa e fazer umas contas de merceeiro: a Metro gasta por ano 46 milhões de euros a remunerar os seus 1490 trabalhadores. O que quer dizer que por cada dia de greve poupa qualquer coisa como 110 mil euros em salários. O reverso da medalha é que com as portas fechadas a Metro não vende bilhetes. Contudo, a verdade é que a grande parte das receitas da empresa é rígida: 44 milhões de indemnização compensatória e 38 milhões de receita com a venda de passes (que o utente paga quer haja greve ou não). Assim sobram 37 milhões de euros de receitas com a venda de títulos ocasionais, o que significa que por cada dia de greve a Metro deixa de facturar 104 mil euros.

Resumindo, num dia de greve a empresa poupa 110 mil euros em salários (sem contabilizar as poupanças com electricidade e noutras despesas de funcionamento) e deixa de facturar 104 mil euros. Não há portanto grande incentivo para que a administração faça alguma coisa para que o utente não fique apeado à porta da estação. É perverso que fazer greve possa beneficiar os patrões e prejudicar apenas os utentes. O Governo aprovou ontem o lançamento dos processos de subconcessão da Metro de Lisboa e da Carris a privados. Pode ser que alguma coisa mude.





segunda-feira, 2 de março de 2015


Ver ou não ver


Vasco Pulido Valente, Público, 27 de Novembro de 2015

Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.

Com as nossas preocupações domésticas, não nos sobra o tempo para pensar em coisas muito mais sérias como o expansionismo da Rússia.

Vem na Wikipédia, mas convém repetir, que a Rússia é uma federação de 22 repúblicas, 46 regiões autónomas (como a da Madeira) e nove territórios. Pior ainda, tem 160 etnias diferentes, 100 línguas diferentes, quatro grandes religiões diferentes (a ortodoxa, a islamita, a judaica e a budista) e uma enorme variedade de seitas, que constantemente varia e se multiplica. Tudo isto para uma população relativamente pequena de 140 milhões de habitantes. Qualquer pessoa de senso compreenderá que, segundo um velho hábito do século XVIII, chamamos Rússia a um Império que só pode ser governado autocraticamente e onde a democracia está para sempre condenada.

O autocrata de hoje já não é o czar Nicolau II, nem Lenine, nem Estaline, nem Khruschev, nem Brejnev. É um antigo membro da polícia secreta e, por consequência, um dissimulador, um mentiroso, um torcionário e um assassino, que dá pelo nome de Putin e que preside a uma cleptocracia, largamente caótica, a que só a violência e o seu arbítrio garantem uma vaga coesão e uma aparência de Estado. Além disso, na falta de uma legitimidade dinástica como a dos Romanov, ou ideológica como a URSS, Putin precisa, para se ir aguentando, de invocar a legitimidade imperial, principalmente depois da maior derrota que o Império sofreu desde 1613. O que não seria importante, se depois da implosão do comunismo a Rússia não permanecesse a segunda potência militar do mundo.

E se a Europa não se tivesse desarmado, como desarmou, para pagar o Estado social. A Inglaterra, por exemplo, gasta em defesa menos do que 2 por cento do PIB, no momento em que Putin (de resto, provocado pela França e pela Alemanha) embarcou numa política claramente agressiva e revanchista. A Crimeia foi o primeiro objectivo, como já o fora para Catarina, porque o Império fica fechado ao exterior sem um porto de água quente; e o segundo foi parte da bacia do Donetsk, porque a Crimeia não serve de nada sem uma ligação fácil e segura ao coração do Império. Estaline e Hitler perceberam este ponto essencial. Putin também; e não há a sombra de uma dúvida de que não recuará. Como, tarde ou cedo, vai acabar por querer que as repúblicas bálticas voltem ao seu domínio e que a Ásia Central aceite obedientemente a sua ordem. Os movimentos preliminares da III Guerra Mundial estão em curso: para o Ocidente ver – ou não ver.





sábado, 28 de fevereiro de 2015


Acabou-se o «conto de crianças»


Maria de Fátima Bonifácio

(extractos)

Em poucos dias desmoronou-se aquilo a que Passos Coelho chamou, com toda a propriedade, «um conto de crianças». Não sei porquê, a expressão causou por aí muita indignação e suscitou manifestações de um pudor institucional inusitado: em suma, não era digna de um Estadista. A deslocada sobranceria de Passos não oferecia mistério: era apenas um torpe subterfúgio para ofuscar a cobardia do próprio governo, que como um servo obediente e agradecido sacrificara desnecessariamente Portugal ao diktat da pérfida Alemanha. O Syrisa daria ao Mundo o exemplo de como se arrasa um «tigre de papel». Passos que olhasse e cobrisse a cara de vergonha.

Durante duas semanas, nós todos olhámos, lemos, ouvimos. Ao que assistimos foi a um espectáculo de arrogância provocadora, seguido, no dia 20 de Fevereiro, de uma sumária capitulação. Ninguém a resumiu melhor do que Manolis Glezos, o lendário patriarca do Syrisa: «Rebaptizar a troika de 'instituições', o memorando de entendimento de 'acordo' e os credores de 'parceiros', em nada altera a situação prévia, tal como trocando o nome de carne pelo de peixe.» O venerando eurodeputado pelo Syrisa declarou que as concessões já feitas tinham passado além dos limites, pois que nem se obtivera a «remoção da austeridade», nem «a abolição da troika e respectivas consequências». Dito isto, pediu desculpa ao povo grego por ter contribuído para a sua «ilusão».

(...)

O problema do Syrisa, e da dupla Tsipras/Varoufakis em particular, é que a maioria dos que votaram neles não são revolucionários. Mais de 70% dos gregos pronunciaram-se repetidamente a favor da permanência no Euro, que lhes proporcionou desafogo, benesses e lazer como nunca tinham gozado. Acreditaram no «conto de crianças» com que Tsipras deliberadamente os enganou a fim de conquistar o poder. Fê-lo convencido, talvez, de que na época pós-modernista (e, portanto, pós-marxista), quando a classe operária ou desapareceu ou se aburguesou e o consumismo se converteu na única paixão universal, a revolução teria de ser feita à revelia do «povo», cuja única e provisória utilidade reside nos votos que concede a troco de promessas falsas e até delirantes.

(...)

Varoufakis, depois das provocações e fanfarronadas iniciais, percebeu que se defrontava com outros 17 países que nem se impressionaram com a sua premeditada informalidade, nem se amedrontaram com a sua variegada chantagem, nem estavam dispostos a contemporizar com as extravagantes e exorbitantes exigências de Atenas (...) As exigências mais lunáticas caíram ainda antes do início das negociações, como simplesmente «não pagar» (lembram-se ?), ou no mínimo mais um perdão parcial da dívida, a pura e simples eliminação da troika, o encerramento do programa de resgate em curso sem prévia avaliação e aprovação pelas «Instituições», e o incondicional «empréstimo-ponte», para aliviar o garrote financeiro e dar tempo a que o governo se orientasse.

À segunda reunião do Eurogrupo, no dia 20, tudo caiu por terra, permitindo que Schäuble tranquilizasse por carta o Bundestag: «A Grécia compromete-se a colaborar com a União Europeia, com o Banco Central Europeu e com o FMI», nomeadamente «nas reformas estruturais que promovam o crescimento económico e a criação de emprego.» Mais: a Grécia «Não poderá implementar unilateralmente qualquer medida que ponha em risco as metas orçamentais definidas, a estabilidade financeira do país e a recuperação económica».

(...)

Sobra a triste figura que nisto tudo fez, e continua a fazer, a esquerda radical portuguesa. Com o seu habitual coração de ouro, acusou o governo e a direita de falta de solidariedade para com a Grécia. Mas que razões tínhamos nós para ser «solidários» em vez de simplesmente colaborantes, como fomos, numa solução consensual que viesse a encontrar-se ? (...)

(...)

O que fez a Grécia que justificasse o tratamento especial que exigia ? Quanto à solidariedade que lhe devemos, estamos conversados: em Março de 1985, a Grécia pura e simplesmente vetou a adesão de Portugal à CEE, com receio da concorrência que o nosso País lhe pudesse fazer na repartição dos dinheiros europeus. E apenas retirou o veto quando obteve de Bruxelas um financiamento adicional ao abrigo dos «Programas Integrados do Mediterrâneo», como aliás já reclamara desde o ano anterior. Ou seja: Bruxelas teve, literalmente, de comprar à Grécia a adesão de Portugal !

Mas isto são rancores meus. A esquerda radical, com a vasta generosidade e elevação de espírito que a caracterizam, aclamou, como tanto lhe convinha, a vitória do Syrisa, em que via o prenúncio do seu próprio sucesso. (...)





quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


Afinal a NATO teve razão ao alargar-se

ao Leste da Europa


José Milhazes

Até aqui, alguns (entre eles eu) consideravam ter sido um erro o alargamento da Aliança Atlântica ao Leste da Europa. Hoje há muitos motivos para pensar que foi o melhor que esses países fizeram.

A guerra da Ucrânia e o papel de Moscovo nela levam-nos a tirar pelo menos duas conclusões: os países do Leste da Europa tiveram uma decisão sábia ao aderirem à NATO e Kiev cometeu um erro ao entregar as armas nucleares à Rússia em 1994.

Até aqui, alguns (entre eles eu) consideravam ter sido um erro o alargamento da Aliança Atlântica ao Leste da Europa, pois pensavam não haver razões para recear o ressurgimento do imperialismo russo e soviético. Depois da queda da União Soviética, a Rússia estava numa situação económica, política e social tão degradada, que o mais sensato era esperar que os seus dirigentes se concentrassem na recuperação do seu país.

Mas tal não aconteceu. No lugar de modernizar as infraestruturas do país, utilizando os preços altos dos combustíveis nos mercados internacionais, Vladimir Putin, nos já mais de 15 anos em que se encontra no poder, apenas se pode «gabar» de ter um regime tanto ou mais corrupto do que o do seu antecessor, Boris Ieltsin, e ter organizado bem os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi.

O Kremlin não se cansa de falar da «amizade russo-chinesa», mas não lhe faria mal estudar as causas do milagre económico no país vizinho e aprender algo com ele.

Enveredou pela via tradicional, indo ao encontro dos mais baixos instintos de uma parte significativa da sociedade russa, que confunde o significado dos verbos «respeitar» e «ter medo». Quando os actuais dirigentes exigem que se respeite a Rússia, querem dizer que se deve ter medo dela. «Nós vamos mostrar-lhes…», soa o coro dos «patriotas».

Por isso, não há nada de extraordinário no facto de os antigos países do «campo socialista» se terem apressado a aderir à NATO. Segundo alguns analistas, o único erro da NATO foi não ter aberto as portas à Geórgia, Moldávia e Ucrânia.

Quanto à entrega das armas nucleares pela Ucrânia, Bielorrússia e o Cazaquistão à Rússia, se eles não tivessem feito isso, hoje Moscovo não teria a política que tem em relação a esses países. No caso da Ucrânia, as coisas teriam corrido de outra maneira. No que diz respeito ao Cazaquistão, a actual política externa do Kremlin faz tremer o actual dirigente cazaque, Nussultan Nazarbaiev. E até o Presidente bielorrusso, Alexandre Lukachenko, faz forte equilibrismo para se manter no poder.

Quanto aos que afirmam que a NATO está a cercar a Rússia com bases militares, a querer sufocar (tal como a anaconda na geopolítica clássica) o maior país do mundo, apenas os convidaria a olhar para o mapa e a pensar como será possível conseguir isso, tendo em conta, por exemplo, que a Rússia tem um dos maiores arsenais nucleares do mundo, mísseis balísticos intercontinentais, etc., etc.

E deixo ainda mais uma pergunta: haverá algum louco na Europa ou nos Estados Unidos que tencione conquistar a Rússia, como afirmam alguns dirigentes russos e seus aliados no estrangeiro? Como e para quê se, até agora, o chamado Ocidente tem recebido sem guerras aquilo de que precisa desse país: petróleo, gás e milionários?





terça-feira, 24 de fevereiro de 2015


Não há coincidências?


José António Saraiva

Há pessoas que têm o terrível azar de serem constantemente vítimas de coincidências. Acontecem-lhes coisas na vida que, apesar de acidentais, acabam por lançar sobre elas suspeitas infundadas. O engenheiro José Sócrates é uma dessas pessoas.

Começa logo com o seu título de engenheiro. Por infeliz coincidência, um professor que lhe deu passagem em várias cadeiras do curso de engenharia na Universidade Independente, de nome António José Morais, era seu amigo, tendo ambos participado no polémico processo do aterro da Cova da Beira (em que Morais foi arguido). Se não fosse essa amizade com um dos professores mais influentes, não haveria tantas suspeitas à volta da sua licenciatura. É certo que ainda se deu neste caso outra coincidência chata, que ofereceu argumentos aos seus inimigos: o facto de o diploma ter sido passado a um domingo. Mas isso...

Os mamarrachos da Covilhã que Sócrates assinou constituem outro caso pleno de coincidências. Não está em causa a péssima qualidade arquitectónica dos edifícios, alguns assustadores, até porque Sócrates subscreveu-os mas não foi o seu autor. Como técnico da Câmara, não podia assinar projectos para o seu concelho – pelo que assinava-os para outro. Dava-se, entretanto, a azarada coincidência de um técnico desse outro concelho assinar projectos para a Câmara onde Sócrates trabalhava, sugerindo uma (obviamente inexistente) troca de favores.

Para pôr a sua assinatura nos ditos projectos, também era natural que Sócrates recebesse algum dinheiro, tal como os médicos que passam atestados se fazem pagar. Mas quem poderia provar que esses dinheiritos tivessem alguma relação com a assinatura dos projectos? Quem de boa-fé poderia afastar a hipótese de se tratar, apenas, de uma desagradável coincidência?

No Freeport, José Sócrates também só foi suspeito em virtude de uma sucessão de acasos. Doutro modo, ninguém se lembraria de lhe apontar o dedo.

Um deles foi a aprovação do outlet ter ocorrido nos derradeiros dias de vigência do Governo, quando este já estava em gestão. Outra coincidência aborrecida foi o aparecimento de um tio de Sócrates no caso, sabe-se lá porquê. E, já agora, haver um vídeo onde se falava de luvas para um ministro, que por coincidência era depois referido textualmente na gravação como «Sócrates». E de o montante dessas luvas, ainda segundo o vídeo, ter sido estipulado (num encontro num hotel) por um indivíduo que, por outra irritante coincidência, disse ser primo de Sócrates. Enfim, uma chatice!

A tentativa de compra da TVI pela PT, exactamente quando Sócrates andava a querer afastar Manuela Moura Guedes daquela estação televisiva, foi também um acaso bem aborrecido. Tal como a ida a Espanha, para fechar o negócio, de um quadro da PT chamado Rui Pedro Soares, que mais tarde apareceria ligado a uns negócios onde surgia associado o nome de Sócrates.

E que dizer da diligência feita pelo BCP para fechar o SOL, no período em que este investigava os casos Freeport e Face Oculta? E logo por coincidência quem coordenou a operação pelo lado do BCP foi – imagine-se – Armando Vara, vice-presidente daquele banco e velho amigo de Sócrates.

Outro negócio dessa época cheia de acasos fantásticos foi a venda, pela Portugal Telecom, da rede Vivo, que tinha um enorme valor, e a compra da Oi, que não valia nada. Este negócio teve como padrinho, por infelicidade, José Sócrates – e quem parece ter gostado bastante dele foi o seu amigo Lula, que, por coincidência, apresentaria anos depois em Lisboa o livro de Sócrates sobre a tortura. Outro efeito da venda da Vivo foi ter proporcionado a mais um amigo de Sócrates, Ricardo Salgado, uma autêntica fortuna, numa altura em que, por coincidência, o Grupo Espírito Santo estava a precisar loucamente de dinheiro.

E que dizer da incrível coincidência de Sócrates ter tomado um pequeno-almoço com Luís Figo, no Altis-Belém, nas vésperas das legislativas de 2009, no mesmo dia em que Luís Figo assinou um importante contracto com entidades públicas, que permitiu à sua fundação receber umas centenas de milhares de euros?

Foi também por acaso, como é óbvio, que a Octapharma, um laboratório que mantinha relações com o Estado português, contratou Sócrates depois de este sair do Governo.

Mas coincidência ainda maior, reconheça-se, foi o facto de o seu amigo Carlos Santos Silva ter estreitas ligações ao Grupo Lena – grupo que ganhara muitos concursos públicos no tempo em que Sócrates era primeiro-ministro. A propósito destas ligações, deram-se outros curiosos acasos, como Sócrates ter ido aos Estados Unidos na precisa altura em que lá foi o vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, e – pasme-se – uma delegação do Grupo Lena. E, por coincidência, encontraram-se todos no consulado de Angola em Nova Iorque!

Continuando a falar de acasos desagradáveis, não foi nada bom existir uma conta bancária em nome de Carlos Santos Silva que, por coincidência, só servia para pagar as despesas de Sócrates – fossem as relativas à sua vida corrente, fossem despesas maiores, como a compra de apartamentos ou propriedades (também, por coincidência, onde a família de Sócrates aparecia envolvida).

E como classificar a chatíssima coincidência de Carlos Santos Silva emprestar dinheiro a Sócrates sempre através de envelopes com dinheiro e nunca por transferência bancária, apesar das elevadas quantias envolvidas?

Infelicíssima coincidência foi ainda Carlos Santos Silva ter tentado criar um fundo imobiliário só com casas que se supunha serem de José Sócrates. E neste assunto ainda se verificou outro facto bizarro: Carlos Santos Silva não ter jeito nenhum para a decoração e pedir a Sócrates e à ex-mulher deste, Sofia Fava, que escolhessem diversos acabamentos para o seu andar em Paris. Andar no qual, por coincidência, Sócrates vivera uns tempos.

Mas os azares não se ficaram por aqui.

Nas vésperas de embarcar para Paris, quando já sabia estar na iminência de ser preso, Sócrates almoçou, por coincidência, com o ex-procurador-geral da República, Pinto Monteiro.

E depois, quando Sócrates já estava em Paris e soube que Carlos Santos Silva e o seu motorista João Perna tinham sido detidos, deu-se outro espantoso acaso: uma empregada de limpeza retirou o computador do seu apartamento e levou-o para outro. É difícil acreditar como coincidências destas acontecem. Mas acontecem!

A maior de todas ocorreu, porém, quando Sócrates, ainda primeiro-ministro, fez uma lei para facilitar o regresso de capitais ao país pagando um mínimo de imposto – lei de que ele próprio, perdão, o seu amigo Carlos Santos Silva, viria a beneficiar para trazer 20 milhões para Portugal! Esta foi mesmo uma coincidência… das Arábias!

Foram todas estas coincidências – e mais algumas que se venham a descobrir – que, agitadas por espíritos malévolos, perversos e doentios, lançaram infundadas suspeitas sobre o engenheiro José Sócrates, infernizando-lhe a vida.

A verdade, contudo, há-de vir ao de cima. E os algozes do ex-primeiro-ministro pagarão por isso – como justamente tem ameaçado o Dr. Mário Soares.