segunda-feira, 13 de junho de 2016
Wolfgang Schäuble: o inimigo dos povos
Numa entrevista ao jornal Die Zeit, o arrogante Schäuble dá a sua visão
sobre a Europa do futuro.
Gabriel Robin
Le nom de Wolfgang Schäuble ne dit probablement pas grand-chose au quidam. Pourtant, cet homme, actuel ministre des Finances d’Angela Merkel, est le vrai dirigeant du continent européen. Il s’exprime régulièrement dans les médias, avec un franc-parler typiquement germanique. Impossible d’accuser l’Allemand de s’abriter derrière le jargon techno-administratif propre aux fonctionnaires européens. Wolfgang Schäuble donne bruyamment ses avis sur tous les sujets importants : le Brexit, la Grèce, les « migrants » … Des avis généralement désastreux, contraires aux intérêts des peuples européens, y compris aux intérêts de son peuple.
Dans un entretien donné au journal Die Zeit, l’arrogant Schäuble donne sa vision de l’Europe du futur. Il y déclare notamment, à propos de la crise migratoire qui secoue le continent : «La fermeture des frontières, le repli sur soi, c’est cela qui nous détruira et nous fera dégénérer dans l’inceste.» Ces propos forment une sorte de rhétorique nazie inversée, voulant que l’Allemagne perde son identité ethnoculturelle première en s’abandonnant à un métissage forcé de grande échelle. Wolfgang Schäuble, fondé de pouvoir du grand patronat allemand, tente par tous les moyens de justifier une immigration massive pour laquelle son peuple, et les autres peuples européens, n’ont jamais été invités à s’exprimer.
Il a même rajouté, au nom de son gouvernement : «Pour nous, les musulmans en Allemagne sont un enrichissement de notre ouverture et de notre diversité », louant au passage le rôle des femmes turques dans la vie économique allemande. Précisons que 37,8 % des femmes d’origine turque seraient sans emploi, soit le taux le plus élevé parmi les populations issues de l’immigration en Allemagne.
Dans ce plaidoyer euro-mondialiste, qui ferait croire que le gouvernement allemand planifie le Grand Remplacement de sa population par d’autres populations venues du sud du monde, on ne trouve guère qu’un seul éclair de lucidité dans les déclarations de Wolfgang Schäuble. En effet, le tyran en puissance admet que «l’Afrique sera notre problème» et déclare que, pendant longtemps,«le Moyen-Orient nous a protégés de l’Afrique». C’est exact. La déstabilisation de la Libye, longtemps zone-tampon, par Nicolas Sarkozy et son visiteur du soir, le « philosophe » Bernard-Henri Lévy, a rendu le problème migratoire encore plus complexe qu’il ne l’était jusqu’alors.
Si l’enjeu démographique est le défi du siècle, il ne faudrait néanmoins pas sous-estimer l’autre enjeu posé par la résurgence de l’islam de combat, que Wolfgang Schäuble semble minorer. En témoigne, d’ailleurs, la soumission des autorités allemandes à la Turquie du sultan Erdoğan, qui pratique un ignoble chantage sur l’Europe.
Dans le même ordre d’idées, Wolfgang Schäuble s’est montré menaçant avec le peuple britannique, coupable de vouloir s’émanciper de la tutelle totalitaire de l’Union européenne berlino-bruxelloise. Cet homme est l’ennemi mortel des peuples européens et ne s’en cache pas. Il montre quels sont les deux défis auxquels nous sommes désormais confrontés : refuser la gouvernance extérieure en réaffirmant notre souveraineté nationale, refuser notre effondrement intérieur en luttant contre l’immigration massive qui détruit notre identité. Vive la France historique ! Vive la France libre!
domingo, 12 de junho de 2016
Mouraria ou Chinatown?
Maria João Marques, Observador, 8
de Junho de 2016
Já estamos em boa hora de começar a ver uma
expropriação de propriedade privada como o último recurso de qualquer problema.
E de fazermos t-shirts com o slogan «nem mais um metro quadrado para a CML».
Fernando
Medina – presidente da Câmara de Lisboa em punição por todos os pecados da
capital – é o político socialista exemplar. «Inimigo dos automobilistas e voraz
com os recursos dos lisboetas» seria um bom mote para a sua campanha de 2017.
Fernando Medina – presidente da Câmara de Lisboa em
punição por todos os pecados da capital – é o político socialista exemplar.
«Inimigo dos automobilistas e voraz com os recursos dos lisboetas» seria um bom
mote para a sua campanha de 2017.
Já muita gente escreveu sobre a mesquita que a CML
entendeu por bem tomar as dores de construir e a hipocrisia flagrante de
pretender defender o Estado laico radical, rasgando contratos de associação
livremente estabelecidos pelo Estado para poupar as susceptíveis criancinhas à
exposição ao ópio do povo por um lado, e, por outro, correr a substituir-se à
comunidade islâmica na construção de uma mesquita. E se calhar atrás da
mesquita vem a madrassa e a querida câmara socialista de Lisboa é bem capaz de
decidir – para mostrar como somos tolerantes, multiculturais e essas virtudes
teologais do credo esquerdista – contribuir financeiramente para a catequese
muçulmana dos alunos da mesquita da Mouraria. Depois, claro, de ter protegido
as crianças portuguesas – mesmo as das famílias ignaras que até queriam e
gostavam – da exposição a essa praga maior da vida portuguesa que é o
cristianismo.
Para os argumentos sobre laicidade dirijam-se se
faz favor aos textos de João Miguel Tavares e Sebastião Bugalho. Eu gostava de
acrescentar outro argumento: o Estado devia (como quase sempre) estar quieto.
Ao contrário do que dizem os fãs do projecto – e até João Miguel Tavares – não
faz qualquer sentido construir naquela zona uma mesquita. Porque há vários
séculos aquela zona era habitada por islâmicos devemos agora lá construir uma
mesquita? Porque se abriram lá lojas de proprietários paquistaneses e
bangladechianos temos de lhes oferecer um local de culto? E a população chinesa
da zona, que é pelo menos tão numerosa e visível? Está já em estudo pelos
assessores dilectos de Medina a construção de um templo a Confúcio? Outro a
Mêncio? Foi encomendada alguma estátua da bodhisattva Guanyin?
E que dizer da injustiçada população hindu que
durante muitos anos habitou e trabalhou naquela mesmíssima zona? Nunca dei por
nenhum canto – menos ainda construção de três milhões de euros a expensas do
contribuinte da praxe – evocativo de Shiva. Ou – para ser visualmente ainda
mais apelativo – um altar a Ganesh, o deus elefante. Mas devo estar a ser
injusta: provavelmente foi algum temor de Kali, a destruidora, que impediu os
socialistas lisboetas, tão amantes do culto alheio, de assim ignorarem os
justos anseios religiosos dos muitos hindus que já passaram pela Rua da Palma.
Por várias razões conheço bem a zona de Lisboa onde
se pretende construir a mesquita. Uma delas foi ter morado uns anos um bocado
mais para cima na encosta e mais para o lado. Recuperei uma casa por lá quando
ainda toda a gente me olhava com ar de «já tomaste os comprimidos?» quando lhes
dizia que ia morar para o meio da Lisboa antiga – e, então, muito desmazelada.
Foi uma epopeia. Os vizinhos, uns velhotes
reformados e outros possivelmente recebedores do RSI e permanentemente
desocupados, tinham como entretenimento diário chamarem a polícia municipal
para vasculharem as obras que fazia (isto depois de um tempo longo à espera da
aprovação do projecto de arquitetura e das especialidades e da emissão da
licença de obras). O gabinete técnico claramente via como missão civilizacional
dificultar de formas imaginativas a recuperação de um apartamento. Havia que
defender uma zona com população envelhecida e habitações degradadas da
intromissão de pessoas de vinte anos que lá queriam residir. Que lata (a minha,
obviamente).
Entretanto estes cenários persecutórios já se
alteraram. O licenciamento ficou mais fácil – e as loucuras dos arquitectos
camarários que pretendiam pôr as pessoas a viverem naqueles prédios como se
vivia em 1795, a bem da pureza arquitectónica da zona, foram contidas. Eu, às
tantas, mudei-me.
Vieram os paquistaneses e os chineses. Depois
vieram os turistas e, também, mais gente nova que, como eu, aprecia casas
antigas restauradas e as vistas deslumbrantes de Lisboa. Há mais jardins (aqui
aplaude-se a CML) e os prédios têm vindo a ser recuperados – por privados. Os
problemas de estacionamento continuam por resolver (assim vão ficar, que a
prioridade do PS são ciclovias, que ninguém usa, espalhadas pela cidade) e,
sobretudo, os prédios propriedade da CML estão sem obras, velhos, estragados.
Conto isto para mostrar que aquela zona é dinâmica
– também graças aos imigrantes que lá se instalaram, que dão colorido,
movimento e interesse. A população tem tido alterações nos últimos anos e não
cabe à CML cristalizar o bairro com uma mesquita como se os muçulmanos que
vivem em Lisboa lá fossem sempre ficar.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Não à islamização de Portugal, e da Europa!
Contra
a construção de mais uma mesquita em Lisboa
Para: Ex. Sr. Presidente da Assembleia da República
Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República:
Os cidadãos abaixo assinados vêm por este meio solicitar
à Assembleia da República uma recomendação com vista à revogação imediata da
decisão da Câmara Municipal de Lisboa de construir uma nova mesquita na
referida cidade (zona do Martim Moniz), tendo em conta os seguintes
considerandos:
1.º Sendo Portugal constitucionalmente um estado laico,
não se afigura legal que estejam envolvidos dinheiros públicos num projecto que
prevê a construção de um complexo que integra um templo religioso. No entender
dos signatários, tal situação configura um favorecimento do Islamismo (que,
como se sabe, nem sequer é a religião da maioria dos portugueses) em relação às
outras religiões.
2.º O referido projecto vai colidir com os tipos de
construções existentes na zona, contribuindo para a descaracterização da
cidade, já muito ferida por erros anteriores.
3.º A construção do dito templo estará manifestamente a
contribuir para o alarme social, tendo em conta a situação de expansionismo do
extremismo islâmico que se vive no Médio Oriente e Norte de África e que ameaça
Portugal, a partir do momento em que se sabe que existem radicais muçulmanos
que defendem a integração da Península Ibérica num grande califado islâmico
(cf., p. ex., http://observador.pt/2014/08/12/um-califado-seculo-xxi/) e que já
está documentada a presença em Lisboa de muçulmanos que apoiam a entidade
terrorista que dá pelo nome de Estado Islâmico (cf., p. ex., programa
televisivo «Sexta às 9», de 26 de Setembro de 2014, http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=769655&tm=8&layout=122&visual=61).
O animal spirits e a vaca voadora
Pedro Sousa Carvallho, Público, 2 de Junho de 2016
Uma economia que dependa excessivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar.
Quando chegou, António Costa prometeu um tempo novo. «Um tempo novo que traga crescimento e prosperidade, um tempo novo para as famílias e um tempo novo também para as empresas.» Esta semana começaram a chegar as primeiras estatísticas do INE sobre o «tempo novo» e não é que esse «tempo novo» é muito parecido com o tempo antigo?
As estatísticas do INE mostram a economia a desacelerar nos primeiros três meses do ano, com o PIB a crescer 0,9%, o que constitui um abrandamento face aos 1,3% registados no quarto trimestre de 2015. O que explica esta travagem? Portugal está a perder investimento a um ritmo expressivo. Este indicador, que no quarto trimestre de 2015 tinha registado uma variação homóloga de 4,4%, apresentou agora uma queda de 0,6%. Nos últimos 30 meses, o investimento aumentou sempre.
Sem investimento não há economia que aguente. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, costuma comparar a economia a um avião com quatro motores: as exportações, o consumo público, o investimento e o consumo privado. As exportações, ainda segundo o INE, abrandaram no arranque do ano para 2,8%, quando há um ano as vendas para o exterior cresciam 7,1%. O consumo público há muito estagnou e o investimento está a desaparecer. O consumo privado, graças à reposição de rendimentos, é o único que vai aguentando o avião no ar. É fácil perceber que com tantos problemas nos motores este avião não há-de suster-se muito tempo no ar.
Claro que há muitos que não percebem esta analogia dos aviões. Por isso falemos de vacas voadoras. Uma vaca voadora tem duas asas para se suster no ar. De um lado a procura externa (exportações – importações) e do outro lado a procura interna (consumo + investimento). Como as exportações estão a crescer pouco (2,8%) e menos do que as importações (4,6%), a asa direita da vaca voadora começa a tremelicar. E como a quebra do investimento, com o tempo, vai provocando uma erosão no consumo, a asa do lado esquerdo já começa a tremer. E quem acredita que existem vacas voadoras também tem de acreditar que há vacas que caem do céu.
Uma economia que dependa excessivamente ou quase exclusivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar com o passar do tempo. O consumo privado só estimula a economia no curto prazo e, quando não é acompanhado de investimento (que gera emprego e rendimento), rapidamente descamba em mais endividamento, no aumento das importações (que vai desequilibrar mais a balança comercial) e numa reduzida taxa de poupança que retira capacidade às famílias para ajudar a financiar as empresas (o que vai aumentar o défice externo). A taxa de poupança em Portugal ronda hoje os 4%, contra uma média de 12,4% na zona euro.
Com estes números, a previsão do Governo para um crescimento da economia de 1,8% já começa a parecer desajustada. É o próprio Mário Centeno que esta semana veio dizer que a concretização desse valor «está dependente da retoma do investimento». Já se percebeu que será uma questão de semanas até termos um orçamento rectificativo.
O Banco de Portugal também está a antecipar uma travagem a fundo do investimento este ano, cuja previsão passou de 4,1% para 0,7%. A OCDE é ainda mais pessimista, já que em Novembro previa que o investimento em Portugal crescesse 3% em 2016 e esta semana veio dizer que antecipa uma quebra de 1,5%. Os números do Governo apontam para um crescimento de 4,9%.
E por que razão é que os investidores deixaram de querer investir em Portugal? Quer os neoclássicos, quer a teoria keynesiana fazem depender o nível de investimento do produto marginal do capital e da taxa de juro. John Maynard Keynes, no seu livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, acrescenta um outro factor que influencia e de que maneira as decisões de investir dos empresários – o chamado «animal spirits», ou seja, um impulso psicológico que está para além da análise quantitativa dos juros e da rentabilidade do capital que faz com que um empresário decida não investir num determinado momento. Essa decisão faz travar o emprego e a procura, conduzindo a um ciclo de recessão. Ao contrário dos neoclássicos que acreditavam na auto-regulação dos mercados, os keynesianos defendem a intervenção do Estado na economia, através do aumento dos gastos públicos, para inverter o ciclo.
Este «animal spirits» («estados de ânimo») não tem nada que ver com vacas voadoras. É Keynes a introduzir na equação do investimento uma componente emocional ou de impulso que pode determinar ciclos económicos e gerar incertezas na evolução da economia. Por isso é que o economista e ex-governador do Banco de Portugal Jacinto Nunes descrevia a economia de Keynes como «a economia da incerteza».
É a incerteza que afasta o investimento. Ainda esta semana a OCDE veio dizer que «o investimento caiu de forma brusca e continua a ser um entrave para o crescimento, devido ao elevado endividamento das empresas, aos balanços frágeis dos bancos, à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto na execução de reformas». Em relação aos dois primeiros pontos, os problemas não são de agora e são de difícil resolução – apesar de os bancos continuarem a dizer que têm dinheiro para emprestar aos bons projectos.
Já quanto à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto nas reformas depende de o Governo desfazer essa imagem que tanto assusta os empresários e prejudica a economia. A OCDE não deixa de criticar, por exemplo, a suspensão da descida do IRC que «poderia dar um empurrão ao investimento e ao crescimento», uma suspensão à revelia de um acordo alargado feito no passado recente entre PS, PSD e CDS. António Costa veio esta semana, perante uma plateia de empresários, pedir-lhes o seu envolvimento para a construção de «uma imagem e uma percepção de um país moderno, de um país de confiança. Só com confiança se conseguirá atrair mais investimento». Mas a confiança não se decreta. Constrói-se.
Pedro Barroso confessa
não conseguir ser «gay»
e penitencia-se...
O CERCO
Venho aqui pedir desculpa
de não ser evoluído,
apesar destas campanhas
na rádio, na televisão,
em toda a parte, insistindo
na urgência do assunto…
Eu não consigo gostar;
– não consigo mesmo, pronto.
Sei que pertence ser gay,
toda a gente deve ser.
Mas eu, lamentavelmente
não sou como toda a gente;
Como aconteceu... não sei,
peço desculpa por isso,
mas confesso: sou… diferente.
Sei que vos pode ofender
esta minha enfermidade,
pois um gajo que assim pensa
hoje em dia, não tem nexo;
deveria ser banido,
expulso da comunidade.
É uma vergonha indecente
Gostar de mulher, ter filhos
Casar, afagar, perder-se
Com pessoa doutro sexo!
Uma nojeira repelente;
Dar-lhe, até, beijos na boca
em público! E declarar
Esta sua preferência
Que eu nem sei classificar!
Tenho uma vergonha louca
E desejo penitência
por tal desconformidade,
retardamento, machismo,
doença, fatalidade!
Já tentei tudo: – inscrevi-me
em saunas, aulas de dança
cursos de perfumaria
origami, greco romana,
ioga – para ter ousadia
boxe – p’ra ganhar confiança...
Mas quando chega o momento
De optar… sou… decadente,
Recorrente e insistente.
Opróbrio raro e demente,
Ver uma mulher seduz-me,
Faz-me vibrar, deslumbro.
Vê-la falar, elegante;
Vê-la deslizar, sensual
Como vestal, deslumbrante
Seu peito assim, saltitante
Sua graça embriagante
olho com gosto, caramba,
lamento ser tão ...normal.
Mas eu confesso que sinto
– neste corpo tão cansado
Que da vida já viu tanto...
Ainda sinto um desejo
Que m’ envergonha bastante
Por ser já tão deslocado
tão antigo, assim tão fora
do mais moderno critério.
Valia mais estar calado
Mas amigos, já agora
Assumo completamente:
– Tenho esse problema sério.
Nunca integrarei partidos
Onde não sou desejado.
No planeta das tais cores
não tenho dia aprazado,
nem bandeira, nem veado,
nem «orgulho» especial!
Sou mesmo do «outro lado»
dito «heterossexual»
e já me chateia um bocado
Ter que dizer, embaçado,
que me atrai o feminino
e sou apenas «normal»!
– e, portanto, avariado.
Mas… mesmo assim, – saudosista,
imensamente atrasado,
terrivelmente cercado,
conservador nesse ponto,
foleiro, desajustado...
perdoai-me tal pecado
– Não me
sinto ...assim tão mal!segunda-feira, 30 de maio de 2016
Ponto da situação relativamente ao «processo»
Manuel Alegre vs Brandão Ferreira
João José Brandão Ferreira,
Oficial Piloto Aviador
No dia 17 de Maio fui surpreendido pela notícia de
um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, com a data de 12 do mesmo mês, em
que me condena a pagar uma multa de 1 800 euros ao Estado, e 25 000 euros de
indeminização ao cidadão Manuel Alegre (assistente no processo crime contra a
minha pessoa) por, na versão dos venerandos juízes Antero Luís e João Abrunhosa
de Carvalho, o ter difamado.
A origem da queixa de difamação recorda-se,
baseia-se na imputação de que no artigo intitulado «Manuel Alegre, combatente
por quem?», publicado no Jornal «O Diabo», em 3/5/2010, o ter apelidado de
traidor à Pátria.
Nesse mesmo dia (17/5), saiu um artigo no jornal «O
Público», eivado de alguns erros e incorrecções, que dava conta do sucedido ao
mesmo tempo que entrevistava o aparente ganhador da causa.
Acontece, porém, que este não foi o 1.º acórdão do
mesmo Tribunal da Relação, sobre o mesmo caso, e sem que qualquer alteração
tenha ocorrido relativamente ao processo já apreciado.
A coisa conta-se em poucas palavras e compreenderão
que haja «pormenores» que ainda não devam ser revelados.
Por douta sentença do Tribunal de 1.ª instância,
datada de 12 de Setembro de 2014, a meritíssima juíza Ana Paula Figueiredo,
absolveu-me do crime de difamação e do pagamento de qualquer indeminização
cível (por improcedente), em processo instaurado pelo supracitado vate e
acompanhado pelo Ministério Público.
Não conformado com tal decisão o queixoso,
naturalmente, recorreu.
O processo subiu ao Tribunal da Relação de Lisboa
(15/12/2014), tendo calhado por sorteio, aos juízes desembargadores Carlos
Benido (relator) e Francisco Caramelo (adjunto), da 9.ª secção, cujo chefe é o
venerando juiz Trigo Mesquita.
O processo seguiu os seus trâmites e, em pouco
tempo, conheceu decisão. Deste modo a 26/02/2015, os venerandos acima
referidos, confirmavam o acerto da sentença da 1ª instância e negaram o
provimento dos recursos interpostos pelo assistente e Ministério Público.
Desta decisão foi dado conhecimento ao arguido.
A questão estaria definitivamente encerrada, dado a
moldura penal do eventual crime em questão não permitir recurso para instância
superior, restando apenas levar o caso, eventualmente, ao Tribunal dos Direitos
do Homem, em Bruxelas.
No entretanto, porém, o assistente mudou de
advogado e para o lugar do Dr. Nuno Godinho de Matos foi o Dr. Afonso Duarte,
por acaso filho do assistente, que já tinha patrocinado o pai antes do processo
ter chegado à fase de julgamento.
Ora por aparente erro burocrático (a que, juro, sou
alheio) um parecer do procurador-geral da República, junto ao Tribunal da
Relação de Lisboa, em vez de ir parar ao novel advogado, foi parar ao anterior,
o que deu origem a que aquele reclamasse do facto.
Havendo esta «irregularidade» (que não nulidade), o
processo não transitou em julgado tendo voltado às mãos do desembargador
Benido, o qual por alturas de Maio/Junho, revogou o seu despacho; sendo que o
normal nestas circunstâncias é corrigir-se a irregularidade e prosseguir-se com
as formalidades.
Acontece que, entretanto, o juiz C. Benido entrou
de férias e quando regressou em Setembro, jubilou-se.
Em data não apurada o processo foi redistribuído
(não por sorteio) a dois novos desembargadores, os já referidos, venerandos
Antero Luís e João Abrunhosa de Carvalho, tendo sido afastado do processo o
desembargador Francisco Caramelo, que era o juiz natural do processo e mais
antigo do que os escolhidos!
Destas substituições não foi o arguido (eu) informado.
Mesmo assim – dizem-me profissionais do mesmo
ofício – o habitual é a nova equipa confirmar tudo o que vem do anterior, não
só por razões do foro deontológico, mas sobretudo por se tratar de juízes da
mesma secção e não ter havido nada que pudesse ter carreado algo de novo para o
processo, além do que já foi apontado atrás.
Ora não foi nada disto o que o novel desembargador
Dr. Antero Luís fez. O que fez foi, numa espécie de passe de mágica virar, 16
meses depois, o primitivo acórdão do avesso.
Com a curiosidade acrescida do advogado do
assistente Manuel Alegre continuar a não ter sido informado do tal parecer do
Procurador, que deu origem a esta «trapalhada» toda…
(E eu juro, que não tenho culpa nenhuma nisso!).
Face a este, algo «kafkiano» acontecimento, o Dr.
Alexandre Lafayette – que como militar honrou os seus deveres para com a
Pátria, e estando na reserva territorial há muitos anos, nunca deixou de
combater o bom combate – interpôs tempestivamente (apesar de ter um prazo de
apenas três dias para o fazer…) um «requerimento de nulidade» para o Tribunal
da Relação de Lisboa, representando-me.
Este requerimento tem efeitos suspensivos da pena.
E, como dizem os espanhóis, «assy estamos».[1]
![]() |
O Alegre que se queixava da censura no Estado
Novo,
apanhando-se em Secretário
de Estado da Comunicação Social,
armou-se ele próprio em
censor. |
segunda-feira, 23 de maio de 2016
E se fosse connosco?
Alberto Gonçalves, Diário
de Notícias, 22 de Maio de 2016
Parece que a SIC exibe regularmente um programa
chamado E Se Fosse Consigo?, que segundo os autores «testa a
capacidade de intervenção dos portugueses na defesa do outro, a partir de
situações ficcionadas». O problema é que nem todas as situações até agora
ficcionadas exigem intervenção alheia, de portugueses ou de quem calha. Que eu
visse — e não vi tudo dado passar imenso tempo à procura do «outro»
para defender —não há simulação de terramotos, guerras, terrorismo
islâmico, Rock in Rio ou calamidades afins. Há, ao que pude espreitar no site
da estação, o tipo de comportamentos patetas que inspiram as almas sensíveis a
fomentar a denúncia ao Estado, o Estado a produzir leis, as leis a legitimar um
observatório e duas comissões de protecção (ou metade de um ministério).
Trata-se, claro, da «agenda» própria da época, que
segrega bem segregadinhos os «oprimidos» (mulheres, gays, minorias étnicas,
pobres, obesos, etc.) e os «opressores» (machos brancos, de preferência
endinheirados) por categorias rígidas, num processo de simplificação que oscila
entre o atraso mental e o puro preconceito. E, algures no meio, os tiros nos
pés: parafraseando a Helena Matos, quantas apresentadoras da SIC são gordas,
aborígenes, lésbicas e habitam um T2 de renda técnica em Chelas?
Num dos «casos» transmitidos, sobre o (atenção:
aproximação de linguagem «especializada») bullying, três crianças aliviam a
mochila de uma quarta e, enquanto lhe chamam «princesa», atiram-lhe os cadernos
ao chão. Desde Treblinka que não se via semelhante drama humano. A SIC, porém,
entende que tamanha irrelevância é de uma gravidade extrema, ou pelo menos a
suficiente para que cada transeunte «consciente» (os restantes são uns
bandalhos) ajude a vítima, a qual, se não for completamente choninhas, acabará
ainda mais enxovalhada. Noutro «caso», uma senhora reclama, sem grande
convicção (os «actores» não foram exactamente recrutados na Julliard), das
intimidades de um casal homossexual na paragem de autocarro.
Mas o episódio de que se fala tenta exemplificar,
evidentemente sem o conseguir, a violência no namoro. Num parque, um casal
heterossexual (os homossexuais não têm desavenças) discute a propósito de um
telemóvel. O rapaz encarrega-se do berreiro (as raparigas nunca levantam a voz)
e das agressões, cujo alvo é um banco de jardim. A cena é tão ridícula e mal
interpretada (?) que, naturalmente, leva quase todos os transeuntes a passar ao
largo, com receio de interferirem nas filmagens de Morangos com Açúcar. Uma
senhora, porém, atira-se de cabeça para o vórtice da discussão: coincidência
das coincidências, é a dona Catarina do Bloco de Esquerda, que oferece ajuda à
rapariga (o banco só se salvaria pela nacionalização imediata) e descarrega um
sermão em cima do rapaz. O rapaz, com auricular e vontade de rir, olha para a dona
Catarina. A dona Catarina olha para a câmara e dá o aval à coisa. A SIC
exibe-a. O país descobre uma heroína.
Não pretendo insinuar que a SIC manipula o
entretenimento de modo a favorecer políticos da sua simpatia, e que a dona
Catarina participou na encenação. Pela seriedade com que engole as cabeludas
patranhas que lhe põem à frente, apenas verifico que a credulidade dela em
matérias políticas, económicas e sociais se estende aos pormenores do
quotidiano. Subiu na minha consideração, perdão, comiseração.
sábado, 14 de maio de 2016
Entre dois terrorismos
Pe. Vasco Pinto de Magalhães, Observador,
14 de Maio de 2016
Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra
nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês,
pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica.
A Europa está entalada entre dois terrorismos. Está
entre dois fogos, que parecem de sinal contrário mas que se excitam um ao
outro. Ciclicamente, na história do Ocidente, esses ataques marcam tempos de
crise sociocultural e política.
Que ataques são esses? Há um terrorismo que vem de
fora e actualmente aparece sob a bandeira do «Estado Islâmico». Surge como
força ideológica («religiosa») violenta pretendendo dominar (e eliminar) uma
europa que acusa de estar doente, vendida à democracia, sem valores, opressora
e imoral, tradicionalmente seguidora de uma cultura religiosa adulterada, a
cristã. O Ocidente é um mundo de infiéis – mas ricos! – que os puros, os
verdadeiros islâmicos, não podem suportar, em nome da sua crença num islão
original (radical e primitivo). Ameaças, ataques suicidas, destruição à bomba (até
de outros muçulmanos que assim não pensem), são meios justificados pela sua
«nobre» causa. A história ensina que um fanatismo cego, radical, fechado a
qualquer diálogo, orgulhoso e ressentido, tem os dias contados; mas, entretanto
vai seguindo, embriagado e iludido pelo sangue que vai deixando pelo caminho.
Por outro lado, paradoxalmente, enquanto os próprios islâmicos críticos e
lúcidos não forem capazes de se afirmar, este terrorismo vai vivendo, também, à
custa do próprio Ocidente que, nas suas cegueiras economicistas, não desiste de
lhes comprar o petróleo e, depois, lhes vender as armas.
Há um outro terrorismo que vem de dentro. É também
uma doença social e cultural apoiada em políticas ditas «libertadoras», que se
assumem como radicais e modernas mas resvalam orgulhosamente para um fanatismo
cego, pronto, por todos os meios, a erradicar aquilo que pensam ser o grande
mal do ocidente: a sua matriz cristã e a cultura e valores éticos
personalistas, que vêem como inimigos de um admirável futuro: o das liberdades
individuais sem restrição. O atraso e o inimigo a abater está consubstanciado
na Igreja católica. A bandeira deste terrorismo não é a laicidade; é o laicismo
anticlerical. E o seu paradigma de felicidade é uma justiça burguesa,
consumista, ao sabor de um liberalismo «emotivista», endeusando o indivíduo,
que já não é homem e mulher, mas um género à escolha. Aliás, apresenta-se como
sendo uma ideologia de esquerda, quando, dos ideais sociais da Esquerda, quase
nada tem.
Este terrorismo também mata e é guerrilheiro,
sobretudo quando conquista algum poder. Assim foi acontecendo nos vários países
europeus, submetidos ao terror nas épocas em que esses movimentos chegaram ao
poder. É uma realidade actual na Europa. Em Portugal também. E não precisamos de
ir mais longe para aprender e apreender o que representam esses fanatismos,
bastando trazer à memória Joaquim António de Aguiar (o Mata Frades), presidente
do Conselho de Ministros, com a sua Lei de extinção das ordens religiosas em
1834; e, numa segunda onda, com a revolução republicana de 1910, onde a
carbonária, apoiada na franco-maçonaria, levou ao poder Afonso Costa (o grande
paladino da luta anticlerical), que prometia erradicar o catolicismo de
Portugal em duas gerações.
Hoje a situação é bastante semelhante no seguidismo
do laicismo francês. Não afirma a nossa «esquerda burguesa» que é preciso
«descristianizar» a nossa cultura e erradicar das consciências «a culpa
católica»? Em nome da liberdade e do progresso, claro! A história ensina o
suficiente: em nome da «Liberté» os génios da Revolução Francesa chegaram até
ao genocídio de Vendeia, por exemplo, a pequena região católica que se lhes
opunha. «Gloriosamente» assassinaram algumas centenas de milhares de pessoas:
«Vendeia morreu sob os sabres da nossa liberdade!». Foi em 1793. Mas de novo,
em 1902, o governo de Émile Combes, apoiando os ideais radicais do Bloco das
Esquerdas (onde terão ido os nossos bloquistas buscar o nome?) e com o auxílio
da Loja maçónica do Grande Oriente de França, lança a grande ofensiva
anti-católica: fecha 3 000 escolas, rompe as relações com Roma, expulsa os
católicos dos cargos públicos, confisca os bens das ordens religiosas. Numa
palavra, promove o Terror fracturante de tudo o que lhe parecesse cultura do
passado e, «evidentemente» católica.
O laicismo francês, tal como o belga e o holandês,
está de novo em alta e aparece como novo paradigma da modernidade a imitar.
Começa por atacar nas questões éticas a fim de eliminar tudo o que possa ser
resquício da moral cristã que «se opõe ao futuro» e que, em nome da «liberdade»
e da «igualdade», o individualismo e o pragmatismo tecnocrático não suportam.
Primeiro é preciso erradicar os sinais sagrados, quer seja a cruz na sala de
aula, quer seja aquela que se traz ao peito. Depois, vem a fúria da legalização
das mais variadas fantasias sobre a vida humana desde a eutanásia às barrigas
de aluguer. E apoiando-se em ideologias sem base na realidade e ignorando (e
rejeitando) qualquer antropologia, pretende-se construir a sociedade moderna,
livre e sem limites. O caso mais típico é o da chamada «ideologia de género»
que haverá de impor, desde o início da escola, com actos e textos de verdadeiro
terrorismo. Essa luta assumida como libertária, contra a cultura e a religião,
serve-se de todos os meios, em especial das redes sociais e da publicidade,
usando, sobretudo contra a religião, a humilhação e o sarcasmo, sob a bandeira
do dogma Liberdade de expressão sem limites, tal como o fazia, exemplarmente, a
Revista Charlie Hebdo.
Nem sempre nos damos logo conta de que o
fracturante é facturante!
Por cá vai-se tentando seguir a cartilha. Faz
impressão ver que o movimento ideológico do Bloco de Esquerda, nem se deu ao
trabalho de branquear o nome. Assim é mais claro em que águas se move. Não é
fácil encontrar nas suas figuras e pensamento os ideais sociais da esquerda.
Mas a pressa em se lançar no terrorismo laicista é bem visível. Salta à vista a
fúria de legalizar (sem escuta dos outros, com publicidade de mau gosto e
fracturando culturalmente o povo) todas as liberdades, não como escolhas de
bens respeitadores da consciência ética personalizante desse povo, mas como
exaltação do orgulho individualista que se arroga o direito de fazer à vida o
que lhe parecer e o que for mais rápido e eficaz, mesmo passando por cima do
sereno debate sobre os valores humanos, considerados «pobres dogmas da
consciência antiquada e clerical». Assim se tenta impor (a votos de maiorias
instaladas e sem discussão ponderada e generalizada) as barrigas de aluguer, a
eutanásia, a igualdade dos pares homossexuais ao casal homem-mulher, etc.
Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra
nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês,
pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica,
afirmando-se como luz (ingénua) portadora de um mundo novo. Apresenta-se com
algum fascínio nos vários países europeus cansados e tristemente desgastados
pela corrupção, como uma alternativa pós moderna. Mas… sem base nem pensamento
credível, arrebanha os desiludidos da vida. É o fogo-fátuo do «Podemos»
espanhol, por exemplo, que ostenta nos seus programas acabar com tudo o que
sejam manifestações religiosas. Em nome da «liberdade», da «autonomia» e da
«dignidade», termos que entendem de modo infantil, dogmático e subjectivo. E
assim oferecem o seu paraíso, o seu século das luzes: descartando tudo o que é
velho, doente, deficiente, não rentável, tudo o que exige gastos «inúteis»,
tudo o que, além disso, pode vir a pedir-nos responsabilidades.
Não deveria esta pequena burguesia olhar para a
história, desenvolver algum pensamento crítico e tornar-se realmente «de
esquerda»? «De esquerda» no sentido de: ocupada com o bem comum, com a justiça
social e fraterna, integradora dos que estão nas margens da sociedade de
consumo, promotora de uma educação realista, mais atenta aos frutos de
humanização que aos resultados de cursos feitos à pressa, capaz de dar tempo a
uma reflexão antropológica… Capaz de abrir os olhos para a realidade e para a história
das culturas que mostram bem como só o amor (respeito pela verdade) é fonte de
futuro, enquanto as ideologias (como a de género) são suicidas!
O caso do cão maltratado
e a exaltação do sadomasoquismo
Pedro Afonso, médico psiquiatra, Observador, 11 de Maio de 2016
É uma incoerência lutar contra os maus tratos a animais, ficando ao mesmo tempo indiferente face a uma cultura que promove a crueldade obscena entre seres humanos, sob inspiração das «sombras de Grey»
O caso do jovem que filmou um vídeo a maltratar um cachorro incendiou as redes sociais, motivou declarações inflamadas de diversas individualidades públicas e quase deu origem a um linchamento popular. Não está em causa repudiar os maus tratos sobre os animais, mas é necessário referir que actualmente a sociedade tem algumas contradições relativamente ao tema da violência que importa debater.
Um dos filmes mais vistos em Portugal no ano passado foi «As cinquenta sombras de Grey», adaptado do romance da autora britânica E. L. James, que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Na sinopse da obra pode ler-se: «Anastasia vê-se envolvida nos prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objecto de desejo do sádico Grey. No entanto, apesar de se deixar levar pelas sensações, ela continua a sua busca do amor verdadeiro…»
A sociedade, que se ergue de forma enérgica contra a violência sobre os animais, é a mesma que assiste, numa aparente indolência acéfala, a um filme que promove a violência perversa de um homem sobre uma mulher. Esta exaltação do sadomasoquismo — que é considerado um desvio do comportamento sexual —, foi inclusivamente incorporada numa estratégia de marketing para divulgação do filme, como uma forma de celebração do dia dos namorados. Um dos cartazes promotores do filme referia: «Perca o controlo». Dito de outro modo, «estimule a sua agressividade, bata-lhe com força, pois esse é um comportamento socialmente aceitável e recomendável». Apesar dos chicotes terem esgotado em várias sex shops britânicas após a estreia do filme, praticamente não se ouviu uma voz de repúdio ou de indignação. A coisa é suspeita. Mas, tal como referiu Ortega y Gasset, as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser nas coisas um pouco velhacas ou um pouco malucas.
Estranhamente, também não se tem procurado relacionar esta autêntica promoção social do sadomasoquismo e o aumento do número de casos de violência no namoro. Por exemplo, as queixas na PSP relacionadas com situações de violência no namoro têm vindo a aumentar. Em 2015 registaram-se 1 680 participações de violência entre casais de namorados, mais 130 face ao ano anterior.
Mas o tema é sério, e foi justamente abordado, através de um artigo publicado em 2013, na revista Journal Womens Health, por um conjunto de investigadores (Bonomi et al.) da Universidade de Ohio. Nesse artigo, intitulado «Double crap!» abuse and harmed identity in Fifty Shades of Grey, os autores referem que a obra revelou a existência de padrões de violência íntima disseminada para com o parceiro seja masculino ou feminino, considerando como um dos maiores problemas dos nossos tempos. Além disso, salientam a existência de um aumento de conteúdos literários com padrões de violência perigosa, que está a ser perpetuada na cultura popular.
Os jovens e os adultos têm de ser alertados para o risco de estarem a ser sub-repticiamente manipulados. Obviamente que não se trata de censurar a criação literária sobre este tema, mas é necessário ter sentido crítico sobre o mesmo. Não se devem promover comportamentos egocêntricos, desviantes e perigosos (todos os anos morrem indivíduos através da prática do sadomasoquismo, principalmente por sufocação) sob o pretexto de um hedonismo ilusório. A violência ofende a dignidade da pessoa humana, pelo que não será através da sua promoção, com publicações de conteúdo erótico, que esta situação se altera.
O sadismo implica a obtenção de satisfação perante um acto real (não simulado) do qual resulta sofrimento físico, psicológico, incluindo humilhação para a vítima. Está associado à perturbação anti-social da personalidade, também conhecida como psicopatia. Nesta perturbação da personalidade existe uma incapacidade para a conformação com as normas sociais, no que diz respeito a comportamentos legais, e habitualmente um longo historial de violação dos direitos dos outros. Podem começar por se expressar antes dos 15 anos, através de atitudes de violência para com as outras crianças e adolescentes — designadamente no namoro — ou para com os animais.
Embora os factores etiológicos sobre a personalidade anti-social sejam complexos, é fundamental que haja censura social sobre quaisquer comportamentos que envolvam violência (inclusive sexual) para se poder prevenir os abusos. As vítimas de violência não são apenas os animais, mas também as pessoas, e principalmente as mulheres. A sociedade não se pode transformar numa incubadora de mentes perversas. É, obviamente, uma incoerência lutar contra os maus tratos aos animais, ficando ao mesmo tempo indiferente perante uma cultura que promove a crueldade obscena entre seres humanos, aceitando que um indivíduo possa aproveitar-se de outro, tratando-o como mero objecto de prazer sexual.
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