segunda-feira, 6 de junho de 2016


Não à islamização de Portugal, e da Europa!




Contra a construção de mais uma mesquita em Lisboa 
Para: Ex. Sr. Presidente da Assembleia da República


Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República:

Os cidadãos abaixo assinados vêm por este meio solicitar à Assembleia da República uma recomendação com vista à revogação imediata da decisão da Câmara Municipal de Lisboa de construir uma nova mesquita na referida cidade (zona do Martim Moniz), tendo em conta os seguintes considerandos:

1.º Sendo Portugal constitucionalmente um estado laico, não se afigura legal que estejam envolvidos dinheiros públicos num projecto que prevê a construção de um complexo que integra um templo religioso. No entender dos signatários, tal situação configura um favorecimento do Islamismo (que, como se sabe, nem sequer é a religião da maioria dos portugueses) em relação às outras religiões.

2.º O referido projecto vai colidir com os tipos de construções existentes na zona, contribuindo para a descaracterização da cidade, já muito ferida por erros anteriores.

3.º A construção do dito templo estará manifestamente a contribuir para o alarme social, tendo em conta a situação de expansionismo do extremismo islâmico que se vive no Médio Oriente e Norte de África e que ameaça Portugal, a partir do momento em que se sabe que existem radicais muçulmanos que defendem a integração da Península Ibérica num grande califado islâmico (cf., p. ex., http://observador.pt/2014/08/12/um-califado-seculo-xxi/) e que já está documentada a presença em Lisboa de muçulmanos que apoiam a entidade terrorista que dá pelo nome de Estado Islâmico (cf., p. ex., programa televisivo «Sexta às 9», de 26 de Setembro de 2014, http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=769655&tm=8&layout=122&visual=61).










O animal spirits e a vaca voadora


Pedro Sousa Carvallho, Público, 2 de Junho de 2016

Uma economia que dependa excessivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar.

Quando chegou, António Costa prometeu um tempo novo. «Um tempo novo que traga crescimento e prosperidade, um tempo novo para as famílias e um tempo novo também para as empresas.» Esta semana começaram a chegar as primeiras estatísticas do INE sobre o «tempo novo» e não é que esse «tempo novo» é muito parecido com o tempo antigo?

As estatísticas do INE mostram a economia a desacelerar nos primeiros três meses do ano, com o PIB a crescer 0,9%, o que constitui um abrandamento face aos 1,3% registados no quarto trimestre de 2015. O que explica esta travagem? Portugal está a perder investimento a um ritmo expressivo. Este indicador, que no quarto trimestre de 2015 tinha registado uma variação homóloga de 4,4%, apresentou agora uma queda de 0,6%. Nos últimos 30 meses, o investimento aumentou sempre.

Sem investimento não há economia que aguente. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, costuma comparar a economia a um avião com quatro motores: as exportações, o consumo público, o investimento e o consumo privado. As exportações, ainda segundo o INE, abrandaram no arranque do ano para 2,8%, quando há um ano as vendas para o exterior cresciam 7,1%. O consumo público há muito estagnou e o investimento está a desaparecer. O consumo privado, graças à reposição de rendimentos, é o único que vai aguentando o avião no ar. É fácil perceber que com tantos problemas nos motores este avião não há-de suster-se muito tempo no ar.

Claro que há muitos que não percebem esta analogia dos aviões. Por isso falemos de vacas voadoras. Uma vaca voadora tem duas asas para se suster no ar. De um lado a procura externa (exportações – importações) e do outro lado a procura interna (consumo + investimento). Como as exportações estão a crescer pouco (2,8%) e menos do que as importações (4,6%), a asa direita da vaca voadora começa a tremelicar. E como a quebra do investimento, com o tempo, vai provocando uma erosão no consumo, a asa do lado esquerdo já começa a tremer. E quem acredita que existem vacas voadoras também tem de acreditar que há vacas que caem do céu.

Uma economia que dependa excessivamente ou quase exclusivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar com o passar do tempo. O consumo privado só estimula a economia no curto prazo e, quando não é acompanhado de investimento (que gera emprego e rendimento), rapidamente descamba em mais endividamento, no aumento das importações (que vai desequilibrar mais a balança comercial) e numa reduzida taxa de poupança que retira capacidade às famílias para ajudar a financiar as empresas (o que vai aumentar o défice externo). A taxa de poupança em Portugal ronda hoje os 4%, contra uma média de 12,4% na zona euro.

Com estes números, a previsão do Governo para um crescimento da economia de 1,8% já começa a parecer desajustada. É o próprio Mário Centeno que esta semana veio dizer que a concretização desse valor «está dependente da retoma do investimento». Já se percebeu que será uma questão de semanas até termos um orçamento rectificativo.

O Banco de Portugal também está a antecipar uma travagem a fundo do investimento este ano, cuja previsão passou de 4,1% para 0,7%. A OCDE é ainda mais pessimista, já que em Novembro previa que o investimento em Portugal crescesse 3% em 2016 e esta semana veio dizer que antecipa uma quebra de 1,5%. Os números do Governo apontam para um crescimento de 4,9%.

E por que razão é que os investidores deixaram de querer investir em Portugal? Quer os neoclássicos, quer a teoria keynesiana fazem depender o nível de investimento do produto marginal do capital e da taxa de juro. John Maynard Keynes, no seu livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, acrescenta um outro factor que influencia e de que maneira as decisões de investir dos empresários – o chamado «animal spirits», ou seja, um impulso psicológico que está para além da análise quantitativa dos juros e da rentabilidade do capital que faz com que um empresário decida não investir num determinado momento. Essa decisão faz travar o emprego e a procura, conduzindo a um ciclo de recessão. Ao contrário dos neoclássicos que acreditavam na auto-regulação dos mercados, os keynesianos defendem a intervenção do Estado na economia, através do aumento dos gastos públicos, para inverter o ciclo.

Este «animal spirits» («estados de ânimo») não tem nada que ver com vacas voadoras. É Keynes a introduzir na equação do investimento uma componente emocional ou de impulso que pode determinar ciclos económicos e gerar incertezas na evolução da economia. Por isso é que o economista e ex-governador do Banco de Portugal Jacinto Nunes descrevia a economia de Keynes como «a economia da incerteza».

É a incerteza que afasta o investimento. Ainda esta semana a OCDE veio dizer que «o investimento caiu de forma brusca e continua a ser um entrave para o crescimento, devido ao elevado endividamento das empresas, aos balanços frágeis dos bancos, à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto na execução de reformas». Em relação aos dois primeiros pontos, os problemas não são de agora e são de difícil resolução – apesar de os bancos continuarem a dizer que têm dinheiro para emprestar aos bons projectos.

Já quanto à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto nas reformas depende de o Governo desfazer essa imagem que tanto assusta os empresários e prejudica a economia. A OCDE não deixa de criticar, por exemplo, a suspensão da descida do IRC que «poderia dar um empurrão ao investimento e ao crescimento», uma suspensão à revelia de um acordo alargado feito no passado recente entre PS, PSD e CDS. António Costa veio esta semana, perante uma plateia de empresários, pedir-lhes o seu envolvimento para a construção de «uma imagem e uma percepção de um país moderno, de um país de confiança. Só com confiança se conseguirá atrair mais investimento». Mas a confiança não se decreta. Constrói-se.






Pedro Barroso confessa

não conseguir ser «gay»

e penitencia-se...


O CERCO 
    Venho aqui pedir desculpa
    de não ser evoluído,
    apesar destas campanhas
    na rádio, na televisão,
    em toda a parte, insistindo
    na urgência do assunto…
    Eu não consigo gostar;
    – não consigo mesmo, pronto.
    Sei que pertence ser gay,
    toda a gente deve ser.
    Mas eu, lamentavelmente
    não sou como toda a gente;
    Como aconteceu... não sei,
    peço desculpa por isso,
    mas confesso: sou… diferente.
    Sei que vos pode ofender
    esta minha enfermidade,
    pois um gajo que assim pensa
    hoje em dia, não tem nexo;
    deveria ser banido,
    expulso da comunidade.
    É uma vergonha indecente
    Gostar de mulher, ter filhos
    Casar, afagar, perder-se
    Com pessoa doutro sexo!
    Uma nojeira repelente;
    Dar-lhe, até, beijos na boca
    em público! E declarar
    Esta sua preferência
    Que eu nem sei classificar!
    Tenho uma vergonha louca
    E desejo penitência
    por tal desconformidade,
    retardamento, machismo,
    doença, fatalidade!
    Já tentei tudo: – inscrevi-me
    em saunas, aulas de dança
    cursos de perfumaria
    origami, greco romana,
    ioga – para ter ousadia
    boxe – p’ra ganhar confiança...
    Mas quando chega o momento
    De optar… sou… decadente,
    Recorrente e insistente.
    Opróbrio raro e demente,
    Ver uma mulher seduz-me,
    Faz-me vibrar, deslumbro.
    Vê-la falar, elegante;
    Vê-la deslizar, sensual
    Como vestal, deslumbrante
    Seu peito assim, saltitante
    Sua graça embriagante
    olho com gosto, caramba,
    lamento ser tão ...normal.
    Mas eu confesso que sinto
    – neste corpo tão cansado
    Que da vida já viu tanto...
    Ainda sinto um desejo
    Que m’ envergonha bastante
    Por ser já tão deslocado
    tão antigo, assim tão fora
    do mais moderno critério.
    Valia mais estar calado
    Mas amigos, já agora
    Assumo completamente:
    – Tenho esse problema sério.
    Nunca integrarei partidos
    Onde não sou desejado.
    No planeta das tais cores
    não tenho dia aprazado,
    nem bandeira, nem veado,
    nem «orgulho» especial!
    Sou mesmo do «outro lado»
    dito «heterossexual»
    e já me chateia um bocado
    Ter que dizer, embaçado,
    que me atrai o feminino
    e sou apenas «normal»!
    – e, portanto, avariado.
    Mas… mesmo assim, – saudosista,
    imensamente atrasado,
    terrivelmente cercado,
    conservador nesse ponto,
    foleiro, desajustado...
    perdoai-me tal pecado
    – Não me sinto ...assim tão mal!






segunda-feira, 30 de maio de 2016


Ponto da situação relativamente ao «processo»

Manuel Alegre vs Brandão Ferreira


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

No dia 17 de Maio fui surpreendido pela notícia de um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, com a data de 12 do mesmo mês, em que me condena a pagar uma multa de 1 800 euros ao Estado, e 25 000 euros de indeminização ao cidadão Manuel Alegre (assistente no processo crime contra a minha pessoa) por, na versão dos venerandos juízes Antero Luís e João Abrunhosa de Carvalho, o ter difamado.

A origem da queixa de difamação recorda-se, baseia-se na imputação de que no artigo intitulado «Manuel Alegre, combatente por quem?», publicado no Jornal «O Diabo», em 3/5/2010, o ter apelidado de traidor à Pátria.

Nesse mesmo dia (17/5), saiu um artigo no jornal «O Público», eivado de alguns erros e incorrecções, que dava conta do sucedido ao mesmo tempo que entrevistava o aparente ganhador da causa.

Acontece, porém, que este não foi o 1.º acórdão do mesmo Tribunal da Relação, sobre o mesmo caso, e sem que qualquer alteração tenha ocorrido relativamente ao processo já apreciado.

A coisa conta-se em poucas palavras e compreenderão que haja «pormenores» que ainda não devam ser revelados.

Por douta sentença do Tribunal de 1.ª instância, datada de 12 de Setembro de 2014, a meritíssima juíza Ana Paula Figueiredo, absolveu-me do crime de difamação e do pagamento de qualquer indeminização cível (por improcedente), em processo instaurado pelo supracitado vate e acompanhado pelo Ministério Público.

Não conformado com tal decisão o queixoso, naturalmente, recorreu.

O processo subiu ao Tribunal da Relação de Lisboa (15/12/2014), tendo calhado por sorteio, aos juízes desembargadores Carlos Benido (relator) e Francisco Caramelo (adjunto), da 9.ª secção, cujo chefe é o venerando juiz Trigo Mesquita.

O processo seguiu os seus trâmites e, em pouco tempo, conheceu decisão. Deste modo a 26/02/2015, os venerandos acima referidos, confirmavam o acerto da sentença da 1ª instância e negaram o provimento dos recursos interpostos pelo assistente e Ministério Público.

Desta decisão foi dado conhecimento ao arguido.

A questão estaria definitivamente encerrada, dado a moldura penal do eventual crime em questão não permitir recurso para instância superior, restando apenas levar o caso, eventualmente, ao Tribunal dos Direitos do Homem, em Bruxelas.

No entretanto, porém, o assistente mudou de advogado e para o lugar do Dr. Nuno Godinho de Matos foi o Dr. Afonso Duarte, por acaso filho do assistente, que já tinha patrocinado o pai antes do processo ter chegado à fase de julgamento.

Ora por aparente erro burocrático (a que, juro, sou alheio) um parecer do procurador-geral da República, junto ao Tribunal da Relação de Lisboa, em vez de ir parar ao novel advogado, foi parar ao anterior, o que deu origem a que aquele reclamasse do facto.

Havendo esta «irregularidade» (que não nulidade), o processo não transitou em julgado tendo voltado às mãos do desembargador Benido, o qual por alturas de Maio/Junho, revogou o seu despacho; sendo que o normal nestas circunstâncias é corrigir-se a irregularidade e prosseguir-se com as formalidades.

Acontece que, entretanto, o juiz C. Benido entrou de férias e quando regressou em Setembro, jubilou-se.

Em data não apurada o processo foi redistribuído (não por sorteio) a dois novos desembargadores, os já referidos, venerandos Antero Luís e João Abrunhosa de Carvalho, tendo sido afastado do processo o desembargador Francisco Caramelo, que era o juiz natural do processo e mais antigo do que os escolhidos!

Destas substituições não foi o arguido (eu) informado.

Mesmo assim – dizem-me profissionais do mesmo ofício – o habitual é a nova equipa confirmar tudo o que vem do anterior, não só por razões do foro deontológico, mas sobretudo por se tratar de juízes da mesma secção e não ter havido nada que pudesse ter carreado algo de novo para o processo, além do que já foi apontado atrás.

Ora não foi nada disto o que o novel desembargador Dr. Antero Luís fez. O que fez foi, numa espécie de passe de mágica virar, 16 meses depois, o primitivo acórdão do avesso.

Com a curiosidade acrescida do advogado do assistente Manuel Alegre continuar a não ter sido informado do tal parecer do Procurador, que deu origem a esta «trapalhada» toda…

(E eu juro, que não tenho culpa nenhuma nisso!).

Face a este, algo «kafkiano» acontecimento, o Dr. Alexandre Lafayette – que como militar honrou os seus deveres para com a Pátria, e estando na reserva territorial há muitos anos, nunca deixou de combater o bom combate – interpôs tempestivamente (apesar de ter um prazo de apenas três dias para o fazer…) um «requerimento de nulidade» para o Tribunal da Relação de Lisboa, representando-me.

Este requerimento tem efeitos suspensivos da pena.

E, como dizem os espanhóis, «assy estamos».[1]


[1] Para quem quiser perceber porque é que as coisas se passaram da maneira como se passaram, aconselho a pesquisa nos «curriculum vitae» de alguns dos intervenientes no processo.

O Alegre que se queixava da censura no Estado Novo, 
apanhando-se em Secretário de Estado da Comunicação Social, 
armou-se ele próprio em censor.





segunda-feira, 23 de maio de 2016


E se fosse connosco?


Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 22 de Maio de 2016

Parece que a SIC exibe regularmente um programa chamado E Se Fosse Consigo?, que segundo os autores «testa a capacidade de intervenção dos portugueses na defesa do outro, a partir de situações ficcionadas». O problema é que nem todas as situações até agora ficcionadas exigem intervenção alheia, de portugueses ou de quem calha. Que eu visse — e não vi tudo dado passar imenso tempo à procura do «outro» para defender —não há simulação de terramotos, guerras, terrorismo islâmico, Rock in Rio ou calamidades afins. Há, ao que pude espreitar no site da estação, o tipo de comportamentos patetas que inspiram as almas sensíveis a fomentar a denúncia ao Estado, o Estado a produzir leis, as leis a legitimar um observatório e duas comissões de protecção (ou metade de um ministério).


Trata-se, claro, da «agenda» própria da época, que segrega bem segregadinhos os «oprimidos» (mulheres, gays, minorias étnicas, pobres, obesos, etc.) e os «opressores» (machos brancos, de preferência endinheirados) por categorias rígidas, num processo de simplificação que oscila entre o atraso mental e o puro preconceito. E, algures no meio, os tiros nos pés: parafraseando a Helena Matos, quantas apresentadoras da SIC são gordas, aborígenes, lésbicas e habitam um T2 de renda técnica em Chelas?

Num dos «casos» transmitidos, sobre o (atenção: aproximação de linguagem «especializada») bullying, três crianças aliviam a mochila de uma quarta e, enquanto lhe chamam «princesa», atiram-lhe os cadernos ao chão. Desde Treblinka que não se via semelhante drama humano. A SIC, porém, entende que tamanha irrelevância é de uma gravidade extrema, ou pelo menos a suficiente para que cada transeunte «consciente» (os restantes são uns bandalhos) ajude a vítima, a qual, se não for completamente choninhas, acabará ainda mais enxovalhada. Noutro «caso», uma senhora reclama, sem grande convicção (os «actores» não foram exactamente recrutados na Julliard), das intimidades de um casal homossexual na paragem de autocarro.

Mas o episódio de que se fala tenta exemplificar, evidentemente sem o conseguir, a violência no namoro. Num parque, um casal heterossexual (os homossexuais não têm desavenças) discute a propósito de um telemóvel. O rapaz encarrega-se do berreiro (as raparigas nunca levantam a voz) e das agressões, cujo alvo é um banco de jardim. A cena é tão ridícula e mal interpretada (?) que, naturalmente, leva quase todos os transeuntes a passar ao largo, com receio de interferirem nas filmagens de Morangos com Açúcar. Uma senhora, porém, atira-se de cabeça para o vórtice da discussão: coincidência das coincidências, é a dona Catarina do Bloco de Esquerda, que oferece ajuda à rapariga (o banco só se salvaria pela nacionalização imediata) e descarrega um sermão em cima do rapaz. O rapaz, com auricular e vontade de rir, olha para a dona Catarina. A dona Catarina olha para a câmara e dá o aval à coisa. A SIC exibe-a. O país descobre uma heroína.

Não pretendo insinuar que a SIC manipula o entretenimento de modo a favorecer políticos da sua simpatia, e que a dona Catarina participou na encenação. Pela seriedade com que engole as cabeludas patranhas que lhe põem à frente, apenas verifico que a credulidade dela em matérias políticas, económicas e sociais se estende aos pormenores do quotidiano. Subiu na minha consideração, perdão, comiseração.

De resto, na melhor das hipóteses, E Se Fosse Consigo? é uma alternativa particularmente infantil aos velhos «apanhados» de Joaquim Letria, e uma promoção da bisbilhotice, virtude que dispensaria incentivos. Na pior, procura consagrar o rol de «causas» admissíveis, e assim depreciar problemas autênticos ou complexos ou inconvenientes. Duvido, por exemplo, que venha a haver um episódio dedicado às vítimas do socialismo, os infelizes que, espezinhados pela prepotência dos poderes públicos, começam a ver o caso (sem aspas) malparado. São muitos, esperam alguém que os ajude e sabem que não será a dona Catarina. E se fosse consigo? É connosco.






sábado, 14 de maio de 2016


Entre dois terrorismos


Pe. Vasco Pinto de Magalhães, Observador, 14 de Maio de 2016

Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês, pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica.

A Europa está entalada entre dois terrorismos. Está entre dois fogos, que parecem de sinal contrário mas que se excitam um ao outro. Ciclicamente, na história do Ocidente, esses ataques marcam tempos de crise sociocultural e política.

Que ataques são esses? Há um terrorismo que vem de fora e actualmente aparece sob a bandeira do «Estado Islâmico». Surge como força ideológica («religiosa») violenta pretendendo dominar (e eliminar) uma europa que acusa de estar doente, vendida à democracia, sem valores, opressora e imoral, tradicionalmente seguidora de uma cultura religiosa adulterada, a cristã. O Ocidente é um mundo de infiéis – mas ricos! – que os puros, os verdadeiros islâmicos, não podem suportar, em nome da sua crença num islão original (radical e primitivo). Ameaças, ataques suicidas, destruição à bomba (até de outros muçulmanos que assim não pensem), são meios justificados pela sua «nobre» causa. A história ensina que um fanatismo cego, radical, fechado a qualquer diálogo, orgulhoso e ressentido, tem os dias contados; mas, entretanto vai seguindo, embriagado e iludido pelo sangue que vai deixando pelo caminho. Por outro lado, paradoxalmente, enquanto os próprios islâmicos críticos e lúcidos não forem capazes de se afirmar, este terrorismo vai vivendo, também, à custa do próprio Ocidente que, nas suas cegueiras economicistas, não desiste de lhes comprar o petróleo e, depois, lhes vender as armas.

Há um outro terrorismo que vem de dentro. É também uma doença social e cultural apoiada em políticas ditas «libertadoras», que se assumem como radicais e modernas mas resvalam orgulhosamente para um fanatismo cego, pronto, por todos os meios, a erradicar aquilo que pensam ser o grande mal do ocidente: a sua matriz cristã e a cultura e valores éticos personalistas, que vêem como inimigos de um admirável futuro: o das liberdades individuais sem restrição. O atraso e o inimigo a abater está consubstanciado na Igreja católica. A bandeira deste terrorismo não é a laicidade; é o laicismo anticlerical. E o seu paradigma de felicidade é uma justiça burguesa, consumista, ao sabor de um liberalismo «emotivista», endeusando o indivíduo, que já não é homem e mulher, mas um género à escolha. Aliás, apresenta-se como sendo uma ideologia de esquerda, quando, dos ideais sociais da Esquerda, quase nada tem.

Este terrorismo também mata e é guerrilheiro, sobretudo quando conquista algum poder. Assim foi acontecendo nos vários países europeus, submetidos ao terror nas épocas em que esses movimentos chegaram ao poder. É uma realidade actual na Europa. Em Portugal também. E não precisamos de ir mais longe para aprender e apreender o que representam esses fanatismos, bastando trazer à memória Joaquim António de Aguiar (o Mata Frades), presidente do Conselho de Ministros, com a sua Lei de extinção das ordens religiosas em 1834; e, numa segunda onda, com a revolução republicana de 1910, onde a carbonária, apoiada na franco-maçonaria, levou ao poder Afonso Costa (o grande paladino da luta anticlerical), que prometia erradicar o catolicismo de Portugal em duas gerações.

Hoje a situação é bastante semelhante no seguidismo do laicismo francês. Não afirma a nossa «esquerda burguesa» que é preciso «descristianizar» a nossa cultura e erradicar das consciências «a culpa católica»? Em nome da liberdade e do progresso, claro! A história ensina o suficiente: em nome da «Liberté» os génios da Revolução Francesa chegaram até ao genocídio de Vendeia, por exemplo, a pequena região católica que se lhes opunha. «Gloriosamente» assassinaram algumas centenas de milhares de pessoas: «Vendeia morreu sob os sabres da nossa liberdade!». Foi em 1793. Mas de novo, em 1902, o governo de Émile Combes, apoiando os ideais radicais do Bloco das Esquerdas (onde terão ido os nossos bloquistas buscar o nome?) e com o auxílio da Loja maçónica do Grande Oriente de França, lança a grande ofensiva anti-católica: fecha 3 000 escolas, rompe as relações com Roma, expulsa os católicos dos cargos públicos, confisca os bens das ordens religiosas. Numa palavra, promove o Terror fracturante de tudo o que lhe parecesse cultura do passado e, «evidentemente» católica.

O laicismo francês, tal como o belga e o holandês, está de novo em alta e aparece como novo paradigma da modernidade a imitar. Começa por atacar nas questões éticas a fim de eliminar tudo o que possa ser resquício da moral cristã que «se opõe ao futuro» e que, em nome da «liberdade» e da «igualdade», o individualismo e o pragmatismo tecnocrático não suportam. Primeiro é preciso erradicar os sinais sagrados, quer seja a cruz na sala de aula, quer seja aquela que se traz ao peito. Depois, vem a fúria da legalização das mais variadas fantasias sobre a vida humana desde a eutanásia às barrigas de aluguer. E apoiando-se em ideologias sem base na realidade e ignorando (e rejeitando) qualquer antropologia, pretende-se construir a sociedade moderna, livre e sem limites. O caso mais típico é o da chamada «ideologia de género» que haverá de impor, desde o início da escola, com actos e textos de verdadeiro terrorismo. Essa luta assumida como libertária, contra a cultura e a religião, serve-se de todos os meios, em especial das redes sociais e da publicidade, usando, sobretudo contra a religião, a humilhação e o sarcasmo, sob a bandeira do dogma Liberdade de expressão sem limites, tal como o fazia, exemplarmente, a Revista Charlie Hebdo.

Nem sempre nos damos logo conta de que o fracturante é facturante!

Por cá vai-se tentando seguir a cartilha. Faz impressão ver que o movimento ideológico do Bloco de Esquerda, nem se deu ao trabalho de branquear o nome. Assim é mais claro em que águas se move. Não é fácil encontrar nas suas figuras e pensamento os ideais sociais da esquerda. Mas a pressa em se lançar no terrorismo laicista é bem visível. Salta à vista a fúria de legalizar (sem escuta dos outros, com publicidade de mau gosto e fracturando culturalmente o povo) todas as liberdades, não como escolhas de bens respeitadores da consciência ética personalizante desse povo, mas como exaltação do orgulho individualista que se arroga o direito de fazer à vida o que lhe parecer e o que for mais rápido e eficaz, mesmo passando por cima do sereno debate sobre os valores humanos, considerados «pobres dogmas da consciência antiquada e clerical». Assim se tenta impor (a votos de maiorias instaladas e sem discussão ponderada e generalizada) as barrigas de aluguer, a eutanásia, a igualdade dos pares homossexuais ao casal homem-mulher, etc.

Esta esquerda doente, que não tem os pés na terra nem a atenção nos mais frágeis, ergue a bandeira de um modernismo burguês, pseudo-intelectual, mas de cultura rápida e sem história nem dialéctica, afirmando-se como luz (ingénua) portadora de um mundo novo. Apresenta-se com algum fascínio nos vários países europeus cansados e tristemente desgastados pela corrupção, como uma alternativa pós moderna. Mas… sem base nem pensamento credível, arrebanha os desiludidos da vida. É o fogo-fátuo do «Podemos» espanhol, por exemplo, que ostenta nos seus programas acabar com tudo o que sejam manifestações religiosas. Em nome da «liberdade», da «autonomia» e da «dignidade», termos que entendem de modo infantil, dogmático e subjectivo. E assim oferecem o seu paraíso, o seu século das luzes: descartando tudo o que é velho, doente, deficiente, não rentável, tudo o que exige gastos «inúteis», tudo o que, além disso, pode vir a pedir-nos responsabilidades.

Não deveria esta pequena burguesia olhar para a história, desenvolver algum pensamento crítico e tornar-se realmente «de esquerda»? «De esquerda» no sentido de: ocupada com o bem comum, com a justiça social e fraterna, integradora dos que estão nas margens da sociedade de consumo, promotora de uma educação realista, mais atenta aos frutos de humanização que aos resultados de cursos feitos à pressa, capaz de dar tempo a uma reflexão antropológica… Capaz de abrir os olhos para a realidade e para a história das culturas que mostram bem como só o amor (respeito pela verdade) é fonte de futuro, enquanto as ideologias (como a de género) são suicidas!

A mentira existencial em que estes radicalismos encalharam só se aguenta com a violência. E a violência, arma dos fracos e de quem não tem argumentos, instala-se à sombra do terrorismo. Estarão à espera que se lhes responda com uma violência igual que possa desculpar. Mas, como disse Gandhi: «com a lei do olho por olho ficamos todos cegos». E a história já mostrou, repetidamente, que o ataque à verdade não compensa, pois acaba por a fazer vir ao de cima; e mais: a Igreja saiu sempre renovada e fortalecida de todas as perseguições.






O caso do cão maltratado

e a exaltação do sadomasoquismo


Pedro Afonso, médico psiquiatra, Observador, 11 de Maio de 2016

É uma incoerência lutar contra os maus tratos a animais, ficando ao mesmo tempo indiferente face a uma cultura que promove a crueldade obscena entre seres humanos, sob inspiração das «sombras de Grey»

O caso do jovem que filmou um vídeo a maltratar um cachorro incendiou as redes sociais, motivou declarações inflamadas de diversas individualidades públicas e quase deu origem a um linchamento popular. Não está em causa repudiar os maus tratos sobre os animais, mas é necessário referir que actualmente a sociedade tem algumas contradições relativamente ao tema da violência que importa debater.

Um dos filmes mais vistos em Portugal no ano passado foi «As cinquenta sombras de Grey», adaptado do romance da autora britânica E. L. James, que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Na sinopse da obra pode ler-se: «Anastasia vê-se envolvida nos prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objecto de desejo do sádico Grey. No entanto, apesar de se deixar levar pelas sensações, ela continua a sua busca do amor verdadeiro…»

A sociedade, que se ergue de forma enérgica contra a violência sobre os animais, é a mesma que assiste, numa aparente indolência acéfala, a um filme que promove a violência perversa de um homem sobre uma mulher. Esta exaltação do sadomasoquismo ­— que é considerado um desvio do comportamento sexual —, foi inclusivamente incorporada numa estratégia de marketing para divulgação do filme, como uma forma de celebração do dia dos namorados. Um dos cartazes promotores do filme referia: «Perca o controlo». Dito de outro modo, «estimule a sua agressividade, bata-lhe com força, pois esse é um comportamento socialmente aceitável e recomendável». Apesar dos chicotes terem esgotado em várias sex shops britânicas após a estreia do filme, praticamente não se ouviu uma voz de repúdio ou de indignação. A coisa é suspeita. Mas, tal como referiu Ortega y Gasset, as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser nas coisas um pouco velhacas ou um pouco malucas.

Estranhamente, também não se tem procurado relacionar esta autêntica promoção social do sadomasoquismo e o aumento do número de casos de violência no namoro. Por exemplo, as queixas na PSP relacionadas com situações de violência no namoro têm vindo a aumentar. Em 2015 registaram-se 1 680 participações de violência entre casais de namorados, mais 130 face ao ano anterior.

Mas o tema é sério, e foi justamente abordado, através de um artigo publicado em 2013, na revista Journal Womens Health, por um conjunto de investigadores (Bonomi et al.) da Universidade de Ohio. Nesse artigo, intitulado «Double crap!» abuse and harmed identity in Fifty Shades of Grey, os autores referem que a obra revelou a existência de padrões de violência íntima disseminada para com o parceiro seja masculino ou feminino, considerando como um dos maiores problemas dos nossos tempos. Além disso, salientam a existência de um aumento de conteúdos literários com padrões de violência perigosa, que está a ser perpetuada na cultura popular.

Os jovens e os adultos têm de ser alertados para o risco de estarem a ser sub-repticiamente manipulados. Obviamente que não se trata de censurar a criação literária sobre este tema, mas é necessário ter sentido crítico sobre o mesmo. Não se devem promover comportamentos egocêntricos, desviantes e perigosos (todos os anos morrem indivíduos através da prática do sadomasoquismo, principalmente por sufocação) sob o pretexto de um hedonismo ilusório. A violência ofende a dignidade da pessoa humana, pelo que não será através da sua promoção, com publicações de conteúdo erótico, que esta situação se altera.

O sadismo implica a obtenção de satisfação perante um acto real (não simulado) do qual resulta sofrimento físico, psicológico, incluindo humilhação para a vítima. Está associado à perturbação anti-social da personalidade, também conhecida como psicopatia. Nesta perturbação da personalidade existe uma incapacidade para a conformação com as normas sociais, no que diz respeito a comportamentos legais, e habitualmente um longo historial de violação dos direitos dos outros. Podem começar por se expressar antes dos 15 anos, através de atitudes de violência para com as outras crianças e adolescentes — designadamente no namoro — ou para com os animais.

Embora os factores etiológicos sobre a personalidade anti-social sejam complexos, é fundamental que haja censura social sobre quaisquer comportamentos que envolvam violência (inclusive sexual) para se poder prevenir os abusos. As vítimas de violência não são apenas os animais, mas também as pessoas, e principalmente as mulheres. A sociedade não se pode transformar numa incubadora de mentes perversas. É, obviamente, uma incoerência lutar contra os maus tratos aos animais, ficando ao mesmo tempo indiferente perante uma cultura que promove a crueldade obscena entre seres humanos, aceitando que um indivíduo possa aproveitar-se de outro, tratando-o como mero objecto de prazer sexual.





sexta-feira, 6 de maio de 2016


A desfaçatez intelectual de Pacheco Pereira


Francisco Mendes da Silva, Jornal de Negócios, 4 de Maio de 2016

No caso de Pacheco, o que hoje orienta as suas opções políticas é um ressentimento pessoalíssimo contra a geração de Passos Coelho no PSD.

Numa recente deambulação pelas livrarias de Madrid, chamou-me a atenção «La Desfachatez Intelectual», uma invectiva do sociólogo Ignacio Sánchez-Cuenca contra a prepotência e leviandade com que muitos intelectuais, com prestígio noutras paragens (na literatura, na academia), comentam a actualidade política. O livro atira sobre gente que aprecio (Vargas Llosa, Javier Cercas), mas acerta no alvo: às vezes parece que o brilhantismo literário e o rigor escolástico são fonte de legitimidade para uma espécie de desanuviamento lúdico e relaxamento das regras da honestidade no ofício menor da análise política.

No passado sábado, Pacheco Pereira publicou um artigo que encaixa perfeitamente nesta tese («Para a nossa direita radical o Papa é do MRPP», Público, 30/04/2016). Segundo Pacheco, os partidos da direita portuguesa estão sob resgate de uma ideologia radical – o liberalismo antiestatista – e esse radicalismo é demonstrado pela forma como os apoiantes do PSD e do CDS se manifestam nas redes sociais, habitualmente entre a infâmia dos comentadores heterodoxos à direita (Pacheco incluído) e o insulto racista dirigido a António Costa.

O artigo é um monumento à desonestidade. Desde logo, não nomeia um único caso de «apoiante» que ilustre a teoria. Aliás, quem conhece as tais redes sociais percebe que Pacheco alude apenas a duas ou três pessoas que nem sequer integram qualquer nomenclatura – restrita ou lata – dos partidos do centro-direita. A ideia é deixar tudo sob uma névoa impressionista para poder ligar o estilo de uns poucos à estratégia institucional do PSD e do CDS. E isto enquanto expressamente se absolve a esquerda das mesmas práticas. Logo a esquerda, que tantas vezes faz política partindo da desonra moral do adversário (a direita nunca está simplesmente enganada – está sempre a soldo de interesses obscuros).

O pior da desonestidade do artigo está, porém, na forma como Pacheco deixa entender que vê a «ideologia» que enjeita. O radicalismo como arma de arremesso corrente e indiscriminado contra adversários gera um relativismo perigoso, uma falta de critério que nos deixa desarmados contra os verdadeiros radicalismos. Pacheco sabe que o liberalismo – a teoria das liberdades, da economia de mercado e da limitação do poder – está na origem da emancipação e progresso dos povos. Tem cultura para isso. Tem cultura e tem passado. Pacheco já foi um falcão neoliberal, um defensor da destruição criativa do capitalismo. Como as «redes» vieram lembrar, Pacheco já lutou contra «o socialismo em que vivemos impregnados, e que hoje se chama 'estado-providência', ou 'modelo social europeu', que nos condena à mediocridade». Pacheco já achou que precisávamos de «mais liberalismo»: sem mais «crise» (da de que falava Schumpeter) e sem mais «boa» insegurança, não somos capazes de mudar. O Estado faz tudo para nos poupar a essa insegurança, e, como toda a Europa, afundamo-nos, pouco a pouco, na manutenção, geracionalmente egoísta, de modelo social insustentável (Sábado, Outubro de 2005).

Como qualquer historiador percebe, por vezes são as pequenas narrativas, e não os grandes movimentos, que determinam a História. No caso de Pacheco, o que hoje orienta as suas opções políticas é um ressentimento pessoalíssimo contra a geração de Passos Coelho no PSD. Esse ressentimento cavou um abismo entre o que um dia pensou e o que actualmente diz pensar. Na profundidade desse abismo está a medida da desfaçatez intelectual de Pacheco Pereira.






O socratismo sem Sócrates?


Rui Ramos, Observador, 4 de Maio de 2016

O PCP e o BE aprovaram o seu primeiro PEC. Para Bruxelas, não chega. Virão aí outros PEC, numa escalada semelhante à de 2010-2011? Seria o socratismo sem Sócrates, mas com Jerónimo e Catarina.

A «geringonça» funciona, diz o primeiro-ministro. Talvez. Mas a que custo? Começámos a descobrir ontem: segundo a Comissão Europeia, o Estado português não vai, este ano, conseguir dar aos seus credores provas de que está a evoluir na direcção de finanças sustentáveis, isto é, de que não precisará de continuar a abusar do crédito para pagar salários, pensões e serviços. Há quem esteja convencido de que este caminho de previsões formidáveis, derrapagem na despesa e medidas adicionais só pode culminar num desastre, sob a forma apocalíptica de um novo resgate, como em 2011.

Talvez convenha admitir que não. O governo parece esperar que a União Europeia, carregando mais ou menos na «austeridade», nunca deixará cair Portugal, como ainda não deixou cair a Grécia. Tudo seria, portanto, uma questão de malabarismo. E há condições para esse malabarismo. Na última sexta-feira, na Assembleia da República, com cinco anos de atraso, o PCP e o BE aprovaram finalmente o PEC 4 – através do expediente de impedir que houvesse votação. Em Março de 2011, comunistas e bloquistas abraçaram-se com a direita para derrubar o PS; agora, escolheram o governo e os seus PEC. António Costa pode assim reatar com o tipo de governação que José Sócrates iniciou em 2010: uma escalada de Programas de Estabilidade (entre 2010 e 2011, foram quatro em pouco mais de um ano), enquanto ao mesmo tempo anuncia «qualificações» e «investimentos». Vai ser o socratismo sem Sócrates, mas com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.

Em 2011, com os mercados à solta, a maré dos juros subiu e houve que deitar mão à boia da Troika. Mas este ano, com os mercados a dormir o sono do BCE, o ambiente é mais propício. Agora, quando as obrigações a 10 anos sobem «vertiginosamente», andam nos 3%; em 2011, a média foi de 13%. Nestes números, está tudo o que é preciso saber sobre o funcionamento da geringonça: há a folga que faltou em 2011 para maquilhar a austeridade.

As facturas vão aparecendo, como a do imposto sobre os produtos petrolíferos. Mas por enquanto, chega a cuidadosa separação entre o que se diz em público em Portugal e o que se diz em segredo na Europa. Já foi a estratégia de Sócrates em 2010-2011. E quando se tornar óbvio que o crescimento económico nunca será mais do que uma previsão estival e for necessário largar as repartições de finanças às canelas do país? Que se faz então? Faz-se o que tem feito o Syriza: um confronto arrastado com a Europa, sem rupturas mas com muita atitude, de modo a trespassar as responsabilidades para Bruxelas e a empurrar todos os críticos para a esquina vergonhosa da traição à pátria. A certa altura, a população cansar-se-á. Mas cansar-se-á com todos, e não apenas com o governo, o que dará à geringonça margem para persistir, como o Syriza na Grécia.

O que é pior? Em 2011, o plano da Troika tinha muitas asperezas, mas prometia a redenção, uma vez cumpridas certas metas (que andaram sempre a ser revistas). Era suposto ser um tormento com prazo definido. O plano do Syriza tem mais a ver com o mito de Sísifo: é a crise como nova normalidade, e a luta como modo de vida. Tal como a Grécia, teremos Portugal oficialmente declarado um caso perdido, um país onde um europeu do norte poderá passar férias de praia ou um fundo de risco americano realizar algum lucro desesperado, mas que de resto servirá apenas para o PCP e o BE nunca mais acabarem de ter razão sobre a perversidade do «imperialismo europeu». Já o disse: os portugueses estão destinados a descobrir que há destinos piores do que o do resgate de 2011.